Monday, January 31, 2005

Watzlawick: Sur le sens de la réalité


Dali, La naissance des désirs liquides



Celui qui souffre mentalement ne souffre pas de la réalité « réelle » mais de sa conception de la réalité. Cette concep­tion est pour lui la réalité, et son sens est le vrai sens de la vie. Pour un mélancolique, la vie est « une histoire contée par un idiot, pleine de bruit et de fureur et qui ne signifie rien ». Le paranoïaque pose un sens avec son idée prétendu­ment délirante et, de cette seule idée fondamentale, tout le reste découle pour lui avec une logique inébranlable. Ceux qui souffrent (qu'il s'agisse d'individus, de couples, de familles ou de systèmes humains encore plus grands, comme les nations) sont prisonniers de leur propre conception du monde ; ils jouent un jeu sans fin, comme on le dit dans la recherche sur la communication, c'est-à-dire un jeu qui ne dispose d'aucune règle lui permettant de modifier ses propres règles ou de se terminer lui-même.


(Paul Watzlawick, Les cheveux du Baron de Münchhausen,
traduit de l'allemand par Anne-Lise Hacker et Martin Baltzer,
Eds. du Seuil, 1991)

Sunday, January 30, 2005

Georg Trakl: Flammes, malédictions


Harald Sohlberg, Night (1904)

Se o espírito é habitado por demónios, pesadelos, inquietações e ameaças, o olhar que contempla o mundo transfigura-o e vê nele a infelicidade e desordem que o atormenta. Também assim nasce a poesia.


LA NUIT
C'est toi que je chante, ravin sauvage,
Montagnes dressées
Dans la tempête de la nuit ;
Ô tours grises
Débordant de grimaces infernales,
De faune ardente,
De rêches fougères, de pins,
De fleurs cristallines.
Tourment infini
D'avoir traqué Dieu,
Doux esprit,
Poussant des soupirs dans la cataracte,
Dans le balancement des pins.

D'or embrasent les feux
Des peuples alentour.
Sur des écueils noirâtres
Se jette ivre de mort
La rougissante fiancée du vent,
La vague bleue
Du glacier

Et gronde
Puissamment la cloche dans la vallée:
Flammes, malédictions,
Et les sombres
Jeux de la volupté,
À l'assaut du ciel
Une tête pétrifiée.


(Georg Trakl, Crépuscule et Déclin, Gallimard, 1972, traduit de
l’allemand par Marc Petit et Jean-Claude Schneider)

Saturday, January 29, 2005

João Camilo: Corvos


Delacroix, Barque Dante


«ó nau navio corvos pedra água cais»
(Ruy Belo)


Um avião levantava voo
por cima da imensidão da água baça
(pista de aeroporto mal delimitada,
perturbada nos limites pelo bater das vagas)

e mil corvos voavam nas suas asas
de corvo metáfora, corvo símbolo,
corvo simplesmente alegoria.

Ruídos de asas e de bicos? Gritos e lamentos?
Dos séculos passados regressavam, inconsoláveis,
os fantasmas reais e irreais do sofrimento.

Eles comem tudo? Ou nunca comeram nada?

Corvo negro do infortúnio? Ou ave de
brancura imaculada, tingida por acidente
no mar sanguinolento do petróleo?

Corvo americano, corvo inglês ou corvo
iraquiano?

Corvo herói colorido de banda desenhada
ou corvo do jornal da noite com a face
massacrada?

E a água a suspirar, a bater na rocha dura.

O tempo nunca pára. Com a morte,
porém, sempre chega a ilusão da cura.

(Inimigo Rumor, número 15,
2003, Brasil e Portugal)

Tão democratas que eles são....

Blair accused of abusing power to appoint peers...


Boutades


Alexandro Allori, Susana e os velhos



«Il n'y a parmi les hommes que le poète, le prêtre et le soldat,
l'homme qui chante, l'homme qui bénit, l'homme qui sacrifie et se sacrifie.
Le reste est fait pour le fouet.»

«J'ai toujours été étonné qu'on laissât les femmes entrer dans les églises. Quelle conversation peuvent-elles tenir avec Dieu?»

«Beau tableau à faire: La Canaille Littéraire.»

«Tous les imbéciles de la Bourgeoisie qui prononcent sans cesse les mots: "immoral, immoralité, moralité dans l'art" et autres bêtises, me font penser à Louise Villedieu, putain à cinq francs, qui m'accompagnant une fois au Louvre, où elle n'était jamais allée, se mit à rougir, à se couvrir le visage, et me tirant à chaque instant par la manche, me demandait, devant les statues et les tableaux immortels, comment on pouvait étaler publiquement de pareilles indécences.»



(Baudelaire, Journaux Intimes)

Fernando Pessoa: I am no one


Leighton, Greek girls playing at ball


A «crise do sujeito»: alguém pensa e sente, mas aquilo que pensa e sente não lhe permite situar-se no «existir». «É», mas não é «alguém»; está, mas está no lugar que não chega a ser «um lugar». Nesse quase «nada absoluto», nessa quase «ausência do sentido», sobrou consciência para constatá-lo. Caos, ameaça; absurdo, dor. «Ser» mínimo: «ser» o suficiente para entender que não se sabe o que se «é», nem como «ser», nem o que «ser», nem o que é «ser», nem o que é «o ser». Alberto Caeiro queria «ser» como as pedras, como os rios: «ser» sem saber, sem sentir que «era». Aqui, pelo contrário, entende-se que para «ser», para aceder ao existir, é necessário conhecimento: do mundo; do ser; do ser no mundo. Curioso, mas não forçosamente contraditório. A consciência mínima do ser tem «exigências»; a total ausência de «consciência do ser» não as pode ter .
262


Today I was struck by an absurd but valid sensation. I realized, in an inner flash, that I'm no one. Absolutely no one. In that flash, what I'd supposed was a city proved to be a barren plain, and the sinister light that showed me myself revealed no sky above. Before the world existed, I was deprived of the power to be. If I was reincarnated, it was without myself, without my I.
I'm the suburbs of a non-existent town, the long-winded commen­tary on a book never written. I'm no one, no one at all. I don't know how to feel, how to think, how to want. I'm the character of an unwritten novel, wafting in the air, dispersed without ever having been, among the dreams of someone who didn't know how to complete me. I always think, I always feel, but there's no logic in my thought, no emotions in my emotion. (...) If only I knew how to think! If only I knew how to feel!


(Fernando Pessoa, The Book of Disquiet, edited and
translated by Richard Zenith, Penguin Books, 2003)

Friday, January 28, 2005

Dêem-nos futuro!

Eu acho mal que o PS queira saber se SL esteve em dívida para com o fisco. Eu entendo que de cima deve vir o exemplo e que se bem prega Frei Tomás temos também de olhar para o que ele faz. Mas essa atitude do PS revela falta de caridade. SL vive fora da realidade. Para onde é que querem que ele caia? O «amigo» PP, especialista em perversidades, devia saber desde o início que esta farsa iria acabar de maneira burlesca. Imagino-o na sombra a roer as unhas cheio de apetite de poder. Se eu fosse Ésquilo ou Shakespeare, tinha já diante de mim, praticamente organizado pelo próprio SL, o argumento de uma pequenina tragédia política - e, o que é mais lamentável, provavelmente a trama de uma desgraçada tragédia pessoal. A mim incomoda-me este espectáculo. Falemos de projectos de governo e de soluções para o país, senhores políticos dos partidos. Deixem lá o SL e o PP e a frase escandalosa de Francisco Louçã em paz. Já chega. Queremos futuro. Queremos ver-nos livres deste presente e remeter para o passado os seus infelizes e pouco recomendáveis protagonistas. Dêem-nos essa chance.

Política cultural

Têm aparecido outras sugestões e já há vários candidatos ao lugar de Ministro da Cultura. No que me diz respeito, eu simpatizo com esta visão da questão cultural que, com a devida vénia, cito de Palácio dos Balcões .


«Antes de mais acabem-se os subsídios a artistas e a criadores. Os subsídios centrais a artistas têm uma carga de injustiça enorme. Todos nós que trabalhamos nas artes percebemos como as atribuições funcionam e sabemos, de antemão, quem vai ficar com o dinheiro e com quanto. Os criadores é um caso ainda mais grave. Quem faz a distinção entre o que faz sentido estético e não faz? Quem é o iluminado que sabe que determinada linha artística é relevante no panorama da arte contemporânea internacional e qual não é? (...) Cada vez mais, vemos artistas pregando que são bailarinos contemporâneos a receber dinheiro do estado para fazer disparates a solo no palco. Vemos coreógrafos a dizer que a essência do espectáculo para o qual receberam dinheiro do IA é o facto de ser dança não coreografada. Os bailarinos sentem o momento, os músicos improvisam no palco, e nós pagamos do nosso bolso tudo isto! Que tal eu estar em Castelo Branco e ver uma sinfonia de Mozart, ou uma comédia de Aristófanes? Que tal eu estar no Teatro Viriato e poder ver uma peça de Beckett em vez de meia dúzia de gente disforme a fazer um espectáculo a fingir que é teatro. Será que aquela gente sabe estar em palco, sabe falar, sabe projectar a voz, sabe dançar? Eu acho que sonatas de Beethoven, quartetos de Mozart e sinfonias de Haydn fazem parte do meu direito intrínseco de crescimento cultural, esteja eu onde estiver. Será que alguém tem ideia de quanto custa fazer um espectáculo destes por semana numa cidade do interior (um trio à sexta-feira, um pequeno diálogo de Platão no sábado, etc)? Pouco, muito pouco. Fica menos o ano todo, que pagar ao Rodrigo Leão para ir lá uma vez.»

Eugenio Montale: Lungi è il mattino


Corot, Nantes

(…)

Con le barche dell'alba
spiega la luce le sue grandi vele
e trova stanza in cuore la speranza.
Ma ora lungi è il mattino,
sfugge il chiarore e s'aduna
sovra eminenze e frondi,
e tutto è più raccolto e più vicino
come visto a traverso di una cruna;
ora è certa la fine,
e s'anche il vento tace
senti la lima che sega
assidua la catena che ci lega.

(...)


(«Clivo»)

Thursday, January 27, 2005

Poderes sobrenaturais


M.S. Merian

Nesta fotografia, que me foi enviada por um sportinguista meu amigo, pode ver-se, segundo ele, a alma obscura e invisível do árbitro que levou o Benfica à vitória no jogo com o Sporting. Texto a acompanhar: Só um espírito dotado de poderes sobrenaturais podia ver os 2 livres que deram golos ao Benfica, não ter visto o Aguiar ceifar as pernas do Liedson, e ter visto, estando de costas, o Hugo Viana agredir o miúdo Pereira.

Eu por mim não digo nada. Para quê? Não é no futebol e na paixão excessiva pelo futebol que se tem notado melhor, sem ser necessário usar lupa, a decadência moral do país e a nossa dificuldade em viver em democracia e em ter futuro como comunidade? Mens sana in corpore sano. Pois sim. Todas as semanas um capítulo novo. A percentagem de incompetentes (e/ou desonestos) entre os árbitros, porém, não será muito diferente da que encontramos noutras profissões. Reina a coerência no país. Claro, claro, foi um jogo para não esquecer.


Fernando Pessoa: The mind's excessive anguish


Oscar Bluemmer, Azure

(Ingrid: skulle du ikke laere portugisisk, "jenta mi"?)

"At the wheel of the Chevrolet on the road to Sintra"

At the wheel of the Chevrolet on the road to Sintra
Under moonlight and dream, on the deserted road,
I drive alone, slow and easy, and it seems to me
A bit - or I make myself think it so a bit -
That I'm following some other road, some other dream, some other world,
I'm going on, not with Lisbon there behind or Sintra ahead,
I'm going on, and what more is there to it than not stopping, just going on?

I'll be spending the night in Sintra, since I'm unable to spend it in Lisbon.
But when I get to Sintra, I'll be sorry I m not staying in Lisbon.
Always this restlessness, aimless, inconsequential, pointless,
Always, always, always,
The mind's excessive anguish over nothing at all,
On the Sintra highway, dream highway, life highway . . .

Responding to my subconscious motions at the wheel,
The car I borrowed moves like a greyhound with me and under me.
I smile as I think of the symbol, turning to the right.
So many borrowed things I go along with in this world!
So many borrowed things I drive on with as if they were mine!
What's been lent me, alas, is what I myself am!

To the left, a hovel - yes, a hovel - at the side of the road.
To the right, an open field and the moon in the distance.
The car, which just before seemed to offer me freedom,
Now becomes something I'm locked up in,
Something I can only control if I'm part of, if it's part of me.

Behind, to the left, there's the hovel and more than hovel.
Life must he happy there, simply because it isn't my life.
If someone saw me from the window, they'd imagine: there' s someone who's happy.
Maybe to the child gazing through the panes of the top-story window
I was, like the borrowed car, a dream, an honest-to-goodness fairy.
Maybe to the girl hearing the motor who watched from the ground-floor Kitchen window,
I'm a hit of the prince all girls dream about,
And through the panes she'll take me in sidelong till I vanish around the bend.
I'll leave dreams behind me - or is it the car that will?

I, the driver of a borrowed car, or I the borrowed car I drive?

On the road to Sintra and sad in the moonlight, with the night and fields before me,
Driving the borrowed Chevrolet, and miserable,
I lose myself on the road of things to come, vanish in the distance I am overtaking,
And out of some sudden, terrible, violent, incredible impulse,
I accelerate . . .
But I left my heart hack there on that stone pile I steered clear of,
Seeing it without seeing it,
At the door to the hovel,
My empty heart,
My unappeased heart,
My heart, more human than I am, more precise than life.

On the road to Sintra, near midnight, at the wheel in the moonlight,
On the road to Sintra, tired of my own fancies,
On the road to Sintra, each moment closer to Sintra,
On the road to Sintra, each moment farther away from myself . . .

(1928)

(Poems of Fernando Pessoa, translated by Edwin Honig and
Susan M. Brown, The City Lights Books, San Francisco, 1998)

Wednesday, January 26, 2005

Fernando Pessoa: The blissful delight


Matisse, Notre-Dame



Eu leio Pessoa como leio os romancistas: as afirmações que ele faz interessam-me, mas não se me impõem forçosamente como sendo verdades; são apenas as verdades (reais ou fingidas) de um personagem que faz parte do universo de ficções que ele inventa. Neste e noutros excertos da obra de Pessoa - em inglês, para que outros leitores o descubram - há narcisismos e «coquetteries» evidentes de escritor obcecado com a destruição das premissas em que assentam as nossas existências. Pessoa gosta de provocar. E embora ele, sempre à procura de razões de queixa, pareça crer o contrário, nunca esteve previsto que as laranjeiras dessem maçãs de oiro. Esse lado de Pessoa pode parecer às vezes um tanto banal e cansativo. Também ele tinha limites no seu génio.


259


I enjoy speaking. Or rather, I enjoy wording. Words for me are tangible bodies, visible sirens, incarnate sensualities. Perhaps because real sen­suality doesn't interest me in the least, not even intellectually or in my dreams, desire in me metamorphosed into my aptitude for creating verbal rhythms and for noting them in the speech of others. I tremble when someone speaks well. Certain pages from Fialho and from Chateaubriand make my whole being tingle in all of its pores, make me rave in a still shiver with impossible pleasure. Even certain pages of Vieira, in the cold perfection of their syntactical engineering, make me quiver like a branch in the wind, with the passive delirium of something shaken.
Like all who are impassioned, I take blissful delight in losing myself, in fully experiencing the thrill of surrender. And so I often write with no desire to think, in an externalized reverie, letting the words cuddle me like a baby in their arms. They form sentences with no meaning, flowing softly like water I can feel, a forgetful stream whose ripples mingle and undefine, becoming other, still other ripples, and still again other. Thus ideas and images, throbbing with expressiveness, pass through me in resounding processions of pale silks on which imagina­tion shimmers like moonlight, dappled and indefinite.
I weep over nothing that life brings or takes away, but there are pages of prose that have made me cry. I remember, as clearly as what's before my eyes, the night when as a child I read for the first time, in an anthology, Vieira's famous passage on King Solomon: 'Solomon built a palace...' And I read all the way to the end, trembling and confused. Then I broke into joyful tears - tears such as no real joy could make me cry, nor any of life's sorrows ever make me shed. That hieratic movement of our clear majestic language, that expression of ideas in inevitable words, like water that flows because there's a slope, that vocalic marvel in which the sounds are ideal colours - all of this instinctively seized me like an overwhelming political emotion. And I cried. Remembering it today, I still cry. Not out of nostalgia for my childhood, which I don't miss, but because of nostalgia for the emotion of that moment, because of a heartfelt regret that I can no longer read for the first time that great symphonic certitude.
I have no social or political sentiments, and yet there is a way in which I'm highly nationalistic. My nation is the Portuguese language. It wouldn't trouble me at all if Portugal were invaded or occupied, as long as I was left in peace. But I hate with genuine hatred, with the only hatred I feel, not those who write bad Portuguese, not those whose syntax is faulty, not those who used phonetic rather than etymological spelling, but the badly written page itself, as if it were a person, incorrect syntax, as someone who ought to be flogged, the substitution of i for y, as the spit that directly disgusts me, independent of who spat it.
Yes, because spelling is also a person. The word is complete when seen and heard. And the pageantry of Graeco-Roman transliteration dresses it for me in its authentic royal robe, making it a lady and queen.



(Fernando Pessoa, The Book of Disquiet, edited and
translated by Richard Zenith, Penguin Books, 2003)

Tuesday, January 25, 2005

Fernando Pessoa: The soul's ideal language


Van Gogh, Montmartre



260

Art consists in making others feel what we feel, in freeing them from themselves by offering them our own personality. The true substance of whatever I feel is absolutely incommunicable, and the more pro­foundly I feel it, the more incommunicable it is. In order to convey to someone else what I feel, I must translate my feelings into his language - saying things, that is, as if they were what I feel, so that he, reading them, will feel exactly what I felt. And since this someone is presumed by art to be not this or that person but everyone (i.e., that person common to all persons), what I must finally do is convert my feelings into a typical human feeling, even if it means perverting the true nature of what I felt.
Abstract things are hard to understand, because they don't easily command the reader's attention, so I'll use a simple example to make my abstractions concrete. Let's suppose that, for some reason or other (which might be that I'm tired of keeping the books or bored because I have nothing to do), I'm overwhelmed by a vague sadness about life, an inner anxiety that makes me nervous and uneasy. If I try to translate this emotion with close-fitting words, then the closer the fit, the more they'll represent my own personal feeling, and so the less they'll com­municate it to others. And if there is no communicating it to others, it would be wiser and simpler to feel it without writing it.
But let's suppose that I want to communicate it to others - to make it into art, that is, since art is the communication to others of the identity we feel with them, without which there would be no communi­cation and no need for it. I search for the ordinary human emotion that will have the colouring, spirit and shape of the emotion I'm feeling right now for the inhuman, personal reason of being a weary bookkeeper or a bored Lisboan. And I conclude that the ordinary emotion which in ordinary souls has the same characteristics as my emotion is nostalgia for one's lost childhood.
Now I have the key to the door of my theme. I write and weep about my lost childhood, going into poignant detail about the people and furniture of our old house in the country. I recall the joy of having no rights or responsibilities, of being free because I still didn't know how to think or feel - and this recollection, if it's well written and visually effective, will arouse in my reader exactly the same emotion I was feeling, which had nothing to do with childhood.
I've lied? No, I've understood. That lying, except for the childish and spontaneous kind that comes from wanting to be dreaming, is merely the recognition of other people's real existence and of the need to conform that existence to our own, which cannot be conformed to theirs. Lying is simply the soul's ideal language. Just as we make use of words, which are sounds articulated in an absurd way, to translate into real language the most private and subtle shifts of our thoughts and emotions (which words on their own would never be able to translate), so we make use of lies and fiction to promote understanding among ourselves, something that the truth - personal and incommuni­cable - could never accomplish.
Art lies because it is social. And there are two great forms of art: one that speaks to our deepest soul, the other to our attentive soul. The first is poetry, the second is the novel. The first begins to lie in its very structure; the second in its very intention. One purports to give us the truth through lines that keep strict metres, thus lying against the nature of speech; the other purports to give us the truth by means of a reality that we all know never existed.
To feign is to love. Whenever I see a pretty smile or a meaningful gaze, no matter whom the smile or gaze belongs to, I always plumb to the soul of the smiling or gazing face to discover what politician wants to buy our vote or what prostitute wants us to buy her. But the politician that buys us loved at least the act of buying us, even as the prostitute loved being bought by us. Like it or not, we cannot escape universal brotherhood. We all love each other, and the lie is the kiss we exchange.


(Fernando Pessoa, The Book of Disquiet, edited and
translated by Richard Zenith, Penguin Books, 2003)

Monday, January 24, 2005

Pindar and Horace: Duas estéticas


W. Bouguereau, Art and Literature


«Among the lyricists who follow classical inspiration, consciously or unconsciously, some are descen­dants of Pindar, some of Horace. The Pindarics admire passion, daring, and extravagance. Horace's followers prefer reflection, moderation, economy. Pindaric odes follow r.o pre-established routine, but soar and dive and veer as the wind catches their wing. Horatian lyrics work on quiet, short, well-balanced systems. Pindar represents the ideals of aristocracy, careless courage and the generous heart. Horace is a bourgeois, prizing thrift, care, caution, the virtue of self-control. Even the music we can hear through the odes of the two poets and their successors is different. Pindar loves the choir, the festival, and the many-footed dance. Horace is a solo singer, sitting in a room or quiet garden with his lyre.



Characteristically, Horace often undervalued his own poems. Brief, orderly, tranquil, meditative, they are less intense and rhapsodical but deeper and more memorable than those of Pindar. Cool but moving, sensitive but controlled, elusive but profound, they contain more phrases of unforgettable eloquence and wisdom than any other group of lyrics in European literature.


Inspiration and reflection; passion and planning; excitement and tranquility; heaven-aspiring flight and a calm cruise near the ground. These are not only differences between two individuals or two schools of lyric poetry. They are the distinguishing marks of two aesthetic attitudes which have characterized (and sometimes over-emphasized) two different ways of making poetry, music, painting, oratory, prose fiction, sculpture, and architecture. Detach Pindar and Horace from their background, and read them as poets in their own right. Pindar, the bold victor who sang with the same conquering energy that possessed his own heroes, who made his own medium, who dominated the past and future by the comet-like intensity of his moment, is he not 'romantic' ? Horace, the man who ran away in the civil war, the ex-slave's son who worked his way up to become the friend of an emperor, the poet who built his monument syllable by syllable as carefully as bees build their honeycomb, the apostle of thought, care, self-control, is he not 'classical' ?»
(Gilbert Highet, The Classical Tradition, Greek and Roman
Influence on Western Literature, Oxford University Press,
1949)

Sunday, January 23, 2005

Cesário Verde: Tons de Inferno


E. Munk, Av. Karl Johan

«O sentimento dum ocidental» deixou-nos a imagem de um personagem baudelairiano vagabundeando pela cidade ao fim do dia. Solitário e melancólico, mas atento à vida: às pessoas, às ruas, às casas, ao trabalho, ao movimento e às luzes da cidade. Evocava-se logo de início o romântico e inexplicável «desejo de sofrer», mas o poeta dizia-se disposto a disciplinar a tentação sentimental impondo-se o código severo da arte realista.
O poema «Nós», de que aqui se reproduzem as primeiras estrofes, parecerá menos moderno, mais pitoresco - mais próximo da compaixão com que António Nobre descreveu, em «Lusitânia do Bairro Latino» por exemplo, de maneira colorida, a vida dos pescadores e cenas de doença e de grande miséria popular. Mas a capacidade de «pintar» em detalhe quadros realistas revela-se em «Nós» tão extraordinária que facilmente se perdoará a Cesário a eventual menor elevação poética de algumas destas estrofes.
A oposição cidade/campo, o permanente e caloroso elogio da vida familiar, as referências informadas à vida agrícola e ao mundo do comércio, um certo desprezo irónico pelos ingleses, um orgulho no clima são de Portugal aparecem regularmente na obra de Cesário - e a sua vivacidade e alegria descritiva não têm par na literatura da época. Parece indiscutível que é ele o único poeta que está à altura de Eça de Queirós e dos romancistas realistas desse período.
É a consciência que Cesário já revela ter dos progressos da civilização (em questões de saúde e habitação, por exemplo) que o leva a referir com pormenores realistas aspectos do atraso em que vivia Portugal. Cesário foi poeta da rua e do campo, nunca foi poeta de salão. Estava inserido no mundo do trabalho, não era um puro intelectual. Tinha os olhos abertos para o que o rodeava e soube, com simpatia mas em geral sem pieguice, dar forma épica a cenas da vida quotidiana lisboeta. Porque soube ver e se interessou sinceramente pelo que via, foi capaz de introduzir na sua poesia muito mais «realidade» do que os poetas que o precederam. Foi ele, sobretudo, quem cortou com os vícios dos literatos convencionais, abrindo o caminho para a revolução de certo modo «anti-literária» que atingirá o seu auge nas obras de Fernando Pessoa e de Mário de Sá-Carneiro.
A imagem intensa que Cesário nos transmite do contraste entre a beleza da vida, a energia da juventude, a opulência e força detectadas na própria natureza, por um lado, e os horrores da doença e da morte, pelo outro, não pode passar despercebida. A doença havia de levá-lo também a ele prematuramente - e Cesário parece ter pressentido a ameaça. Mas não foi ele próprio a pintar o quadro de uma natureza insaciável e insensível que deve a sua força e pujança à «enorme mortandade», aos cadáveres que lhe servem de alimento?




Nós


Foi quando em dois verões seguidamente a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora meu pai, depois das nossas vidas salvas,
(Até então nós só tivéramos sarampo)
Tanto nos viu crescer entre os montões das malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na «city» que desterros!

Sem canalização em muitos burgos ermos,
Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.
E os médicos ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

Uma iluminação a azeite de purgueira,
De noite amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons de inferno outros arruamentos.

Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando um horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

Ele, dum lado, via os filhos achacados,
Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos 

Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

Saturday, January 22, 2005

A perseguição ao Galego continua

Lê-se no Portal Galego que Antom Lopez Baleira vai ser julgado em tribunal por ter defendido o ensino da língua galega nas escolas. Podia pensar-se que batalhas destas eram de outras épocas e que defender uma língua que até está bem viva seria visto como defesa do património cultural mundial e merecedor de respeito e homenagens. Quem pensava assim enganou-se.

Aconteceu ou não?

Na extravagante entrevista de José Gil ao Público lê-se logo no início que «o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento

Curiosíssima afirmação. A obscura necessidade de «ler» para além do que parece ser, ou do sentido imediato, leva a estes exageros «profissionais». Privilégio de filósofo seria este, de descobrir, inteligentemente e com óculos inacessíveis ao cidadão comum, outros sentidos para além do sentido ou da falta de sentido do que é dito ou acontece. Os sinais e a sintaxe em que se revela a nossa «natureza profunda e verdadeira» estariam assim nas mãos exclusivas dos intérpretes: dos filófosos, dos psicanalistas, dos sociólogos, dos especialistas da lei, etc. Terrorismo puro, vaidade desmedida, intimidação, é o que se arrisca a ser este exercício da «competência».

Alguém pôs em dúvida que o acontecimento da dissolução da Assembleia teve lugar? Ao reduzi-lo a enigma, Santana não estava a negar a sua ocorrência, apenas quis recusar-lhe sentido e assim criar confusão. Como poderia ele comentar o que não se verificou? Santana é primário, mas esperto: falando de enigma, deixava «aberto» a interpretações futuras o acontecimento a que não queria atribuir sentido ou de que não queria assumir o sentido. Instinto de defesa pessoal e político. Posteriormente, como se tem visto, o pm não se privou de ir interpretando o que aconteceu da maneira que mais jeito lhe deu. Nunca, porém, como tendo origem na sua incompetência. Sampaio tem sido o fantasma mais visível do acontecimento que Santana repetidamente tem tentado contar à sua maneira, de modo pouco convincente. Se a dissolução fosse para o pm um não-acontecimento, como poeticamente pretende o filósofo, como lhe teria sido possível comentá-lo e instrumentalizá-lo, continuar a querer viver dele?


Questão premente neste início de século: para que servem os maîtres-à-penser? Para inventar histórias que já não convencem nem interessam a ninguém? Uma análise cuidada aos produtos da chamada investigação de ponta em «humanities» arriscava-se a chegar a conclusões que provavelmente não abonariam muito a favor de certo tipo de investigação universitária em país nenhum. Em frequentes casos tudo se resume a um encolher de ombros: «não será verdade, mas tem piada». Como se este tipo de mentira, que custa dinheiro aos contribuintes e defrauda os alunos e outros inocentes, fosse aceitável. Em muitos casos o rei vai tão nu que a gente não entende que alguém o possa ver tão bem vestido. O misticismo que antes provocava alucinações religiosas deslocou-se para outras zonas da actividade humana. Só assim se explica o prestígio institucional ou público de certas formas de discurso actuais.

Os enganos ideológicos de figuras como Sartre - e outros - que consequências negativas terão tido na vida política francesa e na existência dos indivíduos? Já nos esquecemos. O Nouvel Obs sempre gostou de «divulgar» estas historinhas para divertir a malta fixe que não tem tempo nem paciência para ler muito- mas necessita de aprender uns nomes e umas frases para ir citando. Nada de novo. Fico na minha: mais vale uma cabeça real em cima dos ombros do que uma cabeça de filósofo a dançar na estratosfera. Quem teria o dislate de invejar uma cabeça dessas?

P. S. 1 - Ver as observações de J. C. Serra em CURA di SÉ, anteriores a este comentário.

P. S. 2 - Leia-se também o que escreveu Eduardo Prado Coelho no Mil folhas - se possível, Eduardo, sem te acompanhar com uma única gargalhada: há quem continue a tomar-nos por parvos... mais tu sais bien que ça ne passera pas... :-)

Friday, January 21, 2005

João Camilo: Elogio do silêncio


Boccioni, The development of a bottle in space


Falamos, repetidamente falamos. Mas quem conhece
o fulgor da densa solidão, a inexplicável alegria
que às vezes nasce do silêncio? As próprias palavras,
quando as cerca a gravidade da sombra com a sua
mudez habitada pela ameaça, animam-se com uma força
imprevista. E aqueles que falavam começaram
a sussurrar, mal ousam pronunciar os sons, deixam-se
perturbar pela revelação inesperada do instante.


Ó amada secreta, tu, que compreendes e
adivinhas os gestos antes de eles serem
esboçados, onde estás? Ó olhos intensos
da paixão e da curiosidade, atentos
olhos daquela que pressente o enigma,
onde estais? O homem que eternamente
espera pela salvação interroga-se, recorda
os momentos da presença estranha do ser,
a sua manifestação surpreendente nas sombras
do quotidiano mais banal. Mas nada no mundo é
banal; basta coincidirmos com o nosso destino.

Incapazes de amarem o que existe, aqueles
que se perderam de si mesmos refugiam-se
na caverna do delírio e do pesadelo. Falam,
gritam, inquietam-se. quem, nas montanhas
desertas, com a amada ao seu lado, soube
calar-se e se contentou em olhar aprendeu
o segredo e não o esqueceu. Ela própria, a
amada, foi engolida pelo tempo e agora vive
uma existência obscura num país do Norte, na
orla das florestas assombradas cobertas de neve.
(SB, 5 Dez. 1994)

João Camilo: Ouvi-las enfim


Bonnard, The lodge


As raparigas a quem prestámos uma atenção distraída cresceram, tiveram filhos, envelheceram, e agora vivem felizes em cidades e aldeias desconhecidas. Às vezes apetece voltar atrás e olhar de novo para elas, ouvi-las enfim com atenção, falar-lhes com a consciência aguda da passagem destruidora do tempo sobre nós. Mas para onde escrever-lhes, quem conhece a rua e a casa onde elas moram? E para quê perturbar a paz que elas encontraram, levar à sua vida a recordação da imperfeição do amor? Aqueles que souberam adivinhar o tesoiro inestimável que nelas se escondia merecem que os deixem em paz na sua vida.

Difícil é encontrar no mundo o seu lugar. Nós aspiramos à originalidade, defendemos com vigor a identidade e a posse do que pensamos que nos pertence. E no entanto, diz o filósofo, a tragédia da existência tem a sua origem na nossa incapacidade de suportar a pura individualidade, a absoluta solidão de quem nada tem a partilhar com os outros. Por isso no seio da multidão e na relação amorosa, diluindo-se a nossa originalidade no que é comum, encontramos a paz, às vezes o êxtase, outras vezes a fúria das certezas demagógicas e assassinas.

Não, não queremos, não poderíamos tirar a ninguém o direito à protectora ilusão do amor. Aqueles que se uniram, devemos deixá-los unidos. Não escreveremos cartas, não telefonaremos, não tentaremos reencontrar aquelas que já não são a pessoa que nós conhecemos. Elas cresceram longe de nós e aprenderam a domesticar o caos e os desejos contraditórios e inexplicáveis. De longe, como um deus carinhoso mas invisível, ou apenas como o anjo da guarda imaginário, gostaríamos de contemplar o seu rosto, de assistir aos seus sorrisos, de conhecer a alegria que as faz viver. Mas não nos são concedidos, nem sequer por um breve instante, os privilégios divinos. Por isso, eternamente sem certezas, repousamos no silêncio, e no nosso isolamento interrogamo-nos sobre o sentido das coisas que acontecem, sobre a ficção do interlúdio.

(SB, 1 de Outubro de 1994)


Thursday, January 20, 2005

Sylvia Plath: The clear vowels rise


(Harper Collins Publishers)


Morning Song

Love set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your footsoles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival. New statue
In a drafty museum, your nakedness
Shadows our safety. We stand round blankly as walls.

I'm no more your mother
Than the cloud that distils a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind's hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses. I wake to listen;
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat's. The window square

Whitens and swallows its dull stars. And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.

Cesário Verde: A cidade e o campo


Nicolas Poussin, Primavera


O ponto de vista do agricultor:




(...)

Ó cidades fabris, industriais,
De nevoeiros, poeiradas de hulha,
Que pensais vós do país que vos atulha
Com a fruta que sai dos seus quintais?

(...)

Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

A nós tudo nos rouba e nos dizima:
O rapazio, o imposto, as pardaladas,
As osgas peçonhentas, achatadas,
E as abelhas que engordam na vindima.

(...)

(Cesário Verde, «Nós»)


Bibliografia: Raymond Williams, The Country and the City, Oxford University Press, 1973


Wednesday, January 19, 2005

Morandi: A beleza discreta dos objectos «banais» (2)

... em parte as formas... em parte as cores ...



Morandi: Natureza morta

e. e. cummings: you are mine said she

may i feel said he
(I'll squeal said she
just once said he)
it's fun said she

(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she

(let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)

may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she

may i move said he
is it love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she

but it's life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she

(tiptop said he
don't stop said she
oh no said he)
go slow said she

(cccome? said he
ummm said she)
you're divine! said he
(you are Mine said she)

(e. e. cummings, 100 Selected Poems, Grove Press, N. York)

Tuesday, January 18, 2005

e. e. cummings: love's function is...


Whaterhouse, The crystal ball Posted by Hello

love's function is to fabricate unknownness

(known being wishless; but love, all of wishing)
though life's lived wrongsideout, sameness chokes oneness
truth is confused with fact, fish boast of fishing

and men are caught by worms (love may not care
if time totters, light droops, all measures bend
nor marvel if a thought should weigh a star
- dreads dying least; and less, that death should end)

how lucky lovers are (whose selves abide
under whatever shall discovered be)
whose ignorant each breathing dares to hide
more than most fabulous wisdom fears to see

(who laugh and cry) who dream, create and kill
while the whole moves; and every part stands still:


(e. e. cummings, 100 Selected Poems, Grove Press, N. York)

Carta de Laranjeira a Amadeu de Sousa Cardoso


Manuel Laranjeira Posted by Hello





Manuel Laranjeira nasceu em 1877 em Vergada, Vila da Feira, e suicidou-se em Espinho a 12 de Fevereiro de 1912. Tinha escrito como tese de medicina A Doença da Santidade – Ensaio Psicopatológico sobre o Misticismo de Forma Religiosa (Porto, 1907, reeditada em 1986 pela Editorial Labirinto em Lisboa). A obra que deixou é escassa e mal conhecida. Amanhã, prólogo dramático, é considerado do melhor que no género se escreveu na época. Uma edição de O Diário Íntimo de Manuel Laranjeira foi publicada em Lisboa pela Editorial Vega não há muito tempo. Nas Edições Asa foram publicados dois volumes das suas obras. Da sua amizade com Miguel de Unamuno ficaram algumas cartas, incluídas no volume indicado abaixo.
«Conheci o Manuel Laranjeira no Verão de 1908, em que veraneei em Espinho. De início, antes de me relacionar com ele, quando só o conhecia de vista e pelo que dele me diziam, pareceu-me pouco simpático e cheguei a ter dele uma opinião muito afastada da realidade. Mas logo que começámos a falar brotou em nós, desde o primeiro momento, uma amizade íntima, firme, fraternal, que durou até à sua desditosa morte. (...) Foi Laranjeira quem me ensinou a ver a alma trágica de Portugal, não direi de todo o Portugal, mas do mais profundo, do maior. E foi ele quem me ensinou a ver não poucos recantos dos tenebrosos abismos da ama humana. Era um sedento de luz, de verdade e justiça. Matou-o a vida.»

(Miguel de Unamuno, Salamanca, 19 de Junho de 1913, tradução de Manuel
Alberto; prefácio a Cartas de Manuel Laranjeira, Relógio d’Água, Lisboa)



Meu Amigo:

Escrevo-lhe numa tarde brumosa, triste, duma tristeza lúgubre. E escrevo-lhe, para que você me perdoe o meu silêncio. Demais você sabe que o meu silêncio é o meu tédio, este desolamento de morte, este desânimo, este can­saço prematuro — em face dos homens, das coisas e da vida.
A impressão que a futilíssima vida lisboeta lhe está causando a você é a impressão que ela causa a todos aqueles que com um pouco de saúde para lá foram empurrados. Certo: Lisboa é boa para conselheiros, pelintras — e para todos os outros mariolas.
O que ela não serve é para a gente moça, para quem ainda tem no peito ilusões sagradas como ideais, como culto. Isto é: para uns, Lisboa serve apenas para estragá-los. Lisboa é um símbolo, o resumo da torpeza nacional: aos que não corrompe, enoja-os.
Eu desejava tanto falar-lhe de mim (egoísmo meu!), mas este sombrio estado de espírito em que me acho paralisa-me a vontade, o braço — e faz-me cair nesta quietude nostálgica a que os budas chamam tédio doloroso.
Mando-lhe o meu ...
Amanhã. Já há dias que aí tenho um exemplar para lhe enviar e tem-me faltado a coragem para escrever uma simples direcção. É um episódio da vida das alfurjas, dos antros do sofrimento, do vício...
Ali fervilha, sente, fermenta, sofre, ama, vive, um mundo que você não conhece, meu amigo. Aquilo é um grito da miséria e contra a Engrenagem em que tudo isto rola. Alguém quis ver no livro tendências anarquistas. Nem você imagina como a estupidez humana me entristece. Porque alguém diz que o mundo é torpe e criminoso e em nome do sofrimento humano, da miséria irresponsável, reclama um pouco de justiça — é anarquista (!!).
Sandeus!
Abraça-o muito e muito afectuosamente o seu deveras amigo e admirador.



Espinho, 8 de Novembro de 1905.
Manuel Laranjeira



http://web.ipn.pt/literatura/laranje.htm
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/manuel_laranjeira/escritores_manuellaranjeira01.htm

Monday, January 17, 2005

O desejo


Guido Reni, Susana e os velhos Posted by Hello

João Camilo: A hora decisiva

Não havia saída para o tédio e as escaramuças continuavam na cidade, dia e noite. A conquista da tranquilidade só era possível através da cobardia: fugir, fechar os olhos, não se preocupar senão com as insignificâncias da vida mais quotidiana. Os donos do poder, fantoches de palha a rebentar de vaidade, esmeravam-se em praticar a solenidade ridícula. Cada dia que passava tornava mais manifesta a ruidosa e mal dissimulada corrupção em que viviam. Como se isto não bastasse, as mulheres amadas ausentavam-se, deixavam de escrever e de telefonar, não se sabia onde procurá-las.


Perdido de si mesmo na selva das ruas ou no isolamento do quarto, o herói da novela sentia o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Apetecia-lhe desaparecer, ir viver em silêncio, próximo da verdade, até chegar a hora decisiva e definitiva da morte. Continuavam a chamar pelo seu espírito desolado as imponentes cadeias de montanhas do Norte. Na sua solidão, pensava, poderia conhecer enfim a mais pura essência do ser, esse enigma que perseguimos com ardor. Ou seria apenas uma última ilusão?


Ia deitar-se, noite adiantada, esperando que o dia seguinte tornaria menos odiosos os ingratos, os caluniadores, os ambiciosos sem escrúpulos e todos os mentirosos e oportunistas. Adormecia com esforço. Enquanto dormia ausentava-se do palco da vida e no sonho visitavam-no às vezes as imagens inocentes da felicidade infantil.

(«As Cores Virtuais», Edições Fenda, Lisboa, 2005)

Sunday, January 16, 2005

Até quando?

Até quando é que ao olhar para os jornais vamos ter de deparar com fotografias da cara e das gravatas de certos políticos e ler transcrições das provocações insensatas que eles vão proferindo? Tínhamos ainda de passar por esta humilhação quotidiana?

Morandi: Paisagem

A pintura, às vezes: levar para casa pedaços
(e versões) da beleza sublime do mundo.



Morandi, Paesaggio (1934) Posted by Hello

Paul Celan: Give it shade enough

«If Celan had set out to write hermetic poems, his work would be less difficult than it is, because it would not require us to make the kind of sense of it that we know it can yield. That is why his earlier verse, though purer, is less difficult than the later. Any reader familiar with the kind of poetry whose progression is one of imagery rather than argument will know how to read the ear­lier poems, whose diction, too, is closer to established conven­tions. From Sprachgitter onwards the images grow sparser, more idiosyncratic, and more laden with conflict, the syntax more broken, the message at once more urgent and more reticent. The available resources of language and prosody become inadequate. Celan begins to coin new words, especially compound words, and to divide other words into their component syllables, each of which acquires a new weight. The process of condensation and dislocation is carried farther in the subsequent collections. Both verse lines and whole poems tend to be shorter and shorter.
One exception, the longer poem, "The Straitening", both records and exemplifies the change. Its German title, "Engfuhrung", is a technical term for a device employed in the composition of fugues. Its counterpart in English usage would have been the Italian word stretto, "an artifice by which the sub­ject and answer are, as it were, bound closer together, by being made to overlap" (SOED). This title recalls the precedent of Celan's earlier "Death Fugue", and a comparison between the two poems shows just how daring, cryptic, and spare Celan's manner had become in the interjacent thirteen years.»

(M. Hamburger no prefácio)



SPEAK, YOU ALSO

Speak, you also,
speak as the last,
have your say.

Speak -
But keep yes and no unsplit.
And give your say this meaning:

give it the shade.

Give it shade enough,
give it as much
as you know has been dealt out between
midnight and midday and midnight.

Look around:
look how it all leaps alive -
where death is! Alive!
He speaks truly who speaks the shade.

But now shrinks the place where you stand:
Where now, stripped by shade, will you go?
Upward. Grope your way up.
Thinner you grow, less knowable, finer.
Finer: a thread by which
it wants to be lowered, the star:
to float farther down, down below
where it sees itself gleam: in the swell
of wandering words.


(Poems of Paul Celan, translated by Michael
Hamburger, Persea Books, New York, 2002)

Saturday, January 15, 2005

e.e. cummings: if on another's face


Bronzino, Venus and Cupid Posted by Hello




it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be -
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear o
ne bird
sing terribly afar in the lost lands.



(e. e. cummings, 100 Selected Poems, Grove Press, N. York)


Katherine Mansfield: Sleeping Together

Katherine Mansfield é conhecida sobretudo pelas suas «short stories» e pelo diário que deixou. Mas escreveu alguns poemas que uma vez lidos nunca mais se esquecem. Este é um deles.



G. Frederick Watts, Pablo and Francesca Posted by Hello


Sleeping together...How tired you were...
How warm our room... how the firelight spread
On walls and ceiling and great white bed!
We spoke in whispers as children do,
And now it was I - and then it was you,
Slept a moment, to wake -"My dear,
I'm not at all sleepy," one of us said....

Was it a thousand years ago?
I woke in your arms - you were sound asleep -
And heard the pattering sound of sheep.
Softly I slipped to the floor and crept
To the curtained window, then, while you slept,
I watched the sheep pass by in the snow.

O flock of thoughts with their shepherd Fear
Shivering, desolate, out in the cold,
That entered into my heart to fold!

A thousand years... was it yesterday
When we two children of far away,
Clinging close in the darkness, lay
Sleeping together?... How tired you were....

Friday, January 14, 2005

Morandi: A beleza discreta dos objectos «banais» (1)


Morandi, Natureza Morta, 1956 Posted by Hello



As naturezas mortas de Cézanne são carnudas, coloridas, cheias de formas redondas, calorosas. As de Morandi são frias, geométricas, com muitas linhas e em cores esbatidas. Mas ambas dão grande prazer estético. Devem satisfazer, na sua perfeição, zonas ou aspectos diferentes da nossa sensibilidade. O mundo é cor e é sombra. É exuberante e é discreto.

O mundo existe independentemente de nós e não precisa de nós para existir. As versões que dele pomos a circular serão sempre incompletas. O risco de que pareçam inadequadas, excessivas ou delirantes é permanente. Mas há outra solução senão correr esse risco? Temos de «dizer» (e só podemos «dizer») o que vemos e o que sentimos. E além da experiência... ainda é preciso a técnica, o «saber fazer».

Thursday, January 13, 2005

Os malefícios da literatura (2)

Do último tipo (os burgueses) já falámos. Quanto aos dois primeiros tipos de personagens, deve dizer-se que eles são ou podem ser os mesmos, mas apanhados em épocas diferentes da sua «carreira». Os papéis que de­sempenham correspondem num caso ao desejo exaltado de defender os valores do «espírito», única forma de existência aceitável e digna para eles; aliás com a glória literária que sempre esperam alcançar conquistarão as mulheres, puras e belas e divinas; é a idade do idealismo ingénuo (recorde-se, porém, que os românticos alemães morriam disso ou enlouqueciam, depois de terem sabido dar expressão literária ao trágico da existência). No ou­tro caso exemplificam o que é visto na época como a vontade cínica de gozo pura­mente material e o casamento só pode ser então de inte­resse ou um acto de resignação. Camilo resumiu este tipo de evolução ao dar a uma das suas obras o título de Coração, Cabeça e Estômago. Começa-se cheio de espe­rança, com muita ilusão e parvoíce; passa-se pela aspira­ção a transformar o mundo pela pena; acaba-se gordo e estoira-se disso. Aliás deve acrescentar-se outra obser­vação: é o próprio amor (como acontece ao pobre e robusto Calisto Elói de A Queda dum Anjo) que dá ori­gem, com os seus tormentos, durante a fase de transição (ama-se, mas ainda não se sabe se se é amado...), ao surgir do poeta no homem. O que parece sugerir que a poesia nasce da queixa, do desequilíbrio, da incerteza, da necessidade de encontrar uma forma para as confusões que se instalam no espírito. Só que na literatura portu­guesa da fase ultra-romântica aquele que se encontra em estado de desequilíbrio, de ruptura na sua relação consi­go mesmo e com o mundo, a maior parte das vezes fica-se pelas explicações imediatas e mais rasteiras do seu estado; não é Hölderlin quem quer.
Ao nível da elaboração da literatura romântica acon­tece ainda qualquer coisa de curioso. Como se pode ver em Memórias de um Doido (de Lopes de Mendonça), e em Cláudio (de Júlio César Machado, que como Camilo se suicidou há mais de cem anos), a linguagem e a capacidade de falar do real revelam-se completamente perturbadas e deformadas quando se trata de «escrever o romance», de obedecer às reais ou supostas leis do género; mas bruscamente, acabada a história, o autor sente a necessi­dade de acrescentar um capítulo (Lopes de Mendonça) ou inúmeras páginas (Júlio César Machado, mas anos de­pois, já com uma experiência da vida que não tinha aos dezasseis anos, quando escrevera Cláudio). Para reflectir sobre a obra que se acabou de ler ou para evocar o ambiente sócio-literário de uma época. E que descobri­mos? Que afinal os escritores ultra-românticos até sabiam falar da realidade de maneira ainda hoje perfei­tamente aceitável e interessante, que não eram tão obtu­sos nem tão diferentes de nós como às vezes parece. Só não sabiam fazê-lo quando se submetiam à lei de um género literário (o romance de costumes «contemporâ­neo») que aspirava à dignidade, uma dignidade que já encontrara lá fora e que tardava em encontrar em Portu­gal. Mas não nos queixemos: as imperfeições das obras literárias «menores» são muitas vezes o que melhor nos revela aquilo que as obras-primas (elas também com as suas fendas e «imperfeições») escondem bem: a ideolo­gia e a estética que estruturavam a ambição de fazer literatura, o imaginário de um indivíduo e de uma geração.
A obra francamente «imperfeita» diz às vezes crua­mente aquilo que na obra-prima (tão rara, é verdade) se esconde e é apenas implícito. A não ser que o talento tenha encontrado maneira de transpor a própria inge­nuidade e espontaneidade de maneira convincente e sem simplificações grosseiras, como já acontece nas Via­gens de Garrett e depois começou a acontecer com mais frequência.


Entre Setembro de 1991 e Junho de 1992 escrevi, sob a designação «Caleidoscópio»,
algumas crónicas para o Jornal do Fundão. Este texto provém daí

Os malefícios da literatura (1)

A literatura como coisa literária, a noção de género literário como discurso obrigado ao mote das dignidades traçadas pelas Poéticas explícitas e implícitas (sem in­tenções polémicas: pelas estruturas mentais e visões do mundo tradicionais ou no poder), impedi­ram muitas vezes que se dissessem as coisas importantes que se podiam ter dito. É confrangedor ver titubear al­guns dos nossos primeiros e bastante dignos romancistas da época romântica (na realidade mais ultra-romântica do que romântica) quando querem falar do real contem­porâneo deles. Quererem fazer literatura, lançar-se a criar esse género novo que é o romance moderno, corta-lhes as pernas e as asas, deforma-lhes a linguagem para além do imaginável. E no entanto a prosa de Fernão Lopes, a de Fernão Mendes Pinto, a das narrativas de naufrágios, a própria «desenvoltura» narrativa do exce­lente romancista realista que tantas vezes já é Camões em Os Lusíadas, tinham-lhes aberto o caminho e lá esta­vam e estão para de certo modo os envergonhar de não terem sabido fazer tanto como já estava feito. Provavel­mente essas coisas não dependem do indivíduo, porém. E quem tem realmente alguma coisa de importante a dizer acaba por encontrar a linguagem que lhe é necessária. Mas a prova de que é preciso falar dos «malefícios da literatura» não se encontra apenas na maneira parva como, por influência exterior (chamemos-lhe moda, mas era ideologia) se põem a viver o amor os personagens do romance romântico. Imitando outros «heróis» românti­cos, aquilo que se entendeu em Portugal que era a ma­neira de ser «romântica».
Um episódio que é um bom sintoma se repete infini­tamente nessas obras: a idealização da mulher, elevada à categoria de «anjo», divinizada, até ao momento em que se descobre que afinal era o «diabo». O próprio Garrett o diz, Lopes de Mendonça o repete, os outros a seguir conti­nuarão: a mulher só é divina enquanto não «poluída» pelo contacto com outros homens e enquanto desconhe­ce o que é o amor, isto é, em geral enquanto adolescente e jovem (e nem sempre, pois o «vício» aprende-se depressa). Daí que o mercado do amor leve os homens desses universos romanescos a orientar-se em duas di­recções distintas: as «meninas puras» mas também «sensí­veis», se possível leitoras de Byron como a Maria do Cláudio de Júlio César Machado, anjos e deusas que permitem a um homem sentir-se compreendido, realiza­do, recompensado, e ao mesmo tempo consolidado ou glorificado no seu estatuto social; e as «outras», isto é, as abandonadas, as «perdidas», as viúvas, as actrizes de teatro, etc., que existem sobretudo para os prazeres da vida, que às vezes trazem consigo algum dinheiro, que também podem contribuir para tornar um homem bem visto no mundo dos «elegantes» e não só.

Mas estou a simplificar. Devia também referir-se que há três tipos de homens, embora apenas dois tipos de atitudes masculinas. Por um lado, os «poetas», românti­cos como não podia deixar de ser, que transpõem tudo para o domínio do espírito e se queixam desajeitada­mente e simploriamente da incompreensão que faz parte da nossa existência social, atribuindo-a à superioridade do espírito que é o deles e à vulgaridade da sociedade capitalista burguesa que os rodeia (o Maurício de Me­mórias de um Doido, de Lopes de Mendonça, é um ridí­culo tipo deste género; e a Paulina que ele quer deixar por a achar incapaz de se elevar até às alturas espirituais onde ele pretende viver tem, como acontece com fre­quência nestes casos, um bom senso e uma inteligência que nem ele nem outros personagens masculinos têm). Outro grupo masculino é constituído pelos que se pre­tendem «desiludidos» da vida, que das mulheres só es­peram já o prazer, o divertimento, às vezes o dinheiro; em geral queixam-se de terem sido enganados, traídos, nascendo-lhes daí o ódio à gente feminina. Um terceiro grupo, enfim, inclui o burguês, personagem detestável (às vezes, como no Cláudio de Júlio César Machado, baca­lhoeiro ou negociante de vinho, profissões que devemos imaginar ignominiosas) que só pensa em ganhar dinhei­ro e cujas mulheres, coitadas, quando eles são casados, se aborrecem imenso e constituem a presa mais interessante para os poetas românticos. Se não são casados, são eles que fogem com a aventureira por quem o herói romântico, inexperiente e pouco lúcido, um pobre tolo no fundo, se tinha apaixonado. Por tudo isso os burgue­ses são ridículos (no primeiro caso, isto é, quando a mulher incompreendida procura a «compreensão» noutros braços) ou odiosos (no segundo, quando se escapam com a amada «infame»). Em Eça, e até já em Camilo, que eram escritores «adultos», este esquematismo grosseiro vai atenuar-se e acabará por desaparecer. (cont.)





Wednesday, January 12, 2005

Martim Campina: Intrigas

Martim Campina ou Campinha? Pouco se sabe dele. Provavelmente terá sido jogral de profissão e terá vivido entre meados do século XIII e inícios do século XIV. Dele ficaram duas cantigas.



Cena trovadoresca Posted by Hello

«Diz meu amigo que eu o mandei»
(Ba 1183, V [788])

[Cantiga de amigo; de refrão, com finda.
Dirigindo-se à amiga, a rapariga assegura ser
falso que ela mandou ao amigo ir-se dali, como
ele anda dizendo].

Diz meu amigo que eu o mandei
ir, amiga, quando s' el foi daqui;
e, se lho sol díxi nem se o vi,
nom veja prazer do pesar que hei;
e, se m' el tem torto em mi o dizer,
veja-s' el ced' aqui em meu poder.

E vedes, amiga, do que m' é mal:
dizem os que o virom, com' el diz
que o mandei ir; e, se o eu fiz,
nunca del haja dereito nem dal;
e, se m' el tem torto em mi o dizer,
veja-s' el ced' aqui em meu poder.

E que gram torto que m' agora tem
em dizer, amiga, per bõa fé,
que o mandei ir!; e, se assi é,
como m' el busca mal, busque-lhe eu bem;
e, se m' el tem torto em mi o dizer,
veja-s' el ced' aqui em meu poder.

E, se el vem aqui a meu poder,
preguntar-lh'-ei quem lho mandou dizer.


Tuesday, January 11, 2005

Jaroslav Seifert: You can even fall in love


John William Waterhouse, The sirene Posted by Hello





The Hunt for the Kingfisher



How many times has a verse come to my mind
even at a crossroads
while the lights were at red!
Why not?
You can even fall in love
in that short a time.




But before I'd walked across
to the far side
I'd forgotten the verses.
I was still able
to jot them down off-hand.
But the smile
of the girl who crossed over in front of me
I remember to this day.




Under the railway bridge at Kralupy

I often as a boy would climb

into the branches of a hollow willow

and among the twigs above the river

think and dream of my first verses.




But, to be honest, I also

would think and dream

of lovemaking and women

and watch the torn-off reeds

float on the water.




Easter was around the corner,

the air was full of vernal magic.

I even saw a kingfisher once

on a whipping twig.
In all my life
I never saw another
and yet my eyes have often longed
for a closer view of that delicate beauty.




Even the river had a pungent fragrance then,

that bittersweet fragrance,

the fragrance of women's loosened hair

when from their shoulders it overflows

their naked bodies.




And when, years later, I immersed
my face into that hair
and opened my eyes,
I gazed through those sunlit depths
to the roots of love.




There are rare moments in my life

when I find myself once more

under the railway bridge at Kralupy.

Everything there is as it used to be,

even that willow —

but I am just imagining it all.




Easter is once more round the corner,

the air is full of vernal magic

and the river is fragrant.




For every day under my window
the birds go mad quite early in the morning
and, singing as if their lives depended on it,
they drown each other's voices,
and those sweet dreams
which usually come at dawn
are gone.




But that's the only thing

I can hold against the spring.
(The poetry of Jaroslav Seifert, Catbird Press,
«a garrigue book», translated from the Czech
by Ewald Osers, p. 208)