Thursday, November 18, 2004

Sonata do Fim do Dia


Às vezes, de manhã, acordo e penso ainda: onde está aquela que eu julguei amar? E apetece-me telefonar-lhe. O telefone está ao fundo da cama, à entrada, em dez segundos levanto-me e tenho-o na mão. Que horas são? Faço as contas, é possível ainda. Não é tarde, não. Mas fico na cama, a gozar o calor que protege do dia e da realidade. Muitas coisas em que pensar? Certamente. Obrigações profissionais? Algumas. Mas fico, inerte, a deixar a imaginação e a memória correr à volta da obsessão, das obsessões.
Chamam-me K. Não Joseph K., como o outro, mas apenas, mais modestamente, K. Nome próprio e nome de família ao mesmo tempo, suponho. Nunca pedi que me explicassem a brevidade do nome, a inicial seguida de um ponto final. Devo ter achado estranho, no início, mas acabei por habituar-me e por aceitar. Um nome é apenas uma etiqueta exterior de identificação. Para não ser confundido com outros, o K. deve ser suficiente. Não protesto, não ambiciono um nome maior, outras precisões. Não quero sequer saber de histórias. “Capa”. Já me tem surgido a questão inevitável: "capa" de quê? Capa de mim mesmo, respondo. Capa do corpo. Capa do ser. Capa, isto é, pele, superfície exterior, coberta, qualquer coisa que protege. Ou envolve, desenha os contornos, separa do que é exterior. Capa protectora. Capa de disfarce. Qualquer explicação serve. A maior parte das vezes nem sequer digo K. ou penso o nome. Limito-me a ver a inicial e o ponto final e esqueço-me, embora diga o meu nome, de que há um outro nome, idêntico na pronúncia, que se pode escrever de outra maneira e ser identificado como uma palavra a que o dicionário atribui um sentido.
Onde está, neste momento, às seis da tarde de domingo, aquela que eu julguei que ia amar-me? Não sei. Provavelmente dorme. Que importância é que tem? Nenhuma. A cada um, agora, a sua vida. Eu estou de fora. Não desejo continuar a interrogar-me sobre assuntos que já não me dizem respeito. E no entanto, distraidamente, nos momentos de tédio ou hesitação, vem-me ainda o desejo de ter notícias desse corpo de criança, desse rosto de adolescente transfigurada pelo amor, de certa paz que conheci ao seu lado. Parvoíces, concluo sempre. Quando é tempo de esquecer, esquece. Quando é tempo de terminar, termina. Quando é tempo de aceitar, aceita. Coincide com o andar do mundo, não te oponhas à vontade alheia, ao destino dos outros. Proibido interferir. E não penses em tudo o que poderia ter sido e não foi. De que adianta?

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas
no limbo onde esperais a luz que vos baptize
cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Recordei os versos do poema enquanto ouvia uma sonata patética, confundia-se o sentido das palavras com a misteriosa influência que os sons exerciam na minha alma. Chegavam-me os sons do piano de longe, como que envolvidos na bruma do tempo, no nevoeiro do fim do dia. Meditações apaixonadas. Silêncio, prudência, depois veemência e protesto, afirmação.
K., que fazes aqui sentado? Nada, respondia eu. Oiço uma sonata patética para comemorar o fim deste dia único e no entanto aparentemente igual a todos os outros. Vou escrever uma carta à amada, à imaginada, àquela que não existe. Uma longa carta. E o tempo passará e o meu destino não terá sido, aos meus olhos, totalmente inútil. Habitou-o a palavra, a memória que resgata e inquieta, o erro que se pode corrigir mais tarde, a felicidade de que se conserva a recordação como incentivo para a vida.
Um vulto atravessava o corredor, uma voz de criança pronunciava palavras que eu não conseguia identificar. Uma gaveta, uma porta, uma cortina fechavam-se. E eu, sentado, ouvia o patético da sonata.
(João Camilo, O Grande Frémito da Paixão, Fenda, 2002)