Wednesday, August 17, 2005

Ver, escrever

Na cidade ou no campo, gosto de andar a pé. Muitas vezes, mas não sempre, levo a máquina fotográfica comigo e registo o que vejo: casas, ruas, árvores, montanhas, planícies, cafés, jardins, rios, o mar, pessoas que cruzam o meu caminho e que provavelmente nem se apercebem de que são fotografadas. A digitalização da fotografia tornou tudo mais fácil.

Escrever sobre o que se vê é difícil e arriscado, a tentação de avaliar confunde-se com o desejo de registar ou de contar. É preciso cuidado com a nossa visão do mundo, não se deve usá-la a torto e a direito irreflectidamente. Só que não a usar de todo é demitir-se da existência e da responsabilidade do sentido.

Para escrever é preciso mais tempo do que para fotografar. Para escrever ficção é preciso mais tempo do que para escrever poesia. Tudo é ficção, evidentemente. A poesia exige maior capacidade de condensação, maior capacidade de isolar o que é essencial e importante. A respiração da poesia é diferente da da prosa de ficção, embora as fronteiras entre as duas se tenham esbatido e nem sempre sejam claras (nem necessárias). Para escrever em prosa é necessário mais tempo porque falar e contar coisas toda a gente pensa que pode e que é fácil, mas surpreender-se, investigar, redescobrir o mundo e entender ou corrigir o sentido do que acontece enquanto se escreve está ao alcance de muito poucos. Da prosa esperam-se histórias, da poesia espera-se arte, é assim. Como se nos dois casos não tivesse de haver histórias e arte simultaneamente. Como se nos dois casos a ambição da arte não fosse igualmente e em permanência um grande perigo, o maior perigo.

A literatura portuguesa actual na quase totalidade dos casos só me interessa profissionalmente. Não me ensina nada, não me propõe uma experiência mais relevante nem mais vasta do que a minha nem do que a literatura que lhe é anterior - nem do ponto de vista da linguagem ou da escrita nem do ponto de vista de outras formas de experiência. Para quê perder tempo, então?

Claro, presunção e água benta cada um serve-se da que lhe apetece. No fim do percurso não vai tudo a dar no mesmo?

É preciso assumir minimamente qualquer coisa. Mesmo que seja apenas o tédio.

Acrescentar, para relativizar a "injúria": e na literatura ACTUAL de outros países, na medida em que tens conhecimento dela, e pelo menos nas línguas em que sabes ler, encontras assim tanta "literatura" realmente importante? Resposta possível: tomara eu ter tempo para ler tudo.

Os clássicos, mesmo quando eram mais jovens do que nós quando os lemos, escreveram obras importantes e que continuam a interessar-nos. A diferença está aí.

Rimbaud, mas não só.

O que não quer dizer que todas as pessoas mais velhas do que nós quando escreviam nos podem ensinar ou revelar alguma coisa.

Um dia, em breve, se tiver coragem, compro uma Yamaha 600 azul (não digo o modelo para não fazer mais publicidade gratuita) e vou começar a descobrir (calmamente, prometo-me, pois sei os riscos que se correm em cima de duas rodas) outras paisagens, o mundo de outras perspectivas. Levo a máquina fotográfica comigo, evidentemente, e talvez deixe de fotografar a realidade de maneira tão figurativa, talvez ceda com mais frequência e mais deliberadamente à tentação da arte e me importe menos em dar a conhecer, sem as deformar excessivamente, as "coisas" e pessoas que encontro e descubro. Ou talvez não, logo se vê.