Thursday, November 18, 2004

Filme irreal da vida


Ela ficava tão silenciosa ao seu lado
quando tomavam café. Hoje ainda
ele recorda-se da intensidade da sua
atenção, daquilo (não sabe o que era)
que enchia os seus olhos de melancolia,
talvez de amor. Hoje ainda a revê, sentada
no café ao fim da tarde, a conversar com ele.
Outono, suave estação. Na rua caminharam.
Filme irreal da vida, sonho colorido. Agora,
recordando essa cena, é como se quisesse
descobrir nela os sinais de um futuro que os
havia de reunir. Que fazer do tempo de
espera? Antes de morrer, que fazer ainda? Ó
menina, mulher, sol da pátria perdida. Virás
ao meu encontro ou perdeu-se para sempre esse
dia em que, sem sabermos o que fazíamos, nos
aproximámos do fogo e do precipício do inferno?
Um grande silêncio reinava nos campos e na
cidade, por dentro ele sufocava. Mas estava
vivo. Aguardo uma resposta, balbucia ele,
inesperadamente. Bem sei, não é possível ter
certezas, os sentimentos são ambíguos. Mas
algumas palavras deviam ficar para assinalar o
percurso da dúvida. E poderíamos, no futuro
sempre incerto, sentir pelo menos a ferida da
memória. Talvez até os anos por viver aca-
bassem por adquirir uma coerência por
enquanto impossível de imaginar.

(João Camilo, A Ambição Sublime, Fenda, 2001)