Posts

Showing posts from July, 2005

Águas-furtadas

Image
Lisboa (jc)

Fachadas

Image
Lisboa (jc)

Casas, etc.

Image
Lisboa (jc)

Escadas

Image
Lisboa (jc)

O céu de Lisboa

Image
(jc)

Janelas e chaminé

Image
Lisboa (jc)

Rosto

Image
(jc)

Lugares-comuns

Tudo se gasta, se consome, se degrada: o amor, a arte, a vida, as ideias, os regimes, as civilizações. Vale a pena discutir, apressar-se a destruir, antecipar-se aos efeitos da passagem aplicada, indiferente e rápida do tempo? Loucura humana.

(...)

Ouvido no café: " sexo? quem falou de sexo? eu estava a falar de amor, o amor comove-me".

Lisboa, memórias

Image
Lisboa (jc)

Lisboa, memórias

Image
(jc)

D. Pedro IV

Image
(jc)

I wish he 'd come to school with me

Image

O aprendiz de feiticeiro

Se eu quiser rio-me de tudo. Se eu quiser digo que tudo é nada. Se eu quiser pego num quadro do Picasso ou do Matisse e demonstro a infantilidade arrogante e pedante da arte, o uso incorrecto das cores e das formas. Se eu quiser pego num sermão do padre Vieira ou num poema de Fernando Pessoa e demonstro que eles só disseram asneiras - ou que nada do que eles escreveram tinha muito sentido: parvoíces tudo. Se eu quiser digo que a poesia não existe porque eu posso rir-me de todas as palavras ditas por outra pessoa e pôr a nu as insuficiências do talento. Se eu quiser demonstro tudo o que eu quiser. Se eu quiser digo que nem o que eu digo ou escrevo tem qualquer sentido digno de atenção. Se eu quiser acredito que tudo o que eu digo é verdade, a pura verdade à qual não se pode escapar.

Mas não quero. E sinto-me feliz, pois se tivesse destruído tudo com a minha palavra poderosa e sapiente tinha ficado sozinho no mundo enfim perfeito com a minha insuficiência e a minha solidão.

Geometrias

Image
Lisboa (jc)

Geometrias

Image
Lisboa (jc)

Trakl: Pourpres éclatèrent bouche et mensonge

ABANDON A LA NUIT

Moniale! enferme-moi dans ton obscurité,
Ô montagnes froides et bleues!
Tombe en sang une rosée sombre;
La croix se dresse abrupte dans le scintillement des astres.

Pourpres éclatèrent bouche et mensonge
Dans les ruines de la chambre glacée;
Brille encore un rire, jeu d'or,
Les derniers sons d'une cloche.

Nuage de lune! Noirâtres tombent
De l'arbre, la nuit, des fruits sauvages
Et l'espace devient tombeau
Et ce voyage terrestre, un rêve.


A L'EST

Aux orgues sauvages de la tourmente d'hiver
Ressemble la colère sombre du peuple,
La vague pourpre du combat,
D'étoiles dépouillées.

De ses sourcils brisés, des bras d'argent,
La nuit adresse un signe aux soldats qui meurent.
Dans l'ombre du frêne automnal
Soupirent les esprits des victimes.

Des broussailles épineuses encerclent la ville.
Des marches sanglantes, la lune
Chasse les femmes épouvantées.
Des loups sauvages franchirent les portes.

(George Trakl, Oeuvres Complètes, traduites de l’allemand par
Marc Petit et…

Ainda a questão da poesia

Eu tinha acabado de chegar a casa quando o telefone tocou. Era o doutor. O nosso diálogo tinha-o deixado com algumas dúvidas.
DR. - Gostava de perceber uma coisa, disse ele logo. O que você defende é uma poesia que use a linguagem corrente, que fale da vida, de nós, das coisas de que fala a poesia em geral, como nós falamos delas no dia a dia, despretensiosamente?
NAGEL - Pode ser, disse eu. Mas não forçosamente. Há grandes poetas que só usam o vocabulário e uma sintaxe semelhantes ou idênticas às que nós usamos na vida corrente, parece que falam como nós todos e que não se estão a preocupar em ser poetas - e no entanto o que eles dizem e a maneira que têm de o dizer toca-nos profundamente, introduz-nos a outro universo, faz-nos aceder à, digamos, seriedade e profundidade da existência. Mas há outros poetas, de facto, e são a maioria talvez, que falam num estilo que seria impensável nós usarmos tal e qual em condições ditas normais na nossa vida quotidiana. Veja o Rimbaud, o Baudelair…

Pascoaes e a poesia

- Que maneira desagradável de falar de Pascoaes. Não aprecio esse seu lado, revela certa imaturidade. Deixe o homem em paz, ele já morreu há muito tempo.
- Eu sei, para si a literatura é uma actividade nobre, nasce de ambições elevadas, por isso é despropositado usar de tanta severidade.
- Gente com educação humanística a desancar noutras pessoas parece-me mal, de facto, e sobretudo é incompreensível. Em vez de criticar não será melhor fazer, propor à apreciação do público obra melhor?
- Reconheço que me excedi, pronto. Mas não me diga que a literatura é por natureza uma actividade nobre. A literatura é um meio de realização pessoal, uma maneira como qualquer outra, embora mais aristocrática nas suas presunções, de escapar à banalidade da existência. E não está certo, seja qual for o ramo de actividade em que nos realizemos, que algumas pessoas triunfem na vida à custa dos vícios da sociedade e contribuindo para o aumento da mediocridade.
- E criticar os outros não será uma forma de reali…

Children

Image

A importância do "lugar"

O sentido das palavras só se entende se podemos identificar o lugar de onde nos chegam. Se aquele que fala ou escreve não está em lugar seguro as suas palavras deixam transparecer a insegurança. Se aquele que fala ou escreve não pode imaginar o seu futuro, as suas palavras deixam transparecer a incerteza em que vive quanto ao futuro.

Mas a poesia está ao alcance daquele que ignora o lugar onde se situa e também está ao alcance daquele que vive na incerteza do futuro. É possível mesmo que a essência da poesia tenha a ver com a impossibilidade de definir com clareza o lugar e o futuro.

As palavras da poesia são criação do sentido, notícia sobre o sentido, ou simplesmente procura, falhada ou bem sucedida, do sentido? A poesia só é possível àquele que não perdeu de vista o sentido, àquele que, mesmo incapaz de dizer com clareza o lugar e o futuro, ainda não perdeu a capacidade de distinguir. Distinguir pelo menos as diferenças de sentido entre as palavras - pelo menos entre algumas palavras…

Pátrias

Há a pátria real e a pátria imaginária. Não é necessário viver fora para as confundir ou para as distinguir. Mas quem vem só de vez em quando não escapa ao choque, aos conflitos, às perguntas. E depois, outras questões: talvez o próprio conceito de pátria esteja em decadência: talvez a pátria seja apenas uma metáfora alargada da casa materna e paterna - ou do ninho. A evolução actual vai deixar-nos apenas com o conceito freudiano ou literário de pátria? Vão libertar-nos da ilusão de ter para onde fugir, onde nos refugiar, onde permanecer ao abrigo?

Sobre os atentados de Londres, além do lamento, apenas uma observação: o terrorismo não se combate com armas, combate-se com a diplomacia, com a cooperação honesta entre os povos e as civilizações. O resto é capitalismo desumano e feroz, hipocrisia, estupidez. E comércio, negócios. Os milhares de mortos do Iraque são tão dignos de ser chorados como os mortos europeus e americanos.

Avoid being clever

The ancient Masters
didn't try to educate the people,
but kindly taught them to not-know.

When they think that they know the answers,
people are difficult to guide.
When they know that they don't know,
people can find their own way.

If you want to learn how to govern,
avoid being clever or rich.
The simplest pattern is the clearest.
Content with an ordinary life,
you can show all people the way
back to their own true nature.


(Lao-Tzu, Tao te Ching, a new English version, with forward
and notes , by Stephen Mitchell, Harper Perennial,1992)

The gates of paradise

A soldier named Nobushige came to Hakuin, and asked: "Is there really a paradise and a hell?"
"Who are you?" inquired Hakuin.
"I am a samurai," the warrior replied.
"You, a soldier!" exclaimed Hakuin. "What kind of ruler would have you as his guard? Your face looks like that of a beggar."
Nobushige became so angry that he began to draw his sword, but Hakuin continued: "So you have a sword! Your weapon is probably much too dull to cut off my head."
As Nobushige drew his sword Hakuin remarked: "Here open the gates of hell!"
At these words the samurai, perceiving the master's discipline, sheathed his sword and bowed.
“Here opens the gates of paradise,” said Hakuin.

(Zen Flesh, Zen bones, compiled by Paul Reps and Nyogen Senzaki, Shambhala, 1994)

Knut Hamsun sobre a América

"Très jeune, je m'étais trouvé coincé, j'étais à Chicago et n'avais aucun moyen de quitter cette ville. J'écrivis alors une courte lettre à un Américain connu pour lui demander – demander vingt-cinq dollars que je ne pouvais promettre de rembourser. J'allai moi-même porter la lettre. Il y avait un long chemin à faire, tout à fait jusqu'aux abattoirs, je me renseignai et trouvai le bureau de l'homme. C'était une pièce immense, laide d'aspect, à peu près comme des communs, mais avec un fourmillement inouï d'employés de bureau. A l'entrée, il y avait un jeune homme qui faisait le portier, je lui remis ma lettre et il l'emporta, je le vis se diriger vers le milieu de la pièce où était assis, sur une estrade, un homme en train de travailler à des papiers. C'était Armour*. A partir de ce moment-là, je n'osai lever les yeux, je dus ressentir de la honte, j'avais peur aussi d'un refus vraisemblable. Le portier revint rapide…

Programa do concerto

Sonata para duas catedráticas histéricas, um anfiteatro vazio e uma janela aberta.

Fuga para dois automóveis, três jornais da tarde e uma bicicleta.

Nocturno para trinta ais, dois suspiros, um vendaval e cinquenta desempregados.

Sinfonia para duas colunas de mármore, um poeta postmoderno, três cabeleireiros e cinco fotografias.


INTERVALO


Estudo para dois políticos, quatro estômagos azedos e três cérebros alcoolizados.

Concerto para três críticos literários, uma automotora diesel, cinco parafusos e dois arcebispos.

Cantata de arrotos para três jornalistas, um alfinete, dois pastores alemães e sete escavadoras.

Requiem miniatura para cem militares roucos, duas arenas, dois filósofos de gravata, uma vaca e trinta apitos dourados.

As razões da alegria

O miúdo não entendia por que razão a rua onde morava se chamava doutor não sei quantos em vez de ter o nome do seu próprio pai ou, eventualmente, o nome de um dos vizinhos.
- Quanto é que o doutor não sei quantos pagou? - perguntava ele à mãe.
Ela ria-se:
- Não te preocupes, o doutor não sei quantos já morreu há muito tempo e nós é que estamos vivos.
O miúdo dava uma gargalhada e saltava:
- Nós é que estamos vivos, nós é que estamos vivos.
E quem por detrás dos vidros da janela via a sua alegria achava o mundo bonito.