Friday, December 31, 2004

Happy New Year !


Candid Lang, Sadkowsky et Titime


Um devaneio: que bom que seria haver um dia sem algarismo nem nome, não pertencendo a mês nenhum, entre o fim de um ano e o início do seguinte. Dia intemporal de liberdade, dia fora do tempo humano. Imitação da eternidade ou instante divino. Sem amarras, sem obrigações, dia desligado da História, pausa absoluta. O tempo parava. Escapava-se ao peso dos calendários, existíamos sem «contador». Descansava-se da própria vida. As consequências da existência desse dia sem existência oficial e burocrática seriam imensas. Falta-me a paciência e o talento - felizmente! basta de «ciência»! - para as imaginar, enumerar, organizar em discurso. Mas penso: nesse dia não se podia morrer, por exemplo. Nem deixar de amar. Nem acabar uma relação. Nem fazer sofrer. Aliás nesse dia nada tinha nome. Nada se podia definir porque ter certezas seria visto como uma forma errada e muito ingénua de relacionamento com a vida. Era um dia que «não ficava registado» em lugar nenhum e a que não seria possível nunca referirmo-nos mais tarde. Bem sei, é utopia e não tem lógica. É apenas um devaneio, nascido de não sei que necessidade exactamente.



Posted by Hello

Thursday, December 30, 2004

Hölderlin: In the arms of the gods

John William Waterhouse, Hylas and the Nymphs





When I was a boy
a god would often rescue me
from the shouting and violence of humans.
Then, safe and well, I would play
with the meadow flowers,
and heaven's breezes
would play with me.

And as you delight the heart
of plants, stretching their tender
arms toward you,
Father Helios,
so you delighted my heart,
and I was your beloved,
holy Luna, just like Endymion!

All you faithful
friendly gods!
I wish you knew
how my soul loved you!

Naturally I couldn't call you
by name then, nor did you use
mine, as humans do, as if
they really knew each other.

But I was better acquainted with you
than I ever was with humans.
I knew the stillness of the Aether:
I never understood the words of men.

The euphony of the rustling
meadow was my education;
among flowers I learned to love.

I grew up
in the arms of the gods.

(Poems of Friedrich Holderlin, selected and translated by
James Mitchel, Ithuriel's Spear, San Francisco, 2004)
Posted by Hello

Hölderlin: What is holy to me


George Frederick Watts, Hope


To the Fates

Grant me just one summer, powerful ones,
And just one autumn for ripe songs,
That my heart, filled with that sweet
Music, may more willingly die within me.

The soul, denied its divine heritage in life,
Won't find rest down in Hades either.
But if what is holy to me, the poem
That rests in my heart, succeeds —

Then welcome, silent world of shadows!
I'll be content, even though it's not my own lyre
That leads me downwards. Once I'll have
Lived like the gods, and more isn't necessary.


(Poems of Friedrich Holderlin, selected and translated
by James Mitchel,Ithuriel's Spear, San Francisco, 2004)

Posted by Hello

Wednesday, December 29, 2004

Tao: If you aren't afraid of dying


Jacques-Louis David, La mort de Socrates



If you realize that all things change,
there is nothing you will try to hold on to.
If you aren't afraid of dying,
there is nothing you can't achieve.

Trying to control the future
is like trying to take the master carpenter's place.
When you handle the master carpenter's tools,
chances are that you'll cut your hand.


(Tao Te Ching, a new English version by
Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)



Posted by Hello

Tao: If a country is governed wisely


Montagne Sainte Victoire (Cézanne)


If a country is governed wisely,
Its inhabitants will be content.
They enjoy the labor of their hands
and don't waste time inventing
labor-saving machines.
Since they dearly love their homes,
they aren't interested in travel.
There may be a few wagons and boats,
but these don't go anywhere.
There may be an arsenal of weapons,
but nobody ever uses them.
People enjoy their food,
take pleasure in being with their families,
spend weekends working in their gardens,
delight in the doings of the neighborhood.
And even though the next country is so close
that people can hear its roosters crowing and its dogs barking,
they are content to die of old age
without ever having gone to see it.


(Tao Te Ching, a new English version
by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)
Posted by Hello

Tuesday, December 28, 2004

Às vezes a poesia


F. E. Picot, L'Amour et Psyché


Houve um tempo em que eu escrevia poemas.
Sentado diante da folha de papel branco,
ia alinhando as palavras.
Aprendi pouco a pouco a evitar
que fossem elas a conduzir-me,
impus-lhes a minha própria
determinação.
O maior prazer era descobrir,
como se ele estivesse escondido
pela mancha verde das árvores,
o atalho inesperado. Se ele se alargava
bruscamente, a excitação era intensa, o
meu sangue começava a ferver nas veias.
Mas continuava a pesar cada palavra
como se não a conhecesse e ela
quisesse trair-me. Às vezes a poesia
solicitava-me quando eu passeava a pé
pelas ruas da cidade. Ou quando
contemplava distraidamente a silhueta
da rapariga que atravessava a rua.
E de outras vezes estava apenas encostado
ao vidro da janela, de mãos nos bolsos, a
aborrecer-me. Fosse como fosse, sempre
tive de desconfiar das evidências
da inspiração. Sou eu quem te
escreve, poema, não tu
quem me conduz pelos caminhos
por onde já te levaram antes.
Dizia-me coisas assim. E a luta
contra a tentação da beleza continuava.
Mas agora deixei de preocupar-me
com a poesia, depus as armas.
Quando olho, estou apenas a olhar,
agora. Quando estou triste, estou
apenas, irremediavelmente, e até ver,
triste. De que me serviu ter espiado
os meus sentimentos e o que penso?
Aprendi a viver melhor? Agora
todas as palavras me parecem
irrisórias, estrelas que atravessam o céu tão
velozmente que nunca se sabe se alguém
as viu. Importa-me tão pouco que saibam
e conheçam o que eu sinto. A minha
vida privada e aquilo que dela é visível
quando eu morrer há-de tê-los levado
o tempo que passa. Em vez de contar
o que vi, vejo. Às vezes penso
que podia acrescentar alguma coisa
a tudo o que já foi dito. Mas de que
adianta lutar contra o esquecimento ou
querer distinguir-se da massa
silenciosa? Vaidade tudo,
inútil tudo. Deixo a poesia à rapariga
que ainda não escreveu senão os versos
insípidos com que se tenta escapar ao tédio
da adolescência. Ela é que tem coisas
a dizer, zonas ignoradas do mistério
a desvendar. Deixo a revolução dos versos
a outros jovens: eles é que acreditam que
quem tem estilo e imaginação tem
praticamente tudo. Um dia, caindo
em si finalmente, deixarão de querer
dar nas vistas. E hão-de descobrir, tendo
deixado de amar as palavras por si mesmas,
enfim a razão por que viveram.


(João Camilo, A Mala dos Marx Brothers,
Editorial Caminho, 1988)

Posted by Hello

A Natureza não é cruel

A Natureza, quando se põe a competir com a crueldade humana, reduz à insignificância o poder dos homens mais poderosos. É a nossa interpretação. Mas a Natureza não age movida por sentimentos, a Natureza não é cruel. A Natureza é uma «máquina» cujo «corpo» nos é desconhecido em grande parte, um «relógio» cujas leis de funcionamento só parcialmente entendemos e podemos acompanhar. Porque é imprevisível, achamo-la cruel. A Natureza, o mundo, o universo, porém, limitam-se a «existir», sem «propósitos» para além de existirem segundo as suas próprias leis. Quanto aos seres humanos... esses, que somos nós, têm espírito e vontade, pretendem defender a virtude e a justiça, o amor e a compaixão, a democracia e os valores espirituais das religiões. Mas em nome desses pretextos nobres mentem, exploram, roubam, oprimem, assassinam, torturam... A Natureza não tem de ser julgada, não pode ser julgada. E acusar Deus de não ter piedade de nós e ter criado um mundo «imperfeito» é imaginar que Ele existe e é de facto todo poderoso. Mas Deus, se existisse, não podia, sendo bom e todo poderoso, estar na origem de tanto sofrimento. Se vemos as coisas assim, a nossa solidão é definitiva e absoluta - e não há lugar para o rancor como escapatória metafísica.
Para a morte não há consolação. Para nenhuma dor profunda há consolação que suficientemente console. A dor, como uma chama intensa, nunca se apaga. Aqueles que sofreram sabem-no. E se a dor se atenua com o tempo, é à custa do esquecimento, da loucura ou da doença, da aceitação triste ou sábia do nosso destino modesto e frágil. Para alguns, porém, a dor nunca se atenuará e só a morte há-de trazer o alívio. As religiões, pode supor-se, inventaram a eternidade para tentar consolar-nos do desaparecimento daqueles que amamos. A esperança de os reencontrarmos noutra vida, para além da morte, devia tornar mais suportável a insuportável necessidade que sempre teremos deles. A nossa própria morte, nós parecemos às vezes esquecê-lo, só é um acontecimento para os outros, para aqueles que ficam e que têm de suportar o nosso desaparecimento, viver com a falta que lhes fazemos.
A catástrofe asiática será suficiente para nos fazer reflectir sobre o que é a vida, sobre o que é a morte? Duvide-se. Nada será mudado no mundo. Só aqueles que foram atingidos directamente pela catástrofe ficaram marcados para sempre. A dor não se pode partilhar.

Monday, December 27, 2004

CURA di SÉ, Happy New Year!


David Lawrence Winston, Solitude


Não paro de descobrir blogues: políticos, confessionais, eróticos, de solidão desesperada, de amor, de amizade, de adolescência à procura de si mesma, de poesia, de... Às vezes um texto espantoso ou um blogue espantoso de alguém que não se sabe quem é, em português ou inglês ou noutra língua - e que com a sua simplicidade, verdade, sinceridade e talento nos deixa cheios de admiração pela nossa humanidade e capacidade de ver, sentir, amar, criar. Este blogue sente afinidades e simpatias desde sempre por CURA di SÉ, que é um blogue português discreto, silencioso e belo, intimista. É uma evidência indiscutível (e certamente perturbadora) que o espírito e o talento já não necessitam hoje de passar pelas editoras para se revelarem e imporem. Uma nova era começou: os blogues são um instrumento fabuloso de expressão e realização pessoal. Claro, as pereiras continuarão a dar peras e as macieiras a dar maçãs: umas sãs, outras podres, umas saborosas, outras nem tanto; mas pode sempre progredir-se, melhorar o produto. Dada a qualidade da competição, escrever e ser lido, captar o interesse, vai ser no futuro, e cada dia que passa, mais árduo. Alguns dos primeiros blogues portugueses (os ditos percursores) já parecerão hoje nalguns casos muito académicos, excessivamente narcisistas. Podem incomodar, também, aqueles em que o bloguista, nitidamente, se imagina figura pública de algum relevo, compartilhando connosco diariamente, com intimidades despropositadas, opiniões, amizades pessoais, cumplicidades e confidências que imagina serem úteis ou necessárias ao nosso entendimento dos acontecimentos do dia e da nossa época. Como se falar de um lugar de autoridade mundana e ser conhecido em Lisboa (em alguns círculos ou mesmo em muitos) tornasse alguém famoso, amável, admirável e respeitável em Los Angeles ou nos Escalos de Baixo. Duvido que essa forma jovial de complacência, semelhante à praticada com muito à vontade nos órgãos de informação tradicionais, tenha futuro. Agora, que toda a gente tem um blogue, já não vão bastar o estatuto de vedeta num bairro da capital nem os êxtases e piruetas juvenis com a surpreendente inovação técnica para ser tido em conta e considerado interessante. "Tu escreves, mas eu também posso escrever. Tu pensas, mas eu também sei pensar. Tu sacaroteias-te, mas não és nenhuma Marilyn Monroe, nenhum Jeremy Irons". Por detrás de cada blogue o que começa a aparecer é, à volta de uma assinatura,uma personalidade com os seus valores,interesses, desejos, mitos, fantasmas, preocupações, ideais, coerências e incoerências - integrada na realidade nuns casos, desadaptada e em rebelião contra o estado das coisas em muitos outros. O futuro pertence aos bloguistas. Os blogues abriram novos direitos à cidadania. A imaginação soltou-se. A corte, agora, está em todas as casas, em todas as aldeias.
Posted by Hello

Sá-Carneiro: Nada a fazer, minha rica

De Mário de Sá-Carneiro se tem de lamentar que tenha decidido desaparecer tão jovem. Mas entende-se ao lê-lo que submeter-se à mediocridade da vida lhe repugnou. Independentemente de outros problemas pessoais que o atormentaram, a esperança que os Românticos tinham depositado numa sociedade melhor, saída da Revolução, já se estava a perceber que fora utópica. Os burgueses, com o seu materialismo boçal, tinham de novo estragado tudo.
Em Cesário Verde já tínhamos sentido a «dor de viver», nascida da necessidade de submeter-se à disciplina rígida de uma sociedade liberal toda virada para a produção - quando o que apetece é abandonar-se aos movimentos da sensibilidade, a uma relação sensual com o mundo. Voluntarioso, estóico, Cesário obrigou-se no entanto, contrafeito mas bom cidadão, à disciplina rígida do Realismo.
Em Camilo Pessanha lemos que o melhor é «não ouvir nem ver.../Passarem sobre mim/ E nada me doer!» E ainda que enquanto passam os estios, os Outonos, as podas, as cavas, as redras, o melhor é estar já «...dormindo um sono/ Debaixo duma pedra.»
O Gonçalo da Ilustre Casa de Ramires do Eça fez a experiência do sucesso social e acabou por demitir-se dele com nojo, proclamando - antes de imitar, na fuga para África e os negócios, o Rimbaud da Etiópia e o Carlos das Viagens na Minha Terra de Garrett - que só a Arte e a Filosofia dão sentido à existência e que tudo o resto é vaidade, miséria e alienação.
Júlio Dinis morrera, jovem, antes de chegar a encarar com mais cepticismo e pessimismo a nova sociedade liberal em que acreditara com entusiasmo.
A literatura do nosso esplendoroso século XIX interrogou-se sobre o sentido da existência e concluiu com pessimismo que há um conflito insolúvel entre o ideal e a realidade que é a nossa circunstância. Os melhores escritores do nosso século XX continuaram na mesma veia. Este poema de Sá-Carneiro não deixará de lembrar-nos que as personagens de Eça, já a anunciar o conformismo sarcástico e infeliz de Fernando Pessoa, preferem escapar à tragédia através do distanciamento irónico: bebem, comem, entretêm-se em aventuras sexuais com as mulheres de comerciantes e políticos demasiado ocupados com a outra realidade (a do último Carlos das Viagens, a do último Gonçalo Ramires do Eça). Foi essa mediocridade que Sá-Carneiro recusou: "A morte é uma humilhação inevitável e além disso não posso ter tudo? Ciao, recuso-me, prefiro não ter nada."
P. S. Tenho um velho amigo em França, François Castex, que tem passado a vida a estudar Sá-Carneiro e a escrever sobre ele. Salut, François! Happy New Year!


CARANGUEJOLA
— Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores.

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira —
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado,
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais — não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
- Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo - e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário. Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prà enfermaria -
Isto é: pra um quarto particular que o meu Pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital — higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda -
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...

- Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Paris - novembro 1915.

Sunday, December 26, 2004

TAO: True words aren't eloquent

True words aren't eloquent;
eloquent words aren't true.
Wise men don't need to prove their point;
men who need to prove their point aren't wise.


The Master has no possessions.
The more he does for others,
the happier he is.
The more he gives to others,
the wealthier he is.

The Tao nourishes by not forcing.
By not dominating, the Master leads.


(Tao Te Ching, a new English version
by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)


Boys Posted by Hello

Where are they going?Posted by Hello

What? Posted by Hello

Saturday, December 25, 2004

Paul Celan: Of that

Algumas formas de expressão artísticas actuais pretendem (um tanto tardiamente, temos de reconhecer) proclamar a brincadeira como uma forma moderna e superior de arte. Ao mesmo tempo basta um poeta ter a reputação de difícil e estar associado a discursos críticos que se pretendem muito especializados para que se tornem míticas ainda hoje as dificuldades que a sua obra coloca no caminho dos leitores. No primeiro caso promove-se com entusiasmo a banalidade. No segundo faz-se da cultura um palácio ou jardim reservado a espíritos de eleição. Contradições por certo saudáveis da nossa época. Cada geração que desponta para o uso da palavra e do poder começa por constatar inocentemente a imperfeição do mundo; depois, confiante e moralizada pela descoberta, tenta corrigi-la com o seu próprio talento, invenção, esforço e inteligência.

Mallarmé e Trakl são casos conhecidos de poetas ainda hoje considerados inacessíveis ao «leitor comum». Seria prudente, no entanto, não menosprezar tanto o «leitor comum»nem erigir sobre a sua existência o edifício de oiro da sublime vocação. É verdade que esta forma de intimidação e opressão «classista» foi e é abundantemente usada com eficácia e proveito mesmo por pessoas que se dizem progressistas, não merecendo a condenação que atinge a exploração, intimidação e opressão directa através do dinheiro. Mas não bastará de ilusões? Mesmo quando parece estar apenas a agir com idealismo, o ser humano com frequência está ainda a tentar criar o espaço da sua própria superioridade sobre outros seres humanos. A luta por algum poder e supremacia faz parte da nossa natureza e aguça o engenho.

«Entrar» na obra de Paul Celan (1920-1970) é certamente difícil, exigindo, como muita coisa na vida, cultura, educação, um esforço inicial maior - e concentração em seguida. Tem além disso de haver interesse verdadeiro. E convém acreditar que a poesia tem importância e serve para alguma coisa além de servir para fazer mal ou bem carreira de professor ou de crítico. Mesmo se as dificuldades que ela apresenta são reais, é provinciano e ingénuo servir-se da poesia de Paul Celan para provar a capacidade pessoal de chegar ao cimo de uma montanha. E felizmente não basta nem é necessário ser lido em Paul de Man para identificar e tentar entender os grandes enigmas da literatura e da existência. Leia-se Celan, descubra-se que também a sua poesia é mais acessível do que parece à primeira vista. E depois conclua-se o que houver a concluir.
**********



«From whatever direction we approach it - as plain readers of poetry, as critics or literary historians, as biographers or sociologists, or as translators - Paul Celan's work confronts us with difficulty and paradox. The more we try to concentrate on the poem itself, on its mode of utterance, which includes both theme and manner, the more we are made aware that difficulty and paradox are of its essence. As for "placing" his work within the body of German imaginative literature after 1945, or against the larger background of international modernism, all we can be certain of at this point is that it occupies a prominent, isolated, and anomalous position.
(...) His poetic affinities were French, Romanian, Russian and English, as well as German and Austrian.(…) Celan can be seen as continuing a line of development in German poetry that runs from Klopstock and Holderlin in the eighteenth century to the later Rilke and Georg Trakl, at a time when the dominant trends in both Germanys were adverse to that line. (...) Much of Celan's later poetry can be intuitively grasped, but not rendered in another language, without as much knowledge as possible of his sources (...) It is the difficulty and the paradox that demand a special attention to every word in his texts, and this attention is something other than what is normally meant by "understanding". (...) Despite the darkness that belongs to it, necessarily and genetically, despite the characteris­tic leaps and bounds of his poems, their haltingness and their silences, nothing in them is slapdash or vague, nothing is meaningless, nothing has been left to chance or to merely emotive gestures. What makes them difficult is the terrain itself - a terrain in which milk is black, death is the all-encompassing reality - not the nature of its charting. (…) These basic facts of Celan's life (...) may indicate something of the anomaly and extremity of his position as a poet. What the facts do not reveal, and his productivity may seem to belie, is that the loss of his parents and his early experience of persecution left indelible scars. (…) The aspiration towards a pure or "absolute" poetry was pervasive in France after Mallarmé, among poets of almost every school, and it was not necessarily thought to be incompatible with political or moral commitments.»


(Michael Hamburger na Introdução à sua tradução dos poemas de Celan)


**********
CRYSTAL
Do not seek your mouth on my lips,
nor a stranger at the gate,
nor a tear in the eye.

Seven nights higher Red wanders to Red,
seven hearts deeper a hand raps at the gate,
seven roses later the wellspring rushes.



ON A JOURNEY
It is an hour that makes the dust your escort,
your house in Paris an altar for your hands,
your black eyes the blackest of eyes.

It is a farm, a team of horses waits for your heart.
Your hair would blow when you ride — that's forbidden.
They stay there and wave, and know it not.
(In Selected Poems and Prose of Paul Celan,
translated by John Fellstiner, W. W. Norton, 2001)

ZURICH, THE STORK INN
For Nelly Sachs

Of too much was our talk, of
too little. Of the You
and You-Again, of
how clarity troubles, of
Jewishness, of
your God.

Of
that.
On the day of an ascension, the
Minster stood over there, it sent
some gold across the water.

Of your God was our talk, I spoke
against him, I
let the heart that I had
hope:
for
his highest, death-rattled, his
quarrelling word –

Your eye looked on, looked away,
your mouth
spoke its way to the eye, and I heard:

We
don't know, you know,
we
don't know, do we?,
what
counts.
(In Poems of Paul Celan, translated by Michael
Hamburger, Persea Books, N. Y., 1989)

Knut Hamsun: Waiting and seing



Knut Hamsun (1859-1952), em cujos romances alguns membros da Escola de Frankfurt quiseram ver, absurdamente, a defesa dos ideais do nacional-socialismo, deixou uma obra fascinante, moderna ainda hoje, vasta e diversificada. Nem A Fome (1890) nem A Cidade de Segelfoss (1915) são romances de tese neo-realistas. Mas o protagonista do primeiro, nas suas vagabundagens e miséria de aspirante a escritor pode ser visto como um parente espiritual de Baudelaire e Rimbaud. E no segundo Hamsun regista as paixões, conflitos, infelicidades e ambições ligadas à decadência de uma aristocracia da terra em vias de ser eliminada por uma classe nova de activos comerciantes. Os neo-realistas portugueses, influenciados muito provavelmente pelo espisódio «colaboracionista» em que Hamsun se deixou envolver, desprezaram o grande romancista norueguês.
Romances como A Fome, PAN (1894), e sobretudo Mistérios (1892), antecipam por outro lado claramente o «malaise» existencial a que O Estrangeiro de Camus e A Náusea de Sartre hão-de mais tarde dar forma e universalidade. Tudo isso seria pouco se Hamsun não fosse acima de tudo um dos mais extraordinários e humanos contadores de histórias que já existiram. Para quando traduções decentes da sua obra em português?

.........................................................................................................................................................................

The following morning Johan Nagel sent to the post office for his mail; there were some newspapers, including a couple of for­eign ones, but no letter. He placed his violin case on a chair in the middle of the room, as if wishing to show it off; but he didn't open it, leaving the instrument untouched.
In the course of the morning he did nothing except write a few letters and pace the floor of his room reading a book. He did buy a pair of gloves in a shop, and when he visited the market­place a little later, he paid ten kroner for a small carrot-colored puppy, which he at once gave to the hotel keeper. To every­body's amusement, he had baptized the puppy Jakobsen, regard­less of the fact that it was a female.
And so he did nothing the whole day. He had no business to take care of in the town, visited no offices, and paid no calls, not knowing a soul. The people in the hotel were rather surprised by his marked indifference to nearly everything, even his own af­fairs. Thus, the three telegrams were still lying on the table in his room, open to everyone; he hadn't touched them since the evening they arrived. He also failed to answer direct questions at times. Twice the hotel keeper had tried to get out of him who he was and what had brought him to the town, but he had brushed the matter aside both times. Another peculiar trait of his became evident in the course of the day: although he didn't know a soul in the place and hadn't made contact with anybody, he had nonetheless stopped in front of one of the young ladies in town at the entrance to the churchyard - had stopped to look at her and bowed very deeply without a word of explanation. The lady in question had blushed all over her face. Afterward the impu­dent fellow had strolled right down the highway, as far as the parsonage and beyond, which he also did, incidentally, on the following days. He would return so late from his rambles that it was after closing time, and they constantly had to open the door for him at the hotel.
Then, just as Nagel came out of his room the third morning, he was accosted by the hotel keeper, who greeted him and said a few amiable words. They went out on the veranda and sat down. The hotel keeper took it into his head to ask him about the shipment of a crate of fresh fish: "How should I send that crate you see there, can you tell me?"
Nagel looked at the crate, smiled, and shook his head. "Oh, I haven't the least idea about that sort of thing," he replied.
"You haven't, eh? I thought perhaps you had traveled a bit and seen things here and there, how they do it in other places."
"Oh no, I haven't traveled much."
Pause.
"Hm, maybe it's rather with - well, with other things that you have occupied yourself. You're a businessman perhaps?"
" No, I'm not a businessman."
"So you're not here on business then?"
No answer. Nagel lighted a cigar and puffed slowly, looking into vacancy. The hotel keeper observed him from the side.
"Won't you play for us some day? I see you have brought your violin," he tried again.
Nagel replied nonchalantly, "Oh no, I'm through with that." He soon got up without further ado and left. A moment later he came back and said, "Oh, about the bill, I just had an idea; you can give it to me whenever you like. It doesn't matter to me when I pay up."
"Thanks," the hotel keeper replied, "there's no hurry. If you stay for any length of time, we'll have to charge you somewhat of course. I don't know, but do you plan to be with us for some time?"
Nagel suddenly became animated and replied at once; for no rent reason, his face even showed a faint blush.
"Yes, I may very well decide to stay for some time," he said." It all depends. By the way, perhaps I haven't told you: I'm an agronomist, a farmer. I've just returned from a trip, and I may settle down here for a while. But perhaps I even forgot to... My name is Nagel, Johan Nilsen Nagel."
With that he shook the hotel keeper's hand very heartily, apologizing for not having introduced himself sooner. His face didn't betray the least trace of irony.
"It just occurred to me that we might be able to offer you a better, quieter room," the hotel keeper said. "You're next to the stairs now, and that's not always pleasant."
"Thank you, but that's not necessary, the room is excellent, I'm quite satisfied with it. Besides, I can see all of Market Square from my windows, and that's very interesting, of course."
After a moment the hotel keeper went on, "So you're taking a holiday now for a while? Then you'll be around until well into the summer, at any rate?"
"Two or three months, perhaps even longer, I can't say exactly," Nagel answered. "It all depends. I'll have to wait and see."
........................................................................................................................................................................


(Knut Hamsun, Mysteries, translated
from the Norwegian by Sverre Lyngstad,
Penguin Books, 2001)

Posted by Hello

Céu azul Posted by Hello

Reflexos Posted by Hello

Linhas amarelas Posted by Hello

Matizes Posted by Hello

Ângulos Posted by Hello

Friday, December 24, 2004

Hölderlin: Like sleeping infants

Hyperion's Song of Destiny


Holy spirits, you walk up there
in the light, on soft earth.
Shining god-like breezes
touch upon you gently,
as a woman's fingers
play music on holy strings.

Like sleeping infants the gods
breathe without any plan;
the spirit flourishes continually
in them, chastely kept,
as in a small bud,
and their holy eyes
look out in still
eternal clearness.

A place to rest
isn't given to us.
Suffering humans
decline and blindly fall
from one hour to the next,
like water thrown
from cliff to cliff,
year after year,
down into the Unknown.

(Poems of Friedrich Holderlin,
selected and translated by James Mitchel,
Ithuriel's Spear, San Francisco, 2004)

Paulo Louenço: O destino de Judas

Os Sonhos Imperfeitos, de onde tirei este texto, é o primeiro livro de Paulo L0pes Lourenço (Quasi, 2003). Promissor primeiro livro, com belos textos curtos e num estilo original entre a ficção e a poesia.

TUDO NELE ERA TIRADO

Nesse momento, quando o sol caía sozinho, empurrado por uma força maior, Judas saltou. Os olhos fechados, o cabelo desalinhado, as mãos suadas - tudo nele era tirado. Esvaído. O cão no mesmo sítio onde o deixara, preso e a ganir como uma alma perdida. Que estranho é o teu mundo, disse um dia a Jesus. Porém, que estranha era a vida que lhe haviam deixado. Nunca soubera o seu nome, o verdadeiro, aquele que nasce connosco e em nós subsiste para não nos desfazermos, e sentia essa falta como um ferimento exposto.
Enquanto ia no ar (e se podia aperceber), os olhos desenharam dentro das covas a imagem da mãe, na sua túnica castanha de linho desfiado, a olhar para ele. Que bela fora um dia! Lembrava-se, antes de toda esta sucessão de ocorrências, que tinha um destino. Um prato em cima da mesa com pão e mel e um cão fiel que lhe lambia as mãos. O olival que se via da janela e o barulho da bilha a descer na mina. As recordações que nascem dentro da cabeça são apenas desenhos, sabia-o hoje. De pouco lhe valera saber dos astros e das teias rendilhadas gizadas nos pensamentos que com facilidade adivinhava nos homens do seu tempo. Mas não percebera tudo. Não tinha visto chegar, do outro lado da colina, raios de lua. Que lhe ensinara o talmude? A crescer, porventura, ou a negociar no mercado.
Soubera de si e dos seus prazeres e de como a mulher, enfeitada pelas suas jóias, adormece com frequência nos braços do monstro que enfeitiçou.
Sabia decerto que iria morrer. Sabia-o agora, antes de partir a coluna nas pedras, e sorria na antecipação. Podia ter pensado no legado que deixava. Na esperança que bem ou mal inevitavelmente se deixa criar nos nossos. Na fé que estes nos põem. Nos filhos? Talvez. Mas só queria abandonar-se, enquanto sentia indolência e uma alegria fria que nunca experimentara.


2002

Feliz Natal!

Merry Christmas!

Joyeux Noel!

God Jul!


Parmigianino, The little flower girl
Posted by Hello

Monday, December 20, 2004

Mallarmé: Ô rêveuse....


John William Waterhouse, Lady of Shalott


AUTRE ÉVENTAIL
de Mademoiselle Mallarmé


Ô rêveuse, pour que je plonge
Au pur délice sans chemin,
Sache, par un subtil mensonge,
Garder mon aile dans ta main.

Une fraîcheur de crépuscule
Te vient à chaque battement
Dont le coup prisonnier recule
L'horizon délicatement.

Vertige! voici que frissonne
L'espace comme un grand baiser
Qui, fou de naître pour personne,
Ne peut jaillir ni s'apaiser.

Sens-tu le paradis farouche
Ainsi qu'un rire enseveli
Se couler du coin de ta bouche
Au fond de l'unanime pli!

Le sceptre des rivages roses
Stagnants sur les soirs d'or, ce l'est,
Ce blanc vol fermé que tu poses
Contre le feu d'un bracelet.

http://www.mallarme.net/rubrique19.html

http://cage.rug.ac.be/~dc/Literature/Mallarme/

http://www.mallarme.net/

Posted by Hello

Sunday, December 19, 2004

TAO: Men are born soft and supple


Men are born soft and supple;
dead, they are stiff and hard.
Plants are born tender and pliant;
dead, they are brittle and dry.

Thus whoever is stiff and inflexible
is a disciple of death.
Whoever is soft and yielding
is a disciple of life.

The hard and stiff will be broken.
The soft and supple will prevail.


***

When taxes are too high,
people go hungry.
When the government is too intrusive,
people lose their spirit.

Act for the people's benefit.
Trust them; leave them alone.

(Tao Te Ching, a new English version
by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)

Crise da Democracia

É uma banalidade em que não se reflecte o suficiente: viver em democracia não significa que se seja governado pelos melhores e mais competentes; significa apenas que se é governado por aqueles que a maior parte dos cidadãos, se houve honestidade nas eleições, quis que governassem.

Penso nisto e vem-me um calafrio: ter de novo Santana e Portas no governo vai levar-nos à última degradação, a uma decadência que aqueles que acreditaram no «25 de Abril» têm dificuldade em aceitar. Mas «eles», os «outros», não elegeram democraticamente o Bush? O pobre do Kerry a fazer campanha sobre os problemas do país e sobre a guerra do Iraque; e na sombra o guru do Bush a fazer a lavagem ao cérebro aos fundamentalistas e outros afins.

(JN)



Mallarmé: Ce vain souffle que j'exclus....


Venus (Lucas Cranach)



As palavras estão habituadas a estar em certas frases e não noutras. Têm hábitos humanos, noção de classe social dir-se-ia, manias, são vaidosas e conservadoras - e “snobs” talvez. Muitos bons e grandes poetas conseguem, sem ofendê-las, com talento e doçura mas nem sempre – fruto de conhecê-las bem e de não se deixar impressionar pela imagem que elas pretendem fazer respeitar de si próprias - pô-las ao seu serviço sem que elas se revoltem excessivamente (elas nem se darão conta disso em muitos casos - ou fazem de conta que não perceberam). E as palavras, em vez de repetir apenas o conhecido, sugerem então, ou revelam, o desconhecido. Afinal elas próprias tinham poderes que ignoravam – e o poeta teve o poder de ressuscitá-las senão de reinventá-las, deu-lhes juventude e frescura. Poetas como Mallarmé em particular parece terem-se estado nas tintas para o que as palavras podiam pensar dos direitos que tinham de estar em certas frases ou partes da frase e não noutras. Poetas como Mallarmé trataram-nas a todas com uma consideração democrática pouco preocupada com hábitos adquiridos ou com aristocráticas manias de classe. Sem embevecimento. No novo dicionário, posterior à Revolução Francesa, todas as palavras nascem e são iguais em direitos. Poetas como Mallarmé olharam-nas no rosto, a cada uma delas, com inocência e gravidade. Olharam-nas vendo nelas possibilidades e poderes que elas próprias não imaginavam que pudessem estar ao seu alcance. Assim nasceu outra poesia, aparentemente muito hermética e incompreensível, na realidade muito menos hermética e muito mais inteligível do que imaginam os leitores tímidos, pretensiosos ou sem experiência. (J. Nagel)

***

FEUILLET D'ALBUM

Tout à coup et comme par jeu
Mademoiselle qui voulûtes
Ouïr se révéler un peu
Le bois de mes diverses flûtes

Il me semble que cet essai
Tenté devant un paysage
A du bon quand je le cessai
Pour vous regarder au visage

Oui ce vain souffle que j'exclus
Jusqu'à la dernière limite
Selon mes quelques doigts perclus
Manque de moyens s'il imite

Votre très naturel et clair
Rire d'enfant qui charme l'air

(Stéphane Mallarmé)

Posted by Hello

Saturday, December 18, 2004

Nu


Photo Pierre Sarriaud (3) Posted by Hello

Heróis inúteis

No cavalo branco do tempo, pelas
florestas petrificadas, a dialogar
com os cimos agudos das montanhas.
O som. Rasga o papel do infinito
silencioso com o seu estridor, as
patas espezinham e matam. Que fica,
para que com justiça os idolatremos,
dos heróis que os séculos gastaram
a construir a História? Valeram
a pena os mortos, as noites de
sobressalto, a crueldade? A ínfima,
a invisível gota de ternura, onde
se tinha escondido? Impossível
destruí-la. Mas no coração dos
heróis terá tido tempo de brilhar?

Enlouquecer, ir enfim repousar de
tanto reflectir, aconselhava-se K.
Que os ambíguos figurantes do mito
permaneçam no seu lugar simbólico,
basta de confusões. Esperança no
amor? Sem futuro nem passado,
K. duvidava. Qual a utilidade das
conquistas se um dia, de novo, tudo
tem de ser recomeçado? Cavalo negro
do tempo que um dia foste branco, pelas
florestas calcinadas correram as tuas ágeis
pernas. Agora aonde te levam os sonhos
de poder antigos? Indeciso no seu fervor,
no amor que tinha à vida, K. parecia desistir.
À sua volta a rotina dos dias não mudara.
Acenava, sorrindo, a adolescente no café.
Não passamos de fúteis consumidores
de sonhos? Acendo um cigarro, diz K.
sossegadamente, e logo depois acontece-me
adormecer. Sem sentido às vezes, as frases
não cessam de desfilar na minha cabeça.
A música pode questionar o sentido do mundo;
mas confirma a verosimilhança da tragédia.
K. cansou-se, o tédio invadiu o seu espírito.
Do amor daquelas que amámos só restaram
os destroços. Para quê esperar ainda? Qual
a recompensa do heroísmo? Deixava descair
a cabeça na mesa, adormecia - não estava
bêbedo nem intranquilo - até amanhecer.
E o som, na sua ascensão até às alturas
infinitas, levava em si restos do devaneio,
pedaços do sonho das almas indecisas.


(João Camilo, «Ó Cores Virtuais», Fenda Edições, Lisboa, 2004)

Escadas


Foto de Pierre Sarriaud (2) Posted by Hello

Em bicos de pés


Foto de Pierre Sarriaud (1) Posted by Hello

Links

Revista brasileira com autores de língua portuguesa (poesia, conto, etc.) e ilustrações de qualidade:

http://www.sara.fazib.nom.br/

Mais poesia e prosa de língua portuguesa:

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/poetas.htm

Uma página sobre o poeta Daniel Faria:

http://www.danielfaria.org/

Ciberkiosk, revista literária na internet, precursora de muita coisa que veio depois, já não se publica, mas os números publicados continuam disponíveis em arquivo:

http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk1/index.html


Roy Campbell: Luís de Camões

«Roy Campbell (1901-1957) was considered by many of his peers, most notably by T.S. Eliot, Dylan Thomas, and Edith Sitwell, as one of the finest poets of the 20th century. Why then, one wonders, is he not as well-known today as many lesser poets? The answer lies in his robust defense of unfashionable causes, both religious and political, but also, and more regrettably, in his unfortunate predilection for making powerful enemies. Seldom has a life been more fiery, more controversial, and more full of friendship and enmity than that of this most mercurial of men. (...) Desiring an escape from the world of the "intellectuals without intellect," Campbell moved with his wife, Mary, and their two daughters to Provence and, later, to Spain. Throughout this period he and Mary found themselves being slowly but irresistibly drawn toward the Catholic faith.»

http://www.catholicauthors.com/roy_campbell.html


***
«He died in 1957 in a car accident in Portugal [perto de Setúbal], his home country at the time.»
***


Luís de Camões

Camões, alone, of all the lyric race,
Born in the black aurora of disaster,
Can look a common soldier in the face;
I find a comrade where I sought a master:

For daily, while the stinking crocodiles
Glide from the mangroves on the swampy shore,
He shares my awning on the dhow, he smiles,
And tells me that he lived it all before.

Through fire and shipwreck, pestilence and loss,
Led by the ignis fatuus of duty
To a dog's death - yet of his sorrows king –

He shouldered high his voluntary Cross,
Wrestled his hardships into forms of beauty,
And taught his gorgon destinies to sing.


Friday, December 17, 2004


Cézanne Posted by Hello

Fialho de Almeida: Era um esquife de pau preto

.............................................................................................................
Era um esquife de pau preto com balaústres delga­dos, tendo o ar dum berço. Na vila causava horror. Era com que metiam medo às crianças; via-se-lhe pregada na cabeceira uma cruz preta, e um Cristo de ferro com resplendor de lata, que tremia, agonizava, pèssimamente fundido, mostrando os olhos vazios. No fundo via-se a coberta de paninho preto em farrapos, onde deitavam os cadáveres, havia muito. Esse pano tinha nódoas à altura da cabeça. Os va-nu-pieds abatidos para a vala durante os últimos quinze anos haviam ali impresso o seu remember de muco sanguinolento, de que tresandava um fétido em baforadas. Era onde ia o Jerolmo, vestido no seu fato de saragoça, com sapatos de bezerro enormes nos pés, os dois pulsos unidos por uma tira de chita negra, a premir as mãos cruzadas no peito, na atitude de uma imploração derradeira.
- Ainda ontem a estas horas estava são e vivo! - era o pasmo da vila. E vinha todo um volume de ponderações sobre a fraqueza da criatura de Deus.
Aos solavancos dos velhos, que tinham desiguais alturas, o corpo pendera mais para uma banda: à menor anfractuosidade do caminho, então, os sobrecarregados rogavam surdamente as pragas mais torpes - que nem valia a pena levar um boi daqueles pelos seis vinténs de esmola.
O mais ratão dos quatro era um velhito baixo, que mostrava escarlate uma órbita sem olho e já caíra numa contramina de horta. Dizia ele com bela ênfase, todo sério:
- Como estas bestas morrem sem derreterem os toucinhos, senhores!
O garoto do banco escandalizou-se e resmungou:
— Vossemecê não tem vergonha em fazer mangação dos defuntos?
Os outros riram, e o mais alto:
— Caluda, filhote! Que ainda te havemos de levar adiante.
Mas o prior voltou-se e, da frente, o sacristão veio correndo, de cruz ao ombro, em ar de clavina, com a caldeirinha estendida para o responso. Os quatro da tumba pararam, o garoto estendeu o banco.
- Abaixo! - ordenou o prior enfastiado.
O esquife desceu. Uma vida fecundante de átomos impalpáveis vibrava na luz, metálica na irradiação da cúpula amplíssima. O enterro tinha parado e todos voltavam para trás, olhando o prior que espargia água benta sobre o corpo do Jerolmo. Estava-se quase fora da vila, ao meio da rua última daquela banda, que entre filas de casebres caiados corria, corcovando-se bruscamente depois sobre a azinhaga.

...........................................................................................................................................

(Fialho de Almeida, «Sempre Amigos»)

Thursday, December 16, 2004

Let go

He who stands on tiptoe
doesn't stand firm.
He who rushes ahead
doesn't go far.
He who tries to shine
dims his own light.
He who defines himself
can't know who he really is.
He who has power over others
can't empower himself.
He who clings to his work
will create nothing that endures.


If you want to accord with the Tao,
just do your job, then let go.

(Tao Te Ching, a new English version by Stephen Mitchell, Harper Perennial, 1988)

Have I learned to understand you?

1

In his essay "The Influence of Classical Japanese Poetry" (The Elastic Retort, Seabury Press, 1973), Rexroth offers this warning for readers of poetry in translation: "If Japanese, or for that matter, Chinese poetry is translated into Western syntax and all the spark gaps of meaning are filled up, what results is a series of logically expressed epigrams, usually senti­mental, with a vulgar little moral interpretation at­tached, or at the best a metaphorical epigram of a moment of sensibility like [Ezra] Pound's 'In a Sta­tion of the Metro' which most resembles, not classi­cal Japanese tanka or even the best haiku, but the more sentimental work of the late Yeddo [Edo] pe­riod. It is this compulsion to fill up the gaps and in­terpret the poem for Western readers which vitiates the work of so many translators, both Western and Japanese. They too often believe that Westerners could not possibly understand a Japanese poem in all its simplicity."

(Sam Hamill, prefácio a Love Poems from the Japanese, Shambhala Library, London and Boston, 2003)

2


Se se consegue dizer o que há a dizer em poucas palavras, para quê usar muitas? Encontrar o caminho mais curto para atingir a meta, seja ela qual for, exige técnica e maturidade, às vezes coragem. Aquele que fala muito para dizer pouco anda perdido; e quanto mais fala, mais perdido fica: a meta perseguida distancia-se dele enquanto ele acumula as palavras "erradas" e inúteis.
Rimbaud, Baudelaire, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), Ruy Belo e muitos outros que como eles escreveram febrilmente não falaram forçosamente «de mais». O falar «de mais» revela-se na relação entre a quantidade e a qualidade do dizer, mostra-se na relação entre o que se gasta e o que se ganha, apura-se tendo em conta o grau de necessidade e de utilidade da palavra dita (escrita). Ser lacónico e cerebral não é condição necessária nem suficiente para aceder à poesia. O excesso, o que sobra do que se sente e entende, o que vai além do necessário e o perturba e nos distrai dele, a pirueta narcísica, é isso que impede a possibilidade do poema.
Mais fácil é escrever distanciando-se ironicamente da experiência, da vida, dos sentimentos, da literatura, dos nossos vícios. Ter consciência da imperfeição ou da tragédia, mas recusar-se a levá-la a sério (como Fernando Pessoa, por exemplo). Os poetas profundos, sérios, trágicos, os que restituem à linguagem a qualidade original do divino e do sagrado, aqueles que como Trakl e Holderlin aceitam «arriscar-se» no sentido em que Heidegger usa esta expressão, esses são uma raridade.
(J. Nagel)
3

I sit at home
In our room
By your bed
Gazing at your pillow.
Kakinomoto No Hitomaro
You say, "I will come."
And you do not come.
Now you say, "I will not come."
So I shall expect you.
Have I learned to understand you?
Lady Otomo No Sakanoe
Better never to have met you
In my dream
Than to wake and reach
For hands that are not there.
Otomo No Yakamochi
(to Lady Sakanoe)
We were together
Only a little while,
And we believed our love
Would last a thousand years.
Otomo No Yakamochi


(Translated from the Japanese by Kenneth Rexroth)








Pêssegos, peras, uvas (Cézanne) Posted by Hello

Junho Provençal


Caminho (Cézanne) Posted by Hello


Junho Provençal

O sol deixava-nos o calor como recompensa
enquanto visitava os outros domínios.
Foram longas as tardes
e claras
e o infinito impensável
e ameaçava de longe a morte,
o rapaz da loja de discos ficara a ser
aquele que tivera um destino trágico.
Ah, o passatempo de estar vivo, andar
por aí de café em café,
pelas livrarias e jardins, como distraído
da nossa condição.
A cinza branca da montanha de Sainte Victoire,
a torre da catedral vista do Cours Gambetta,
a facilidade dos plátanos em criar-se folhas
abriam-nos o corpo à violência incansável do estilo.
No quadro de Cézanne as cebolas e a toalha branca
tinham em cima da mesa a vida repugnante
de entranhas expostas; e a garrafa, do lado esquerdo,
assemelhava-se ao jogador de cartas de um outro quadro.
Pelos caminhos do campo, estreitos, ia-se à tarde,
e como esquecer que tínhamos visto rostos
de que as palavras não sabem falar?
Um vento suave agitava
as folhas verde-pálido das árvores.


(João Camilo, A Mala dos Marx Brothers, Editorial Caminho, 1988)