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Showing posts from December, 2004

Happy New Year !

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Candid Lang, Sadkowsky et Titime


Um devaneio: que bom que seria haver um dia sem algarismo nem nome, não pertencendo a mês nenhum, entre o fim de um ano e o início do seguinte. Dia intemporal de liberdade, dia fora do tempo humano. Imitação da eternidade ou instante divino. Sem amarras, sem obrigações, dia desligado da História, pausa absoluta. O tempo parava. Escapava-se ao peso dos calendários, existíamos sem «contador». Descansava-se da própria vida. As consequências da existência desse dia sem existência oficial e burocrática seriam imensas. Falta-me a paciência e o talento - felizmente! basta de «ciência»! - para as imaginar, enumerar, organizar em discurso. Mas penso: nesse dia não se podia morrer, por exemplo. Nem deixar de amar. Nem acabar uma relação. Nem fazer sofrer. Aliás nesse dia nada tinha nome. Nada se podia definir porque ter certezas seria visto como uma forma errada e muito ingénua de relacionamento com a vida. Era um dia que «não ficava registado» em lugar nenhum e …

Hölderlin: In the arms of the gods

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John William Waterhouse, Hylas and the Nymphs




When I was a boy
a god would often rescue me
from the shouting and violence of humans.
Then, safe and well, I would play
with the meadow flowers,
and heaven's breezes
would play with me.

And as you delight the heart
of plants, stretching their tender
arms toward you,
Father Helios,
so you delighted my heart,
and I was your beloved,
holy Luna, just like Endymion!

All you faithful
friendly gods!
I wish you knew
how my soul loved you!

Naturally I couldn't call you
by name then, nor did you use
mine, as humans do, as if
they really knew each other.

But I was better acquainted with you
than I ever was with humans.
I knew the stillness of the Aether:
I never understood the words of men.

The euphony of the rustling
meadow was my education;
among flowers I learned to love.

I grew up
in the arms of the gods.
(Poems of Friedrich Holderlin, selected and translated by James Mitchel, Ithuriel's Spear, San Francisco, 2004)

Hölderlin: What is holy to me

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George Frederick Watts, Hope


To the Fates

Grant me just one summer, powerful ones,
And just one autumn for ripe songs,
That my heart, filled with that sweet
Music, may more willingly die within me.

The soul, denied its divine heritage in life,
Won't find rest down in Hades either.
But if what is holy to me, the poem
That rests in my heart, succeeds —

Then welcome, silent world of shadows!
I'll be content, even though it's not my own lyre
That leads me downwards. Once I'll have
Lived like the gods, and more isn't necessary.

(Poems of Friedrich Holderlin, selected and translated
by James Mitchel,Ithuriel's Spear, San Francisco, 2004)


Tao: If you aren't afraid of dying

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Jacques-Louis David, La mort de Socrates



If you realize that all things change,
there is nothing you will try to hold on to.
If you aren't afraid of dying,
there is nothing you can't achieve.

Trying to control the future
is like trying to take the master carpenter's place.
When you handle the master carpenter's tools,
chances are that you'll cut your hand.

(Tao Te Ching, a new English version by
Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)




Tao: If a country is governed wisely

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Montagne Sainte Victoire (Cézanne)


If a country is governed wisely,
Its inhabitants will be content.
They enjoy the labor of their hands
and don't waste time inventing
labor-saving machines.
Since they dearly love their homes,
they aren't interested in travel.
There may be a few wagons and boats,
but these don't go anywhere.
There may be an arsenal of weapons,
but nobody ever uses them.
People enjoy their food,
take pleasure in being with their families,
spend weekends working in their gardens,
delight in the doings of the neighborhood.
And even though the next country is so close
that people can hear its roosters crowing and its dogs barking,
they are content to die of old age
without ever having gone to see it.

(Tao Te Ching, a new English version
by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)

Às vezes a poesia

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F. E. Picot, L'Amour et Psyché


Houve um tempo em que eu escrevia poemas.
Sentado diante da folha de papel branco,
ia alinhando as palavras.
Aprendi pouco a pouco a evitar
que fossem elas a conduzir-me,
impus-lhes a minha própria
determinação.
O maior prazer era descobrir,
como se ele estivesse escondido
pela mancha verde das árvores,
o atalho inesperado. Se ele se alargava
bruscamente, a excitação era intensa, o
meu sangue começava a ferver nas veias.
Mas continuava a pesar cada palavra
como se não a conhecesse e ela
quisesse trair-me. Às vezes a poesia
solicitava-me quando eu passeava a pé
pelas ruas da cidade. Ou quando
contemplava distraidamente a silhueta
da rapariga que atravessava a rua.
E de outras vezes estava apenas encostado
ao vidro da janela, de mãos nos bolsos, a
aborrecer-me. Fosse como fosse, sempre
tive de desconfiar das evidências
da inspiração. Sou eu quem te
escreve, poema, não tu
quem me conduz pelos caminhos
por onde já te levaram antes.
Dizia-me coisas assim. E a luta
contra a tentação da…

A Natureza não é cruel

A Natureza, quando se põe a competir com a crueldade humana, reduz à insignificância o poder dos homens mais poderosos. É a nossa interpretação. Mas a Natureza não age movida por sentimentos, a Natureza não é cruel. A Natureza é uma «máquina» cujo «corpo» nos é desconhecido em grande parte, um «relógio» cujas leis de funcionamento só parcialmente entendemos e podemos acompanhar. Porque é imprevisível, achamo-la cruel. A Natureza, o mundo, o universo, porém, limitam-se a «existir», sem «propósitos» para além de existirem segundo as suas próprias leis. Quanto aos seres humanos... esses, que somos nós, têm espírito e vontade, pretendem defender a virtude e a justiça, o amor e a compaixão, a democracia e os valores espirituais das religiões. Mas em nome desses pretextos nobres mentem, exploram, roubam, oprimem, assassinam, torturam... A Natureza não tem de ser julgada, não pode ser julgada. E acusar Deus de não ter piedade de nós e ter criado um mundo «imperfeito» é imaginar que Ele exist…

CURA di SÉ, Happy New Year!

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David Lawrence Winston, Solitude


Não paro de descobrir blogues: políticos, confessionais, eróticos, de solidão desesperada, de amor, de amizade, de adolescência à procura de si mesma, de poesia, de... Às vezes um texto espantoso ou um blogue espantoso de alguém que não se sabe quem é, em português ou inglês ou noutra língua - e que com a sua simplicidade, verdade, sinceridade e talento nos deixa cheios de admiração pela nossa humanidade e capacidade de ver, sentir, amar, criar. Este blogue sente afinidades e simpatias desde sempre por CURA di SÉ, que é um blogue português discreto, silencioso e belo, intimista. É uma evidência indiscutível (e certamente perturbadora) que o espírito e o talento já não necessitam hoje de passar pelas editoras para se revelarem e imporem. Uma nova era começou: os blogues são um instrumento fabuloso de expressão e realização pessoal. Claro, as pereiras continuarão a dar peras e as macieiras a dar maçãs: umas sãs, outras podres, umas saborosas, outras nem …

Sá-Carneiro: Nada a fazer, minha rica

De Mário de Sá-Carneiro se tem de lamentar que tenha decidido desaparecer tão jovem. Mas entende-se ao lê-lo que submeter-se à mediocridade da vida lhe repugnou. Independentemente de outros problemas pessoais que o atormentaram, a esperança que os Românticos tinham depositado numa sociedade melhor, saída da Revolução, já se estava a perceber que fora utópica. Os burgueses, com o seu materialismo boçal, tinham de novo estragado tudo.
Em Cesário Verde já tínhamos sentido a «dor de viver», nascida da necessidade de submeter-se à disciplina rígida de uma sociedade liberal toda virada para a produção - quando o que apetece é abandonar-se aos movimentos da sensibilidade, a uma relação sensual com o mundo. Voluntarioso, estóico, Cesário obrigou-se no entanto, contrafeito mas bom cidadão, à disciplina rígida do Realismo.
Em Camilo Pessanha lemos que o melhor é «não ouvir nem ver.../Passarem sobre mim/ E nada me doer!» E ainda que enquanto passam os estios, os Outonos, as podas, as cavas, as …

TAO: True words aren't eloquent

True words aren't eloquent;
eloquent words aren't true.
Wise men don't need to prove their point;
men who need to prove their point aren't wise.

The Master has no possessions.
The more he does for others,
the happier he is.
The more he gives to others,
the wealthier he is.

The Tao nourishes by not forcing.
By not dominating, the Master leads.


(Tao Te Ching, a new English version
by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)
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Boys
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Where are they going?
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What?

Paul Celan: Of that

Algumas formas de expressão artísticas actuais pretendem (um tanto tardiamente, temos de reconhecer) proclamar a brincadeira como uma forma moderna e superior de arte. Ao mesmo tempo basta um poeta ter a reputação de difícil e estar associado a discursos críticos que se pretendem muito especializados para que se tornem míticas ainda hoje as dificuldades que a sua obra coloca no caminho dos leitores. No primeiro caso promove-se com entusiasmo a banalidade. No segundo faz-se da cultura um palácio ou jardim reservado a espíritos de eleição. Contradições por certo saudáveis da nossa época. Cada geração que desponta para o uso da palavra e do poder começa por constatar inocentemente a imperfeição do mundo; depois, confiante e moralizada pela descoberta, tenta corrigi-la com o seu próprio talento, invenção, esforço e inteligência.

Mallarmé e Trakl são casos conhecidos de poetas ainda hoje considerados inacessíveis ao «leitor comum». Seria prudente, no entanto, não menosprezar tanto o «leito…

Knut Hamsun: Waiting and seing

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Knut Hamsun (1859-1952), em cujos romances alguns membros da Escola de Frankfurt quiseram ver, absurdamente, a defesa dos ideais do nacional-socialismo, deixou uma obra fascinante, moderna ainda hoje, vasta e diversificada. Nem A Fome (1890) nem A Cidade de Segelfoss (1915) são romances de tese neo-realistas. Mas o protagonista do primeiro, nas suas vagabundagens e miséria de aspirante a escritor pode ser visto como um parente espiritual de Baudelaire e Rimbaud. E no segundo Hamsun regista as paixões, conflitos, infelicidades e ambições ligadas à decadência de uma aristocracia da terra em vias de ser eliminada por uma classe nova de activos comerciantes. Os neo-realistas portugueses, influenciados muito provavelmente pelo espisódio «colaboracionista» em que Hamsun se deixou envolver, desprezaram o grande romancista norueguês.
Romances como A Fome, PAN (1894), e sobretudo Mistérios (1892), antecipam por outro lado claramente o «malaise» existencial a que O Estrangeiro de Camus e A Náus…
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Céu azul
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Reflexos
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Linhas amarelas
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Matizes
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Ângulos

Hölderlin: Like sleeping infants

Hyperion's Song of Destiny


Holy spirits, you walk up there
in the light, on soft earth.
Shining god-like breezes
touch upon you gently,
as a woman's fingers
play music on holy strings.

Like sleeping infants the gods
breathe without any plan;
the spirit flourishes continually
in them, chastely kept,
as in a small bud,
and their holy eyes
look out in still
eternal clearness.

A place to rest
isn't given to us.
Suffering humans
decline and blindly fall
from one hour to the next,
like water thrown
from cliff to cliff,
year after year,
down into the Unknown.

(Poems of Friedrich Holderlin,
selected and translated by James Mitchel,
Ithuriel's Spear, San Francisco, 2004)

Paulo Louenço: O destino de Judas

Os Sonhos Imperfeitos, de onde tirei este texto, é o primeiro livro de Paulo L0pes Lourenço (Quasi, 2003). Promissor primeiro livro, com belos textos curtos e num estilo original entre a ficção e a poesia.

TUDO NELE ERA TIRADO

Nesse momento, quando o sol caía sozinho, empurrado por uma força maior, Judas saltou. Os olhos fechados, o cabelo desalinhado, as mãos suadas - tudo nele era tirado. Esvaído. O cão no mesmo sítio onde o deixara, preso e a ganir como uma alma perdida. Que estranho é o teu mundo, disse um dia a Jesus. Porém, que estranha era a vida que lhe haviam deixado. Nunca soubera o seu nome, o verdadeiro, aquele que nasce connosco e em nós subsiste para não nos desfazermos, e sentia essa falta como um ferimento exposto.
Enquanto ia no ar (e se podia aperceber), os olhos desenharam dentro das covas a imagem da mãe, na sua túnica castanha de linho desfiado, a olhar para ele. Que bela fora um dia! Lembrava-se, antes de toda esta sucessão de ocorrências, que tinha um destino. Um…

Feliz Natal!

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Merry Christmas!

Joyeux Noel!

God Jul!


Parmigianino, The little flower girl

Mallarmé: Ô rêveuse....

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John William Waterhouse, Lady of Shalott


AUTRE ÉVENTAIL
de Mademoiselle Mallarmé


Ô rêveuse, pour que je plonge
Au pur délice sans chemin,
Sache, par un subtil mensonge,
Garder mon aile dans ta main.

Une fraîcheur de crépuscule
Te vient à chaque battement
Dont le coup prisonnier recule
L'horizon délicatement.

Vertige! voici que frissonne
L'espace comme un grand baiser
Qui, fou de naître pour personne,
Ne peut jaillir ni s'apaiser.

Sens-tu le paradis farouche
Ainsi qu'un rire enseveli
Se couler du coin de ta bouche
Au fond de l'unanime pli!

Le sceptre des rivages roses
Stagnants sur les soirs d'or, ce l'est,
Ce blanc vol fermé que tu poses
Contre le feu d'un bracelet.
http://www.mallarme.net/rubrique19.htmlhttp://cage.rug.ac.be/~dc/Literature/Mallarme/http://www.mallarme.net/


TAO: Men are born soft and supple

Men are born soft and supple;
dead, they are stiff and hard.
Plants are born tender and pliant;
dead, they are brittle and dry.

Thus whoever is stiff and inflexible
is a disciple of death.
Whoever is soft and yielding
is a disciple of life.

The hard and stiff will be broken.
The soft and supple will prevail.


***

When taxes are too high,
people go hungry.
When the government is too intrusive,
people lose their spirit.

Act for the people's benefit.
Trust them; leave them alone.

(Tao Te Ching, a new English version by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)

Crise da Democracia

É uma banalidade em que não se reflecte o suficiente: viver em democracia não significa que se seja governado pelos melhores e mais competentes; significa apenas que se é governado por aqueles que a maior parte dos cidadãos, se houve honestidade nas eleições, quis que governassem.

Penso nisto e vem-me um calafrio: ter de novo Santana e Portas no governo vai levar-nos à última degradação, a uma decadência que aqueles que acreditaram no «25 de Abril» têm dificuldade em aceitar. Mas «eles», os «outros», não elegeram democraticamente o Bush? O pobre do Kerry a fazer campanha sobre os problemas do país e sobre a guerra do Iraque; e na sombra o guru do Bush a fazer a lavagem ao cérebro aos fundamentalistas e outros afins.

(JN)



Mallarmé: Ce vain souffle que j'exclus....

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Venus (Lucas Cranach)


As palavras estão habituadas a estar em certas frases e não noutras. Têm hábitos humanos, noção de classe social dir-se-ia, manias, são vaidosas e conservadoras - e “snobs” talvez. Muitos bons e grandes poetas conseguem, sem ofendê-las, com talento e doçura mas nem sempre – fruto de conhecê-las bem e de não se deixar impressionar pela imagem que elas pretendem fazer respeitar de si próprias - pô-las ao seu serviço sem que elas se revoltem excessivamente (elas nem se darão conta disso em muitos casos - ou fazem de conta que não perceberam). E as palavras, em vez de repetir apenas o conhecido, sugerem então, ou revelam, o desconhecido. Afinal elas próprias tinham poderes que ignoravam – e o poeta teve o poder de ressuscitá-las senão de reinventá-las, deu-lhes juventude e frescura. Poetas como Mallarmé em particular parece terem-se estado nas tintas para o que as palavras podiam pensar dos direitos que tinham de estar em certas frases ou partes da frase e não noutra…

Nu

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Photo Pierre Sarriaud (3)

Heróis inúteis

No cavalo branco do tempo, pelas
florestas petrificadas, a dialogar
com os cimos agudos das montanhas.
O som. Rasga o papel do infinito
silencioso com o seu estridor, as
patas espezinham e matam. Que fica,
para que com justiça os idolatremos,
dos heróis que os séculos gastaram
a construir a História? Valeram
a pena os mortos, as noites de
sobressalto, a crueldade? A ínfima,
a invisível gota de ternura, onde
se tinha escondido? Impossível
destruí-la. Mas no coração dos
heróis terá tido tempo de brilhar?

Enlouquecer, ir enfim repousar de
tanto reflectir, aconselhava-se K.
Que os ambíguos figurantes do mito
permaneçam no seu lugar simbólico,
basta de confusões. Esperança no
amor? Sem futuro nem passado,
K. duvidava. Qual a utilidade das
conquistas se um dia, de novo, tudo
tem de ser recomeçado? Cavalo negro
do tempo que um dia foste branco, pelas
florestas calcinadas correram as tuas ágeis
pernas. Agora aonde te levam os sonhos
de poder antigos? Indeciso no seu fervor,
no amor que tinha à vida, K. parecia desistir.

Escadas

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Foto de Pierre Sarriaud (2)

Em bicos de pés

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Foto de Pierre Sarriaud (1)

Links

Revista brasileira com autores de língua portuguesa (poesia, conto, etc.) e ilustrações de qualidade:

http://www.sara.fazib.nom.br/

Mais poesia e prosa de língua portuguesa:

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/poetas.htm

Uma página sobre o poeta Daniel Faria:

http://www.danielfaria.org/

Ciberkiosk, revista literária na internet, precursora de muita coisa que veio depois, já não se publica, mas os números publicados continuam disponíveis em arquivo:

http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk1/index.html


Roy Campbell: Luís de Camões

«Roy Campbell (1901-1957) was considered by many of his peers, most notably by T.S. Eliot, Dylan Thomas, and Edith Sitwell, as one of the finest poets of the 20th century. Why then, one wonders, is he not as well-known today as many lesser poets? The answer lies in his robust defense of unfashionable causes, both religious and political, but also, and more regrettably, in his unfortunate predilection for making powerful enemies. Seldom has a life been more fiery, more controversial, and more full of friendship and enmity than that of this most mercurial of men. (...) Desiring an escape from the world of the "intellectuals without intellect," Campbell moved with his wife, Mary, and their two daughters to Provence and, later, to Spain. Throughout this period he and Mary found themselves being slowly but irresistibly drawn toward the Catholic faith.»

http://www.catholicauthors.com/roy_campbell.html


*** «He died in 1957 in a car accident in Portugal [perto de Setúbal], his home cou…
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Cézanne

Fialho de Almeida: Era um esquife de pau preto

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Era um esquife de pau preto com balaústres delga­dos, tendo o ar dum berço. Na vila causava horror. Era com que metiam medo às crianças; via-se-lhe pregada na cabeceira uma cruz preta, e um Cristo de ferro com resplendor de lata, que tremia, agonizava, pèssimamente fundido, mostrando os olhos vazios. No fundo via-se a coberta de paninho preto em farrapos, onde deitavam os cadáveres, havia muito. Esse pano tinha nódoas à altura da cabeça. Os va-nu-pieds abatidos para a vala durante os últimos quinze anos haviam ali impresso o seu remember de muco sanguinolento, de que tresandava um fétido em baforadas. Era onde ia o Jerolmo, vestido no seu fato de saragoça, com sapatos de bezerro enormes nos pés, os dois pulsos unidos por uma tira de chita negra, a premir as mãos cruzadas no peito, na atitude de uma imploração derradeira.
- Ainda ontem a estas horas estava são e vivo! - era o p…

Let go

He who stands on tiptoe
doesn't stand firm.
He who rushes ahead
doesn't go far.
He who tries to shine
dims his own light.
He who defines himself
can't know who he really is.
He who has power over others
can't empower himself.
He who clings to his work
will create nothing that endures.

If you want to accord with the Tao,
just do your job, then let go.

(Tao Te Ching, a new English version by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)

Have I learned to understand you?

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In his essay "The Influence of Classical Japanese Poetry" (The Elastic Retort, Seabury Press, 1973), Rexroth offers this warning for readers of poetry in translation: "If Japanese, or for that matter, Chinese poetry is translated into Western syntax and all the spark gaps of meaning are filled up, what results is a series of logically expressed epigrams, usually senti­mental, with a vulgar little moral interpretation at­tached, or at the best a metaphorical epigram of a moment of sensibility like [Ezra] Pound's 'In a Sta­tion of the Metro' which most resembles, not classi­cal Japanese tanka or even the best haiku, but the more sentimental work of the late Yeddo [Edo] pe­riod. It is this compulsion to fill up the gaps and in­terpret the poem for Western readers which vitiates the work of so many translators, both Western and Japanese. They too often believe that Westerners could not possibly understand a Japanese poem in all its simplicity."

(Sam Hamill…
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Pêssegos, peras, uvas (Cézanne)

Junho Provençal

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Caminho (Cézanne)


Junho Provençal

O sol deixava-nos o calor como recompensa
enquanto visitava os outros domínios.
Foram longas as tardes
e claras
e o infinito impensável
e ameaçava de longe a morte,
o rapaz da loja de discos ficara a ser
aquele que tivera um destino trágico.
Ah, o passatempo de estar vivo, andar
por aí de café em café,
pelas livrarias e jardins, como distraído
da nossa condição.
A cinza branca da montanha de Sainte Victoire,
a torre da catedral vista do Cours Gambetta,
a facilidade dos plátanos em criar-se folhas
abriam-nos o corpo à violência incansável do estilo.
No quadro de Cézanne as cebolas e a toalha branca
tinham em cima da mesa a vida repugnante
de entranhas expostas; e a garrafa, do lado esquerdo,
assemelhava-se ao jogador de cartas de um outro quadro.
Pelos caminhos do campo, estreitos, ia-se à tarde,
e como esquecer que tínhamos visto rostos
de que as palavras não sabem falar?
Um vento suave agitava
as folhas verde-pálido das árvores.

(João Camilo, A Mala dos Marx Brothers, Editor…