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Showing posts from January, 2005

Watzlawick: Sur le sens de la réalité

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Dali, La naissance des désirs liquides



Celui qui souffre mentalement ne souffre pas de la réalité « réelle » mais de sa conception de la réalité. Cette concep­tion est pour lui la réalité, et son sens est le vrai sens de la vie. Pour un mélancolique, la vie est « une histoire contée par un idiot, pleine de bruit et de fureur et qui ne signifie rien ». Le paranoïaque pose un sens avec son idée prétendu­ment délirante et, de cette seule idée fondamentale, tout le reste découle pour lui avec une logique inébranlable. Ceux qui souffrent (qu'il s'agisse d'individus, de couples, de familles ou de systèmes humains encore plus grands, comme les nations) sont prisonniers de leur propre conception du monde ; ils jouent un jeu sans fin, comme on le dit dans la recherche sur la communication, c'est-à-dire un jeu qui ne dispose d'aucune règle lui permettant de modifier ses propres règles ou de se terminer lui-même.


(Paul Watzlawick, Les cheveux du Baron de Münchhausen,
traduit d…

Georg Trakl: Flammes, malédictions

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Harald Sohlberg, Night (1904)

Se o espírito é habitado por demónios, pesadelos, inquietações e ameaças, o olhar que contempla o mundo transfigura-o e vê nele a infelicidade e desordem que o atormenta. Também assim nasce a poesia.

LA NUIT
C'est toi que je chante, ravin sauvage,
Montagnes dressées
Dans la tempête de la nuit ;
Ô tours grises
Débordant de grimaces infernales,
De faune ardente,
De rêches fougères, de pins,
De fleurs cristallines.
Tourment infini
D'avoir traqué Dieu,
Doux esprit,
Poussant des soupirs dans la cataracte,
Dans le balancement des pins.

D'or embrasent les feux
Des peuples alentour.
Sur des écueils noirâtres
Se jette ivre de mort
La rougissante fiancée du vent,
La vague bleue
Du glacier

Et gronde
Puissamment la cloche dans la vallée:
Flammes, malédictions,
Et les sombres
Jeux de la volupté,
À l'assaut du ciel
Une tête pétrifiée.

(Georg Trakl, Crépuscule et Déclin, Gallimard, 1972, traduit de
l’allemand par Marc Petit et Jean-Claude Schneider)

João Camilo: Corvos

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Delacroix, Barque Dante


«ó nau navio corvos pedra água cais»
(Ruy Belo)


Um avião levantava voo
por cima da imensidão da água baça
(pista de aeroporto mal delimitada,
perturbada nos limites pelo bater das vagas)

e mil corvos voavam nas suas asas
de corvo metáfora, corvo símbolo,
corvo simplesmente alegoria.

Ruídos de asas e de bicos? Gritos e lamentos?
Dos séculos passados regressavam, inconsoláveis,
os fantasmas reais e irreais do sofrimento.

Eles comem tudo? Ou nunca comeram nada?

Corvo negro do infortúnio? Ou ave de brancura imaculada, tingida por acidente
no mar sanguinolento do petróleo?

Corvo americano, corvo inglês ou corvo iraquiano?

Corvo herói colorido de banda desenhada
ou corvo do jornal da noite com a face massacrada?

E a água a suspirar, a bater na rocha dura.

O tempo nunca pára. Com a morte,
porém, sempre chega a ilusão da cura.
(Inimigo Rumor, número 15,
2003, Brasil e Portugal)

Tão democratas que eles são....

Boutades

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Alexandro Allori, Susana e os velhos



«Il n'y a parmi les hommes que le poète, le prêtre et le soldat,
l'homme qui chante, l'homme qui bénit, l'homme qui sacrifie et se sacrifie.
Le reste est fait pour le fouet.»

«J'ai toujours été étonné qu'on laissât les femmes entrer dans les églises. Quelle conversation peuvent-elles tenir avec Dieu?»

«Beau tableau à faire: La Canaille Littéraire.»

«Tous les imbéciles de la Bourgeoisie qui prononcent sans cesse les mots: "immoral, immoralité, moralité dans l'art" et autres bêtises, me font penser à Louise Villedieu, putain à cinq francs, qui m'accompagnant une fois au Louvre, où elle n'était jamais allée, se mit à rougir, à se couvrir le visage, et me tirant à chaque instant par la manche, me demandait, devant les statues et les tableaux immortels, comment on pouvait étaler publiquement de pareilles indécences.»



(Baudelaire, Journaux Intimes)

Fernando Pessoa: I am no one

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Leighton, Greek girls playing at ball


A «crise do sujeito»: alguém pensa e sente, mas aquilo que pensa e sente não lhe permite situar-se no «existir». «É», mas não é «alguém»; está, mas está no lugar que não chega a ser «um lugar». Nesse quase «nada absoluto», nessa quase «ausência do sentido», sobrou consciência para constatá-lo. Caos, ameaça; absurdo, dor. «Ser» mínimo: «ser» o suficiente para entender que não se sabe o que se «é», nem como «ser», nem o que «ser», nem o que é «ser», nem o que é «o ser». Alberto Caeiro queria «ser» como as pedras, como os rios: «ser» sem saber, sem sentir que «era». Aqui, pelo contrário, entende-se que para «ser», para aceder ao existir, é necessário conhecimento: do mundo; do ser; do ser no mundo. Curioso, mas não forçosamente contraditório. A consciência mínima do ser tem «exigências»; a total ausência de «consciência do ser» não as pode ter .
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Today I was struck by an absurd but valid sensation. I realized, in an inner flash, that I'm no one.…

Dêem-nos futuro!

Eu acho mal que o PS queira saber se SL esteve em dívida para com o fisco. Eu entendo que de cima deve vir o exemplo e que se bem prega Frei Tomás temos também de olhar para o que ele faz. Mas essa atitude do PS revela falta de caridade. SL vive fora da realidade. Para onde é que querem que ele caia? O «amigo» PP, especialista em perversidades, devia saber desde o início que esta farsa iria acabar de maneira burlesca. Imagino-o na sombra a roer as unhas cheio de apetite de poder. Se eu fosse Ésquilo ou Shakespeare, tinha já diante de mim, praticamente organizado pelo próprio SL, o argumento de uma pequenina tragédia política - e, o que é mais lamentável, provavelmente a trama de uma desgraçada tragédia pessoal. A mim incomoda-me este espectáculo. Falemos de projectos de governo e de soluções para o país, senhores políticos dos partidos. Deixem lá o SL e o PP e a frase escandalosa de Francisco Louçã em paz. Já chega. Queremos futuro. Queremos ver-nos livres deste presente e remeter par…

Política cultural

Têm aparecido outras sugestões e já há vários candidatos ao lugar de Ministro da Cultura. No que me diz respeito, eu simpatizo com esta visão da questão cultural que, com adevida vénia, cito de Palácio dos Balcões .


«Antes de mais acabem-se os subsídios a artistas e a criadores. Os subsídios centrais a artistas têm uma carga de injustiça enorme. Todos nós que trabalhamos nas artes percebemos como as atribuições funcionam e sabemos, de antemão, quem vai ficar com o dinheiro e com quanto. Os criadores é um caso ainda mais grave. Quem faz a distinção entre o que faz sentido estético e não faz? Quem é o iluminado que sabe que determinada linha artística é relevante no panorama da arte contemporânea internacional e qual não é? (...) Cada vez mais, vemos artistas pregando que são bailarinos contemporâneos a receber dinheiro do estado para fazer disparates a solo no palco. Vemos coreógrafos a dizer que a essência do espectáculo para o qual receberam dinheiro do IA é o facto de ser dança não …

Eugenio Montale: Lungi è il mattino

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Corot, Nantes

(…)

Con le barche dell'alba
spiega la luce le sue grandi vele
e trova stanza in cuore la speranza.
Ma ora lungi è il mattino,
sfugge il chiarore e s'aduna
sovra eminenze e frondi,
e tutto è più raccolto e più vicino
come visto a traverso di una cruna;
ora è certa la fine,
e s'anche il vento tace
senti la lima che sega
assidua la catena che ci lega.

(...)

(«Clivo»)

Poderes sobrenaturais

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M.S. Merian

Nesta fotografia, que me foi enviada por um sportinguista meu amigo, pode ver-se, segundo ele, a alma obscura e invisível do árbitro que levou o Benfica à vitória no jogo com o Sporting. Texto a acompanhar: Só um espírito dotado de poderes sobrenaturais podia ver os 2 livres que deram golos ao Benfica, não ter visto o Aguiar ceifar as pernas do Liedson, e ter visto, estando de costas, o Hugo Viana agredir o miúdo Pereira.

Eu por mim não digo nada. Para quê? Não é no futebol e na paixão excessiva pelo futebol que se tem notado melhor, sem ser necessário usar lupa, a decadência moral do país e a nossa dificuldade em viver em democracia e em ter futuro como comunidade? Mens sana in corpore sano. Pois sim. Todas as semanas um capítulo novo. A percentagem de incompetentes (e/ou desonestos) entre os árbitros, porém, não será muito diferente da que encontramos noutras profissões. Reina a coerência no país. Claro, claro, foi um jogo para não esquecer.


Fernando Pessoa: The mind's excessive anguish

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Oscar Bluemmer, Azure

(Ingrid: skulle du ikke laere portugisisk, "jenta mi"?)

"At the wheel of the Chevrolet on the road to Sintra"

At the wheel of the Chevrolet on the road to Sintra
Under moonlight and dream, on the deserted road,
I drive alone, slow and easy, and it seems to me
A bit - or I make myself think it so a bit -
That I'm following some other road, some other dream, some other world,
I'm going on, not with Lisbon there behind or Sintra ahead,
I'm going on, and what more is there to it than not stopping, just going on?

I'll be spending the night in Sintra, since I'm unable to spend it in Lisbon.
But when I get to Sintra, I'll be sorry I m not staying in Lisbon.
Always this restlessness, aimless, inconsequential, pointless,
Always, always, always,
The mind's excessive anguish over nothing at all,
On the Sintra highway, dream highway, life highway . . .

Responding to my subconscious motions at the wheel,
The car I bo…

Fernando Pessoa: The blissful delight

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Matisse, Notre-Dame



Eu leio Pessoa como leio os romancistas: as afirmações que ele faz interessam-me, mas não se me impõem forçosamente como sendo verdades; são apenas as verdades (reais ou fingidas) de um personagem que faz parte do universo de ficções que ele inventa. Neste e noutros excertos da obra de Pessoa - em inglês, para que outros leitores o descubram - há narcisismos e «coquetteries» evidentes de escritor obcecado com a destruição das premissas em que assentam as nossas existências. Pessoa gosta de provocar. E embora ele, sempre à procura de razões de queixa, pareça crer o contrário, nunca esteve previsto que as laranjeiras dessem maçãs de oiro. Esse lado de Pessoa pode parecer às vezes um tanto banal e cansativo. Também ele tinha limites no seu génio.


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I enjoy speaking. Or rather, I enjoy wording. Words for me are tangible bodies, visible sirens, incarnate sensualities. Perhaps because real sen­suality doesn't interest me in the least, not even intellectually or in …

Fernando Pessoa: The soul's ideal language

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Van Gogh, Montmartre



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Art consists in making others feel what we feel, in freeing them from themselves by offering them our own personality. The true substance of whatever I feel is absolutely incommunicable, and the more pro­foundly I feel it, the more incommunicable it is. In order to convey to someone else what I feel, I must translate my feelings into his language - saying things, that is, as if they were what I feel, so that he, reading them, will feel exactly what I felt. And since this someone is presumed by art to be not this or that person but everyone (i.e., that person common to all persons), what I must finally do is convert my feelings into a typical human feeling, even if it means perverting the true nature of what I felt.
Abstract things are hard to understand, because they don't easily command the reader's attention, so I'll use a simple example to make my abstractions concrete. Let's suppose that, for some reason or other (which might be that I'm …

Pindar and Horace: Duas estéticas

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W. Bouguereau, Art and Literature


«Among the lyricists who follow classical inspiration, consciously or unconsciously, some are descen­dants of Pindar, some of Horace. The Pindarics admire passion, daring, and extravagance. Horace's followers prefer reflection, moderation, economy. Pindaric odes follow r.o pre-established routine, but soar and dive and veer as the wind catches their wing. Horatian lyrics work on quiet, short, well-balanced systems. Pindar represents the ideals of aristocracy, careless courage and the generous heart. Horace is a bourgeois, prizing thrift, care, caution, the virtue of self-control. Even the music we can hear through the odes of the two poets and their successors is different. Pindar loves the choir, the festival, and the many-footed dance. Horace is a solo singer, sitting in a room or quiet garden with his lyre.


Characteristically, Horace often undervalued his own poems. Brief, orderly, tranquil, meditative, they are less intense and rhapsodical but …

Cesário Verde: Tons de Inferno

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E. Munk, Av.Karl Johan

«O sentimento dum ocidental» deixou-nos a imagem de um personagem baudelairiano vagabundeando pela cidade ao fim do dia. Solitário e melancólico, mas atento à vida: às pessoas, às ruas, às casas, ao trabalho, ao movimento e às luzes da cidade. Evocava-se logo de início o romântico e inexplicável «desejo de sofrer», mas o poeta dizia-se disposto a disciplinar a tentação sentimental impondo-se o código severo da arte realista.
O poema «Nós», de que aqui se reproduzem as primeiras estrofes, parecerá menos moderno, mais pitoresco - mais próximo da compaixão com que António Nobre descreveu, em «Lusitânia do Bairro Latino» por exemplo, de maneira colorida, a vida dos pescadores e cenas de doença e de grande miséria popular. Mas a capacidade de «pintar» em detalhe quadros realistas revela-se em «Nós» tão extraordinária que facilmente se perdoará a Cesário a eventual menor elevação poética de algumas destas estrofes.
A oposição cidade/campo, o permanente e caloroso elog…

A perseguição ao Galego continua

Lê-se no Portal Galegoque Antom Lopez Baleira vai ser julgado em tribunal por ter defendido o ensino da língua galega nas escolas. Podia pensar-se que batalhas destas eram de outras épocas e que defender uma língua que até está bem viva seria visto como defesa do património cultural mundial e merecedor de respeito e homenagens. Quem pensava assim enganou-se.

Aconteceu ou não?

Na extravagante entrevista de José Gil ao Público lê-se logo no início que «o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento

Curiosíssima afirmação. A obscura necessidade de «ler» para além do que parece ser, ou do sentido imediato, leva a estes exageros «profissionais». Privilégio de filósofo seria este, de descobrir, inteligentemente e com óculos inacessíveis ao cidadão comum, outros sentidos para além do sentido ou da falta de sentido do que é dito ou acontece. Os sinais e a sintaxe em que se revela a nossa «natureza profunda e verdadeira» estariam assim nas mãos exclusivas dos intérpretes: dos filófosos, dos psicanalistas, dos sociólogos, dos especialistas da lei, etc. Terrorismo puro, vaidade desmedida, intimidação, é o que se arrisca a ser este exercício da «com…

João Camilo: Elogio do silêncio

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Boccioni, The development of a bottle in space


Falamos, repetidamente falamos. Mas quem conhece
o fulgor da densa solidão, a inexplicável alegria
que às vezes nasce do silêncio? As próprias palavras,
quando as cerca a gravidade da sombra com a sua
mudez habitada pela ameaça, animam-se com uma força
imprevista. E aqueles que falavam começaram
a sussurrar, mal ousam pronunciar os sons, deixam-se
perturbar pela revelação inesperada do instante.


Ó amada secreta, tu, que compreendes e
adivinhas os gestos antes de eles serem
esboçados, onde estás? Ó olhos intensos
da paixão e da curiosidade, atentos
olhos daquela que pressente o enigma,
onde estais? O homem que eternamente
espera pela salvação interroga-se, recorda
os momentos da presença estranha do ser,
a sua manifestação surpreendente nas sombras
do quotidiano mais banal. Mas nada no mundo é
banal; basta coincidirmos com o nosso destino.

Incapazes de amarem o que existe, aqueles
que se perderam de si mesmos refugiam-se
na caverna do delír…

João Camilo: Ouvi-las enfim

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Bonnard, The lodge


As raparigas a quem prestámos uma atenção distraída cresceram, tiveram filhos, envelheceram, e agora vivem felizes em cidades e aldeias desconhecidas. Às vezes apetece voltar atrás e olhar de novo para elas, ouvi-las enfim com atenção, falar-lhes com a consciência aguda da passagem destruidora do tempo sobre nós. Mas para onde escrever-lhes, quem conhece a rua e a casa onde elas moram? E para quê perturbar a paz que elas encontraram, levar à sua vida a recordação da imperfeição do amor? Aqueles que souberam adivinhar o tesoiro inestimável que nelas se escondia merecem que os deixem em paz na sua vida.

Difícil é encontrar no mundo o seu lugar. Nós aspiramos à originalidade, defendemos com vigor a identidade e a posse do que pensamos que nos pertence. E no entanto, diz o filósofo, a tragédia da existência tem a sua origem na nossa incapacidade de suportar a pura individualidade, a absoluta solidão de quem nada tem a partilhar com os outros. Por isso no seio da multidão…

Sylvia Plath: The clear vowels rise

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(Harper Collins Publishers)


Morning Song

Love set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your footsoles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival. New statue
In a drafty museum, your nakedness
Shadows our safety. We stand round blankly as walls.

I'm no more your mother
Than the cloud that distils a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind's hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses. I wake to listen;
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat's. The window square

Whitens and swallows its dull stars. And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.

Cesário Verde: A cidade e o campo

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Nicolas Poussin, Primavera


O ponto de vista do agricultor:




(...)

Ó cidades fabris, industriais,
De nevoeiros, poeiradas de hulha,
Que pensais vós do país que vos atulha
Com a fruta que sai dos seus quintais?

(...)

Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

A nós tudo nos rouba e nos dizima:
O rapazio, o imposto, as pardaladas,
As osgas peçonhentas, achatadas,
E as abelhas que engordam na vindima.

(...)

(Cesário Verde, «Nós»)


Bibliografia: Raymond Williams, The Country and the City, Oxford University Press, 1973


Morandi: A beleza discreta dos objectos «banais» (2)

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... em parte as formas... em parte as cores ...



Morandi: Natureza morta

e. e. cummings: you are mine said she

may i feel said he
(I'll squeal said she
just once said he)
it's fun said she

(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she

(let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)

may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she

may i move said he
is it love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she

but it's life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she

(tiptop said he
don't stop said she
oh no said he)
go slow said she

(cccome? said he
ummm said she)
you're divine! said he
(you are Mine said she)

(e. e. cummings, 100 Selected Poems, Grove Press, N. York)

e. e. cummings: love's function is...

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Whaterhouse, The crystal ball

love's function is to fabricate unknownness

(known being wishless; but love, all of wishing)
though life's lived wrongsideout, sameness chokes oneness
truth is confused with fact, fish boast of fishing

and men are caught by worms (love may not care
if time totters, light droops, all measures bend
nor marvel if a thought should weigh a star
- dreads dying least; and less, that death should end)

how lucky lovers are (whose selves abide
under whatever shall discovered be)
whose ignorant each breathing dares to hide
more than most fabulous wisdom fears to see

(who laugh and cry) who dream, create and kill
while the whole moves; and every part stands still:


(e. e. cummings, 100 Selected Poems, Grove Press, N. York)

Carta de Laranjeira a Amadeu de Sousa Cardoso

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Manuel Laranjeira





Manuel Laranjeira nasceu em 1877 em Vergada, Vila da Feira, e suicidou-se em Espinho a 12 de Fevereiro de 1912. Tinha escrito como tese de medicina A Doença da Santidade – Ensaio Psicopatológico sobre o Misticismo de Forma Religiosa (Porto, 1907, reeditada em 1986 pela Editorial Labirinto em Lisboa). A obra que deixou é escassa e mal conhecida. Amanhã, prólogo dramático, é considerado do melhor que no género se escreveu na época. Uma edição de O Diário Íntimo de Manuel Laranjeira foi publicada em Lisboa pela Editorial Vega não há muito tempo. Nas Edições Asa foram publicados dois volumes das suas obras. Da sua amizade com Miguel de Unamuno ficaram algumas cartas, incluídas no volume indicado abaixo.
«Conheci o Manuel Laranjeira no Verão de 1908, em que veraneei em Espinho. De início, antes de me relacionar com ele, quando só o conhecia de vista e pelo que dele me diziam, pareceu-me pouco simpático e cheguei a ter dele uma opinião muito afastada da realidade. Mas logo …

O desejo

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Guido Reni, Susana e os velhos

João Camilo: A hora decisiva

Não havia saída para o tédio e as escaramuças continuavam na cidade, dia e noite. A conquista da tranquilidade só era possível através da cobardia: fugir, fechar os olhos, não se preocupar senão com as insignificâncias da vida mais quotidiana. Os donos do poder, fantoches de palha a rebentar de vaidade, esmeravam-se em praticar a solenidade ridícula. Cada dia que passava tornava mais manifesta a ruidosa e mal dissimulada corrupção em que viviam. Como se isto não bastasse, as mulheres amadas ausentavam-se, deixavam de escrever e de telefonar, não se sabia onde procurá-las.

Perdido de si mesmo na selva das ruas ou no isolamento do quarto, o herói da novela sentia o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Apetecia-lhe desaparecer, ir viver em silêncio, próximo da verdade, até chegar a hora decisiva e definitiva da morte. Continuavam a chamar pelo seu espírito desolado as imponentes cadeias de montanhas do Norte. Na sua solidão, pensava, poderia conhecer enfim a mais pura essência do ser, esse en…

Até quando?

Até quando é que ao olhar para os jornais vamos ter de deparar com fotografias da cara e das gravatas de certos políticos e ler transcrições das provocações insensatas que eles vão proferindo? Tínhamos ainda de passar por esta humilhação quotidiana?

Morandi: Paisagem

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A pintura, às vezes: levar para casa pedaços
(e versões) da beleza sublime do mundo.



Morandi, Paesaggio (1934)

Paul Celan: Give it shade enough

«If Celan had set out to write hermetic poems, his work would be less difficult than it is, because it would not require us to make the kind of sense of it that we know it can yield. That is why his earlier verse, though purer, is less difficult than the later. Any reader familiar with the kind of poetry whose progression is one of imagery rather than argument will know how to read the ear­lier poems, whose diction, too, is closer to established conven­tions. From Sprachgitter onwards the images grow sparser, more idiosyncratic, and more laden with conflict, the syntax more broken, the message at once more urgent and more reticent. The available resources of language and prosody become inadequate. Celan begins to coin new words, especially compound words, and to divide other words into their component syllables, each of which acquires a new weight. The process of condensation and dislocation is carried farther in the subsequent collections. Both verse lines and whole poems tend to be …

e.e. cummings: if on another's face

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Bronzino, Venus and Cupid




it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be -
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.


(e. e. cummings, 100 Selected Poems, Grove Press, N. York)

Katherine Mansfield: Sleeping Together

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Katherine Mansfield é conhecida sobretudo pelas suas «short stories» e pelo diário que deixou. Mas escreveu alguns poemas que uma vez lidos nunca mais se esquecem. Este é um deles.



G. Frederick Watts, Pablo and Francesca


Sleeping together...How tired you were...
How warm our room... how the firelight spread
On walls and ceiling and great white bed!
We spoke in whispers as children do,
And now it was I - and then it was you,
Slept a moment, to wake -"My dear,
I'm not at all sleepy," one of us said....

Was it a thousand years ago?
I woke in your arms - you were sound asleep -
And heard the pattering sound of sheep.
Softly I slipped to the floor and crept
To the curtained window, then, while you slept,
I watched the sheep pass by in the snow.

O flock of thoughts with their shepherd Fear
Shivering, desolate, out in the cold,
That entered into my heart to fold!

A thousand years... was it yesterday
When we two children of far away,
Clinging close in the darkness, lay
Sleeping t…

Morandi: A beleza discreta dos objectos «banais» (1)

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Morandi, Natureza Morta, 1956



As naturezas mortas de Cézanne são carnudas, coloridas, cheias de formas redondas, calorosas. As de Morandi são frias, geométricas, com muitas linhas e em cores esbatidas. Mas ambas dão grande prazer estético. Devem satisfazer, na sua perfeição, zonas ou aspectos diferentes da nossa sensibilidade. O mundo é cor e é sombra. É exuberante e é discreto.

O mundo existe independentemente de nós e não precisa de nós para existir. As versões que dele pomos a circular serão sempre incompletas. O risco de que pareçam inadequadas, excessivas ou delirantes é permanente. Mas há outra solução senão correr esse risco? Temos de «dizer» (e só podemos «dizer») o que vemos e o que sentimos. E além da experiência... ainda é preciso a técnica, o «saber fazer».

Os malefícios da literatura (2)

Do último tipo (os burgueses) já falámos. Quanto aos dois primeiros tipos de personagens, deve dizer-se que eles são ou podem ser os mesmos, mas apanhados em épocas diferentes da sua «carreira». Os papéis que de­sempenham correspondem num caso ao desejo exaltado de defender os valores do «espírito», única forma de existência aceitável e digna para eles; aliás com a glória literária que sempre esperam alcançar conquistarão as mulheres, puras e belas e divinas; é a idade do idealismo ingénuo (recorde-se, porém, que os românticos alemães morriam disso ou enlouqueciam, depois de terem sabido dar expressão literária ao trágico da existência). No ou­tro caso exemplificam o que é visto na época como a vontade cínica de gozo pura­mente material e o casamento só pode ser então de inte­resse ou um acto de resignação. Camilo resumiu este tipo de evolução ao dar a uma das suas obras o título de Coração, Cabeça e Estômago. Começa-se cheio de espe­rança, com muita ilusão e parvoíce; passa-se pela a…

Os malefícios da literatura (1)

A literatura como coisa literária, a noção de género literário como discurso obrigado ao mote das dignidades traçadas pelas Poéticas explícitas e implícitas (sem in­tenções polémicas: pelas estruturas mentais e visões do mundo tradicionais ou no poder), impedi­ram muitas vezes que se dissessem as coisas importantes que se podiam ter dito. É confrangedor ver titubear al­guns dos nossos primeiros e bastante dignos romancistas da época romântica (na realidade mais ultra-romântica do que romântica) quando querem falar do real contem­porâneo deles. Quererem fazer literatura, lançar-se a criar esse género novo que é o romance moderno, corta-lhes as pernas e as asas, deforma-lhes a linguagem para além do imaginável. E no entanto a prosa de Fernão Lopes, a de Fernão Mendes Pinto, a das narrativas de naufrágios, a própria «desenvoltura» narrativa do exce­lente romancista realista que tantas vezes já é Camões em Os Lusíadas, tinham-lhes aberto o caminho e lá esta­vam e estão para de certo modo …

Martim Campina: Intrigas

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Martim Campina ou Campinha? Pouco se sabe dele. Provavelmente terá sido jogral de profissão e terá vivido entre meados do século XIII e inícios do século XIV. Dele ficaram duas cantigas.



Cena trovadoresca

«Diz meu amigo que eu o mandei»
(Ba 1183, V [788])

[Cantiga de amigo; de refrão, com finda.
Dirigindo-se à amiga, a rapariga assegura ser
falso que ela mandou ao amigo ir-se dali, como
ele anda dizendo].

Diz meu amigo que eu o mandei
ir, amiga, quando s' el foi daqui;
e, se lho sol díxi nem se o vi,
nom veja prazer do pesar que hei;
e, se m' el tem torto em mi o dizer,
veja-s' el ced' aqui em meu poder.

E vedes, amiga, do que m' é mal:
dizem os que o virom, com' el diz
que o mandei ir; e, se o eu fiz,
nunca del haja dereito nem dal;
e, se m' el tem torto em mi o dizer,
veja-s' el ced' aqui em meu poder.

E que gram torto que m' agora tem
em dizer, amiga, per bõa fé,
que o mandei ir!; e, se assi é,
como m' el busca mal, busque-lhe eu bem;
e, se m' el tem torto …

Jaroslav Seifert: You can even fall in love

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John William Waterhouse, The sirene





The Hunt for the Kingfisher



How many times has a verse come to my mind
even at a crossroads
while the lights were at red!
Why not?
You can even fall in love
in that short a time.




But before I'd walked across
to the far side
I'd forgotten the verses.
I was still able
to jot them down off-hand.
But the smile
of the girl who crossed over in front of me
I remember to this day.




Under the railway bridge at Kralupy

I often as a boy would climb

into the branches of a hollow willow

and among the twigs above the river

think and dream of my first verses.




But, to be honest, I also

would think and dream

of lovemaking and women

and watch the torn-off reeds

float on the water.




Easter was around the corner,

the air was full of vernal magic.

I even saw a kingfisher once

on a whipping twig.
In all my life
I never saw another
and yet my eyes have often longed
for a closer view of that delicate beauty.




Even the river had a pungent fragrance then,

that bitterswee…