Saturday, March 17, 2012

Friday, March 16, 2012

Perdão?


 Guido Cagnacci

O que é que tu podes fazer para eu te perdoar, perguntou ele. Olhou para ela e ficou à espera.

Ela olhou para ele, baixou a cabeça, não disse nada.

Ele ficou pensativo, percorreu com o olhar as árvores da praceta. Pouco depois continuou suavemente: pelo menos podias fazer qualquer coisa, dizer não sei o quê, que sabes a maldade que fizeste, o sofrimento que causaste, ao menos podias fazer isso.

Ela não levantou a cabeça. A tarde ia avançando e ela continuava silenciosamente sentada na frente dele na esplanada do café. Alguns anos tinham passado desde que ele a conhecera. Ela era então muito jovem, bela como um jardim cheio de fruta esplêndida, colorida. E inexperiente. As ideias que ela tinha sobre o amor por vezes eram de um romantismo infantil. Agora estava ali sentada, indiferente, ausente, andava com a colher à roda na chávena vazia do café e nem sequer olhava para ele. Pensava em quê? Sentia o quê? Envelhecera. Ficara amarga.

Ele nunca se contenta com o que eu digo, quer sempre mais, pensava ela. Sempre foi assim. Nunca lhe bastei. Nunca soube apreciar-me. Nunca se interessou o suficiente por mim. Nem pelo que eu fazia. Ouvir-me falar aborrecia-o. O que é que ele quer? Eu nem devia ter vindo.

Eu não te quero odiar, disse ele, entende bem isso. Mas mostra pelo menos que entendeste o que fizeste. Eu não sou lixo. Não te quero odiar, juro. Preferia ter razões para ser teu amigo. Preferia recordar-me da tua ternura, da tua bondade.

Falou, inquieto, depois calou-se outra vez. Continuava a olhar para os ramos das árvores da praceta como se procurasse neles consolação para uma dor secreta. Acendeu um cigarro e de novo os seus olhos se perderam a vaguear nas árvores.

Ela pensava que não lhe tinha feito mal nenhum. O amor não depende de nós querermos ou não. E recordava-se do desamor dele. Se ela o tinha magoado, como ele lhe tinha dito uma vez, era porque não podia ser de outra maneira. Ela também tinha sofrido. O amor no princípio é alegria e prazer, depois é tristeza e dor. Podia dizer-lhe isso, mas não disse nada. Olhou para ele e desviou o olhar, calou-se.

A tua arrogância não tem limites, disse ele. A tua ligeireza é imprevisível. Eu não te acuso de não me amares, entende bem isso. Se eu te acuso de alguma coisa, se eu tenho alguma coisa contra ti não é a nossa separação, entende bem isso. São as tuas maneiras, a tua irresponsabilidade. Eu gostei de ti e tu desiludiste-me.

Ela pensou: o que te custa a digerir é eu ter deixado de gostar de ti. A paixão morreu. Contra isso não posso nada. E esqueces-te de que já amo outra pessoa. Falas, falas, mas esqueces-te disso. Esta conversa não leva a nada. Tu não soubeste amar-me enquanto era tempo.

Ele estava calado, a pensar. Depois disse: tu não queres que eu te perdoe, queres que eu te odeie. Já percebi. O que tu fizeste, uma, duas, três, quatro, não sei quantas vezes, não tem perdão. Ainda assim eu preferia perdoar-te. É difícil, mas eu tentaria.

Ela franziu a testa mas não disse nada. Pensou: perdoar, perdoar. Quantas vezes falámos nisto? Perdoar o quê?

O perfume dela, que ele conhecia, chegava-lhe por vezes ao nariz. Ele continuou: o que te impede de assumir as tuas responsabilidades é a tua leviandade. E o ódio, o veneno do ódio que trazes no sangue. Estás sempre a vingar-te de qualquer coisa. De quê? Diz.

Tu não suportas o desaparecimento do amor, pensou ela. Eu sei que dói, acho que sei. Mas não posso fazer nada. Mesmo que quisesse – e não quero - não podia. Tenho a minha vida para viver. Meu Deus, já são seis horas. Devia ir-me embora, acabar este suplício.

Não tenho ninguém a quem falar como falava contigo, disse ele. Ninguém com quem ver um filme com a mesma cumplicidade. Ninguém com quem me preocupar. É estúpido, não tem sentido. Claro, isso é agora, mais tarde tudo mudará. Mas eu preferia não deitar fora todas as recordações, preferia proteger do esquecimento o que vivemos juntos.

Ela tinha as pernas cruzadas, os olhos fixos nos sapatos pretos. Com o bico do pé esquerdo desenhava círculos no ar. Ouviu-o, não levantou a cabeça, não disse nada.

Ele ficou dois minutos calado. Fumou outro cigarro. Depois levantou-se devagar, decepcionado, fez uma vénia suave com a cabeça, olhou uma última vez para ela. Afastou-se lentamente, sem olhar para trás, e murmurou: ela nunca me amou, ela não quer saber, não há nada a fazer, a vida continua.

Sunday, March 11, 2012

Wednesday, March 07, 2012

Tuesday, March 06, 2012

John Donne: Lover's Infiniteness


IF yet I have not all thy love,
Dear, I shall never have it all ;
I cannot breathe one other sigh, to move,
Nor can intreat one other tear to fall ;
And all my treasure, which should purchase thee,
Sighs, tears, and oaths, and letters I have spent ;
Yet no more can be due to me,
Than at the bargain made was meant.
If then thy gift of love were partial,
That some to me, some should to others fall,
    Dear, I shall never have thee all.

Or if then thou gavest me all,
All was but all, which thou hadst then ;
But if in thy heart since there be or shall
New love created be by other men,
Which have their stocks entire, and can in tears,
In sighs, in oaths, and letters, outbid me,
This new love may beget new fears,
For this love was not vow'd by thee.
And yet it was, thy gift being general ;
The ground, thy heart, is mine ; what ever shall
    Grow there, dear, I should have it all.

Yet I would not have all yet.
He that hath all can have no more ;
And since my love doth every day admit
New growth, thou shouldst have new rewards in store ;
Thou canst not every day give me thy heart,
If thou canst give it, then thou never gavest it ;
Love's riddles are, that though thy heart depart,
It stays at home, and thou with losing savest it ;
But we will have a way more liberal,
Than changing hearts, to join them ; so we shall
    Be one, and one another's all. 

Tuesday, February 28, 2012

Sunday, February 26, 2012