Monday, August 22, 2005

Coisas que eu pensei hoje

1. Que uma grande parte da poesia que se escreve parece ter sido escrita numa redoma de vidro especial, onde os escritores se afastam da lógica do mundo real quotidiano (o que é regido pelo código civil, por exemplo) permitindo-se muitas divagações pueris, muitas parvoíces. Deve ser por isso que o Vasco franze o nariz e diz: a poesia não se vende. Pudera, claro que não se vende, quem é que tem paciência para aturar excentricidades nem sequer muito interessantes quando tem facturas a pagar e filhos a educar e revisões do carro em que pensar? A realidade é muito sensata. Escrever poesia sem se afastar da sensatez da realidade, sem levantar os pés do chão, sem se tornar infantil nem irresponsável nem piegas nem engraçadinho, aí está o que poderia ser uma boa norma a adoptar, o desafio que valeria a pena.

2. Percebi por que razão Fernando Pessoa inventou os heterónimos. Eles tinham de falar ou Pessoa de falar através deles, mas quem é que aceitaria ser confundido na vida real com tal gente, ser reduzido no espírito do público crédulo e pouco rigoroso a indivíduos tão cheios de manias, inclusivamente a da originalidade filosófica e artística, a de uma exigência abusiva para com Deus e a vida? Quem é que aceitaria comprometer-se definitivamente e seriamente nas frases que os heterónimos escreveram? Fernando Pessoa manteve a distância, não deu confiança, protegeu a sua integridade. É por isso que da sua verdadeira pessoa e personalidade sabemos muito pouco e nunca saberemos mais, embora os professores e os críticos imaginem o contrário.

3. Que o pensamento é descontínuo e nós vivemos na discontinuidade. Que escrever, seja onde for e a que propósito for, e contar histórias aos amigos, por exemplo, são maneiras de fabricarmos abusivamente coerência. Que não nos apanhem sem ideias, sem uma opinião, sem ciência. Por excesso de desejo de coerência e de obras acabadas acabamos por mentir imenso. Convém, por essa razão, desconfiar muito de tudo o que nos sai da pena ou da boca. Não somos nós que falamos, como diziam os estrutualistas, é o "sistema" que fala em nós e através de nós. E o que é o "sistema"? O sistema é uma máquina que receia o vazio e se aterroriza quando dá com fendas. Histérico, o sistema tenta preencher o mais depressa possível todas as fendas, quer eliminar imediatamente todos os espaços vazios, não tem tempo nem a maturidade que permite esperar pelo que poderia ocupar esses lugares com toda a justiça e proveito.