Saturday, December 31, 2005

Possibilidades

In the beginner's mind there are many possibilities; in the expert's mind there are few.

Shunryu Suzuki

Wednesday, December 28, 2005

"Literatour"

Literature is a phase of life.

To wear the arctic fox
you have to kill it.

I am hard to disgust,
but a pretentious poet can do it.

Writing is exciting
and baseball is like writing.


Marianne More

Death Valley

















http://t-pikul.blogspot.com/

Saturday, December 24, 2005

John Cage: The student was enlightened

A young man in Japan arranged his circumstances
so that he was able to travel to a distant island
to study Zen with a certain Master for a
three-year period. At the end of the three
years, feeling no sense of accomplishment,
he presented himself to the Master and
announced his departure. The Master said,
“You’ve been here three years. Why don’t
you stay three months more?” The student agreed,
but at the end of the three months he still
felt that he had made no advance. When he
told the Master again that he was leaving,
the Master said, “Look now, you’ve been here
three years and three months. Stay
three weeks longer.” The student did, but
with no success. When he told the Master
that absolutely nothing had happened, the
Master said, “You’ve been here three years,
three months, and three weeks. Stay
three more days, and if, at
the end of that time, you have not
attained enlightenment, commit
suicide.” Towards the end of the
second day, the student was enlightened.

John Cage: How many hours?

Schoenberg always complained that
his American pupils didn’t do
enough work.
There was one girl in
the class in particular who,
it is true,
did almost
no work at all.
He asked her
one day why she
didn’t accomplish more.
She said,
“I don’t have
any time.” He said,
“How many
hours are there in the
day?” She said,
“Twenty-four.”
He said,
“Nonsense:
there are as many
hours in a day
as you put into it.”

John Cage: On taking notes

I went to hear Krishnamurti speak.
He was
lecturing on how to hear
a lecture.
He said,
“You must pay
full attention to what is being
said and you can’t do
that if you take notes.”
The
lady on my right was taking
notes.
The man on
her right nudged her and
said, “Don’t you
hear what he’s saying?
You’re not
supposed to take notes.”
She then
read what she had written
and said,
“That’s right.
I have it written down
right here in my notes.”

Jonh Cage: Very difficult

Once
over in
Amsterdam
a
Dutch musician said to me,
“It
must be very difficult
for you in America
to write music.
You are
so far away
from
the centers of tradition.”

Thursday, December 22, 2005

Quasimodo: Rifugio d'uccelli notturni
























RIFUGIO D'UCCELLI NOTTURNI


In alto c'è un pino distorto;

sta intento ed ascolta
l'abisso
col fusto piegato a balestra.

Rifugio d'uccelli notturni,

nell' ora piú alta risuona
d'un battere d'ali veloce.

Ha pure un suo nido il mio cuore
sospeso nel buio, una voce;
sta pure in ascolto, la notte.

REFUGE OF NIGHT BIRDS


Up there is a twisted pine;
intent it harkens to the abyss,
its trunk bent like a crossbow.


Refuge of night birds,

at the darkest hour it reverberates
to the swift strokes of wings.


My heart too has its nest

suspended in the dark, and its voice;

also intent, it harkens in the night.


Salvatore Quasimodo, To Give and to Have and other poems,
translated by Edith Farnsworth, Henry Regnery Company, Chicago, 1969

Tuesday, December 20, 2005

Monday, December 19, 2005

Várias vezes grandes :-)

Jornal de Notícias:

"A Península Ibérica foi um importante refúgio da população durante o Último Máximo Glaciar, há cerca de 15 mil anos, assumindo um papel fundamental no repovoamento da Europa após a melhoria das condições climatéricas."

Assim se confirma o papel preponderante que Portugal e Espanha detêm e detiveram na história da humanidade: eles, os outros - franceses, ingleses, alemães, americanos, etc. - afinal são todos de origem ibérica e nossos descendentes, têm uma costela nossa e nós costelas iguais às deles. E caem pela base, para um lado, as ideologias racistas, para o outro as especulações filosóficas da Nova Renascença, do Saudosismo, de Eduardo Lourenço e de José Gil sobre a alma ou o carácter "nacional". O nosso imaginário empobreceu.

Palavras no ar

Convença os seus vizinhos de prédio - ou a gente do seu bairro ou da sua cidade ou da sua aldeia - a invadir os prédios, um bairro, uma cidade ou uma aldeia próximas. Convença-os de que esses vizinhos de prédio, de bairro, de cidade ou de aldeia são uma escumalha que anda a planear destruir o vosso prédio, o vosso bairro, a vossa cidade, a vossa aldeia, afirme contra todas as opiniões contrárias que há provas indiscutíveis daquilo que afirma, de que a ameaça é infelizmente séria e odiosa.

Arrastados os vizinhos ou os concidadãos para a aventura, já consumada a invasão, já depois dos inevitáveis mortos, já depois do dinheiro e energia gastos a destruir gloriosamente os perigosos bandidos, a eliminar os inimigos da paz e da humanidade, vá à televisão confessar que errou e pedir desculpa pelo engano: afinal, bolas, não era uma epopeia; foi uma asneira, mas as intenções eram e continuam a ser as melhores. Acha que acreditam em si? Acha que pedir desculpa resolveu algum problema e o iliba de culpas? Acha que as suas palavras alguma vez mais vão ter, na opinião de gente honesta e séria, alguma importância? Acha que morrer pela sua causa "errada" tem alguma justificação responsável?

Em vez de resolverem os nossos problemas, alguns políticos especializam-se em criar-nos problemas que nem sequer tínhamos antes de eles terem começado a querer ajudar-nos.


Sunday, December 18, 2005

Les dangers du panfictionisme

L'effet de non-fiction: fragments d'une enquête




Le discours a longtemps été sous le coup d'une présomption de référentialité: sauf indication contraire, ses lecteurs supposaient qu'il se rapportait (conformément ou non) au réel. On conçoit, dans une telle perspective où la dimension référentielle est un attribut par défaut des textes, l'importance de ce qu'on a fini par appeler les indices de fictionnalité, ceux par exemple que traquent Käte Hamburger dans Logique des genres littéraires ([1957] 1986) ou Ann Banfield dans Unspeakable Sentences (1982). Mais nombreux semblent ceux pour qui la perspective globale, depuis quelques décennies, s'est comme inversée: de la présomption de référentialité, on est passé à une présomption généralisée de fictionnalité - ou, pour reprendre la formule de Marie-Laure Ryan (1999), au dogme du panfictionisme: tout discours, en ce qu'il implique immanquablement un gauchissement, subjectif ou rhétorique, relèverait de la fiction.
Ce renversement n'est pas sans occasionner quelques difficultés et confusions. L'une de ses plus immédiates conséquences est de soustraire les catégories de subjectivité et d'argumentation de la sphère du référentiel pour les reporter à priori à celle du fictionnel: toute expression d'un point de vue nous ferait basculer dans la fiction. On pourra trouver prohibitifs les coût cognitifs d'une telle position. (...)
Dans ses excès mêmes, le panfictionisme n'est peut-être cependant que le symptôme d'un problème auquel tout lecteur est confronté: comment distinguer, s'agissant de textes, les renvois à une réalité extérieure des renvois fictionnels, qui construisent ce qu'ils semblent se contenter de désigner? Non seulement les textes mettent à plat les références (supposément) factuelles et les références fictionnelles - les romans de Balzac ne distinguent pas les statuts ontologiques respectifs de, disons, « Paris» et « Rastignac» -, mais leurs éventuelles distinctions demeurent des opérations textuelles, sujettes comme toutes les autres au soupçon. On est dès lors tenté de se lancer dans l'examen, non seulement des indices de fictionnalité, mais aussi des indices de non-fictionnalité: lieux textuels où le texte prétend abdiquer ses droits à la construction imaginaire, sorties de la fiction ménagées de l'intérieur même de cette fiction, garde-fous faits de mots et, du coup, pris dans toutes les manoeuvres déstabilisantes que le discours peut mener à leur endroit.
(...)

Como se vê pelo texto acima citado, nem tudo está dito sobre questões de "retórica narrativa" - a reflexão continua. Algumas obras interessantes, entre tantas outras que podem ser úteis:
. Brian Richardson (Ed.), Narrative Dynamics, Essays on Time, Plot, Closure and Frames. The Ohio State University Press, Columbus, 2002
. Luc Herman & Bart Vervaeck, Handbook of Narrative Analysis. University of Nebraska Press, Lincoln and London, 2001
. Wallace Martin, Recent Theories of Narrative. Cornell University Press, Ithaca and London, 1994 (1986)
. Ladislav Matejka and Krystyna Pomorska (Eds.), Readings in Russian Poetics, Formalist and Structuralist Views. Dalkey Archive Press, 2002

Começar uma história com a frase "Era uma vez" e terminá-la com "E depois casaram e tiveram muitos meninos e foram muito felizes" é equivalente, em técnica ou arte narrativa, a "encerrar" um desenho ou uma pintura num "quadro". E quando Charlie Chaplin, a caminho da linha do horizonte, se afasta da câmara e de nós com o seu andar cambaleante, o filme está também a assinalar-nos que a ficção vai acabar e que vamos em breve ter de regressar à nossa realidade; "effet de cadre" novamente. A arte, em princípio, tem limites ou fronteiras que a separam do resto da realidade, do que não é ou não aspira a ser arte (questão, no entanto, hoje muito, muito complicada). O facto de não ter muito provavelmente lido os formalistas russos não impediu Frank Zappa de fazer uma observação muito interessante sobre a noção de "frame" (sobre o "efeito de quadro"), como refere o Jorge no Arukutipa.

John Cage: The Eskimo lady

An Eskimo lady who couldn’t speak or understand a
word of English was once offered free
transportation across the United States plus $500
providing she would accompany a corpse that was
being sent back to America for burial. She accepted.
On her arrival she looked about and noticed that
people who went into the railroad station left the
city and she never saw them again. Apparently they
traveled some place else. She also noticed that
before leaving they went to the ticket window, said
something to the salesman, and got a ticket. She
stood in line, listened carefully to what the person
in front of her said to the ticket salesman,
repeated what that person said, and then traveled
wherever he traveled. In this way she moved about
the country from one city to another. After some
time, her money was running out and she decided to
settle down in the next city she came to, to find
employment, and to live there the rest of her life.
But when she came to this decision she was in a small
town in Wisconsin from which no one that day was
traveling. However, in the course of moving about
she had picked up a bit of English. So finally she
went to the ticket window and said to the man there,
“Where would you go if you were going?” He named a
small town in Ohio where she lives to this day.

Rostos

















(jc)

Céu azul de Coimbra




























(jc)

Saturday, December 17, 2005

Links

A Passarinha

Inquietações

Legendas e etc.

Meia Livraria

Setaíris

Lusofonia


Geografias


Claro escuro

A pé ou de bicicleta






































(jc)

John Cage: Histórias (3)

I went to a concert upstairs in
Town Hall. The
composer whose works were being
performed had provided program
notes. One of
these notes was to the effect
that there is too much pain
in the world.
After the concert I was
walking along with the composer
and he was telling me
how the performances had not been
quite up to snuff.
So I said,
“Well, I
enjoyed the music,
but I didn’t agree with that
program note about there being
too much pain in the world.”
He said, “What?
Don’t you
think there’s enough?” I
said, “I think
there’s just the right amount.”

John Cage: Histórias (2)

An Indian lady invited me to dinner and said Dr.
Suzuki would be there. He was.
Before dinner I mentioned Gertrude Stein.
Suzuki had never heard of her. I
described aspects of her work, which he said sounded
very interesting. Stimulated, I mentioned
James Joyce, whose name was also new to him.
At dinner he was unable to eat the curries
that were offered, so a few uncooked
vegetables and fruits were brought, which
he enjoyed. After dinner the talk
turned to metaphysical problems, and
there were many questions, for the
hostess was a follower of a certain Indian
yogi and her guests were more or less
equally divided between allegiance to Indian
thought and to Japanese thought.
About eleven o’clock we were out on the
street walking along, and an American
lady said, “How is it, Dr. Suzuki?
We spend the evening asking you
questions and nothing is decided.” Dr.
Suzuki smiled and said, “That’s why
I love philosophy: no one wins.”

John Cage: Histórias (1)

A depressed young man
came to
see
Hazel Dreis,
the
bookbinder.


He said,
“I’ve decided to commit
suicide.”


She said,
“I think it’s a good idea.
Why don’t you do it?”

Cage: poetry

I have nothing to say
and I am saying it
and that is poetry

John Cage

Paisagens











































(jc)

Eugenio Montale: Gl'impossibili segni

Tentava la vostra mano la tastiera,
i vostri occhi leggevano sul foglio
gl'impossibili segni; e franto era
ogni accordo come una voce di cordoglio.

Compresi che tutto, intorno, s'inteneriva
in vedervi inceppata inerme ignara
del linguaggio più vostro: ne bruiva
oltre i vetri socchiusi la marina chiara.

Passò nel riquadro azzurro una fugace danza
di farfalle; una fronda si scrollò nel sole.
Nessuna cosa prossima trovava le sue parole,
ed era mia, era nostra, la vostra dolce ignoranza.

Eugenio Montale

Thursday, December 15, 2005

Eugenio Montale: Forse un mattino

Forse un mattino andando in un'aria di vetro,
arida, rivolgendomi, vedrò compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.

Poi come s'uno schermo, s'accamperanno di gitto
alberi case colli per l'inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n'andrò zitto
tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.


Eugenio Montale

Metáforas

................................................
Con le barche dell' alba
spiega la luce le sue grandi vele
e trova stanza in cuore la speranza.
.................................................


Eugenio Montale

Wednesday, December 14, 2005

Mistérios do tempo

Não ter futuro torna cinzento e triste o tempo presente?

Ter passado não nos consola de não ter futuro nem basta para reabilitar o tempo presente?

Ter apenas presente pode levar ao tédio ou ao desespero?

Ter apenas futuro impacienta-nos ou deixa-nos com um sorriso confiante e sereno nos lábios?

Ter passado, presente e futuro é o melhor que nos pode acontecer?

Monday, December 12, 2005

Sunday, December 11, 2005

"Falso" e "disparatado"?

Por indicação de Fernando Venâncio, Luís Rainha referiu-se no Aspirina B à minha nota anterior intitulada "A culpa é do português". Um comentário à reflexão de Luís Rainha afirma que o texto de Eduardo Prado Coelho a que eu me referi "é obviamente falso" porque "nunca Prado Coelho assinaria um texto tão mal escrito e disparatado."
Devo ter recebido esse texto atribuído a EPC por email, mas também o vi referido no Forum do Sporting como tendo sido publicado no Público com o título "Precisa-se de matéria prima para construir um País". Ou não se trata do mesmo texto?
Como não há nada de óbvio nesta questão, fico sem saber se o texto a que me referi foi de facto escrito por EPC
.
Acrescento que ao referir-me aos portugueses que vivem no estrangeiro não estava a pensar em sucessos estrondosos nem em sucessos intelectuais em particular. Queria apenas sublinhar que, uma vez transplantados para o estrangeiro, os portugueses têm nos países onde vivem um comportamento e "sucessos" semelhantes aos dos cidadãos dos países em que se integraram. O que torna bastante problemática a existência de uma "personalidade", "carácter" ou "alma" "nacional" dos indivíduos.

P. S. A questão do "insucesso escolar" dos filhos dos nossos emigrantes, evocada por Luís Rainha, parece-me que se explicará em grande parte, no caso do Luxemburgo, como apontam os comentários, pelo trilinguismo. Mas visto que esse insucesso escolar (certamente relativo) se verifica noutros países (UK e França, por exemplo), deve haver explicações complementares. A qualidade e capacidade de apoio fornecido pela família e a atitude dos professores e da escola para com o "estranho" ou "estrangeiro" parece-me que não podem deixar de ser tidas em conta nestas circunstâncias particulares .





Friday, December 09, 2005

Rendimentos

Os crimes, as guerras, os processos, as injustiças, os escândalos, as catástrofes naturais: uma fonte de rendimento permanente para os jornais e a televisão. Criam postos de trabalho, inegavelmente. Quanto valeriam as acções da CNN e de outras indústrias da comunicação sem a guerra do Iraque e outros crimes quotidianamente cometidos?

Caretas

Os grandes actores não fazem caretas. E a gente percebe e sente o que é suposto ser sentido e percebido.

Pedras











































































(jc)

Thursday, December 08, 2005

Frases

Que pensará Luís Figo desta última frase em que o despedido V. Luxemburgo, depois de afirmar que ganharia algum título ainda este ano, se mete com os jornalistas?

«Àqueles que confundem o jornalismo com a perseguição, simplesmente lhes desejo muita sorte».

Cristiano Ronaldo

Na cesta do pão assobiaram o rapaz. Pelo seu sportinguismo, pelos vistos. Who cares?

"Forty years ago (...) before the imposition of strict fitness regimes gave full-backs the speed and suppleness of wingers, the man in the blue No7 shirt had enjoyed ample space and time in which to weave his spells. No such luxury is afforded Ronaldo in the crowded areas of today's European matches: his stepovers, backheels and flicks are performed in spaces the size of a telephone box.

Last night he was also whistled with ear-splitting ferocity by the home fans, who remember his time with Sporting, their local rivals. How they loved it when, after a largely frustrating night, he was replaced by Park Ji-Sung as, with 20 minutes left, Ferguson started to play his final cards."

Guardian

Clément Rosset

"Aussi paradoxal que cela puisse paraître, la conception tragique de la vie peut nourrir le pessimisme mais peut aussi attiser la joie de vivre, en ce que celle-ci peut entendre les raisons de condamner la vie, de maudire toutes les tristesses et les misères qui lui sont attachées, et cependant résister à toutes les raisons qui lui sont contraires. C'est une expérience ultime de la joie."

Monday, December 05, 2005

A culpa é do português

O filósofo José Gil há tempos, Eduardo Prado Coelho recentemente, encontraram o culpado de todos os males portugueses: sem surpresa, o culpado é o português: o cidadão, o ser humano nascido no canteirinho de flores à beira-mar plantado. Não entendo o que há de reconfortante em encontrar tal explicação para a desgraça em que se transformou o nosso país. Mas para contradizer tais crenças metafísicas na existência de uma personalidade determinada pela nacionalidade basta ter em conta que quando transplantados para fora de Portugal os mesmos cidadãos portugueses culpados de tantos vícios enquanto estão submetidos à ordem portuguesa se revelam pelo menos iguais no talento, nos empreendimentos, no sentido das responsabilidades e no carácter, aos cidadãos dos países em que vivem. O que parece provar que o cidadão enquanto indivíduo mais não é do que um produto do sistema. Não é ele que pensa, fala e age; é o sistema que nele age, fala e pensa. Conclusão: os nossos políticos, os nossos intelectuais ou educadores, as nossas instituições são de facto responsáveis pela situação em que vivemos e temos vivido. Querer outra coisa é romantismo de intelectuais.

Philip Larkin: The wish to be alone

Wants

Beyond all this, the wish to be alone:
However the sky grows dark with invitation-cards
However we follow the printed directions of sex
However the family is photographed under the flagstaff -
Beyond all this, the wish to be alone.

Beneath it all, desire of oblivion runs:
Despite the artful tensions of the calendar,
The life insurance, the tabled fertility rites,
The costly aversion of the eyes from death –
Beneath it all, desire of oblivion runs.

Friday, December 02, 2005

Salvatore Quasimodo: Poco pane in dono

IN ME SMARRITA OGNI FORMA

Altra vita mi tenne: solitaria
fra gente ignota; poco pane in dono.
In me smarrita ogni forma,
bellezza, amore, da cui trae inganno
il fanciullo e la tristezza poi.


P.S. Franz Schubert,
String Quintet in C major D956,
Lindsay String
Quartet with Douglas Cummings

Thursday, December 01, 2005

OCR

If you have a blog you know how important it is to have a good OCR software. The best, the only one I never had to complain about, is Abby Fine Reader. Among the worst there is a ridiculous belgian (?) thing for MAC called "read iris" - avoid it: it's not good and after they have sold you version 9 in June they ask you to pay 99 euros again in October for what they call version 11.

Sunday, November 27, 2005

Charles Bukowski: I don’t think anything

what?

I was already old and hadn't made it
as a writer
when a young man sitting on my couch
asked me,
"what do you think of Huxley living up
in the Hollywood hills while you live down here?"
"I don't think anything about it,"
I told him.
"what do you mean?" he asked.
"I mean, I don't think it has anything
to do with anything."

now the young man who asked me
that question lives up in the hills
and I still live down here
and I still don't think it has anything to do with
anything.
especially with writing.
but people keep asking foolish
questions,
don't
they?


Charles Bukowski, The Flash of Lightning
Behind the Mountain
, Harper Collins, 2004

Friday, November 25, 2005

Oslo






































































































(jc)

Thursday, November 24, 2005

Wednesday, November 23, 2005

Sunday, November 20, 2005

Erasmus: What a spectacle they offer!

As for artistic performers, what a spectacle they offer! since self-love is the special mark of them all. You will sooner find one of them ready to surrender his patrimony than one who will admit he is not at the pinnacle of his profession. This is especially true of actors, singers, orators, and poets; the more ignorant one of them is, the better pleased he will be with himself, the more he will preen and show off. And as like is attracted to like, the more incompetent the performer, the more admirers he will attract, so that the worst art delights most people - the greater of mankind being, as I said before, given over to folly. If then the incompetent man pleases himself best and gains the admiration of most people, why should he bother with real skills which will cost him a lot to acquire, yield little, afflict him with doubts and misgivings, and in the end please many fewer people?

Desiderius Erasmus, The Praise of Folly, A Norton Critical Edition, translated by Robert M. Adams

Sunday, November 13, 2005

O que é "literatura"?

Júlio Dinis, o início de A Morgadinha dos Canaviais:

Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.

O que é que se perde se se eliminarem no texto de Júlio Dinis algumas palavras e frases e se condensar a informação transmitida pelo texto em duas frases curtas?

Ao cair de uma tarde de Dezembro subiam dois viandantes a encosta de um monte por uma sinuosa vereda. Era nos extremos do Minho, na vizinhança de Trás-os-Montes.

O que é a "literatura"?



Thursday, November 10, 2005

Casas















































































(jc)

Tuesday, November 08, 2005

Académicos

Há dois tipos de trabalhos académicos. Uns são, salvo seja, "politicamente correctos" e convencionais, de tipo enciclopédico: são às vezes eruditos, frequentemente inventários enfadonhos - e nem sempre úteis - de interpretações e opiniões alheias. Multiplicar as notas de rodapé nem sempre os ajuda, pois às vezes a citação não passa de uma forma de exibicionismo superficial e de submissão cega à instituição universitária. Estes tipos de trabalho são muitas vezes uma estopada devido à aceitação implícita, senão reverenciosa, de que tudo ou muito ou uma parte do que foi dito antes tem importância quando de facto não tem: as bibliotecas guardam inúmeras obras fundamentais mas também estão cheias de imbecilidades.

Outros trabalhos ocupam-se da real thing e não estão dispostos a admitir que para entender as coisas mais evidentes num texto se tem de ter lido outra pessoa que o entendeu antes (era o que faltava, que mesmo as evidências e as banalidades mais comuns tivessem de ser atribuídas a cabeças anteriores à nossa só para sacrificar ao ritual das autoridades!) Estes últimos trabalhos fornecerão menos informação histórica ou enciclopédica sobre o tema que tratam, referindo só o que interessa para o caso ou projecto particular. Mas ao praticar um saudável desprezo pela citação inútil, despropositada e pretensiosa, reabilitam juvenilmente - eh oui! - a coragem de "pensar por si". Ousando enfrentar o objecto de estudo sem a protecção de umas frases ou opiniões já solenemente embalsamadas ou engravatadas - e por isso usadas como se fossem escudos protectores - restituem ao texto original a sua força e a sua originalidade usurpada. Simultaneamente evidenciam com frequência uma humildade e uma capacidade de interrogação, de contestação e de investigação bem mais sérias e mais fecundas do que as dos minuciosos inventariadores de opiniões alheias e das verdades do passado.

Há professores e estudantes dos dois tipos. Ambos são úteis e necessários. Mas se os primeiros fazem mapas de caminhos já abertos, são os últimos que realmente se interrogam seriamente sobre aquilo que querem estudar e que, sem preconceitos, tentam entender. Por isso estão na origem do progresso e tornam possível um futuro menos monótono e provavelmente menos contaminado pelo erro.

Cidades habitadas














































































(jc)

Sunday, November 06, 2005

Portuguese Irregular Verbs: humor escocês



Alexander McCall Smith, autor da colectânea de "short stories" Portuguese Irrregular Verbs (Anchor Books, New York, 2003) é Professor de Medical Law na Universidade de Edinburgo.


(...) At the time when Unterholzer moved to Regensburg, van Igelfeld was himself involved in his own difficulties over publication. Studia Utteraria Verlag, the publishers of his renowned and monumental work Portuguese Irregular Verbs, had written to him informing him that they had managed to sell only two hundred copies of the book. There was no doubt about the book's status: it was to be found in all the relevant libraries of Europe and North America, and was established as a classic in its field; but the problem was that the field was extremely small. Indeed, almost the entire field met every year at the annual conference and fitted comfortably into one small conference hall, usually with twenty or thirty seats left over.

The publishers pointed out that although two hundred copies had been sold, there still remained seven hundred and thirty-seven in a warehouse in Frankfurt. Over the previous two years, only six copies had been sold, and it occurred to them that at this rate they could expect to have to store the stock until well into the twenty-second century. Von Igelfeld personally saw nothing unacceptable about this, and was outraged when he read the proposal of Studia Litteraria's manager.

'We have received an offer from a firm of interior decorators,' he read. 'They decorate the apartments of wealthy people in a style which indicates good taste and education. They are keen to purchase our entire stock of Portuguese Irregular Verbs, which, as you know, has a very fine binding. They will then, at their own expense and at no cost to yourself, change the embossed spine title to Portuguese Irrigated Herbs and use the books as furniture for the bookshelves they install in the houses of their customers. I am sure you will agree that this is an excellent idea, and I look forward to receiving your views on the proposition.'

It was no use, thought von Igelfeld, to attempt to use the arguments of scholarship and value when dealing with commercial men, such as the proprietors of Studia Litteraria undoubtedly were: they only understood the market. It would be far better, then, to ask them to wait for a while and see whether the sales of Portuguese Irregular Verbs picked up. From the commercial point of view, it would surely be more profitable to sell the book as a book rather than as - what was the insulting expression they had used? - furniture. (...)

Saturday, November 05, 2005