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Showing posts from February, 2005

joão camilo: ignorante

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Evelyn de Morgan, Ariadne in Naxos


Aproximava-se a hora. A rapariga levantava-se da cama, ficava pronta, ia sair de casa. O seu rosto brilhava no espelho: milagre do amor e da juventude. Para ela o dia começava; o dia de K. ia morrendo. Tinham-se conhecido à esquina de um tempo desajustado. Caminhavam ao encontro um do outro, ela vinda da noite, ele vindo do dia; ela à procura da luz, ele a não querer ceder ao cansaço que antecede as trevas.
K. nunca se aborrecia de a imaginar, falava-lhe como se ela o estivesse
a ouvir. Dizia, num sussurro: vives ao meu lado como se não existissem
horas nem oceanos, como se estivéssemos sentados à beira do mar em
Lisboa.

No autocarro ela dormitava e ouvia música, não se esquecia de que
esperava por ela aquele que a amava. Era por isso que sorria, infantil,
apesar, às vezes, de alguns sobressaltos de inquietação?

Se ameaço a tua paz de espírito, diz ele, peço-te que me perdoes.

Alheado dos cuidados dela entra na cozinha, pega na faca afiada
e começa a cor…

A cidade: Sábado de manhã

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Portobello (jc)

A cidade: Reflexos

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San Francisco (jc)

Janela para o campo

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Tormes (jc)

A cidade: Jardim

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Paris (jc)

A cidade: Mercado

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Portobello (jc)

A cidade: Fim de tarde

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Bath (jc)

A cidade: Lanche

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Portobello (jc)

A cidade: Dreams

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LA (jc)

Machado de Assis: O Alienista

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Rembrandt, A lição de anatomia


Machado de Assis, o genial escritor brasileiro, desconfiou muito dos entusiasmos com que os seus contemporâneos incensaram a ciência. E não de cansou, no século do Realismo e do Naturalismo, de acumular na sua obra argumentos e histórias que de maneira subtil punham em causa, maquiavelicamente, as arrogâncias «científicas» dos «sábios» da época. «O Alienista» é desse ponto de vista e de outros uma obra-prima, uma paródia brilhante e de grande actualidade ainda hoje. Para diversão e instrução dos meus leitores incluo aqui um breve excerto do famoso conto (ou novelazinha).
DE COMO ITAGUAÍ GANHOU UMA CASA DE ORATES As crónicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remo­tos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Por­tugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universid…

Conhecida

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(jc)

Alguns Links

Laranjeira: Um deserto enfadonho

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George Inness, Sunset

Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho a 12 de Fevereiro de 1912. A impressão, ao ler páginas do seu Diário Íntimo, de estar perante um precursor evidente e nunca nomeado do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa e Bernardo Soares.


Segunda, 19 de Outubro de 1908
Vem hoje consultar-me uma rapariga do povo, criatura fina, delicada, com uma certa fidalguia de inteligência e sobretudo do coração. Está tubercu­losa, perdida. Daqui a meses aquela figura gracio­sa e simpática estará destroçada e desfeita. E pre­gando em mim uns olhos indefinivelmente melan­cólicos, conta-me a história da sua doença. Aquilo começou por um grande desgosto, desgosto de amor, é claro: um homem seduziu-a e depois abandonou-a. Botou sangue pela boca e desde aí - havia três meses - nunca mais logrou saúde. Não queria morrer, não por ela que já perdera to­do o amor à vida, mas pela mãe que já não podia ganhar o pão de cada dia... E pôs-se a chorar. Penso em alguém... E sofro, sofro, porque não…

O medo de existir

O «medo de existir» é a última acusação ou diagnóstico feito aos portugueses em geral por alguns portugueses diplomados em «doenças da alma nacional». É uma marca de detergente como qualquer outra - e com boa publicidade há-de ir-se vendendo. Vem embrulhada em vistoso papel celofane, na aparência muito «francês». O jargão pretensamente académico é para tornar a mercadoria sedutora aos olhos de um público ingénuo, ávido de passar por muito culto e informado. Não sei se à regra do medo de existir escapa alguma franja da população ou se a teoria diz respeito a todos, desde Pinto da Costa a Valentim Loureiro, desde Santana Lopes a Alberto João Jardim, desde o Presidente Sampaio ao mais jovem recém-nascido da pátria. E aplica-se ao jovem Tiago que agora corre em Fórmula 1? E aos investigadores do «Apito Dourado»? E a Cristiano Ronaldo? E não esqueceu Maria José Morgado?

E não se descortinaram noutros países sintomas desta enfermidade, isto é, somos mesmo, nós os Lusitanos, originais mais um…

João Camilo: A pequenez interior do espírito

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(Paris) (jc)


Certas noites a solidão é mais profunda,
a consciência do tédio mais difícil de combater.
Terei realmente história, pergunta-se aquele
que anda ao acaso pelas ruas e pelos cafés.
Não lhe apetece sentar-se em lado nenhum,
também não lhe apetece mover-se.

Passeia de um lado para o outro,
é uma maneira de dizer “aonde é que hei-de ir?”
ou “que fazer da porcaria deste tempo?”

Recolhe a casa, rodeia-se de livros.
Liga a televisão, mas o espectáculo
da existência alheia cansa-o,
já não há qualquer relação entre
o seu desejo e as aventuras
imaginárias que contam os filmes
que o aborrecem. A própria música
torna-se-lhe insuportável, tanta futilidade,
vontade de distrair as pessoas do drama
sem saída da existência. A existência é
um circo e nós somos os palhaços
do circo, pensa ele. Mas é indiferente
que pense isso ou outra coisa.

Fulano, disse-lhe o jovem poeta
que voltou da Europa, ia jantar
com Sicrano e Beltrano; eu próprio,
continuava ele, encontrei Beltrano
num bar e achei-o amargo, descontente
com a…

Marina Tsvetaeva: Ophelia

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Waterhouse, Ofélia


Ophelia: in Defence of the Queen

Prince, let's have no more disturbing
these wormy flower-beds. Look at
the living rose, and think of a woman
snatching a single day - from the few left to her.

Prince Hamlet, you defile the Queen's
womb. Enough. A virgin cannot
judge passion. Don't you know Phaedra
was more guilty, yet men still sing of her,

and will go on singing. You, with your blend
of chalk and rot, you bony
scandalmonger, how can you ever
understand a fever in the blood?

Beware, if you continue ... I can
rise up through flagstones into the grand bed-chamber
of so much sweetness, I myself, to defend her.
I myself - your own undying passion!

1923

(Selected Poems, translated by Elaine
Feinstein, Penguin Books, 1994)

Janela

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(jc)

Templo

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Petworth (jc)

Céu azul português

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Tormes (jc)

Céu cinzento

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Belfast (jc)

Euforias e paranóias

A imprudência dos vencedores é imaginar que lhes foi enfim feita justiça, que foi enfim reconhecida universalmente a sua magnífica e admirável superioridade e excelência. A cegueira dos vencidos é atribuir a derrota às cabalas, à incompreensão, à ignorância, à ingratidão. Mas como os vencedores de hoje são os vencidos de ontem e os vencidos de hoje serão muito provavelmente os vencedores de amanhã ou depois de amanhã, alguma reserva na vitória e um pouco de lucidez na derrota revelariam sensatez.

Fradique Mendes a Eça de Queirós

Querido Mestre,

Releio, uma vez mais, à luz dos ensinamentos modernos, a agradável prosa em que você desenhou para a eternidade o retrato ambíguo da pessoa que eu fui ou terei sido. De que me adiantaria protestar, opor à sua sabedoria e ignorância as minhas próprias dúvidas acerca do meu destino, do meu percurso, da minha personalidade? O «eu», dizem-nos agora, não existe. É pura invenção, ilusão da nossa necessidade de sobreviver, na monotonia das multidões, como figuras originais. Você, caro Mestre, atribuiu-me uma personalidade, um destino, quase um rosto e um corpo, um estilo. E eu tenho de estar-lhe grato pela mentira com que me tirou do esquecimento. Mentira piedosa. Como diria o outro Mestre, vindo depois da sua morte: ser isso ou o contrário disso... ou outra coisa... vai a dar no mesmo; o que é preciso é, enquanto existimos, termos a ilusão suficiente da nossa própria existência.

Diz você no início da minha biografia que o seduziu, para começar, a forma dos meus versos. Não com…

Pontes (16)

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(jc)

Pontes (15)

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(jc)

Pontes (14)

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Pontes (13)

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Pontes (12)

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Pontes(11)

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Pontes (10)

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Pontes (9)

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Pontes (8)

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Pontes (7)

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Pontes (6)

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Pontes (5)

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Pontes (4)

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(jc)

Pontes (3)

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(jc)

Pontes (2)

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(jc)

Pontes (1)

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(jc)

Valéry sobre Mallarmé

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Vermeer, Geógrafo


«Mallarmé, professeur au lycée de Tournon, fréquentait les milieux du félibrige; il a connu Mistral. Il a même conçu avec lui le projet singulier de fonder une sorte de franc-maçonnerie d'artistes, qui aurait uni à travers le monde les féaux, les croyants, les fidèles de la poésie et de l'art. (…) Les relations avec Aubanel étaient toutes familières et affec­tueuses. Il lui écrivait assez souvent, et c'est dans quelques-unes de ses lettres qu'il fait confidence à son ami de ce qu'il a trouvé dans sa pensée. Voici une phrase, détachée d'une lettre de 1864: (…) Mon bon Théodore, je n'ai pas encore trouvé une minute pour te dire le mot énigmatique de ma lettre (…) Je veux dire simplement que je viens de jeter le plan de mon œuvre entière, que je prévois qu'il me faudra vingt ans pour ces cinq livres dont se composera l'œuvre et que j'attendrai, ne lisant à des amis comme toi que des fragments, et me moquant de la gloire comme d'…

Adam Zagajewski: Morandi

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Morandi, Natureza Morta


Even at night, the objects kept vigil,
even as he slept, with African dreams;
a porcelain jug, two watering cans,
empty green wine bottles, a knife.
Even as he slept, deeply, as only creators
can sleep, dead-tired,
the objects were laughing, revolution was near.

The nosy watering can with its beak
feverishly incited the others;
blood pulsed wildly in the cup,
which had never known the thirst of a mouth,
only eyes, gazes, vision.

By day, they grew humble, and even took pride:
the whole coarse existence of the world
found refuge in them,
abandoning for a time the blossoming cherry,
the sorrowful hearts of the dying.

(Adam Zagajewski, Without End, New and Selected
Poems, Farrar, Strauss and Giroux, N. York, 2002)

Fernando Pessoa: Disappointed, surrounded

Why should I care that no one reads what I write? I write to forget about life, and I publish because that's one of the rules of the game.

It always disappointed me to read the allusions in Amiel's diary to the fact that he published books. That's where he falls down. How great he would be otherwise!

I've surrounded the garden of my being with high iron gratings - more imposing than any stone wall - in such a way that I can perfectly see others while perfectly excluding them, keeping them in their place as others.

To discover ways of not acting has been my main concern in life.

(Fernando Pessoa, The Book of Disquiet, Penguin Books,
translated from the Portuguese by Richard Zenith)

Adam Zagajewski: Long Afternoons

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Childe Hassam, A city fairyland

Those were the long afternoons when poetry left me.
The river flowed patiently, nudging lazy boats to sea.
Long afternoons, the coast of ivory.
Shadows lounged in the streets, haughty manikins in shopfronts
stared at me with bold and hostile eyes.

Professors left their schools with vacant faces,
as if the Iliad had finally done them in.
Evening papers brought disturbing news,
but nothing happened, no one hurried.
There was no one in the windows, you weren't there;
even nuns seemed ashamed of their lives.

Those were the long afternoons when poetry vanished
and I was left with the city's opaque demon,
like a poor traveler stranded outside the Gare du Nord
with his bulging suitcase wrapped in twine
and September's black rain falling.

Oh, tell me how to cure myself of irony, the gaze
that sees but doesn't penetrate; tell me how to cure myself
of silence.

(Translated by Clare Cavanagh)

(Adam Zagajewski, Selected Poems, Faber and Faber, 2004)

joão camilo: ilusões antigas

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Dorothea Tanning, Ein klein nachtmusik



ó amadas do passado,
ilusões antigas.

de que se fez,
tão irrepreensível,
a vossa
virtuosa fuga?

aquele que vos desejava
ficou sem perceber o seu destino.
encostou-se à parede
e soluçou sem tino.

anos mais tarde,
vós na vossa vida, ele na sua,
não lamentais o que não
chegou a ser?

ele ou outro, ela ou eu,
ouve-se dizer
a uma voz melancólica
e sem paixão,
vai tudo a dar no mesmo:

morte e dor,
esquecimento
e nada;

tudo é vão.

(sb, 12 de fevereiro de 2005)

Histórias tenebrosas

«Uma vez fui a um médico.
- Doutor, estou louco - disse. – Devo estar louco.
- Tem loucos na família? – perguntou o médico. – Alcoólicos, sifilíticos?
- Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais.
O médico tinha sentido de humor e receitou-me barbitúricos.
- Não preciso de remédios – disse eu. – Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me servem os barbitúricos?»

(Herberto Helder, «Estilo», Os Passos em
Volta, Assírio e Alvim, 1997; 1ª ed. 1963)


Já percebi que tenho amigos que vão votar em todos os partidos e não apenas amigos que votarão no partido em que eu votaria se estivesse em Portugal. Paciência, não se pode ter tudo. Também não preciso de remédios e os barbitúricos não resolveriam problema nenhum. Porque não há, por esse lado, qualquer problema.

Façamos votos para que daqui a cem anos Portugal seja o país que nós gostaríamos que já fosse. Em vez de ser o inacreditável circo actual. Espero que nessa época distante Helberto Helder ta…

joão camilo: ó nada

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Béraud, Promenade à Paris


ó colinas, casas, árvores e céus.
da noite, da manhã, do meio e do fim do dia.
e o espírito toma a forma, incauto,
do suceder das perecíveis horas.

ó ruas, transeuntes, senhoras e senhores,
meninas e meninos. ó mortos do futuro
que connosco dividis o estar no mundo.

ó corações estéreis, habitados
por inexplicáveis, negras melancolias.

ó corações amantes: rostos inquietos, olhos
que perturbam as paixões e os desejos, o ar
da tarde que escureceu ou se encheu de cores.

ó sentido ingrato, ó lágrimas sem razão
dos adolescentes à procura do destino.

ó vidas de que não ficará memória.

ó remorso, ó dor.

(sb, 12 de fevereiro de 2005)

joão camilo: a ocasião faz o ladrão

ó meninas que passais ao sol poente
diante do nosso olhar cheio de imagens.
levais convosco os nossos olhos mas a alma não.
levais convosco a flecha do desejo e nada
podeis fazer para nos salvar do tédio.

bem sei, a ocasião faz o ladrão.
e o destino depende de coisas pequeninas.
tivéssemos falado, de pé, durante dois minutos,
na beira de um passeio e seria diferente
o vosso percurso incerto, a nossa perdição.


(sb, 12 de fev. de 2005)

joão camilo: ó laboratórios

o olhar que como uma flecha
descobriu o alvo involuntariamente.
mais rápido do que o desejo ou a
consciência. mais atento do que o
nonchalant que com ele andava,
sem esperança, pela rua à tarde.

e, luminoso, o céu que se escurecia
do ir-se embora lento do sol, trazia
ao fim do dia encantos, um estilo, forma.
e quem dessa estética escreveria as leis
e explicaria, exaustiva, a organização?

poeta, longe da pátria, alma inquieta,
observava com serenidade o acontecido.
mallarmé, cesário, ó laboratórios
onde se constrói, nervoso, o país
real e irreal do sonho, da imaginação.

mas quem, sem ter estado, sem ter visto,
dessa matéria (cor e forma) poderia
aos vindouros deixar algum conhecimento?

(sb, 12 de fev. de 2005)

Olhando para baixo

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As cores e as formas naturais (jc)

(Todas as minhas fotografias tiradas com
uma Nikon Coolpix 4500 ou, antes, 995 )

A olhar para cima (14)

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O céu de Hampton Court

A olhar para cima (13)

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O céu de Windsor (jc)

A olhar para cima (12)

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O céu de Cambridge (jc)

A olhar para cima (11)

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O céu de Arundel (jc)

A olhar para cima (10)

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O céu de Belfast (2) (jc)

A olhar para cima (9)

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O céu de Belfast (jc)

Divisa

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I do not try to dance better than anyone else.
I only try to dance better than myself.

(Mikhail Baryshnikov)

A olhar para cima (8)

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Céu muito escuro

A olhar para cima (7)

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Céu de Los Angeles

A olhar para cima (6)

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Céu de Lisboa