Sunday, November 21, 2004

Ela pensou.... mas não disse

Estava sentada numa esplanada da Baixa a fumar um cigarro com pesticida sem ter conhecimento disso. Em cima da mesa tinha um Jornal de Letras que trazia uma grande fotografia a cores do enorme romancista. E pensou:

Ler os romances deste chato que se toma por deus é como ir ao Jardim Zoológico. Ele aliás, o romancista, ia lá quando era puto, com o pai ou o tio, e já tinha encontrado uma visão do mundo, achava aquela bicharada muito divertida. Terá explicação no Freud ou no Lacan este deslize inicial do enorme escritor? As personagens dos romances dele são sempre animais meio imbecilizados do circo da vida. O que a gente não saberá nunca é o que esses animais de circo pensaram de alguém que ao atribuir-lhes com tanta imaginação e desenvoltura determinada personalidade parece ter-se esquecido de que também fazia parte do circo e estava a ser observado. Pois, pois, somos sempre ao mesmo tempo sujeito dum lado, objecto do outro. E nenhum romancista conseguiu ser grande tratando com desprezo os seus personagens. Se não queres que te interprete mal, começa por ter cuidado quando te pões a falar de mim com tanta sapiência. Ufa! Preciso de reler Dostoievski, Eça, Camilo e Júlio Dinis para confirmar.