Monday, May 09, 2005

Blogues: Confissões ou ficções?


Os blogues, como tudo o que é escrita e fala, têm «narradores», que são os responsáveis pela linguagem (ou pelas fotografias ou desenhos) que criam o blogue. Por detrás desses «narradores» tem forçosamente de estar um(a) autor(a). Mas por muito confessional ou apenas sincera que pareça ser a linguagem de um blogue, nada permitirá nunca provar que o que nele é escrito corresponde a alguma verdade ou sinceridade de algum autor real, dessa pessoa com quem podíamos tomar um café ou falar de futebol. Nos blogues como nos livros, tudo é ficção, tudo é literatura. E como mesmo à mesa do café nada nos garante a sinceridade do «autor real» (que até pode ser incapaz de ser sincero; ou não acreditar que o «eu» coerente exista) tem de concluir-se que na ficção como na vida real tudo é ao mesmo tempo verdade e mentira, tudo não passa de encenação. Wayne Booth já tinha resolvido este problema há muito tempo, em The Rhetoric of Fiction, ao distinguir o «autor real» do «autor implícito» e do «narrador»:

Perhaps the most important differences in narrative effect depend on whether the narrator is dramatized in his own right and on whether his beliefs and characteristics are shared by the author.
The implied author (the author's "second self"). - Even the novel in which no narrator is dramatized creates an implicit picture of an author who stands behind the scenes, whether as stage man­ager, as puppeteer, or as an indifferent God, silently paring his fingernails. This implied author is always distinct from the "real man" -whatever we may take him to be - who creates a superior version of himself, a "second self," as he creates his work (chap. iii).* (University of Chicago Press, 1961)


No Ma-Schamba, JPT propõe uma explicação muita clara (e no fundo muito «boothiana»...) do problema ao afirmar, entre outras observações pertinentes, que «a publicitação de um blog produz um "eu pro-publico", talvez menos que uma personagem mas decerto outra coisa que um "eu" pessoal

Podia também recordar-se a conhecida frase francesa segundo a qual «le style c'est l'homme», com a condição de se lhe acrescentar o prolongamento de Lacan: «l'homme à qui l'on s'adresse». Conscientemente ou não, os blogues procuram o seu público, assumem-se como visão do mundo, desejam e esperam criar cumplicidades - e deixam entrever um projecto, aspirações identificáveis, nalguns casos tiques de classe e tomadas de posição corporatistas. Reduzir o «autor real» do blogue ao seu blogue, porém, seria acreditar numa transparência e na fidelidade de uma transposição que não existem. Embora o «autor real» acabe sempre por sofrer as consequências do «trabalho» do seu «narrador», de nada lhe servindo protestar que só tem com ele a relação insegura que liga o patrão a um empregado, o actor a um papel que vai representar.

* A fine account of the subtleties that underlie the seemingly simple relations between real authors and the selves they create as they write can be found in "Makers and Persons," by Patrick Cruttwell, Hudson Review, XII (Winter, 1959-60), 487-507.