Monday, February 28, 2005

joão camilo: ignorante


Evelyn de Morgan, Ariadne in Naxos


Aproximava-se a hora. A rapariga levantava-se da cama, ficava pronta,
ia sair de casa. O seu rosto brilhava no espelho: milagre do amor e da
juventude. Para ela o dia começava; o dia de K. ia morrendo. Tinham-se
conhecido à esquina de um tempo desajustado. Caminhavam ao encontro
um do outro, ela vinda da noite, ele vindo do dia; ela à procura da luz,
ele a não querer ceder ao cansaço que antecede as trevas.

K. nunca se aborrecia de a imaginar, falava-lhe como se ela o estivesse
a ouvir. Dizia, num sussurro: vives ao meu lado como se não existissem
horas nem oceanos, como se estivéssemos sentados à beira do mar em
Lisboa.

No autocarro ela dormitava e ouvia música, não se esquecia de que
esperava por ela aquele que a amava. Era por isso que sorria, infantil,
apesar, às vezes, de alguns sobressaltos de inquietação?

Se ameaço a tua paz de espírito, diz ele, peço-te que me perdoes.

Alheado dos cuidados dela entra na cozinha, pega na faca afiada
e começa a cortar o melão. Abre-o, limpa-o, a seguir vai mastigando.

Agora ela está à espera do autocarro; agora entrou; agora sentou-se.

De nada serve ele desejar que se abra a terra para que desapareça o
mar. Fica sem respiração quando ouve a voz dela ao telefone. Depois,
corajoso, afasta-se dela e de si. Tem cuidado, murmura ainda, não
adormeças, podes falhar a saída
na paragem certa do autocarro, o teu
destino.

Friday, February 25, 2005

A cidade: Sábado de manhã


Portobello (jc)

A cidade: Reflexos


San Francisco (jc)

Janela para o campo


Tormes (jc)

A cidade: Jardim


Paris (jc)

A cidade: Mercado


Portobello (jc)

A cidade: Fim de tarde


Bath (jc)

A cidade: Lanche


Portobello (jc)

Thursday, February 24, 2005

A cidade: Dreams


LA (jc)

Machado de Assis: O Alienista


Rembrandt, A lição de anatomia


Machado de Assis, o genial escritor brasileiro, desconfiou muito dos entusiasmos com que os seus contemporâneos incensaram a ciência. E não de cansou, no século do Realismo e do Naturalismo, de acumular na sua obra argumentos e histórias que de maneira subtil punham em causa, maquiavelicamente, as arrogâncias «científicas» dos «sábios» da época. «O Alienista» é desse ponto de vista e de outros uma obra-prima, uma paródia brilhante e de grande actualidade ainda hoje. Para diversão e instrução dos meus leitores incluo aqui um breve excerto do famoso conto (ou novelazinha).

DE COMO ITAGUAÍ GANHOU UMA CASA DE ORATES
As crónicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remo­tos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Por­tugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
— A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu empre­go único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz-de-fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reu­nia condições fisiológicas e anatómicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robus­tos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, — únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista era mal com­posta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, por­quanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D. Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciên­cia é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universi­dades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama, nutrida ex­clusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não aten­deu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — expli­cável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da di­nastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, — o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colónia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal ex­plorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de "louros imarcescíveis", — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; ex­teriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
— A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico.
— Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boti­cário da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos demen­tes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipên­dio, que a Câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificil­mente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico.
— Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.
(...)
Uma vez empossado da licença começou logo a construir a casa. Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo, tinha cinquenta janelas por lado, um pátio no centro, e numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doudos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para que não pequem. A ideia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele pontífice eminente. A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira- vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimónias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista, contentíssima com a glória do marido, vestira-se luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos costumes caseiros e recatados do sé­culo, e não só a cortejavam como a louvavam; porquanto, — e este fato é um documento altamente honroso para a socie­dade do tempo, — porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos admiradores.
(...)
Três dias depois, numa expansão íntima com o boticário Crispim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu co­ração.
— A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu procedi­mento, mas entra como tempero, como o sal das cousas, que é assim que interpreto o dito de S. Paulo aos Coríntios: "Se eu conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou nada". O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, clas­sificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenómeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu coração. Creio que com isto presto um bom serviço à humanidade.
— Um excelente serviço, corrigiu o boticário.
— Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.
— Muito maior, acrescentou o outro.
E tinham razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do es­pírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma po­voação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doudos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso académico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!
— Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.
— Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as lín­guas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...
— Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fe­nómeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...
— Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!
(...)
Uma vez desonerado da administração, o alienista proce­deu a uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, aluci­nações diversas. Isto feito, começou um estudo acurado e con­tínuo; analisava os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências; inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes, circunstân­cias da revelação mórbida, acidentes da infância e da mocida­de, doenças de outra espécie, antecedentes na família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma descoberta in­teressante, um fenómeno extraordinário. (...)

Wednesday, February 23, 2005

Conhecida


(jc)

Alguns Links

Muito cá de casa

Almocreve das petas

Afixe

Conversamos

O Divino

La campana de cristal

A montanha Mágica

O Jumento

Defocused

Bestiário

A barriga de um arquitecto

Alexandre Soares da Silva

Forum Sporting

Laranjeira: Um deserto enfadonho


George Inness, Sunset

Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho a 12 de Fevereiro de 1912. A impressão, ao ler páginas do seu Diário Íntimo, de estar perante um precursor evidente e nunca nomeado do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa e Bernardo Soares.


Segunda, 19 de Outubro de 1908
Vem hoje consultar-me uma rapariga do povo, criatura fina, delicada, com uma certa fidalguia de inteligência e sobretudo do coração. Está tubercu­losa, perdida. Daqui a meses aquela figura gracio­sa e simpática estará destroçada e desfeita. E pre­gando em mim uns olhos indefinivelmente melan­cólicos, conta-me a história da sua doença. Aquilo começou por um grande desgosto, desgosto de amor, é claro: um homem seduziu-a e depois abandonou-a. Botou sangue pela boca e desde aí - havia três meses - nunca mais logrou saúde. Não queria morrer, não por ela que já perdera to­do o amor à vida, mas pela mãe que já não podia ganhar o pão de cada dia... E pôs-se a chorar. Penso em alguém... E sofro, sofro, porque não posso chorar também.

Quinta, 22 de Outubro de 1908
A J. fala-me da vida com grande desapego. E pergunta-me bruscamente se eu sei dizer-lhe a ma­neira de obter na terra a felicidade. Respondo-lhe com aqueles versos de D. Francisco de Portugal:

Se alguém deseja prazer,
viva em no esperar;
que tudo o mais é achar
maneira de o perder.

Ela fita-me despeitada e cala-se.

Sexta, 23 de Outubro de 1908
Hoje uma puta abraçada a mim a chorar... de amor. Uma comédia que eu já tenho visto muitas vezes representar - às mulheres honestas. A cria­tura, com a mais mentirosa das sinceridades, confessou-me que havia já umas noites que não dormia - «a cismar naquilo». Na noite anterior, passada em claro, chegara a rojar-se diante de uma Virgem detestável e suja das moscas que lá tinha no quarto - «a suplicar-lhe coragem para se atirar ao mar.»
... Claro: a Virgem foi surda como um seixo.

Sábado, 24 de Outubro de 1908
Enfastiado das mulheres honestas vou gracejar com a puta que ontem me declarou... o seu grande amor. Ela diz-me rispidamente: — «De que me va­le ter-lhe amor?» Silêncio fúnebre. Diz-me depois com voz lúgubre: - «Eu bem sei... que não pode ser.» Respondi-lhe com voz grave, de basso, sole­ne: - Tens razão, filha: não pode ser. Desatou a soluçar, desabada sobre uma mesa. Embebedei-a - para esquecer. Daí por uma hora, depois de destilar um quartilho de lágrimas, onde ia dissolvi­da a essência daquela paixão explosiva, estava... esquecida, a ressonar de bêbada sobre a mesa suja. E a farsa acabou. Senti vontade de cuspir na vida!

Sábado, 31 de Outubro de 1908
Hoje foi-me apresentada a señorita Isabel Muñoz, «la reina de la jota».

Domingo, 8 de Novembro de 1908
Falo à Augusta de uma criaturinha que vai pelo mundo através de humilhações, sofrendo os ho­mens... conquistando um pedaço de pão pelo pre­ço de um pontapé ou de uma bofetada.
Ela secamente:
- Também goza!
- Dá-me a impressão de uma criatura que pa­ra ir vivendo fosse vendendo mocidade e beleza... humilhada...
- Humilhações todos as sofremos... todos. E elas ao menos gozam. Não sei para que nos serve ser virtuosas...
- Inveja-las?
Não responde. Estará cansada de ser virtuosa? Que sei eu? Sei que foi hoje a primeira vez que sen­ti desprezo por esta criatura... Desprezo...

Segunda, 21 de Dezembro de 1908
Porque me assusta às vezes tanto a ideia de morrer? Tens medo à morte, alma cobarde? Por­quê? Se a terra fosse um paraíso e a vida uma ven­tura infinita, esse teu medo ainda seria uma cobar­dia compreensível. Mas sendo a terra um deserto enfadonho, uma charneca gris, e sendo a vida uma ininterrupta enxurrada de lástimas, essa cobardia é simplesmente absurda. É um apego estúpido.

Sexta, 25 de Dezembro de 1908
Mais um dia chuvoso e gris. A Augusta como ontem, a saborear dolorosamente as recordações dos tempos em que tinha natal alegre e ruidoso. Tenho de improvisar uma festa ruidosa tam­bém. Embebedo-lhe a criada, uma vizinha, até a ver rir, rir, com a alegria expansiva do natal. Obrigo-a a dançar e dançamos todos até alta noite, até cair extenuados. Fatiguei-me horrivelmente, da alma sobretudo; mas fiquei satisfeito em ter-lhe dado mais uma vez a ilusão boa de um natal feliz.

Sábado, 26 de Dezembro de 1908.
Encontro a Augusta mais tranquila e confiada na vida. O tempo ainda brumoso e pardo. Combi­no com ela um passeio para o dia seguinte, se esti­ver bom tempo. Falamos muito do natal, quando se é criança. Ela recorda, evoca episódios, mas ri. Como nos dias anteriores, não se sente só, abando­nada na vida. Recorda o passado com prazer e isto é sinal de que o presente é venturoso. Ela mesmo diz que está contente porque tem alguém ao seu la­do.
E tem! Assim todos tivéssemos alguém que pensasse só na nossa felicidade e nos desse a ilusão de que não somos sós na terra.

Domingo, 27 de Dezembro de 1908
O dia esteve mau, nublado e húmido. Não fo­mos passear. Mas à noite vamos ao casino passar umas horas a charlar — burguêsmente.


(Diário Íntimo, Edições Vega, s. d.)

Tuesday, February 22, 2005

O medo de existir

O «medo de existir» é a última acusação ou diagnóstico feito aos portugueses em geral por alguns portugueses diplomados em «doenças da alma nacional». É uma marca de detergente como qualquer outra - e com boa publicidade há-de ir-se vendendo. Vem embrulhada em vistoso papel celofane, na aparência muito «francês». O jargão pretensamente académico é para tornar a mercadoria sedutora aos olhos de um público ingénuo, ávido de passar por muito culto e informado. Não sei se à regra do medo de existir escapa alguma franja da população ou se a teoria diz respeito a todos, desde Pinto da Costa a Valentim Loureiro, desde Santana Lopes a Alberto João Jardim, desde o Presidente Sampaio ao mais jovem recém-nascido da pátria. E aplica-se ao jovem Tiago que agora corre em Fórmula 1? E aos investigadores do «Apito Dourado»? E a Cristiano Ronaldo? E não esqueceu Maria José Morgado?

E não se descortinaram noutros países sintomas desta enfermidade, isto é, somos mesmo, nós os Lusitanos, originais mais uma vez? Já me esquecia: os outros países, que não tiveram salazarismo, como podiam competir connosco nesta sublime desgraça?

Necessitava-se novo António Ferreira a incitar à epopeia nacional. Ele apareceu finalmente. Deo Gratias. A boa terra, se cultivada sem receio, sempre acaba por dar, no meio de muita fruta podre, algumas batatas.

Não sei se os adeptos desta nova teoria da «alma portuguesa» experimentaram imaginar um país com mais justiça social e com mais competência política, por exemplo. É possível, de facto, que haja quem tenha medo de ir de férias, de comer em bons restaurantes, de ir para excelentes hospitais e ser tratado por excelentes médicos, de ir a espectáculos de ballet e à ópera, de se instalar em hotéis de cinco estrelas, de se reformar, de passar cheques de cinco mil euros todos os dias, de comprar todos os livros e discos que acabam de sair. São apenas alguns exemplos de uma situação insuportável em pleno século XXI. Mas é inadmissível que se tenha, em Portugal, descido tão baixo.

Devia nomear-se já uma comissão de especialistas para tentar resolver este grave problema nacional. E criava-se a Universidade (privada) Adamastor para pôr termo ao problema. O diploma seria atribuído aos «estudantes» que, apesar de desempregados ou de ganharem apenas o salário mínimo, tivessem perdido no fim do curso o medo de enviar os filhos estudar para Inglaterra enquanto eles próprios se instalariam num bom hotel de luxo algarvio e se passeariam nas magníficas estradas nacionais de Ferrari a 200 à hora. O diploma também poderia exigir que os estudantes, no fim do curso, como prova de competência adquirida, se atirassem da ponte 25 de Abril ou de um comboio em andamento, iniciando assim um novo capítulo das suas existências até aí mediocremente e vergonhosamente medrosas.

Leia-se também em CURA di SÉ «os franceses são bons copains» (posta 189).

João Camilo: A pequenez interior do espírito


(Paris) (jc)


Certas noites a solidão é mais profunda,
a consciência do tédio mais difícil de combater.
Terei realmente história, pergunta-se aquele
que anda ao acaso pelas ruas e pelos cafés.
Não lhe apetece sentar-se em lado nenhum,
também não lhe apetece mover-se.

Passeia de um lado para o outro,
é uma maneira de dizer “aonde é que hei-de ir?”
ou “que fazer da porcaria deste tempo?”


Recolhe a casa, rodeia-se de livros.
Liga a televisão, mas o espectáculo
da existência alheia cansa-o,
já não há qualquer relação entre
o seu desejo e as aventuras
imaginárias que contam os filmes
que o aborrecem. A própria música
torna-se-lhe insuportável, tanta futilidade,
vontade de distrair as pessoas do drama
sem saída da existência. A existência é
um circo e nós somos os palhaços
do circo, pensa ele. Mas é indiferente
que pense isso ou outra coisa.

Fulano, disse-lhe o jovem poeta
que voltou da Europa, ia jantar
com Sicrano e Beltrano; eu próprio,
continuava ele, encontrei Beltrano
num bar e achei-o amargo, descontente
com a vida. São os cinquenta anos,
comentou K., é sempre difícil de suportar
o tempo que sucede o dia em que
nos descobrimos diferentes
de nós mesmos no espelho e despertamos
do sonho protector da ilusão.
Ilusão de sermos isto ou aquilo,
engano em que nos ajudam a subsistir
aqueles que nos adulam.

Todos nós, continuou K. a perorar,
somos como os jogadores de futebol:
queremos que nos aplaudam,
que nos amem, que nos abram
os braços, que nos mostrem os
dentes, que ofereçam um lugar
ao corpo com que chegamos.
E então, reconfortados como no
ventre materno, descobrimo-nos
felizes na cidade e na vida.

Para mim, porém – K. já não
disse estas palavras, limitou-se
a pensá-las – que vivo longe
da pátria, a realidade há muito
tempo já que se revelou ser
uma construção do espírito.
Apesar disso tenho sobrevivido,
acredito que habito numa casa,
que como à mesa, que falo com as
pessoas. Isto é, a irrealidade
do real é de uma verosimilhança
fantasmagórica. Mas que nos
prende a quê? Onde está
repousada a âncora? Para as alturas,
na direcção aérea do infinito é que
imaginamos o fim da viagem.
E estamos seguros de que
chegaremos bem, a sorrir,
de casaco e gravata, o cabelo
limpo e cortado como deve ser,
as calças vincadas. Dessas ideias
feitas vivo eu também, são metáforas
da confiança na regularidade do destino.

Um dia serás conhecido, disse K.
ao jovem poeta, mas podem acontecer
duas coisas: ou perdeste-te no espelho
da miragem; ou esqueceste aquilo que és
por dentro, a pequenez interior do
espírito e a insignificância de coisas
como o êxito. Ele olhou K. de lado
e como não acreditava nas suas palavras
não lhes deu grande importância.

Foi quando, esta conversa?
E aconteceu realmente ou é fruto
da imaginação, pura especulação
poética? Que importa. Eu sei o que digo,
o que estou a fazer, murmura K.
Escrevo longos poemas
(algumas pessoas,
para se defenderem da minha
concepção da poesia, pretendem
que eu me limito a reproduzir
a trivialidade quotidiana) e neles
vou ao encontro da síntese.
Só escrevo o que já pensei? Não
creio que se possa falar assim
de questão tão complexa.
Às vezes só penso o que já
escrevi, só penso depois de
ter escrito. Como hei-de morrer
sozinho e não me preocupa a história
da minha vida enquanto biografia
coerente, deixo estas palavras
como forma de esclarecimento
a quem tiver a impertinência
de esquecer-se durante alguns
minutos da sua própria vida
para se ocupar da minha e da
pessoa que eu fui.

As palavras sucedem-se
como as cerejas no meu espírito
desertado pela presença ou a recordação
das coisas que existem e estão fora
do meu alcance. E bruscamente é meia-noite.

Estou na posse do meu estilo, comando
a caneta Pelikan verde às riscas pretas
(na realidade transparentes) na sua
viagem pelo papel branco
de razoável qualidade. Não é
o belo papel dos cadernos franceses,
mas quase. A gata, nervosa, anda
aos saltos pela casa pequena: para
cima do piano, para cima das mesas,
é uma gata tonta, meio selvagem.
Acendo um cigarro. Papá, não fumes ,
diz a voz da minha filha.
Levanto-me, vou pôr um disco.

Hoje vi o velho escritor
sentado numa cadeira, achei-o
cansado, sem energia. E esqueci-me
da raiva que lhe tenho, dos
momentos em que, abusando
do poder que lhe deram,
nos tem oprimido, tratando-nos
como se fôssemos todos
uma canalha qualquer.
Ter-lhe-á passado a crise,
a ilusão da sua força?
Abriu os olhos enfim?
Ou é estratégia ainda,
enquanto na sombra vai tecendo
os fios de outras intrigas? Quanto
desejo de eternidade nas acções
humanas (no concerto para
violoncelo de Lalo, por exemplo).
E que se atinge? O fumo, as cinzas.
Tem-se direito à recompensa do ódio
e aprende-se a viver com ela.

Infelizes são aqueles a quem
nem a recusa de si próprios
no rosto dos outros ofende já.


A arrogância dos funcionários
públicos superiores é impressionante.

Mas de que estou para aqui a falar?
Quero rever todas as questões
preocupantes esta noite? Apago
o cigarro no cinzeiro e vou calar-me,
deixo em paz o leitor, meu invisível
companheiro.


Marina Tsvetaeva: Ophelia


Waterhouse, Ofélia


Ophelia: in Defence of the Queen

Prince, let's have no more disturbing
these wormy flower-beds. Look at
the living rose, and think of a woman
snatching a single day - from the few left to her.

Prince Hamlet, you defile the Queen's
womb. Enough. A virgin cannot
judge passion. Don't you know Phaedra
was more guilty, yet men still sing of her,

and will go on singing. You, with your blend
of chalk and rot, you bony
scandalmonger, how can you ever
understand a fever in the blood?

Beware, if you continue ... I can
rise up through flagstones into the grand bed-chamber

of so much sweetness, I myself, to defend her.
I myself - your own undying passion!

1923


(Selected Poems, translated by Elaine
Feinstein, Penguin Books, 1994)

Monday, February 21, 2005

Janela


(jc)

Templo


Petworth (jc)

Céu azul português


Tormes (jc)

Céu cinzento


Belfast (jc)

Sunday, February 20, 2005

Euforias e paranóias

A imprudência dos vencedores é imaginar que lhes foi enfim feita justiça, que foi enfim reconhecida universalmente a sua magnífica e admirável superioridade e excelência. A cegueira dos vencidos é atribuir a derrota às cabalas, à incompreensão, à ignorância, à ingratidão. Mas como os vencedores de hoje são os vencidos de ontem e os vencidos de hoje serão muito provavelmente os vencedores de amanhã ou depois de amanhã, alguma reserva na vitória e um pouco de lucidez na derrota revelariam sensatez.

Fradique Mendes a Eça de Queirós

Querido Mestre,

Releio, uma vez mais, à luz dos ensinamentos modernos, a agradável prosa em que você desenhou para a eternidade o retrato ambíguo da pessoa que eu fui ou terei sido. De que me adiantaria protestar, opor à sua sabedoria e ignorância as minhas próprias dúvidas acerca do meu destino, do meu percurso, da minha personalidade? O «eu», dizem-nos agora, não existe. É pura invenção, ilusão da nossa necessidade de sobreviver, na monotonia das multidões, como figuras originais. Você, caro Mestre, atribuiu-me uma personalidade, um destino, quase um rosto e um corpo, um estilo. E eu tenho de estar-lhe grato pela mentira com que me tirou do esquecimento. Mentira piedosa. Como diria o outro Mestre, vindo depois da sua morte: ser isso ou o contrário disso... ou outra coisa... vai a dar no mesmo; o que é preciso é, enquanto existimos, termos a ilusão suficiente da nossa própria existência.

Diz você no início da minha biografia que o seduziu, para começar, a forma dos meus versos. Não comento a apresentação nem os os resumos que você deles faz, apressadamente. Diverte-me a sua ironia amável, que evita com talento e uma prudência da maturidade os dramas, os conflitos, os eventuais sofrimentos que se escondem por detrás das agradáveis aparências. Devo dizer-lhe, no entanto, que esses versos «admiráveis» que mereceram a sua atenção e o exercício da sua crítica, nunca foram para mim coisa com que me identificasse. Não, Mestre, nunca fui grande poeta, menos ainda grande escritor. Tudo isso era paródia. Paródia semelhante à da sua prosa, essa admirável e admirada prosa com que você, enquanto traça o meu retrato e me tira do nada, vai anotando as vaidades literárias infantis da juventude. Esses entusiasmos juvenis são de ontem, de anteontem, de sempre. Debruce-se você, do cimo da sua varanda celestial, sobre o país actual. E veja como florescem e se repetem, nos talentos modernos da nossa velha e querida Lisboa, as pretensões antigas à originalidade, à descoberta de formas novas. Dê uma volta pelos cafés, pelas livrarias, pelos cinemas, pelas redacções dos jornais, pelas salas de conferência – e verá que nada mudou, o que aliás torna mais ridículos, pela ignorância histórica de que dão provas e em que vivem, os actores actuais da comédia da vida.

Sei que lhe vou, enfim, escrever uma longa carta. É preciso, era preciso há muito tempo, que o meu ponto de vista seja conhecido. Não que isso adiante muito ou vá mudar seja o que for neste mundo que se vai esquecendo de nós. Todo embebido nos seus próprios desejos, ambições, ilusões, o país actual, o mundo actual, pouco querem saber do que já passou. E se nos lê - se o lê a si e às cartas que me atribui mas que na realidade nunca escrevi - é para se exaltar a si próprio com a exibição da cultura e com a exploração heróica e esforçada dos meandros insignificantes que constituem o almanaque ridículo das nossas existências humanas. Imortalidade? Ria comigo, beba comigo um copo desses famosos e inesquecíveis vinhos franceses que tantas vezes, cada um de nós na sua própria aventura, saboreámos. E esqueçamos a humilhação da morte, que reduz a nossa vaidade e a nossa modéstia (falsa ou verdadeira) às suas proporções adequadas. Pó. Pó é o que resta do seu corpo lá no cemitério de Tormes, por baixo da bela pedra e dos belos dizeres com que a sua família honra a sua memória. Pó é o que resta deste seu Fradique, outrora dândi elegante, personagem ilustre, que você tão generosa e genialmente inventou para divertir e instruir a posteridade.

Uma coisa me surpreende. É que ninguém parece ter-se dado conta ainda de que ao retratar-me, ao inventar-me uma personalidade e um destino, você estava, no fundo, a cavar o seu próprio sepulcro, a anunciar ao mundo e aos literatos ignaros que a literatura é nada, que o estilo é petulância, que os entusiasmos da frase original são ridículos. Minto, aliás, mas vou corrigir: Fernando Pessoa, que veio depois de nós, entendeu tudo isso, foi mesmo o único, provavelmente, a entender tudo isso e a admirável lição de modéstia e de desespero que a minha biografia e as minhas cartas, escritas por si, tão maravilhosamente ilustram. Você nunca acreditou na literatura – ou só acreditou nela para mais tarde se rir desse erro de juventude, fruto da inexperiência. Você escreveu, é certo, e deixou obras importantes, do melhor que na nossa literatura se fez. Mas a literatura sempre lhe mereceu o escárnio que ao seu herói da Relíquia mereceram os lugares da Palestina e as patranhas da tradição religiosa. Nisso, é verdade, estávamos próximos: eu não acreditei na forma e você também não; ambos acreditámos na ideia, na substância. E as nossas verdades foram secretas, íntimas, pois nunca, por cobardia ou estratégia, tivemos a coragem de as enunciar com clareza para os nossos contemporâneos. Você, como eu, sabia que tudo estava destinado a ser lama de novo, isto é, nada, niente, nothing, ingenting; rien du tout. E que imaginar, vaidosamente, que alguma imortalidade nos estava prometida ou garantida pelos nossos actos ou realizações sublimes seria uma ofensa à nossa inteligência e à nossa lucidez.

Porque demorei tanto tempo a responder-lhe, a pôr os pontos nos is, a encetar o diálogo consigo? Pergunta sem sentido, que só os nossos leitores actuais, ainda imersos nos limites do tempo, se podem fazer. Para nós, porém, o tempo já não existe. Que é ontem, que é anteontem, que é hoje, que é amanhã para o olhar e a consciência com que da eternidade intemporal contemplamos o filme da história? Nada, não há linhas divisórias, não há distâncias, a totalidade do que foi, do que é e do que há-de ser permanece, nítida e sem ter perdido o fulgor original, diante dos nossos olhos também intemporais. Como diria o nosso amigo Caeiro: fica a pergunta absurda porque me era preciso, como de resto me vai ser preciso repetidamente, falar a linguagem deles, os actuais detentores da vida. A fim de que nos entendam, a si e a mim. Aliás foi por isso que você, brilhante e genial, encontrou em mim o pretexto para, sem o dizer claramente, deixar à vista escondida de todos a miséria, a ilusão, a vaidade das nossas pretensões humanas.

Termino aqui esta primeira carta. Há um rosto à minha espera ali à frente, no lago cercado de florestas que escolhi para refúgio actual da minha eternidade sem limites. Ela, que não pude amar em vida, tem sido uma paixão permanente e inesgotável nesta minha segunda e definitiva existência. Mas disso e das contradições e complicações que esta minha confidência – tenho plena consciência disso – torna manifestas falaremos noutra ocasião, reentrando de novo na lógica dos humanos, os que ainda não escaparam à opressão de um tempo e espaços limitados.
À bientôt, cher ami.
Fradique



(SB, 28 de Maio de 2004)

Saturday, February 19, 2005

Pontes (16)


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Valéry sobre Mallarmé


Vermeer, Geógrafo


«Mallarmé, professeur au lycée de Tournon, fréquentait les milieux du félibrige; il a connu Mistral. Il a même conçu avec lui le projet singulier de fonder une sorte de franc-maçonnerie d'artistes, qui aurait uni à travers le monde les féaux, les croyants, les fidèles de la poésie et de l'art. (…) Les relations avec Aubanel étaient toutes familières et affec­tueuses. Il lui écrivait assez souvent, et c'est dans quelques-unes de ses lettres qu'il fait confidence à son ami de ce qu'il a trouvé dans sa pensée. Voici une phrase, détachée d'une lettre de 1864: (…) Mon bon Théodore, je n'ai pas encore trouvé une minute pour te dire le mot énigmatique de ma lettre (…) Je veux dire simplement que je viens de jeter le plan de mon œuvre entière, que je prévois qu'il me faudra vingt ans pour ces cinq livres dont se composera l'œuvre et que j'attendrai, ne lisant à des amis comme toi que des fragments, et me moquant de la gloire comme d'une niaiserie usée. Qu'est-ce qu'une immortalité relative et se passant souvent dans l'esprit d'imbéciles, à côté de la joie de contempler l'éternité et d'en jouir vivant, en soi? (…)
Voilà quels étaient les espoirs et les prévisions de Mallarmé, en 1865. Il avait déjà forte et irrévocable en lui cette décision de créer à partir de la solitude, et presque en vue de la solitude. Il se confine en soi-même, en tête-à-tête avec l'analyse infinie de ses lumières intérieures. Il se fait du langage une idée toute person­nelle, qui devient le centre de ses pensées. J'ajoute - c'est un point capital - que cette idée est remarquablement précise. Il réfléchit sur les conditions de son art avec une précision et une profondeur sans exemple dans les lettres. Sa singularité fut seule­ment de méditer sur ce que personne ne songe à méditer. Il ne consentait pas à écrire sans savoir ce que c'est que d'écrire, et ce que peut signifier cette étrange pratique. Je serais fort embarrassé s'il me fallait vous dire actuellement ce que c'est qu'une phrase, ou ce que c'est qu'un vers... Vous ne trouverez dans les meilleurs livres que des définitions vagues et sans valeur de ces termes. Mallarmé n'a cessé de songer à la nature et aux possibilités du langage avec la conscience d'un savant et les certitudes d'un poète. Nous ne pouvons que faire des conjectures sur le fond de sa pensée, tout occupée à extraire du langage toute sa puissance et à donner un sens supérieur à l'acte d'exprimer. Il tirait de ses réflexions des formules d'une métaphysique singulière.
Il disait que le monde n'était fait que pour aboutir à un beau livre, et qu'il pouvait et qu'il devait périr, une fois son mystère représenté, son expression trouvée. Il ne voyait à l'existence de tout ce qui est d'autre explication ni d'autre excuse...»

(Paul Valéry, Écrits Divers sur Stéphane
Mallarmé, N.R.F., Paris, 1950)


As explicações que Valéry encontrou para tentar compreender a atitude de Mallarmé são interessantes. Mas pode ir-se mais longe. A obsessão com a linguagem e com as teorias, o racionalismo e o formalismo por vezes exacerbados que caracterizam a cultura francesa poderiam constituir em parte uma explicação para a atitude e o percurso de Mallarmé. Mas ao encarar a vida como qualquer coisa que só existe «em função do livro e para o livro», o que Mallarmé nos diz provavelmente é, de maneira muito séria, que sem narrativa da existência (sem «história» que faça algum sentido) não chega a haver existência. Por isso é preciso meditar e escrever - e talvez um dia, finalmente, a vida venha a ter sentido no livro que a conta (sentido todo inventado, pode pensar-se, apesar de a escrita tender a apresentar-se como procura de uma «luz», coerência ou verdade, que é apenas necessário «encontrar»). Será receio, já, do desastre que seria, em vida, constatar a falta de sentido da vida?
Mallarmé viverá, por isso, para investigar e pôr à prova, na solidão, obsessivamente, os mecanismos de criação ou de «fabrico» do sentido: o modo de existência das palavras, a questão da sua significação, as regras a que elas obedecem ou que as condicionam, o que acontece quando elas entram «em relações» com outras palavras, é isso que o vai preocupar. A questão da linguagem, da interrogação da linguagem, é fundamental na sua vida e na sua obra. O seu projecto poético, longe de ser resultado de uma mania superficial ou de um snobismo de literato alienado ou pretensioso, na realidade parece ser tentativa torturada de entendimento da vida através do subterfúgio que consiste em «reinventá-la» como «narrativa» coerente, à margem dela (dela, vida), na literatura (e podia parecer que apenas se tentava entendê-la ou decifrá-la na coerência que ela já possuía) .
É possível que Mallarmé tenha ido pelo caminho errado (ou impossível) para tentar resolver problemas importantes. O distanciamento de Valéry em relação ao projecto de Mallarmé, depois de uma grande admiração inicial, parece indicar, apesar de ter subsistido a reverência, dúvidas sobre a utilidade do esforço feito, sobre a boa escolha do caminho seguido, sobre as possibilidades de êxito do empreendimento.

Curiosamente, veio-me à memória, ao ler o que escreve Valéry sobre Mallarmé, a Menina e Moça de Bernardim Ribeiro. É verdade que se justifica de duas maneiras bem distintas uma vocação nos dois casos semelhante para a solidão: é o profundo e doentio desgosto de amor que leva ao desejo de isolamento no caso da Menina e Moça (mas o projecto de escrever é evocado logo no início do livro pela protagonista); é a procura, através da criação poética, da «alegria de contemplar, em vida, a eternidade» que inspira a decisão de Mallarmé. E no entanto podemos sentir que o que está em jogo nos dois casos é uma vez mais a grande «questão do ser» (confundida com a «dor de existir»), questão que na solidão se tenta aprofundar e entender. E é na solidão por razões evidentes: é que só no isolamento desprotegido, no âmago do sofrimento nascido do abandono em que se sente o ser entregue apenas a si mesmo, podemos esperar ter alguma intuição da natureza desse ser, podemos esperar entrar em contacto com aquilo que em nós, escondido e obscuro, é «o ser» ou o estranho pulsar do ser. A narrativa da vida, para ser verdadeira, para falar do ser de maneira apropriada, exige, além de concentração e capacidade de reflexão, distanciamento, isto é, austeridade, despojamento e um ascetismo que se podia pensar ser apenas característica das vocações religiosas.

Friday, February 18, 2005

Adam Zagajewski: Morandi


Morandi, Natureza Morta


Even at night, the objects kept vigil,
even as he slept, with African dreams;
a porcelain jug, two watering cans,
empty green wine bottles, a knife.
Even as he slept, deeply, as only creators
can sleep, dead-tired,
the objects were laughing, revolution was near.

The nosy watering can with its beak
feverishly incited the others;
blood pulsed wildly in the cup,
which had never known the thirst of a mouth,
only eyes, gazes, vision.

By day, they grew humble, and even took pride:
the whole coarse existence of the world
found refuge in them,
abandoning for a time the blossoming cherry,
the sorrowful hearts of the dying.

(Adam Zagajewski, Without End, New and Selected
Poems, Farrar, Strauss and Giroux, N. York, 2002)

Wednesday, February 16, 2005

Fernando Pessoa: Disappointed, surrounded

Why should I care that no one reads what I write? I write to forget about life, and I publish because that's one of the rules of the game.

It always disappointed me to read the allusions in Amiel's diary to the fact that he published books. That's where he falls down. How great he would be otherwise!

I've surrounded the garden of my being with high iron gratings - more imposing than any stone wall - in such a way that I can perfectly see others while perfectly excluding them, keeping them in their place as others.

To discover ways of not acting has been my main concern in life.

(Fernando Pessoa, The Book of Disquiet, Penguin Books,
translated from the Portuguese by Richard Zenith)

Adam Zagajewski: Long Afternoons


Childe Hassam, A city fairyland

Those were the long afternoons when poetry left me.
The river flowed patiently, nudging lazy boats to sea.
Long afternoons, the coast of ivory.
Shadows lounged in the streets, haughty manikins in shopfronts
stared at me with bold and hostile eyes.

Professors left their schools with vacant faces,
as if the Iliad had finally done them in.
Evening papers brought disturbing news,
but nothing happened, no one hurried.
There was no one in the windows, you weren't there;
even nuns seemed ashamed of their lives.

Those were the long afternoons when poetry vanished
and I was left with the city's opaque demon,
like a poor traveler stranded outside the Gare du Nord
with his bulging suitcase wrapped in twine
and September's black rain falling.

Oh, tell me how to cure myself of irony, the gaze
that sees but doesn't penetrate; tell me how to cure myself
of silence.

(Translated by Clare Cavanagh)

(Adam Zagajewski, Selected Poems, Faber and Faber, 2004)

Tuesday, February 15, 2005

joão camilo: ilusões antigas


Dorothea Tanning, Ein klein nachtmusik



ó amadas do passado,
ilusões antigas.

de que se fez,
tão irrepreensível,
a vossa
virtuosa fuga?

aquele que vos desejava
ficou sem perceber o seu destino.
encostou-se à parede
e soluçou sem tino.

anos mais tarde,
vós na vossa vida, ele na sua,
não lamentais o que não
chegou a ser?

ele ou outro, ela ou eu,
ouve-se dizer
a uma voz melancólica
e sem paixão,
vai tudo a dar no mesmo:


morte e dor,
esquecimento
e nada;


tudo é vão.

(sb, 12 de fevereiro de 2005)

Monday, February 14, 2005

Histórias tenebrosas

«Uma vez fui a um médico.
- Doutor, estou louco - disse. – Devo estar louco.
- Tem loucos na família? – perguntou o médico. – Alcoólicos, sifilíticos?
- Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos, prostitutas, homossexuais.
O médico tinha sentido de humor e receitou-me barbitúricos.
- Não preciso de remédios – disse eu. – Sei histórias tenebrosas acerca da vida. De que me servem os barbitúricos?»

(Herberto Helder, «Estilo», Os Passos em
Volta, Assírio e Alvim, 1997; 1ª ed. 1963)


Já percebi que tenho amigos que vão votar em todos os partidos e não apenas amigos que votarão no partido em que eu votaria se estivesse em Portugal. Paciência, não se pode ter tudo. Também não preciso de remédios e os barbitúricos não resolveriam problema nenhum. Porque não há, por esse lado, qualquer problema.

Façamos votos para que daqui a cem anos Portugal seja o país que nós gostaríamos que já fosse. Em vez de ser o inacreditável circo actual. Espero que nessa época distante Helberto Helder também ainda seja considerado um grande poeta e autor de um magnífico livro de short stories. Não duvido disso, mas sabe-se lá.

joão camilo: ó nada


Béraud, Promenade à Paris


ó colinas, casas, árvores e céus.
da noite, da manhã, do meio e do fim do dia.
e o espírito toma a forma, incauto,
do suceder das perecíveis horas.

ó ruas, transeuntes, senhoras e senhores,
meninas e meninos. ó mortos do futuro
que connosco dividis o estar no mundo.

ó corações estéreis, habitados
por inexplicáveis, negras melancolias.

ó corações amantes: rostos inquietos, olhos
que perturbam as paixões e os desejos, o ar
da tarde que escureceu ou se encheu de cores.

ó sentido ingrato, ó lágrimas sem razão
dos adolescentes à procura do destino.

ó vidas de que não ficará memória.

ó remorso, ó dor.

(sb, 12 de fevereiro de 2005)

Sunday, February 13, 2005

joão camilo: a ocasião faz o ladrão

ó meninas que passais ao sol poente
diante do nosso olhar cheio de imagens.
levais convosco os nossos olhos mas a alma não.
levais convosco a flecha do desejo e nada
podeis fazer para nos salvar do tédio.

bem sei, a ocasião faz o ladrão.
e o destino depende de coisas pequeninas.
tivéssemos falado, de pé, durante dois minutos,
na beira de um passeio e seria diferente
o vosso percurso incerto, a nossa perdição.



(sb, 12 de fev. de 2005)

joão camilo: ó laboratórios

o olhar que como uma flecha
descobriu o alvo involuntariamente.
mais rápido do que o desejo ou a
consciência. mais atento do que o
nonchalant que com ele andava,
sem esperança, pela rua à tarde.

e, luminoso, o céu que se escurecia
do ir-se embora lento do sol, trazia
ao fim do dia encantos, um estilo, forma.
e quem dessa estética escreveria as leis
e explicaria, exaustiva, a organização?

poeta, longe da pátria, alma inquieta,
observava com serenidade o acontecido.
mallarmé, cesário, ó laboratórios
onde se constrói, nervoso, o país
real e irreal do sonho, da imaginação.

mas quem, sem ter estado, sem ter visto,
dessa matéria (cor e forma) poderia
aos vindouros deixar algum conhecimento?

(sb, 12 de fev. de 2005)

Saturday, February 12, 2005

Olhando para baixo


As cores e as formas naturais (jc)

(Todas as minhas fotografias tiradas com
uma Nikon Coolpix 4500 ou, antes, 995 )

A olhar para cima (14)


O céu de Hampton Court

A olhar para cima (13)


O céu de Windsor (jc)

A olhar para cima (12)


O céu de Cambridge (jc)

A olhar para cima (11)


O céu de Arundel (jc)

A olhar para cima (10)


O céu de Belfast (2) (jc)

A olhar para cima (9)


O céu de Belfast (jc)

Friday, February 11, 2005

Divisa



I do not try to dance better than anyone else.
I only try to dance better than myself.

(Mikhail Baryshnikov)

A olhar para cima (8)


Céu muito escuro

A olhar para cima (7)


Céu de Los Angeles

A olhar para cima (6)


Céu de Lisboa