Thursday, March 31, 2005

Ainda a Lusofonia


Se os países de língua portuguesa cooperarem de maneira organizada e mais eficazmente entre si (e o projecto da Lusofonia para mim é isso) em que é que essa cooperação é em si mesma atentatória da identidade nacional ou individual de quem quer que seja?Nenhuma identidade se esgota na Lusofonia. O português que todos falamos, cada um à sua maneira, não impedirá nunca ninguém de permanecer (de ter residência principal) na sua própria cultura; não impedirá de falar outras línguas, de as ler e escrever; não anulará o interesse em tudo o que, felizmente, existe para além do universo da Lusofonia. O projecto da Lusofonia, correctamente entendido, não é fonte de limitações, nem de censura, nem de empobrecimento. E pode, pelo contrário, ser razão suplementar de mais paz, de mais riqueza, de mais conhecimento, de mais progresso.


Podem criticar-se as instituições que, pelo menos no papel, assumiram, nos vários países que falam português, o projecto da Lusofonia: o que é que já fizeram? quais são os próximos passos? Mas não se confundam os erros ou vícios detectados na prática - até agora, creio, incipiente - com o projecto enquanto tal, pois a união à volta da Lusofonia - cooperação entre países que falam a mesma língua mesmo se também falam outras; e quantas mais falarem melhor - não é em si mesma desprezível, nem reaccionária, nem neo-colonialista.


A ambição do projecto não é fazer de Bernardim Ribeiro, de Gil Vicente ou de Camões os antepassados dos países onde se fala português; trata-se apenas - sem forçar ninguém, sem invadir o terreno ou a identidade de quem quer que seja - de unir esforços, de cooperar: no presente, na vida real, para bem de pessoas vivas.

O ensino, em universidades estrangeiras, da língua, da história, da cultura dos diferentes países onde se fala português é assunto que exige reflexão e discussão à parte. O Instituto Camões, que no que diz respeito a Portugal tem tido a seu cargo essa responsabilidade, provavelmente necessita de reformas profundas - e os seus objectivos necessitam de ser redefinidos com muita clareza e lucidez.


Ver ARUKUTIPA: Lusofonia, "hispanofonia" e mercado

P.S. Ver também Machamba: Sobre a crítica recebida à lusofonia.

Hölderlin: You Holy Being


(jc)

Diotima

You suffer and keep silent and, strange to them,
You holy being, silently wilt away;
For, ah, in vain among barbarians
Here in the sunlight you seek your kindred,

The nobly tender spirits that are no more!
Yet time speeds on. Though mortal, my song will live

To see the day which next to gods, with
Heroes will name you, itself be like you.



(Hölderlin, Selected Poems and Fragments, translated
by Michael Hamburger, Penguin Books)

O cacto


(jc)

A árvore


(jc)

Rebentos


(jc)

Picos


(jc)

Arabesco


(jc)

Pétalas


(jc)

Cacto


(jc)

A flor azul


(jc)

Musgo


(jc)

Tuesday, March 29, 2005

Quasimodo: Con umana dolcezza


Gustave Moreau, Hesiod and the Muse

Piazza Fontana

Non a me più il vento fra i capelli
caro dilunga, e delusa è la fronte:
inclina il capo docile ai fanciulli
sulla piazza, agli alberi rossi in curva.

Con umana dolcezza
autunno mi consuma. E questa furia
d'ultimi uccelli estivi sulle mura
della Curia ha il grigio dei portali,
dura nell'aria e dentro il mio
quieto stormire.

Risento
il monotono ridere senile
dei migranti acquatici,
lo scroscio improvviso di colombe
che divise la sera e a noi il saluto
a riva di Hautecombe.

Esatta quel tempo s'umilia nei simboli, e
anche questo, vivo alla sua morte.

Se ne va il mio dominio da te; rapido
muta: così contro il vento nero
delle finestre, l'acqua della fontana
in pioggia leggera.

Sunday, March 27, 2005

Ministro «ignorante» e «incompetente»

Com a devida vénia, transcrevo uma notícia do Portal Galego sobre os Encontros Lusófonos de Lisboa. Pelos vistos Gilberto Gil foi ridículo, «não acertou uma».... E os «políticos convencionais» já não convencem ninguém... E que história é essa do «portunhol», senhor ministro, está a gozar connosco?
Segunda, 21 Março 2005 (10:44)

Primeiros Encontros Lusófonos decorreram
passados dias 17, 18 e 19 de Março na
Universidade de Lisboa. Gilberto Gil ficou
desorientado com perguntas referentes a Galiza e
a sua defesa do portunhol


Na conferência acerca do Acordo ortográfico (em
que se falou de tudo menos do acordo por parte
do público) o professor e Académico Malaca
Casteleiro e o economista Carlos Xavier do
Brasil fizeram referência ao proveitoso que
seria para a Galiza culturalmente se decidisse
fazer parte da Lusofonia. Fizeram também menção
dos galegos terem assistido aos encontros do
Acordo Ortográfico e participado neles na medida
do possível ao não possuir um governo que
declare a sua língua como parte da Lusofonia.
Malaca Casteleiro (Academia das Ciências de
Lisboa) foi além disso e explicou que na Galiza
existe um conflito de normas e posições que tem
a ver com um conflito político e cultural que é
incómodo para a Espanha.
[+...]

Nessa conferência falaram duas pessoas galegas
(que não se conheciam, acreditem!), uma de
propósito com sotaque «urbano» galego («vou
falar galego como falo ali, para que vexades
como é, pero bueno, a minha pregunta era
se....»), após o que o professor Malaca insistiu
dirigindo-se ao público «não estao a ver? falam
com alguns espanholismos, como é natural na
situação em que se encontram, mas dá para ver
perfeitamente como falam a mesma língua que
nós».

Outra intervenção galega (com sotaque à
portuguesa) insistiu no facto de ser um conflito
político como se podia comprovar ao sabermos que
recentemente o Parlamento Galego chumbara uma
proposta de introduzir o português como língua
estrangeira de forma generalizada na secundária,
arguindo que não era necessário e que além disso
«o galego era uma língua independente doutras
línguas próximas».

Nessa segunda intervenção insistiu-se também no
facto de ser além dum problema político um
problema de desconhecimento («analfabetismo em
português») da própria língua (do português
pelos galegos) ao que o professor Malaca, de
forma muito inteligente, respondeu que não
considerava que isso fosse tanto assim, dado que
«o português já lá está, eles já falam
português, à sua maneira»; «o problema é eles
mudarem de norma e de posição porque na
Lusofonia tinham mais a ganhar».

Movimento Defesa da Língua esteve no evento

Todo o conferencista que participou no encontro
recebeu como presente um CD com informação
referente a Galiza e ao conflito da língua, e
foi dessa forma (na entrega do CD) que um membro
do Movimento Defesa da Língua (MDL) acabou por
dar a mão ao Ministro de cultura do Brasil e ao
Reitor da Universidade no início da sua
conferência acerca da difusão cultural.

A conferência do Dr. Gilberto Gil

Com respeito à conferência do Dr. Gilberto Gil,
este iniciou a sua palestra com um texto muito
interessante em que insistiu inúmeras vezes em
que era imprescindível defender a cultura dos
excluídos, fazer frente à uniformização cultural
e ajudar a criar produtividade cultural às
diferentes comunidades culturais.

As primeiras perguntas foram galegas e
desestabilizaram as respostas do Ministro, que
não soube responder a certo a nenhuma delas.
Simplesmente, o ministro de Cultura deu uma
imagem lamentável de «político convencional» a
que já estamos habituados na Europa. Não
respondeu a nenhuma, a nenhuma, a nenhuma das
perguntas do público, e foi safando-se como
soube de todas elas
não sendo uma pergunta final
dum vizinho da aldeia fronteiriça de Rio de Onor
(com um perfeito sotaque português-galego de
invejar) de se tinha intenção no futuro de abrir
Centros Culturais brasileiros em Portugal e,
porque não, também na Galiza, dado que
precisavam disso. A esta pergunta ele respondeu
que «proporia abrir três ou quatro em Portugal»
em próximas reuniões do ministério.

Eludiu qualquer resposta a sério e respondeu
sempre de forma evasiva a perguntas de grande
interesse que colocavam questões fundamentais.

A seguir tenta-se reconstruir as perguntas e
respostas de maior interesse (o ministro falou
duas horas (sem dizer nada!) nas respostas)

1ª Intervenção-Pergunta (com sotaque à
portuguesa e micro):

-«O senhor ministro foi a Galiza e diante dum
público que lhe solicitava «fala português, fala
português» decidiu defender, vou tentar citar as
suas palavras: que «falar português era bom, mas
se era por nacionalismo já não era bom» para
acabar dizendo «además estamos en tierras de
España» (isto foi bem explicado lá, aqui não dá
para reproduzir, com referências a textos
tirados da internet de comentários de pessoas
que lá estiveram).

A minha primeira pergunta seria se o senhor
ministro como defensor das culturas excluídas
vai continuar no futuro a defender a cultura
espanhola na Galiza ou vai defender a excluída
cultura galega?

A segunda pergunta que lhe queria fazer seria se
o senhor ministro, sabendo que existe uma
cultura excluída na Galiza, e que falamos uma
língua diferente vai no futuro (se voltar a
Galiza) falar galego, isto é português, como lhe
pedimos os galego, ou vai-nos falar mais uma vez
em espanhol quando fale connosco?

A minha terceira pergunta refere-se a um assunto
pelo que ficou famoso ao defender publicamente o
portunhol como futura língua do Brasil; o senhor
ministro não acha contraditório defender o
«portunhol» como língua viável no Brasil e a um
tempo o património comum da língua em encontros
da Lusofonia?

Não respondeu nada certo. O ministro tentou sair
com uma história de que «realmente vocês falam
uma língua intermedia que não é exactamente
português, escrevem muito diferente, mas sabem
eu senti que havia algo ali que tinha a ver
comigo, até me hospedava na rua 'Xil', como o
apelido do meu pai, isso tem muito a ver comigo,
mas estava assim escrito como diferente...»

(Ao que se lhe respondeu de viva voz):

«O senhor esta a dizer então que eu não lhe
falei agora em português (sorrisos de
assentimento do público)? Ou que o senhor não
está agora a falar português (sorrisos)?»


«Não, não estou a dizer isso, só que há aí uns
conflitos separatistas em que eu não vou entrar,
e digo, eu não vou entrar nesses conflitos» e
passou a falar do portunhol e a defender a
comunicação entre as pessoas.

Outras Perguntas:

-O senhor ministro está a favor dum bilhete de
identidade lusófono que elimine o problema dos
vistos entre pessoas de diferentes países
lusófonos para permitir a livre circulação de
pessoas na Lusofonia? Não respondeu nada certo.

-O senhor ministro concordaria com enviar
professores do Brasil em conjunto com
professores de Portugal para leccionar aulas em
Timor, que precisa mesmo de professores de
língua? Não respondeu nada certo.

-O senhor ministro o que acha do acordo
ortográfico? Não respondeu nada certo. Falou
mais uma vez de que ele o que defendia era a
língua REAL, a comunicação, «por isso defendo o
portunhol», e «os acordos são importantes, mas
não são fundamentais, há coisas mais urgentes...»

Em resumo o senhor ministro falou, falou, falou,
durante horas duma forma incrível se não fosse
verdade que estava a acontecer, apresentou o seu
programa muito bonito de não excluir as culturas
ameaçadas, mas confrontado com a realidade de
pessoas que sintem problemas culturais de
importância (em que um ministro lusófono deveria
ter uma posição tomada ao respeito), o senhor
ministro não ofereceu posição alguma, só se
safou a falar muito sem dizer nada concreto.

Lamentável é como eu definiria a sua relação com
o público que perguntou aspectos relacionados
com a cultura e a Lusofonia (que afinal era o
tema do encontro, não é?).

No fim da conferência um diplomata brasileiro e
um membro do Ministério de Educação e Cultura
brasileiro vieram disculpar-se da atitude do
Ministro na Galiza e pedir informação ao grupo
de galegos que se conheceu no encontro e saiu a
falar do acontecido.

Ficaram a saber mais da Galiza e de como pode
ser duro para nós ouvir «además estamos em
tierras de España» e declarações similares
quando comparado com o discurso do Franquismo.

Em resumo um bom cantante, um excelente «orador
sem discurso» mas um ministro pouco informado.
Esperemos de qualquer forma que mude de atitude
com respeito à nossa terra e à Lusofonia no
futuro.

Como comentaram outros participantes, esta é uma
conferência que ele não esquece....

Friday, March 25, 2005

António Jacinto: Comboio malandro

Li este poema pela primeira vez em Estrada Larga (compilação de artigos e outros textos publicados no Suplemento Literário do Comércio do Porto). Foi com prazer que o reencontrei agora na internet.

«Considerado por muitos críticos angolanos um dos maiores escritores de Angola, o poeta António Jacinto
do Amaral Martins nasceu no Golungo Alto, em 1924. Como escritor de contos, Jacinto usa o pseudónimo de Orlando Távora. Por razões políticas, esteve preso entre 1960 e 1972, tendo-lhe sida dada residência fixa em Lisboa, em liberdade condicional. Evadiu-se e foi juntar-se aos guerrilheiros em Brazzaville. Integrou o movimento pela independência do seu país (MPLA), tornando-se Ministro da Cultura aquando da mesma, nomeadamente entre 1975 e 1978. Co-fundador da União de escritores Angolanos e membro do Movimento de Novos Intelectuais de Angola, António Jacinto sempre foi um activista participante na cultura de Angola. Em 1993, o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD) do então Ministério da Cultura, instituiu o «Prémio Literário António Jacinto» como uma homenagem ao poeta e contista angolano.» [Lusomátria]
Obra: Poemas, 1961; Vôvô Bartolomeu, 1979; Poemas, 1982; Em Kilunje do Golungo, 1984; Sobreviver em Tarrafal de Santiago, 1985; Prometeu, 1987; Fábulas de Sanji, 1988.

Prémios: Prémio LOTUS da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, em 1979; Prémio Nacional de Literatura, em 1987; Prémio NOMA; Ordem Félix Varela de 1ª Classe, do Conselho de Estado da República de Cuba.


CASTIGO PRÓ COMBOIO MALANDRO
Esse comboio malandro
passa
passa sempre com força dele

ué ué ué
hii hii hii

te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

o comboio malandro
passa

Nas janelas muita gente:
ai bô viaje
adeujo homéé

n'ganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no Luanda pra vender

hii hii hii

aquele vagon de grades tem bois
múu múu múu

tem outro
igual como este dos bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

Tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta como é criança:
"Mulonde ia Késsua uádibalé
uádibalé uádibalé..."

Esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

Comboio malandro
o fogo que sai do corpo dele
vai no capim e queima
vai nas casas dos pretos e queima
esse comboio malandro
já queimou o meu milho.

Se na lavra do milho tem pacaças
eu faço armadilha no chão,
se na lavra tem kiombos
eu tiro a espingarda de Kimbundo
e mato neles
mas se vai lá fogo do comboio malandro
— deixa! —
ué ué ué
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
só fica fumo
muito fumo mesmo.

Mas espera só
Quando esse comboio malandro descarrilar
e os brancos chamar os pretos para empurrar
eu vou
mas não empurro
— nem com chicote —
finjo só que faço força
aka!

Comboio malandro
você vai ver só o castigo
vai dormir mesmo no meio do caminho.

(Versão publicada por António Filipe Soares, Poesia Angolana, Antologia. Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes e Instituto Cultural Português, Porto Alegre, 1979)


O vidro


(Nk.D70) (jc)

Thursday, March 24, 2005

Os ramos da árvore


(jc)

Varanda


(jc)

Árvore e janela


(jc)

Frank Gehry: Walt Disney Concert Hall


(jc)

Porta e janela


(jc)

Window


(jc)

Quasimodo: Nell'isola morta


«The last poems of Salvatore Quasimodo were published, under the title To Give and To Have [Dare e Avere], in 1966. (…) From the viewpoint of Occidental, or more particularly English-speaking literature, it is tempting to think of Quasimodo as the southern "alienated man," the one who appeared along with T. S. Eliot in utter dis­illusionment. This would be true, except that the northern manner of in­verted formality, the northern self-consciousness, is entirely absent in Quasimodo, and the hard twist of wryness is replaced by the more lyrical accent of human personal grief. So we have a poetry of reverie, in which the poet's greatest concern is that his work should be faithful to the tragic dream, devoid of the false laurels of classicism and of all striving for effect. The form tends to proceed in long sentences in which the semi­colon is avoided, and image merges with feature in a vision of impressive originality. The syntax is loose, or plastic, and the impact comes more from the immediateness of intimate perception, drifting, as it were, among the relics of Greek or Saracen cultures, than from firm poetic structures.»

Edith Farnsworth
(Prefácio à tradução para inglês, Henri Regneri Company, 1969)




In luce di cieli

Dagli stagni salgono nuvole beate;
finirà anche il fuoco dell'aria
nel fermo cuore.

Cara giovinezza; è tardi.
Ma posso amare tutto della terra
in luce di cieli in tenebra di vento;

e, su ogni parvenza, la donna
che mi venne non è gran tempo,
al cui riso mi specchio,
che amore chiamava, sua verde salute.

Cosi solo, numeri di perduto bene

mi narravo, e giorni,
e, splendenti in remote aure,
acque di selve ed erbe.

Nell'isola morta,
lasciato da ogni cuore
che udiva la mia voce,
posso restare murato.

Wednesday, March 23, 2005

Lusofonia pragmática

A Lusofonia não precisa de ser inventada, pois há milhões de pessoas por todo o mundo que falam português. Revoltar-se filosoficamente contra o colonialismo do passado já não serve de nada. A História não se corrige; mas dos erros e crimes cometidos por inexperiência, ambição ou maldade pode nascer sabedoria e proveito para o presente e o futuro. Cito do excelente Arukutipa um parágrafo onde quero crer que não há metafísica, nem rancores, nem ajuste de contas, mas apenas uma visão pragmática - porque vista como possível e frutuosa - das relações entre países lusófonos. Resta saber como se vão pôr em prática, num mundo dominado pelo cinismo dos interesses económicos e pela ideologia selvagem do liberalismo, estes objectivos. Seria ofensivo imaginar que quem redigiu estes estatutos ignorava o mundo em que vivemos e não sabia com o que contava.


Os oito países da CPLP no artigo 3º dos seus Estatutos, afirmam:


São objectivos gerais da CPLP:
a) A concertação político-diplomática entre os seus membros em matéria de relações internacionais, nomeadamente para o reforço da sua presença nos fóruns internacionais;
b) A cooperação em todos os domínios, inclusive os da educação, saúde, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, administração pública, comunicações, justiça, segurança pública, cultura, desporto e comunicação social;
c) A materialização de projectos de promoção e difusão da Língua Portuguesa, designadamente através do Instituto Internacional de Língua Portuguesa.


P. S. Outros blogues que se têm referido à questão da Lusofonia: Tugir e Machamba. Um artigo interessante, ainda sobre a questão da língua mas de outra perspectiva, em Crítica (por indicação de José Serra). Depois de ler Konrad Szczesniak perguntei-me se não devia começar a falar, pelo menos de vez em quando, entre amigos, como as pessoas da minha aldeia: «fôrandes ao cinema e não me dissérandes nada. Quando cá voltárindes da próxima vez, se não me convidárindes pra ir convosco zango-me.» A gramática é sempre um tanto ou quanto fascista, já se sabe. Como todas as leis. Mas é mais fácil dizer «fôrandes» que «vocês foram» - e «fostes» provavelmente parece demasiado artificial a algumas pessoas. Triunfará esta forma no futuro? Não tenho nada a opor.

Little Babel


Bruegel

Portrait of man in his study


Isidore A. A. Pils

Girl reading


C. E. Perugini

Reading by the firelight


Warren B. Davis

A couple of ways of doing something


Chuck Close

Keep Reading


Suzanne Caporael, City on Tuesday


«Learning to read was, for slaves, not an immediate passport to free­dom but rather a way of gaining access to one of the powerful instru­ments of their oppressors: the book. The slave-owners (like dictators, tyrants, absolute monarchs and other illicit holders of power) were strong believers in the power of the written word. They knew, far better than some readers, that reading is a strength that requires barely a few first words to become overwhelming. Someone able to read one sen­tence is able to read all; more important, that reader has now the possi­bility of reflecting upon the sentence, of acting upon it, of giving it a meaning. "You can play dumb with a sentence," said the Austrian play­wright Peter Handke. "Assert yourself with the sentence against other sentences. Name everything that gets in your way and move it out of the way. Familiarize yourself with all objects. Make all objects into a sen­tence with the sentence. You can make all objects into your sentence. With this sentence, all objects belong to you. With this sentence, all ob­jects are yours." For all these reasons, reading had to be forbidden.
As centuries of dictators have known, an illiterate crowd is easiest to rule; since the craft of reading cannot be untaught once it has been acquired, the second-best recourse is to limit its scope. Therefore, like no other human creation, books have been the bane of dictatorships. Absolute power requires that all reading be official reading; instead of whole libraries of opinions, the ruler's word should suffice. Books, wrote Voltaire in a satirical pamphlet called "Concerning the Horrible Danger of Reading", "dissipate ignorance, the custodian and safeguard of well-policed states".Censorship, therefore, in some form or another, is the corollary of all power, and the history of reading is lit by a seem­ingly endless line of censors' bonfires, from the earliest papyrus scrolls to the books of our time. The works of Protagoras were burned in 411 BC in Athens. In the year 213 BC the Chinese emperor Shih Huang-ti tried to put an end to reading by burning all the books in his realm. In 168 BC, the Jewish Library in Jerusalem was deliberately destroyed dur­ing the Maccabean uprising. In the first century AD, Augustus exiled the poets Cornelius Gallus and Ovid and banned their works. The emperor Caligula ordered that all books by Homer, Virgil and Livy be burned (but his edict was not carried out). In 303, Diocletian condemned all Christian books to the fire. And these were only the beginning. The young Goethe, witnessing the burning of a book in Frankfurt, felt that he was attending an execution. "To see an inanimate object being pun­ished," he wrote, "is in and of itself something truly terrible." The illu­sion cherished by those who burn books is that, in doing so, they are able to cancel history and abolish the past. On May 10, 1933, in Berlin, as the cameras rolled, propaganda minister Paul Joseph Goebbels spoke during the burning of more than twenty thousand books, in front of a cheering crowd of more than one hundred thousand people: "Tonight you do well to throw in the fire these obscenities from the past. This is a powerful, huge and symbolic action that will tell the entire world that the old spirit is dead. From these ashes will rise the phoenix of the new spirit." A twelve-year-old boy, Hans Pauker, later head of the Leo Baeck Institute for Jewish Studies in London, was present at the burning, and recalled that, as the books were thrown into the flames, speeches were made to add solemnity to the occasion. "Against the exaggeration of unconscious urges based on destructive analysis of the psyche, for the nobility of the human soul, I commit to the flames the works of Sigmund Freud," one of the censors would declaim before burning Freud's books. Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H.G. Wells, Heinrich and Thomas Mann, Jack London, Bertolt Brecht and hundreds of others received the homage of similar epitaphs.»
(Alberto Manguel, A History of Reading, Penguin Books, 1996)

Open book


Suzanne Caporael

A luz II


(jc)

Tuesday, March 22, 2005

O filósofo e as multidões

Criticar os intelectuais e os escritores não é atacar a Cultura nem repudiar o exercício da Inteligência - é apenas pronunciar-se sobre as suas manifestações ou práticas particulares. Do mesmo modo que os poetas não detêm o monopólio da Poesia nem os professores o monopólio do Saber, os intelectuais e os escritores não detêm o monopólio da Cultura nem o monopólio da Inteligência - e se pensam o contrário andam muito iludidos.


Mythologies is a text which is not one but plural. It contains fifty-four (only twenty-eight in the Annette Lavers's English translation) short journalistic articles on a variety of subjects. These texts were written between 1954 and 1956 for the left-wing magazine Les Lettres nouvelles and very clearly belong to Barthes's `période "journalistique"'. They all have a brio and a punchy topicality typical of good journalism. Indeed, the fifty-four texts are best considered as opportunistic improvisations on relevant and up-to-the-minute issues rather than carefully considered theoretical essays. Because of their very topicality they provide the contemporary reader with a panorama of the events and trends that took place in the France of the 1950s. Although the texts are very much of and about their times, many still have an unsettling contemporary relevance to us today. (Tony McNeill)

L’œuvre de Barthes étonne, de prime abord, par sa variété, son ouverture, son attention tous azimuts. Diverse dans son objet (Barthes semble parler de tout : de Sade et de Beethoven, de Racine et du bifteck-frites, du catch, du strip-tease, du lied allemand et de Brecht) ; diverse dans sa méthode (il paraît changer souvent de vêtements théoriques, essayant tour à tour une critique thématique à la Bachelard dans Michelet par lui-même, une psychanalyse ethnologique inspirée du Freud de Totem et tabou dans Sur Racine et un structuralisme strict dans Système de la mode); diverse dans son idéologie (tenu à ses débuts pour un marxiste intransigeant – parce que veillant à l’orthodoxie de l’introduction en France des écrits et des théories de Brecht –, il se fait le champion d’un certain formalisme en défendant Robbe-Grillet et le Nouveau Roman naissant et d’un certain hédonisme en réhabilitant, en esthétique, la valeur du plaisir ), cette œuvre apparaît comme une série de blocs distincts, voire contradictoires, dont on voit mal, à première lecture, le dénominateur commun. (Philippe Dulac)

Barthes lui-même:

«In wrestling, nothing exists except in the absolute, there is no symbol, no allusion, everything is presented exhaustively. Leaving nothing in the shade, each action discards all parasitic meanings and ceremonially offers to the public a pure and full signification, rounded like Nature. This grandiloquence is nothing but the popular and age-old image of the perfect intelligibility of reality. What is portrayed by wrestling is therefore an ideal understanding of things; it is the euphoria of men raised for a while above the constitutive ambiguity of everyday situations and placed before the panoramic view of a univocal Nature, in which signs at last correspond to causes, without obstacle, without evasion, without contradiction.» (Roland Barthes, "The World of Wrestling", Mythologies, 1957)

Comentário de Mark Edmundson:

«I agree that "The World of Wrestling" is a highbrow's piece of work, but I'm not sure how benevolent it is. Note the way Barthes wants to imagine the members of the audience. According to him they come to the wrestling matches to escape "the consti­tutive ambiguity of everyday situations." They cannot live with the anxiety of not knowing the truth, cannot live amidst the proliferation of signs without origin, secure referent, and stability. They flee from this condition rather than making the best of it. Barthes's moral message, if I understand him correctly, is that this urge to flee is inseparable from a taste for the kinds of transparent meanings and puerile symbolic dramas - and sometimes dramas that are more than symbolic - that fascism offers. There's an equation being drawn here between fascism and the hunger for presence.
But does Barthes really know what's going on in the mind of his crowd? Isn't it possible that the crowd is as aware of the fictive nature of the matches as Barthes is? (…) Is indulging the fiction of total knowledge an act of bad faith when one recognizes it as a fiction?
If I'm crediting the crowd with too much here, it may be by way of reaction: Barthes gives them no credit at all. "The World of Wrestling" ought, I think, to be seen as an installment in the ongoing depiction of the mob by European proponents of high culture.
(…) "The World of Wrestling" stigmatizes the crowd for its authoritarian fantasies, but were (and are) the members of the Euro­pean intelligentsia less susceptible to fascism than the masses? (…) Is Barthes, by putting all the heat on the proletarians, performing a sort of scapegoating in his own right, a ritual of exoneration for his own intellectual class? What is at stake, in social and political terms, in Barthes's polemic against presence, and in other such polemics that operate in its mode? (…) ''The World of Wrestling" was published more than ten years before Jacques Derrida's key works of 1967 and well in advance too of the essays collected in Blindness and Insight. Yet the piece is alive with many of the tendencies to be found in post-structuralist theory.»

(Mark Edmundson, Literature against philosophy, Plato to Derrida,
A defence of poetry
. Cambridge University Press, 1995)

Monday, March 21, 2005

Blindness and Insight

A linguagem é imperfeita. O nosso conhecimento da linguagem é imperfeito. A nossa capacidade de entender e explicar é imperfeita. Na fenda entre a imperfeição da linguagem, o nosso domínio imperfeito da linguagem, e a nossa incapacidade de entender e explicar, introduz-se no entanto um outro factor, simultaneamente perigo e vantagem: na realidade sempre sabemos e dizemos mais do que o que pensámos que sabíamos e dissemos. Nós não nos damos conta: haverá sempre, no que dizemos, alguma coisa - às vezes coisas importantes e até as mais importantes - que na nossa consciência da nossa própria «sabedoria» e «ignorância» irremediavelmente nos escapa. Quem nos ler, enquanto nos lê, pode ir, no entanto, além daquilo que nós pensamos que dizemos - e descobrir no que nós dissemos uma «sabedoria» e uma «ignorância» que foram nossas sem o sabermos. A cegueira também permite abrir caminhos. Assim avança o conhecimento. De etapa em etapa. A vantagem: aprendermos com quem, tendo lido o que nós escrevemos, nos fez compreender o que, como Monsieur Jourdain, nós dissemos sem ter consciência de o ter dito. O perigo? Vários: aquele que escreve começar a tomar-se pelo oráculo de Delfos; a proliferação de leitores que do que nós dissemos extraem conclusões com as quais podemos – e pode o nosso texto - não estar nada de acordo. Mas se esses leitores «inteligentes» escreverem eles próprios sobre o que descobriram... abrem a porta por sua vez à proliferação de outros leitores que se comportarão com os textos deles como eles se comportaram com os nossos. Processo -vantagens e perigos - interminável. Paul de Man escreveu sobre o assunto páginas elucidativas[1]. Os comentários de Mark Edmundson e de outros tornaram mais claro o que está em jogo nas reflexões e teorização de Paul de Man.

<«Blindness and insight, de Man's central conceit, is a figure for dramatic irony, the kind of irony that arises when speakers say more than they know, and in situations where the surplus of meaning is taken in by some third party. This is the case for all of the critics that de Man considers in his first published volume: they are unable to apprehend the insights that are inconsistent with their idealizing critical models, but that those models allow them, paradoxically, to produce. De Man argues, for instance, that Georg Lukács pushes his organic model for understanding the novel far enough to reveal temporality's power to disrupt the claims that novels make for epic-style cohesion. Yet this dissonance reveals itself not to Lukács, whose own view is that novelistic temporality contributes to the text's organic form, but rather to de Man. To him, Lukács' book gives "the elements to decipher the real plot hidden behind the pseudo-plot, but the author himself remains deluded."
(…)
As D. C. Muecke, the author of a fine study of irony puts it, "There is a special pleasure in seeing someone serenely unaware of being in a predicament, especially when this predicament is the contrary of the situation he assumes himself to be in. It would be difficult to account for this pleasure in purely humani­tarian terms."
[2] Muecke, with an urbane irony of his own, indicates that dramatic irony involves a reversal in established relations of authority. The audience can suddenly claim superiority to the speaker. So for de Man, the author is someone who says more than she knows, and whose authority is accordingly usurped by the reader, who will become prey to a similar dynamic in turn.»

(Mark Edmundson, Literature against philosophy, Plato to Derrida,
A defence of poetry. Cambridge University Press, 1995)
[1] Paul de Man, Blindness and Insight, Essays in the Rhetoric of Contemporary
Criticism. University of Minnesota Press, Minneapolis, 1986 (4ª ed.)[2] Irony, London, Methuen, 1970, p. 63

Sunday, March 20, 2005

Hölderlin: Then welcome, silence

To the Fates

One summer only grant me, you powerful Fates,
And one more autumn only for mellow song,
So that more willingly, replete with
Music's late sweetness, my heart may die then.

The soul in life denied its god-given right
Down there in Orcus also will find no peace;
But when what's holy, dear to me, the
Poem's accomplished, my art perfected,

Then welcome, silence, welcome cold world of shades!
I'll be content, though here I must leave my lyre
And songless travel down; for once I
Lived like the gods, and no more is needed.


(Hölderlin, Selected Poems and Fragments, translated
by Michael Hamburger, Penguin Books)

À margem da Lusofonia

Não pensava oprimir, ofender, menosprezar nem chocar ninguém com o que escrevi sobre a Lusofonia. Ao responsabilizar os políticos e a economia distancei-me claramente dos ideais do Saudosismo e da Nova Renascença, que quiseram acreditar metafisicamente na existência de uma «alma portuguesa». O que é necessário, se se achar que a Lusofonia tem algum sentido, é competência, pragmatismo, sentido da cooperação, respeito pela identidade alheia. E projectos e obras que provem a sua utilidade, evidentemente. Se não se quiser ir por aí, haverá certamente outra maneira de resolver os problemas. Mas perde-se qualquer coisa.


O que Eduardo Lourenço e outros, no seu abnegado e inteligente esforço por «entender», têm vindo a escrever sobre Portugal e os portugueses ao longo dos anos parece-me muito discutível. E se todos esses dicursos filosofantes forem pura divagação e fantasia de intelectual culto com horror ao vazio, ficção amável mas perigosa de pessoas a quem a eventual falta de sentido do mundo inquieta? Querer diagnosticar sobre as almas dos outros e sobre a alma das nações com o intuito de lhes servir de candeia na escuridão é ambição muito arriscada. E pensar a Lusofonia a partir dessa perspectiva pode não ter qualquer sentido além de não ter qualquer interesse nem importância.

Em tempos antigos existiu o S.N.I. - para a propaganda. Agora existem vários organismos com a mesma função e provavelmente métodos semelhantes. Gastam o dinheiro dos contribuintes (que em muitos casos passam mal) enviando, por exemplo, regularmente, alguns professores e escritores ao estrangeiro para, digamos, «divulgarem a nossa cultura». Ou para repetir pela centésima vez banalidades sem qualquer interesse sobre, por exemplo, a obra de Saramago - que não precisa nada de andar com as sanguessugas cortesãs atrás, pois já teve o Nobel. Alguns desses escritores e professores, sempre os mesmos, estão em todas, são uns carreiristas.

Pode parecer que em Portugal não há, desde há muito, projectos culturais coerentes e realistas. Também pode parecer que não há política cultural adaptada à realidade do país que somos. E que dominam nuns casos a fantasia, noutros a excentridade, noutros o oportunismo, noutros a improvisação, noutros a mania das grandezas, noutros ainda - ou nos mesmos - simplesmente o clientelismo. E o tempo vai passando e nós nele. Who cares?

Hölderlin: Loud-mouthed force alone...

Human Applause

Has love not hallowed, filled with new life my heart,
With lovelier life? Then why did you prize me more
When I was proud and wild and frantic,
Lavish of words, yet in substance empty?

The crowd likes best what sells in the market-place,
And loud-mouthed force alone wins a slave's respect.
In gods and godhead only he can
Truly believe who himself is godlike.



(Hölderlin, Selected Poems and Fragments, translated
by Michael Hamburger, Penguin Books)

Saturday, March 19, 2005

A outra América


(jc)

Para o pomar


(jc)

Armel Guerne sobre Novalis

«Une œuvre dont l'art secret ne s'ouvre pas à l'admiration, mais seulement à l'amour. »
Préface d'Armel Guerne à L'Âme insurgée, éd. Phébus, Paris, 1977
Deux inédits
Novalis. - Même dans l'épaisseur de l'étoffe allemande (je veux dire la lourdeur de la langue et des mœurs) la transparence de sa pensée réussit à passer, furtive comme le génie-même et ductile comme le platine de sa volonté : d'une efficacité extraordinaire et d'autant plus enchanteresse qu'elle est insaisissable. Visiblement inapparente et cependant d'une puissance souveraine. La transparence d'une pensée qui révèle ce qui est là presque sans le montrer et presque sans le dire, sans s'interposer en tout cas; ne confiant cependant ses secrets qu'à ceux qui savent les entendre et ne découvrant ses trésors qu'à ceux qui, sachant déjà qu'ils existent, seront ainsi à la fois dignes et capables de les voir.
Peu d'hommes auront tracé une ligne aussi haute ; il ne parle qu'à ceux qui entendent et ne montre qu'à ceux qui voient. Tous les autres s'ennuient, mais ceux-là sont comblés de richesses inépuisables, certifiés à tout jamais dans l'espérance. Quoi de plus précieux? Car pour celui qui a le paysage devant soi comme celui en qui ruisselle le chant rafraîchissant, qu'importent les négations du peuple de la fin des temps, ce dont il a été dit qu'ils ont des yeux pour ne pas voir et des oreilles pour ne pas entendre. On n'a rien à leur démontrer, et leurs pitoyables protestations se retournent contre eux-mêmes, seuls coupables.
Où qu'il tourne les yeux, l'homme ne rencontre partout que des limites, sauf vers le haut. C'est sans doute pourquoi les générations microscopiques d'une ère déconfite et affaissée qui ne survit que dans son seul microcosme, s'interdisent, sous peine de vertige, tout regard qui n'est pas borné, ne cherchant rien au-dessus d'elles de peur de le trouver. Le seule vision, pourtant, la seule vision vivante et nourricière est bien celle qui réussit à enjamber nos apparences pour entrevoir la réalité. Quand on revient de là, on sait que ce monde-ci est mort, ayant empoisonné son verbe et détruit sa nature."
LES HYMNES A LA NUIT. - Certainement l'œuvre capitale de Novalis et la seule achevée (si l'on excepte l'essai sur la Chrétienté et la courte suite intitulée Foi et Amour) - ces singuliers chants de louange sont au nombre de six - les 5 premiers imprimés en prose, et le 6ème sur 10 strophes, dans l'Atheanum, tome III, 2° cahier, paru en 1800. Ils forment une opulente symphonie directement greffée sur le tronc vigoureux de l'expérience intérieure et de la radicale et douloureuse conversion du poète demandant à la nuit et à la mort ce que les autres attendent étroitement du jour et de la vie. Ce ne sont que seize pages dans l'imprimé original, mais leur place est unique dans l'histoire des littératures. Unique et essentielle. Car il y a peu d'œuvres, finalement, dans le foisonnement d'ouvrages originaux et attachants du Romantisme allemand, dont la respiration universelle conservera toujours en vie ce qui fut bien un mouvement profond de l'Homme, l'empêchant de passer comme passent nécessairement toutes les écoles littéraires ou esthétiques. Avec les Hymnes à la Nuit, le génie de douceur et de grâce, de douleur, d'audace et de ferme volonté de Novalis est entré dans la poésie comme saint Jean de la Croix, par la contemplation de la Nuit Obscure, s'est élevé à la connaissance surnaturelle. L'hymne III, plus étroitement lié aux manifestations sensibles de ce renversement intérieur, au centre du poème, en est plutôt le cœur infiniment interrogeable que la clef systématique, comme ont pu le prétendre certains commentateurs.
"Novalis. Le miracle chez lui, ce pourquoi je m'acharne à le rendre à lui-même en français (et non pas, comme d'autres, à en restituer les "matières"), c'est précisément que, né dans et sous le marécage allemand, obligé d'en subir la langue humide, il ait eu néanmoins un esprit d'une autre race spirituelle, et qui respirait un autre air. Il a, entre autres, découvert et pratiqué un Zen spontané, génial (le seul possible en Occident) qui l'a conduit au "satori" - à l'illumination universelle sans lumière - par une fixation contemplative de l'autre côté de la mort."
Lettre à Cioran, 7 mai 1969.


(P:S. Conheci Armel Guerne no início dos anos 70. Visitei-o em Tourtrès por recomendação de um amigo comum. O grande tradutor de Novalis, Rilke e outros românticos alemães, antigo resistente da guerra, vivia então modestamente num velho moinho e ocupava-se da biblioteca da localidade. Tratava por «vous» a senhora com quem vivia, Madame Guillemin. Discreto, amável, teve a gentileza de me enviar, quando eu já vivia em França, cópias dactilografadas dos seus poemas, que publicara ou publicariia mais tarde. Faleceu em 1980 com 69 anos.)

Caminho na floresta


(jc)

The child

Jardim antigo


(jc)

I love Norway


(jc)

Friday, March 18, 2005

Novalis: Le sentiment profond de la langue


Novalis
"Il y a quelque chose de drôle, à vrai dire, dans le fait de parler et d'écrire ; une juste conversation est un pur jeu de mots. L'erreur risible et toujours étonnante, c'est que les gens s'imaginent et croient parler en fonction des choses. Mais le propre du langage, à savoir qu'il est tout uniment occupé que de soi-même, tous l'ignorent. C'est pourquoi le langage est un si merveilleux et fécond mystère : que quelqu'un parle tout simplement pour parler, c'est justement alors qu'il exprime les plus originales et les plus magnifiques vérités. Mais qu'il veuille parler de quelque chose de précis, voilà alors le langage et son jeu qui lui font dire les pires absurdités, et les plus ridicules. C'est bien aussi ce qui nourrit la haine que tant de gens sérieux ont du langage. Ils remarquent sa pétulante espièglerie ; mais ce qu'ils ne remarquent pas, c'est que le bavardage négligé est justement le côté infiniment sérieux de la langue. Si seulement on pouvait faire comprendre aux gens qu'il en va, du langage, comme des formules mathématiques : elles constituent un monde en soi, pour elles seules ; elles jouent entre elles exclusivement, n'expriment rien si ce n'est leur propre nature merveilleuse, ce qui justement fait qu'elles sont si expressives, que justement en elles se reflète le jeu étrange des rapports entre les choses. Membres de la nature, c'est par leur liberté qu'elles sont, et c'est seulement par leurs libres mouvements que s'exprime l'âme du monde, en en faisant tout ensemble une mesure délicate et le plan architecturale des choses. De même en va-t-il également du langage : seul celui qui a le sentiment profond de la langue, qui la sent dans son application, son délié, son rythme, son esprit musical; - seul celui qui l'entend dans sa nature intérieure et saisit en soi son mouvement intime et subtil pour, d'après lui, commander à sa plume ou à sa langue et les laisser aller : oui, celui-là seul est prophète. Tandis que celui qui en possède bien la science savante, mais manque par contre et de l'oreille et du sentiment requis pour écrire des vérités comme celles-ci, la langue se moquera de lui et il sera la risée des hommes tout comme Cassandre pour les Troyens.
Mais si je pense avoir, par ceci, précisé de la façon la plus claire l'essence même et la fonction de la poésie, je sais aussi que pas un homme ne le saurait comprendre et que, l'ayant voulu dire, j'ai dit quelque chose de tout à fait stupide, d'où toute poésie est exclue. Pourtant s'il a fallu que je parle ? si, pressé de parler par la parole même, j'avais en moi ce signe de l'intervention et de l'action du langage ? et si ma volonté n'avait aucunement voulu ce qu'il a fallu que je dise? Alors il se pourrait bien que ce fût là, à mon insu, de la poésie, et qu'un mystère de la langue eût été rendu intelligible... Et aussi, donc, que je fusse un écrivain de vocation, puisqu'il n'est d'écrivain qu'habité par la langue, puisque l'écrivain né n'est seulement qu'un inspiré du verbe!"
(MONOLOGUE, 1798; traduction d'Armel Guerne)

Diotima

Hölderlin: Ce que tu ne sais pas...

«Lyrisme, en français, ne veut pas dire grand'chose. Pour Hölderlin, il faut nécessairement revenir et penser à ce moment mystérieux et capital de la Genèse, qui vit l'homme - dans sa lucidité antérieure au péché, sa transparence antérieure au tout premier sommeil - recevoir de Dieu la responsabilité, le soin et le pouvoir de nommer de leur nom toutes les créatures. Puissance mystique du verbe: la poésie vient de là, de ce sanctuaire fait de lumière et d'ombre, où les générations faillies peuvent retrouver toujours, « par ces armes du verbe », la permission suprême de

' Parler seul / Avec Dieu, '

comme Hölderlin a su le dire au plus près.

Toutes les autres disciplines humaines ne sont guère que des distractions plus ou moins abusives, où l'essentiel est ce dont on ne parle jamais.»

Armel Guerne


À Diotima

Si du lointain, dont nous voici maintenant séparés,
Je ne te suis point étrangère, oh! le passé,
A toi, le commensal de mes douleurs!
Peut toujours t'apporter quelque bienfait encore,

Dis-le aussi, quelle est l'attente de l'amie,
Dans ces jardins, après les temps d'effroi
Et de ténèbres où nous faisons rencontre,
Près des fleuves, ici, du très-saint monde originel.

Je dois le dire: il y avait dans tes regards
Un bon éclat, lorsque lointain déjà, tu t'es
Une fois retourné, joyeux,
Homme toujours fermé et de sombre apparence.

Donc les heures ont fui. Comment avais-je l'âme
Aussi sereine? aussi convaincue que je fusse
Du vrai de la séparation?
Ah ! j'étais tienne et je l'ai reconnu.

Très véritablement! Tel tu veux par tes lettres
Me verser tout le quotidien dans la mémoire
Afin que je n'ignore rien, de même aussi m'appartient-il
A moi de prononcer tout le passé.

Était-ce le printemps? Ou était-ce l'été? Le rossignol
Avec son chant exquis était au nombre des oiseaux
Qui s'ébattaient non loin dans le bocage,
Et les grands arbres nous baignaient de leur parfum.

Les clairs chemins, les brousses rases et les sables
Où se posaient nos pas, rehaussaient tout l'éclat
Et le charme et la joie de la jacinthe,
De la tulipe ou de l'oeillet, de la violette.

Verdissait aux parois, aux murailles, le lierre,
Verte se faisait l'ombre heureuse des allées,
Où souvent nous étions à l'aube, au crépuscule,
Parlant de tout, joyeux et heureux de nous voir.

Entre mes bras reprenait vie l'adolescent
Encor tout délaissé, venu de ces contrées
Qu'il me montrait là-bas, lourd de mélancolie.
Mais les noms de ces lieux les plus exquis et rares,

Il les savait, et toute la beauté, là-bas,
Des rivages bénis que je chéris de même,
Qui fleurit sur la terre aimée de la patrie,
Ou demeure cachée, aperçue d'un haut lieu

D'où l'on peut voir aussi de tous côtés la mer,
Mais où nul ne veut être. Aussi contente-toi
Et songe à celle qui demeure emplie de joie
Du fait que sur nous se leva le jour exquis,

Né d'une confidence ou de nos mains serrées,
Qui nous fait un. Mais hélas! oh! hélas!
Quel temps splendide c'était là! Que devait suivre
Hélas, la tristesse du crépuscule.

Que tu sois seul, si seul en ce monde splendide,
Mon bien-aimé, toujours tu me l'assures. Mais
Ce que tu ne sais pas...

(Traduction Armel Guerne)

Thursday, March 17, 2005

Lusofonia: Utopia ou Realismo Político?

Remeto uma vez mais para o blogue Arukutiba e para os oportunos e lúcidos comentários que aí são feitos sobre o estatuto da língua portuguesa nas instituições europeias, recentemente posto em causa por uma decisão polémica das cúpulas de Bruxelas. Acrescento ao que já foi dito alguns excertos de uma comunicação que apresentei no «Colóquio Internacional sobre a Lusofonia» organizado pelo Professor Vítor Manuel de Aguiar e Silva na Universidade do Minho em Maio de 2001; e num outro colóquio sobre a Lusofonia que, patrocinado pelo Instituto Camões, então presidido por Jorge Couto, teve lugar na Universidade de Leeds no mesmo ano. A comunicação foi posteriormente publicada no número 1 da revista Boca de Incêndio («Aquilo Teatro», Guarda, Maio de 2004).


Gostaria de encarar a «Lusofonia» como um projecto, pois é assim que o entendo. Por ora, apesar de se terem esboçado alguns passos significativos na direcção pretendida, parece-me que estamos longe de ter atingido o grau de lucidez, a eficácia e o empenho político e económico necessários ao sucesso das ambições legitimamente manifestadas. Gostaria também de excluir do meu discurso qualquer ambiguidade quanto à natureza desse projecto: quero pensar que não se trata de um projecto, na origem, ideológico ou filosófico. Portugal já conheceu essas ambições e não foram apenas os políticos ou os ideólogos a alimentá-las, pois os intelectuais e os escritores manifestam às vezes um idealismo tão ingénuo e tão perigoso na sua maneira de abordar estas questões como os políticos propriamente ditos.

O projecto da Lusofonia terá, apesar disso, aspectos ambíguos, aos quais provavelmente é difícil escapar. Gostaria de acentuar, para ir delimitando o meu terreno, que se o projecto da Lusofonia me parece importante não é por eu pensar que a língua portuguesa é superior a outras línguas; mas também não é inferior, tendo já dado provas mais do que suficientes, ao longo dos séculos, de que é um instrumento de comunicação eficaz e respeitável. A língua portuguesa é a nossa e por isso é com ela que teremos de trabalhar. Não por ser superior a outras línguas, mas precisamente e simplesmente porque é a nossa.

Recusaria também qualquer tentativa de considerar a língua portuguesa como um puro instrumento de dominação. As línguas com que conquistamos o espaço e o tempo são também instrumentos de confraternização e de amor; e não apenas instrumentos de escravidão dos outros à nossa autoridade ou à nossa inteligência. Tudo depende, sempre, da atitude daquele que as utiliza e das suas intenções. Mas a língua, seja ela qual for, é a priori inocente. E a prova de que a língua portuguesa não é, não foi apenas um instrumento de dominação encontra-se no facto de ela ter servido aos opositores do regime salazarista para atacar, política e literariamente, a ditadura, do mesmo modo que permitiu os poetas e romancistas africanos exprimirem a sua revolta e, até, ir organizando literariamente a rebelião contra o regime colonialista português. As línguas são inocentes, repito. Só nós somos responsáveis pelo que lhes fazemos dizer ou calar. Além disso o Português do Brasil e dos países africanos, para não ir mais longe, assimilou elementos das línguas com que conviveu e que por razões políticas e económicas acabou por dominar total ou parcialmente, o que justifica que eu insista nesta visão positiva da língua. As línguas são seres vivos que vivem porque aqueles que as falam, que as utilizam, estão eles próprios comprometidos com a vida.


A questão da Lusofonia é essencialmente hoje uma questão política e económica. Essa questão política e económica, que está ou devia estar, como preocupação fundamental, no espírito daqueles que têm a seu cargo levar o projecto a bom termo, tem no entanto imensas consequências ao nível cultural. As duas vertentes do projecto – a político-económica, por um lado; a cultural, por outro – não poderão nunca ser separadas. Se o forem, o projecto só parcialmente alcançará o efeito pretendido.

(...)

Ao defender, no projecto da Lusofonia, a língua portuguesa, estamos a defender a nossa identidade. Mas parece-me que seria deformar grosseiramente o projecto e a questão se se pretendesse que, através do projecto da Lusofonia, Portugal está a tentar prolongar artificialmente e abusivamente uma qualquer ambição imperialista antiga. Tal ambição seria, além do mais, no contexto económico e político actual, ridícula, pois Portugal não teria sequer os meios necessários para a concretizar.

Cada um dos países envolvidos, por escolha própria, no projecto da Lusofonia, há-de saber fazer da língua portuguesa o instrumento mais adaptado à sua própria originalidade, às suas necessidades, ao seu temperamento e cultura. A liberdade é neste domínio total porque as línguas não são animais que facilmente se uniformizem e domestiquem. Cada cidadão, no seu espaço próprio, que é o espaço geográfico tanto como o espaço espiritual e cultural, é ao mesmo tempo um herdeiro da língua que aprendeu e um detentor poderoso de invenção de novos poderes no uso dessa língua. A tentação de neo-colonialismo da parte de Portugal, se existisse, seria portanto grosseiramente ingénua e prejudicaria definitivamente o projecto. A unidade à volta da nossa língua, no projecto da Lusofonia, só pode, por isso mesmo, ter como ambição a melhoria das relações entre os povos de língua portuguesa e a criação de uma unidade na diversificação. Isto é, só pode ser unidade na polifonia.

A esta constatação acrescentaria uma outra: no caso do projecto da Lusofonia, a unidade criada à volta da língua, que é desejo de solidariedade e de cumplicidade, só terá sentido e provavelmente só terá sucesso, se se entender que tal projecto deve ser antes de mais nada desejo sincero de colaboração e ajuda, defesa de interesses comuns, necessidade e vontade de ocupar, na competição entre as línguas, os países, as políticas e as economias, um espaço próprio. E ocupando um espaço próprio, fazendo respeitar uma identidade nova, criada a partir da existência de uma língua comum e de um passado parcialmente comum, a Lusofonia poderá talvez obter no plano político e no plano económico os sucessos necessários à melhoria das condições de vida, materiais tanto como espirituais, daqueles que têm em comum o facto de falarem Português .

Não me parece necessário alongar-me excessivamente na descrição do que pode parecer, apesar de tudo, um mito e uma utopia. Mas a diversidade das raças, das culturas, dos espaços geográficos, uma vez posta a frutificar com o sucesso da união e da colaboração entre os diversos países da Lusofonia, seria ainda um passo dado em frente no sentido do progresso . E do sucesso desta nossa ambição poderiam beneficiar mesmo aqueles que não deixarão nunca de estar em competição política e económica com os países da Lusofonia.

(...)

O projecto da Lusofonia pode ajudar a restabelecer o equilíbrio e a verdade e contribuir para que haja mais justiça e tolerância na avaliação das nossas contribuições para a civilização; mas deveria sobretudo permitir, num futuro próximo, se tivermos de facto interesse em unir-nos, tornar os Estudos Portugueses definitivamente independentes em relação aos Estudos Hispânicos, que são de facto quem maior partido tem tirado de designações como «latino-americano» ou «ibérico», utilizadas quase sempre em proveito da vontade de hegemonia hispânica. A criação de Departamentos de Estudos Lusófonos, reunindo as diversas culturas e civilizações da nossa língua comum e diversas disciplinas (literatura, história, sociologia, antropologia, linguística, por exemplo, e para não ir mais longe) parece-me que é viável a curto e médio prazo e que constituiria uma maneira de implantar mais sólida e seriamente em países estrangeiros os valores e os interesses dos países Lusófonos. O projecto da Lusofonia também deste ponto de vista pode vir a desempenhar um papel determinante e extremamente importante.

A criação de um “lobby” lusófono, capaz de competir com os “lobbies” anglo-saxónico e hispânico, não é importante apenas por razões de identidade e por questões de orgulho nacionalista; é uma via possível e necessária de defesa de valores políticos e económicos no mundo moderno.
Não ter consciência disso, esquecer a economia e a política para continuar a privilegiar apenas ou sobretudo o sentimentalismo, o romantismo das atitudes e da arte, terá provavelmente como consequência inevitável o falhanço do projecto. É na medida em que a Lusofonia consiga impor-se como entidade com valor político e económico que os valores culturais dos países de língua portuguesa se poderão fazer respeitar. Uma vitória nesses domínios implicará também, certamente, uma incitação à invenção, à criatividade, à justiça, à humanização das relações entre as pessoas.

(...)

Não deixarei, antes de terminar, de exprimir, no entanto, as minhas preocupações relativamente ao projecto da Lusofonia. Esse projecto só pode triunfar se houver envolvimento sério, profissional, competente dos países interessados no projecto. O diletantismo, as meias-tintas, ajudarão a prolongar o mal-entendido e a fazer fracassar o projecto. Porque o mundo actual, como de resto já o antigo, não se compadece com a falta de seriedade, a ambiguidade dos objectivos, a ausência de acção eficaz. A verdadeira epopeia, hoje, seria todos os países de língua portuguesa irem além do subdesenvolvimento onde ele ainda existe. São os políticos, de facto, quem, mais do que ninguém, tem nas suas mãos o sucesso ou o fracasso do projecto. O facto de neste momento existirem cerca de 30.000 professores desempregados em Portugal, a maneira aberrante como se deixaram proliferar no nosso país universidades privadas de qualidade às vezes duvidosa, o facto de não termos enfermeiras nem médicos suficientes, a incapacidade de certas instituições portuguesas de satisfazerem ambições legítimas da população deviam deixar-nos, no entanto, seriamente preocupados. Mas a união dos países lusófonos, a realizar-se com sucesso, seria o nascer de uma força e vontade maiores, bem organizadas, competentes, ambiciosas mas realistas, das quais pouco a pouco iriam surgindo as sociedades mais perfeitas a que nos é lícito aspirar, apesar de todos os obstáculos no nosso caminho.

P.S. Ver também o Aviz, que se referiu ao «papel da nossa diplomacia»; A República dos Sonhos; o Machamba, que se refere à «história ridículo-marítima» e, na janela de comentários a notícia recente relacionada com este assunto, à «tropa fandanga lusófona» - interrogando-se ainda sobre «que tralha é a lusofonia».

Wednesday, March 16, 2005

La piété de Hölderlin


S. Dali






«Tandis que la poésie de Hölderlin développe sa forme, son âme développe cette virtuosité qu'elle a de s'ouvrir, de transiter, de percevoir les forces de la nature et la marche incessante du devenir, de concilier ce qui est séparé, et elle développe la virtuosité qu'a sa propre essence consciente d'elle-même de se confondre à l'élé­ment dépourvu de langue et de nom. Cette virtuosité tend à dépasser la vie conditionnée; celui qui y est entraîné jusqu'à la maîtrise devient maladroit dans les activités humaines et celui qui est occupé en tant que poète, devient oisif et sans objet en tant que mortel. La suite des âges n'est pas un apaisement mais une aggra­vation de l'être-pour-soi. L'enfance ne s'exprimait pas, mais elle possédait ; la virilité s'exprime, mais regrette. Ainsi, dans la mesure où Hölderlin parle de lui-même, cette peine revêt-elle au cours des différentes étapes de sa vie, différents aspects. C'est le deuil de l'amant ; car de même que les amants ont réconcilié entre eux la dis­sociation, et qu'ils ont rétabli l'unité du monde par une vie personnelle à deux, de même la déploration de l'amant est la dissociation la plus passionnée ; elle se répand en trois stades, qui déterminent également la suite dans le cadre d'autres thèmes de Hölderlin : le stade ombrageux du regret, qui est un Hadès des âmes ; le stade de la mémoire auquel les douleurs divinatoires de l'amour ouvrent le tout du monde ; et le stade du rétablissement qui déplace mystiquement les démarca­tions entre la vie temporelle et la vie élémentaire. C'est ici l'expression la plus vigoureuse de la peine person­nelle. La peine peut également s'exprimer comme une peine de l'âge, c'est-à-dire comme une peine de la fuyante jeunesse ou bien comme tristesse de la nature qui porte avec la terre le deuil de l'adolescent solaire en partance, ou bien comme une tristesse historialement réflexive qui pense dans les dimensions de l'adieu, de l'éloignement et de l'avènement des dieux, et elle peut enfin s'exprimer dans le deuil prophétique du dépayse­ment entre les plus familiers. Mais la cause de cette peine est toujours la dissociation en tant que condition de la vie effective ; ce qui est regretté en cette peine est toujours le stade de la vie pure, l'harmonie de la nature et avec elle-même et avec l'âme des hommes.
Or cette harmonie n'est donnée ni d'origine ni inaltérablement, elle émane comme une libre création — comme réponse des hommes à la parole du dieu — aussi tendre et vulnérable que l'harmonie qui réside dans l'âme du poète ; sa résonance et sa dérésonance sont un destin, sont pour Hölderlin le destin, et pour qu'elle résonne, il faut ces médiations, ces corrélations par l'intermédiaire desquelles chez Hölderlin les dieux passent de leur retrait à leur être véritable. La peine, dont le nom est la dissociation, est donc un être sans dieux ; et sinon un non-être des dieux, du moins leur être-absent. Et la piété de Hölderlin, c'est que la vie sans les dieux ne lui est point belle. Là où les dieux sont et agissent, la dissociation de la vie est suspendue ; là où ils se sont retirés dans l'obscurité, elle exerce sa suprématie.»
(Max Kommerell, Le Chemin Poétique de Hölderlin, traduction et avant-propos
sur l’auteur par Dominique Le Buhan et Eryck de Rubercy, Aubier, 1989)

A luz


(jc)

Hölderlin: Home


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Content the boatman turns to the river's calm
From distant isles, his harvest all gathered in;
I too would gladly now turn homeward,
Only, what harvest but pain have I reaped?

Kind river-banks that tended and brought me up,

Can you allay love's sufferings, give me back,
You forests of my childhood, should I
Come to you now, the same peace as ever?


(Hölderlin, Selected Poems and Fragments, translated
by Michael Hamburger, Penguin Books)

Tuesday, March 15, 2005

Rua portuguesa


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O desleixo


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Céu português antigo


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O engenho e a arte


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Carlos de Oliveira: O romancista

Carlos de Oliveira é autor de cinco romances: Casa na Duna (1943); Alcateia (1944); Pequenos Burgueses (1948); Uma Abelha na Chuva(1953); Finisterra, Paisagem e Povoamento (1978). A sua carreira de ficcionista e de poeta pode dizer-se que começa com a publicação de Cabeças de Barro (1937), obra de três autores (Fernando Namora e Artur Varela são os outros dois) que anuncia já o neo-realismo próximo e na qual Carlos de Oliveira colaborou com três contos («Terra alheia», «A quadrilha do Pinhas vai descer ao povoado», «Nódoa de sangue») e um poema («Lamentação»).
A acção dos romances de Carlos de Oliveira situa-se na Gândara, «região areenta da faixa marítima que vai, grosso modo, do norte da Figueira da Foz até às portas de Aveiro» (Alexandre Pinheiro Torres), aparentemente à volta de Cantanhede, no distrito de Coimbra. Os mesmos nomes de lugar e alguns personagens surgem assim nos vários romances do autor, embora ocupando na hierarquia da narrativa posições diferentes. Embora pareça possível identificá-los, nos primeiros romances o autor modificou os nomes de lugar ; em Finisterra, porém, fê-los desaparecer, bem como aos nomes próprios de personagens.
Embora a paisagem da Gândara seja um dos elementos essenciais do universo de Carlos de Oliveira, a sua obra não é de modo algum «regionalista», pois tanto a acção dos seus romances como o lugar onde ela tem lugar são elevados a uma dimensão simbólica que lhes confere universalidade. Carlos de Oliveira não situou, por outro lado, num tempo rigorosamente preciso a acção dos seus romances; mas parece evidente, tendo em conta certas alusões mais claras e a ideologia que presidiu à elaboração da sua obra, que ele é antes de mais nada o romancista da nova sociedade liberal e republicana (essa intenção ou desígnio superior, e não apenas o receio eventual da censura, explicam certamente que a crítica do salazarismo enquanto tal não tenha sido a preocupação mais manifesta do romancista).
Carlos de Oliveira é também autor de um livro de textos difícil de classificar, entre a crónica e o conto, o excerto púdico de diário e as memórias, a reflexão filosófico-literária e a crítica: O Aprendiz de Feiticeiro (1971, mas reunindo textos publicados, segundo o próprio autor, entre 1945 e 1970). Independentemente do seu valor literário, este livro fornece informações que permitem entender melhor a obra de poeta e de ficcionista de Carlos de Oliveira, os seus ideais e modelos estéticos, o seu método de trabalho. Além disso deixa-nos entrever discretamente a pessoa que ele foi.
Deve assinalar-se que as edições corrigidas em profundidade dos romances «juvenis» de Carlos de Oliveira (só Alcateia não foi remodelado) obrigam a que se considere na sua obra de romancista a existência de duas fases: uma, a das primeiras edições, compreensivelmente mais imatura do ponto de vista estilístico e de técnica literária e também mais directa e mais rudimentar na expressão da revolta ideológica ou da rebelião de carácter revolucionário; outra, a das edições remodeladas, que pelo rigor depurado do estilo e das técnicas de composição, e também pelo tratamento mais moderado dos elementos com função ideológica, anuncia já o futuro autor da obra-prima que é, de todos os pontos de vista, Finisterra. Alcateia, (a 2ª e última edição data de 1945), representa bastante bem, na forma em que nos foi deixado, essa primeira fase da obra romanesca de Carlos de Oliveira. Finisterra, por outro lado, sendo obra de maturidade, só submetida a ligeiras correcções antes da morte do autor, pode dizer-se que constitui a meta para que já tendiam as edições remodeladas dos romances precedentes.
Os romances de Carlos de Oliveira foram frequentemente reeditados e alguns deles encontram-se traduzidos (em romeno, húngaro, espanhol, francês, alemão, polaco, russo). A data de publicação das edições remodeladas em profundidade é a seguinte: Casa na Duna, 1964 (3ª ediç.); Pequenos Burgueses, 1970 (3ª ediç.); Uma Abelha na Chuva, 1969 (4ª ediç.).
Os inícios da obra de Carlos de Oliveira coincidem com os inícios do neo-realismo, de que ele é ao mesmo tempo um dos instauradores e uma figura desde sempre considerada à parte. Os próprios adversários do neo-realismo (que se podem identificar em grande parte como sendo os «presencistas») reconheceram desde o início que na obra de Carlos de Oliveira a preocupação com a ideologia era acompanhada de preocupações estéticas e existenciais que distinguiam a sua obra da dos outros autores do jovem movimento. Não nos compete aqui avaliar do rigor desse julgamento. Anote-se apenas que a obra de Carlos de Oliveira permitiu entrever, desde o início, aquilo que seria o neo-realismo da segunda fase, mais «estético», menos «rudimentar», menos «panfletário», mais aberto a temas em que a ideologia não era imediatamente detectável.
Para Carlos de Oliveira o neo-realismo tem à primeira vista uma função didáctica e moral (dizemos à primeira vista porque nem tudo na obra de Carlos de Oliveira - e o mesmo se poderá certamente dizer de todos, e em particular dos melhores escritores identificados como pertencendo ao neo-realismo - se deixa reduzir a essa entidade abstracta que, por necessidade de estabelecer diferenças, se designou como sendo o neo-realismo): trata-se de pôr em cena os destinos dos indivíduos e das famílias de modo a que se entenda que eles são condicionados pela História (isto é, pela forma que tomam na sociedade as relações de produção). Esta visão esclarecida do que é o neo-realismo explica que na obra de Carlos de Oliveira não encontremos apenas o povo, mas representantes de todas as classes. O povo nem sequer é, na maior parte dos casos (exceptua-se Alcateia), a personagem principal dos romances de Carlos de Oliveira; os «pequenos-burgueses» (proprietários, comerciantes, industriais, funcionários do Estado) ocupam em vários casos o primeiro plano dos enredos do romancista e merecem a sua atenção de modo privilegiado. Mas na realidade o povo está sempre presente nos romances de Carlos de Oliveira. Mesmo quando ocupa uma posição aparentemente secundária, o seu destino, dependente dos jogos de força e das lutas entre os que detêm o poder económico e político, não deixa nunca de surgir como uma preocupação fundamental do romancista. Povo com defeitos e qualidades, mas no qual Carlos de Oliveira parece ter pressentido, intacta, uma energia susceptível de redimir o nosso futuro.
Os romances de Carlos de Oliveira apresentam uma série de traços peculiares, nem todos redutíveis, como já se referiu, àquilo que uma parte da crítica tem entendido como sendo o neo-realismo (esta circunstância explicaria a perplexidade dessa crítica, vítima da sua concepção forçosamente limitada do neo-realismo). A importância conferida pelo romancista à vida interior das personagens, ao casamento e às relações amorosas, à condição feminina, ao problema do envelhecimento, à solidão, à melancolia e à neurose, à infância triste, aos conflitos das gerações, por exemplo, deixam entrever que o universo de Carlos de Oliveira não é um universo maniqueísta nem panfletário. Por um lado, os factores ideológicos propriamente ditos são postos em cena sempre em relação estreita com os destinos individuais enquanto tais; por outro, Carlos de Oliveira sempre teve em conta factores e aspectos da realidade humana que sendo eternos escapam a uma explicação limitada e grosseira pela economia, pela luta de classes, pela História.
A oposição entre a Moral e o Direito, relacionada com a questão da responsabilidade individual e entendida no quadro das relações humanas criadas pelo liberalismo selvagem, constitui, ao mostrar o triunfo do segundo sobre a primeira e as consequências desse triunfo sobre a existência dos indivíduos, um dos aspectos mais importantes da denúncia ideológica a que procedem os romances de Carlos de Oliveira.
A Fatalidade, à maneira da tragédia grega, é também um dos elementos característicos do universo romanesco de Carlos de Oliveira; mas para o autor de Casa na Duna a fatalidade não é um elemento irracional, devendo antes identificar-se com as circunstâncias históricas, sociais, económicas (e às vezes, talvez ainda por influência do Naturalismo, biológicas). Isso não exclui, porém, que as personagens dos romances de Carlos de Oliveira sejam, apesar de tipos sociais, indivíduos com uma vida interior e uma problemática próprias (à primeira vista o destino de algumas personagens pode mesmo aparecer, aos olhos de leitores menos atentos, como independente da realidade histórica e sócio-económica).
A oposição entre uma atitude racional e uma atitude irracional, entre a ciência e a superstição é outra das características importantes do universo romanesco de Carlos de Oliveira. É ela que lhe permite mostrar como os comportamentos irracionais ou supersticiosos das personagens resultam sempre da impossibilidade de fazer face aos problemas postos pela realidade, constituindo em geral uma forma de fuga ou de comportamento substitutivo, aparecendo como uma solução errada e nascida do desespero. Essa oposição é em certos casos acompanhada pelo esbater das fronteiras entre o real e o imaginário. Isso não significa, porém, que Carlos de Oliveira tenha uma fé sem limites e sem reservas na razão, na ciência e no seu poder de revolucionar a vida individual e social. Em Finisterra, em particular, romance que simultaneamente valoriza e põe em causa o conhecimento intuitivo e o conhecimento racional, torna-se evidente que o autor não tinha sobre o assunto uma opinião tão rígida como às vezes se pode supor (mas esta visão já surgia em Uma Abelha na Chuva, onde o Dr. Neto, acreditando embora no poder da ciência, afirmava que «muito pouco pode ainda o homem pelo homem»; e apesar da sua atitude racional, o Dr. Seabra de Casa na Duna também não pôde ajudar Mariano Paulo a resolver os seus problemas). Embora interessado nos destinos individuais, Carlos de Oliveira mostra-se particularmente consciente de que o indivíduo só existe integrado na teia da circunstância social e histórica: membro de uma família, por um lado; ocupando no xadrez das relações de produção uma posição mais ou menos bem determinada, por outro. Isso explica a atenção que os romances de Carlos de Oliveira conferem à história das relações familiares e à história das relações no seio do grupo social.
Assinale-se ainda que de um ponto de vista estilístico e de técnica literária os romances de Carlos de Oliveira privilegiam, aristotelicamente e seguindo a lição de Flaubert, de Zola e de Henry James, o «mostrar» sobre o «contar», a «cena» sobre o «resumo»: o autor põe em cena a acção de maneira a que o leitor se transforme em seu espectador em primeira mão, evitando em geral as intervenções directas e os comentários do narrador (em Casa na Duna o autor dá, deste ponto de vista, mostras de um talento narrrativo particular, pois consegue, através do uso virtuoso dos tempos verbais, e nomeadamente do imperfeito e do presente do indicativo, conferir um carácter de cena indiscutível ao resumo e à narração de acontecimentos que tiveram lugar várias vezes mas só são contados uma vez). Esta tendência torna-se notada já nos primeiros contos e nas primeiras versões dos primeiros romances de Carlos de Oliveira, tendo sido aperfeiçoada de modo notável nas versões austeramente remodeladas dos mesmos romances. Por outro lado, o uso que é feito de técnicas modernas de narração da corrente de consciência (sobretudo nas versões remodeladas em profundidade dos primeiros romances e em Finisterra) mostra que Carlos de Oliveira reteve os ensinamentos de Joyce, de Virginia Woolf, de Faulkner, embora tenha tentado conciliá-los, com algum sucesso, com as ambições do romance social. Carlos de Oliveira soube também conciliar, senão de maneira sempre perfeita (essa perfeição só a encontramos provavelmente em Finisterra), pelo menos com um talento digno de registo, a literatura do «eu» que defendiam e tinham praticado os modernistas do ORPHEU e, mais perto dele, os membros da PRESENÇA, com a literatura do «nós», que era uma das ambições mais marcadas dos neo-realistas.
A tese de licenciatura de Carlos de Oliveira em Ciências Históricas e Filosóficas, Contribuição para uma estética Realista, defendida em Coimbra em 1947 e ainda inédita (pode ser consultada em João Camilo dos Santos, Techniques, Thèmes et Art du Roman, Un exemple portugais: 'Uma Abelha na Chuva' de Carlos de Oliveira, 12/3/1983, tese de «Doctorat d'Etat» acessível em microfilme, Lille-Thèses, ISSN :0294-1767) deixa-nos entrever a coerência do percurso do autor. Sensível desde o início a temas e preocupações consideradas como características do neo-realismo marxista, e sem nunca menosprezar a estética, Carlos de Oliveira continuará durante toda a sua existência a interrogar e a aprofundar essas preocupações iniciais. Finisterra, que é o seu último romance, confirma-o. Apesar da modernidade da obra, que torna a sua leitura difícil, são discutidos neste romance de forma contraditória, e agora mais claramente do que nunca, questões importantes e que de uma maneira ou de outra já se tinham manifestado nos romances e no percurso do autor: a questão dos fundamentos e validade da lei, a da existência da propriedade privada, a da imitação da realidade pela arte e, enfim, a questão fundamental da capacidade humana de conhecimento. Mas nesta obra, dominada pelo sentimento da passagem do tempo e pela dificuldade de reter ou reconstruir o passado, os sentimentos das personagens, a sua vida interior, a questão da própria existência adquirem também, paralelamente, uma importância e uma dimensão que não tinham alcançado nos romances prévios do autor.


(Texto já publicado)