Saturday, October 15, 2005

Descendo de Holmenkollen

Tinha ido a Holmenkollen de comboio (de metro, aliás, mas ao ar livre) e depois desci a pé pelos caminhos da floresta. A dado momento decidimos, o Steve e eu, apanhar o comboio de novo para voltar à cidade. Na estação havia outras pessoas à espera do comboio. Entre elas um rapaz de bigode que ia falando com algumas raparigas e por vezes quase perdia o equilíbrio. Já dentro da carruagem ficámos sentados perto do rapaz de bigode e percebemos que estava com os copos, enfim, nada de grave, mas isso explicava a exuberância. Ouviu-nos falar francês e disse com um ar cordial e quase reverente que a França era um país bestial (claro, com todos os vinhos e queijos que por lá se podem encontrar e cinco vezes menos caros...). Depois explicou-nos que era alcoólico e vivia numa instituição que precisamente dava apoio a quem bebia de mais. Estava em tratamento. Fez o elogio da instituição: quarto porreiro com televisão, jantar, uma maravilha; mas se chegasse bêbedo não o deixavam entrar e tinha de esperar pelo dia seguinte. Ia apanhar o barco, eram umas 4 ou 5 da tarde. Voltava a "casa". O comboio parou em Majorstue e uma rapariga loira de jeans brancos que estava perto de nós levantou-se e saiu. Quando passou ao lado do rapazola do bigode levou uma bela palmada no rabo. Espantámo-nos, o Steve e eu, mas como a rapariga tinha ouvido a conversa deve ter dado o desconto e não protestou. Talvez por isso, encorajado, o simpático rapaz achou que tinha ali uma chance - e pouco depois levantou-se bruscamente e foi a correr a ver se ainda a apanhava. Espontaneamente achámos-lhe piada. Era um tipo divertido. Mas depois pensei: na Noruega não há escolas infantis nem jardins infantis gratuitos e até fica muito caro pôr lá as crianças; mas os bêbedos têm outras regalias, o Estado preocupa-se com eles; deve haver uma razão.

Os noruegueses estão convencidos de que têm o melhor sistema de protecção social do mundo, mas jardins de infância gratuitos já os havia em França, magníficos, nos anos 70 e o sistema de segurança social francês é de longe superior ao norueguês. O mito escandinavo tem alguma razão de ser, mas no Norte da Europa nem tudo é oiro. E os burocratas que detêm o poder, tendo encaixado o dinheiro dos impostos, desbaratam-no como melhor entendem. Pelos vistos não chega para os alcoólicos e para os jardins infantis ao mesmo tempo.