Candid Lang, Sadkowsky et Titime
Um devaneio: que bom que seria haver um dia sem algarismo nem nome, não pertencendo a mês nenhum, entre o fim de um ano e o início do seguinte. Dia intemporal de liberdade, dia fora do tempo humano. Imitação da eternidade ou instante divino. Sem amarras, sem obrigações, dia desligado da História, pausa absoluta. O tempo parava. Escapava-se ao peso dos calendários, existíamos sem «contador». Descansava-se da própria vida. As consequências da existência desse dia sem existência oficial e burocrática seriam imensas. Falta-me a paciência e o talento - felizmente! basta de «ciência»! - para as imaginar, enumerar, organizar em discurso. Mas penso: nesse dia não se podia morrer, por exemplo. Nem deixar de amar. Nem acabar uma relação. Nem fazer sofrer. Aliás nesse dia nada tinha nome. Nada se podia definir porque ter certezas seria visto como uma forma errada e muito ingénua de relacionamento com a vida. Era um dia que «não ficava registado» em lugar nenhum e a que não seria possível nunca referirmo-nos mais tarde. Bem sei, é utopia e não tem lógica. É apenas um devaneio, nascido de não sei que necessidade exactamente.
























