Monday, August 29, 2005

Já não há países perfeitos

A Noruega fascina-me: as florestas, os lagos, o mar, as montanhas, a pureza do ar, a limpidez do céu, a neve, os largos espaços. Os impostos são exorbitante e não há infantários gratuitos para as crianças. Quem necessitar de ver um psicólogo paga do seu bolso. Os médicos enganam-se tanto nos diagnósticos e dão tantas provas de arrrogância e descuido como noutros países. O sistema de segurança social francês é de longe e desde há muito tempo superior ao norueguês, embora os noruegueses pensem que não. O meu amigo que morreu (em Oslo, onde era professor universitário) porque o médico interpretou as dores que ele sentia no abdómen como sintoma de ansiedade, mandando-o consultar um psiquiatra, teria morrido se não se tivesse perdido tanto tempo a diagnosticar o cancro que ia alargando os seus domínios a outros lugares do corpo? Uma pessoa que me é muito próxima chegou ao hospital para iniciar a quimioterapia depois de operação grave e tinham-se esquecido de a inscrever na lista, isto seis semanas depois da operação e sem acompanhamento sério de qualquer espécie. Que se passem coisas assim em países que se pretendem superiores aos outros em protecção social é surpreendente e preocupante. Mas entretanto um adulto não pode comprar uma cerveja num supermercado depois das 6 ou das 8 da tarde, segundo os dias, e o Estado detém o monopólio do álcool, que vende a preços exorbitantes. O tabaco também custa fortunas, mas enfim, a gente hoje tem tendência a perdoar neste caso a ditadura do poder estatal. Às vezes digo aos meus amigos noruegueses: e vocês não se revoltam contra esta ditadura abusiva dos burocratas, do Governo, do Estado? Não, não se revoltam, por enquanto aceitam tudo. Devem achar que está bem assim ou que não vale a pena tentar mudar as coisas. Aliás nem toda a gente tem razões para se queixar. Vinha eu no metro de Holmenkolen e tive por companheiro de viagem um rapaz dos seus 30 e tal anos, de bigode, bem vestido e bem disposto. Ainda na estação onde esperávamos o metro jé o tinha visto a meter-se com as pessoas, a namoriscar as pequenas. Eram apenas umas 6 da tarde, mas visivelmente o rapaz estava com os copos. Depois pôs-se a falar comigo e explicou-me: vivia numa instituição para alcoólicos, tinha televisão no quarto, davam-lhe de comer, etc. E eu a pensar: é por isso que estes fiskepudins querem sempre sacar o máximo aos pais divorciados de esposas norueguesas mesmo quando eles são cumpridores e até dão aos filhos muito mais apoio do que o exigido pela lei. Cheguei a pensar: casar com uma norueguesa é um erro; erro mais grave ainda é divorciar-se dela. Mas o jovial rapaz de bigode que ia connosco no metro parecia um cidadão despreocupado com o seu futuro, um homem feliz. O Estado, como um pai tolerante e atento, não o abandonava à sua sorte - e ele tinha consciência disso. Quando a rapariga loira de calças brancas que ia sentada no banco à minha frente se levantou para sair na estação seguinte o simpático bêbedo não resistiu e ao vê-la passar ao seu lado, pumba, deu-lhe uma palmada no rabo. Ela não reagiu ao gesto do bêbedo, ignorou-o. Ele deve ter ficado convencido de que ainda era cedo para apanhar o barco e regressar ao "hotel": levantou-se e foi a correr atrás dela. Grande, formidável país este, pensei eu, reaccionariamente, com os meus botões.