A Lusofonia não precisa de ser inventada, pois há milhões de pessoas por todo o mundo que falam português. Revoltar-se filosoficamente contra o colonialismo do passado já não serve de nada. A História não se corrige; mas dos erros e crimes cometidos por inexperiência, ambição ou maldade pode nascer sabedoria e proveito para o presente e o futuro. Cito do excelente Arukutipa um parágrafo onde quero crer que não há metafísica, nem rancores, nem ajuste de contas, mas apenas uma visão pragmática - porque vista como possível e frutuosa - das relações entre países lusófonos. Resta saber como se vão pôr em prática, num mundo dominado pelo cinismo dos interesses económicos e pela ideologia selvagem do liberalismo, estes objectivos. Seria ofensivo imaginar que quem redigiu estes estatutos ignorava o mundo em que vivemos e não sabia com o que contava.
Os oito países da CPLP no artigo 3º dos seus Estatutos, afirmam:
a) A concertação político-diplomática entre os seus membros em matéria de relações internacionais, nomeadamente para o reforço da sua presença nos fóruns internacionais;
b) A cooperação em todos os domínios, inclusive os da educação, saúde, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, administração pública, comunicações, justiça, segurança pública, cultura, desporto e comunicação social;
c) A materialização de projectos de promoção e difusão da Língua Portuguesa, designadamente através do Instituto Internacional de Língua Portuguesa.
P. S. Outros blogues que se têm referido à questão da Lusofonia: Tugir e Machamba. Um artigo interessante, ainda sobre a questão da língua mas de outra perspectiva, em Crítica (por indicação de José Serra). Depois de ler Konrad Szczesniak perguntei-me se não devia começar a falar, pelo menos de vez em quando, entre amigos, como as pessoas da minha aldeia: «fôrandes ao cinema e não me dissérandes nada. Quando cá voltárindes da próxima vez, se não me convidárindes pra ir convosco zango-me.» A gramática é sempre um tanto ou quanto fascista, já se sabe. Como todas as leis. Mas é mais fácil dizer «fôrandes» que «vocês foram» - e «fostes» provavelmente parece demasiado artificial a algumas pessoas. Triunfará esta forma no futuro? Não tenho nada a opor.