Monday, May 30, 2005

Sunday, May 29, 2005

Os franceses

Não sei se os franceses vão votar a favor ou contra a Constituição Europeia. Mas já me diverte a indústria dos comentários sabichões e superiores que começaram a surgir na imprensa portuguesa. Eu próprio podia votar se tivesse tido tempo de ir ao Consulado Francês de Los Angeles. Mas apesar de não me considerar nada conservador, não sei se votaria «sim» ou «não». É que já não sei se a resistência dos franceses à desejável e necessária Europa unida não é fruto de uma hesitação lúcida e de uma resistência saudável à balbúrdia, à decadência dos costumes e dos ideais, a certas formas de demagogia, à progressiva degradação e eliminação da identidade individual das pessoas e dos países. Chamem reaccionários aos franceses, vão dizendo e escrevendo que eles se fecham sobre si mesmos e que prejudicados por um orgulho desmedido não querem entender o presente nem o futuro. Eu não estou lá e portanto não sei como avaliar o que vai acontecer. Seja sim ou não o resultado, não me entusiasmarei a aprovar nem a condenar; tentarei apenas entender, sem cair na tentação de acusar.

Camilo Castelo Branco: poesia e realidade (equívocos)

“A tristeza das ruínas é uma tristeza particular, da qual nem todas as almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante das pessoas que foram comigo visitar um palácio derrocado, ou as alpendradas dum convento, ou algum lanço empenado de muro de castelo.
No convento de franciscanos, cerca de Viana, relíquias santas em cujas abóbodas credes ouvir ainda o ciar da oração dos frades contemplativos, estava eu, por uma tarde de estio com um amigo, que escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso donde se avistavam descampadas e fertilíssimas várzeas. A fronte do meu amigo pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente silêncio, a estrofe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do sítio, que eram poesias feitas para um génio que as bem soubesse ler. Entreabriu o poeta os beiços como flor matutina o cálice ao primeiro beijo do sol e disse:
«Se fosse meu tudo isto que vejo daqui, ia viajar num vapor meu, comprava um palácio em Milão, outro em Paris outro em Londres, e havia desbancar quantos luxos orientais o Byron inventou para o seu Sardanapalo!»
Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.
Outra vez, fui com outro amigo ao castelo de Palmela. Desci às masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer à flor da terra as ossadas dos que ali morreram há cem anos emparedados à ordem do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento deste laivo sangrento da história, e fui em cata de glórias aos séculos primeiros daquele baluarte da nossa independência de Castela e da mourisma. Enleavam-me certas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo num ângulo de um bastão, resmoneou:
«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setúbal um pedaço de carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era óptimo vinho, e havia de saber-nos aqui que nem o néctar dos deuses.»
Ora, este poeta era amantíssimo de ruínas, quando as poetava no seu gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e fulminação contra os governos bárbaros, que deixavam ao camartelo iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extinta grandeza.
Outro caso:
Nos arrabaldes de Lisboa, há um espaçoso jardim abandonado, junto de uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco de 1833. Por entre ervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes enfezadinhas de raríssimas flores que teimam em reflorir na sua estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos cuidados da mão delicada, que as semeara e animara ali, com o coração em flor também. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites dos seus cabelos? A formosa passou, e a rosa-de-toucar floreja ainda ao pé do mirto à sombra da anémola e da romãzeira, abafada pelas moitas das papoilas, que são o efémero adorno das sepulturas. Que triste eu cismava nisto, quando o meu amigo, autor de idílios que faziam amar a botânica e adorar as flores, rompeu nesta canção:
«Este jardim, aqui às portas de Lisboa, se o dono o pusesse a couve-lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras anuais.»
Disse, e perguntou-me se iríamos jantar ao Mata, ou à Taverna Inglesa.
Por estas e outras, pus eu que a tristeza das ruínas é uma particular tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.”


(Camilo Castelo Branco, O Romance dum Homem Rico, 1861)

Wednesday, May 25, 2005

Tuesday, May 24, 2005

Politica e futebol: Excessos

As notícias recentes sobre o deficit e sobre a equipa que ganhou a Liga provam que Portugal gosta é de estar no vermelho. Governantes, dirigentes do futebol e árbitros afinal têm muito em comum.

Monday, May 23, 2005

Um destino literário

Escrever sem que me atribuam um estilo
podia ser a minha ambição. As palavras
não se enredariam na tentação da beleza,
eu saberia evitar a «pose» (no último
décimo de segundo virava à esquerda em
vez de continuar em frente, por exemplo;
isto é, fugiria à frase feita e ao modelo
aprendido; descobriria então, sem recear
o paradoxo aparente, uma realidade imprevista
e inadmissível; ou deixaria a outros
a possibilidade de a encontrar). Assim
me construiria um destino literário à medida
da modéstia da minha existência. Que importaria
que interpretassem como falta de talento
a minha ambição de me realizar na escassez?
Quem me conhece? E quem conheço eu que se assemelhe
a deus ao ponto de me incomodarem o seu olhar
condescendente e as suas observações sapientes?
Se estivesse ao meu alcance a simplicidade,
quem poderia cortar-me o caminho que leva
à extrema solidão, impedir-me, sem remorso nem vergonha,
de comprazer-me no exílio? Muitas vezes
preferi, porém, o vigor das imagens à frase
em que poderia ficar entreaberta a porta
para o real. Muitas vezes deixei-me levar
pelos sons e pela necessidade de ser amado e admirado.
Como o actor trágico que não resiste à adulação
do público e começa a declamar, acabando
por fazer sorrir, eu, apesar de sozinho diante
da página branca, procurei suscitar o aplauso
dos imbecis, a admiração dos ignorantes, o entusiasmo
sem razão de ser das jovens adolescentes
a quem faltava a experiência da vida e dos sentimentos.
A consciência do erro cometido não me traz
a sabedoria como uma qualidade definitiva
do carácter. Eu sei. Não aspirar
ao estilo talvez seja um projecto
insensato, pragmaticamente falando. Quem é
tão semelhante às jovens raparigas
cuja beleza espanta e atormenta
que possa agradar com o seu ar despretensioso,
sem se ter vestido e pintado de certa maneira?
Elas próprias, apesar de filhas dos deuses,
não acreditam no poder do seu olhar límpido,
da sua pele em que resplandece a indizível
pureza dos anjos, da nossa juventude. E
mascaram-se de mulheres do mundo
antes de ir encontrar-se com os rapazes
e os homens que as desejam. Por isso
posso desculpar-me todos os meus defeitos
e sobretudo a incapacidade de falar como se
estivesse calado e o real se confundisse
com as frases que o nomeiam.

(João Camilo, Nunca Mais se Apagam as Imagens,
Edições Fenda, Lisboa, 1996)

Sunday, May 22, 2005

Saturday, May 21, 2005

Friday, May 20, 2005

Thursday, May 19, 2005

O que é «arte»?


(jc)

No museu


(jc)

Ângulos


(jc)

O leãozinho de Alvalade


Béu béu...

Ted Pikul's photos


Ciclista

Luz


(jc)

Riscos


(jc)

Desenhos


(jc)

Os mitos da poesia


MSF


Os poemas deles falam de poetas e de pintores,
das cidades que outra arte tornou inesquecíveis.
Com títulos ingleses e palavras estrangeiras
tentam escapar ao tédio e adoram o bezerro já idolatrado.
Literatura que celebra a literatura, arte que comemora a arte,
não nos resta como projecto de futuro senão a aventura alheia?
Bem sei, é confortável no meio de uma invencível solidão
ter por companhia uma forma já reconhecida
de estar e de sentir. Dá tanto jeito recorrer
ao sentido organizado, em vez
de ter estado lá a descortinar a ordem
ignorada das coisas. Também eu, às vezes,
diante da folha de papel branco que é o dia,
sou sensível ao árduo esforço com que se procura transmitir
o bem estar que nos percorre, o que secretamente
se insinua no nosso olhar habituado às cores e às formas.
Um certo som do piano de Schubert na manhã cinzenta,
o fumo ácido de um cigarro, o cheiro inesperado do incenso,
uma chávena de chá perto da mão direita. E à uma hora
íamos ao encontro da rapariga de blugines.
Quem a tirou, sem a ter embelezado, de um quadro
de Boticelli? Quem lhe desordenou
em cima dos ombros os cabelos aloirados?
Alguém terá já dito por mim o que estava a sentir?
(Camões, único Camões, só tu soubeste, por tê-las meditado,
falar das dores e alegrias do amor em pouca conta tido).
Vou pondo os dedos, um de cada vez, nos mistérios
impenetráveis deste tempo de festa que me coube.
Um filme que se vai desenrolando em silêncio enquanto
em frente da janela os pinheiros jovens oscilam ao vento
tépido que nos envia o Este. Se o meu espírito se inquieta
é por haver uma certa forma de violência
na aparente inocência com que nos percorrem
todos os instantes. Descobrir o que me acontece
é ir aprendendo de cor o meu papel. Senão
que responderei à parte mais rebelde de mim mesmo
quando esquecendo-se da minha escravidão à Lei começa
a desejar a aventura? Mas que em vez
de partirmos não nos fique apenas a crescer,
no lugar do remorso, o apetite mórbido de limpar e esterilizar
as carruagens tristes em que não quisemos ou não pudemos ir
pelas montanhas desertas à procura da outra imagem
de nós mesmos. Tão utilitária, a poesia. Em vez
das palavras novas, das cores e sons com que
resgataríamos aqueles que entre metais e fumos
vão aprendendo a domesticar animais que não cessam
de rugir, cedemos à tentação mais fácil de sermos
compreendidos. Não me perdoarão isto. Mas eu
tinha-lhes perdoado aquilo. E quem pode pretender
ser menos ocioso do que eles, quando sentados diante
do mar vão falando de minerais, multiplicando
por si mesma a metáfora das algas e dos peixes?
Afagam as folhas dos dedos com uma paciência secular.
Os países de que falam têm o interesse inegável
de estarem longe e de não nos termos nunca
debruçado sobre os seus lagos e precipícios. Se
tivéssemos estado lá, provavelmente
havíamos de sorrir dos jogos de luz que eles viram
nas árvores quando nasce o dia, da cor
que eles disseram que tinha o ar
à hora do crepúsculo. Quem sabe, porém,
se esquecendo-nos de olhar à nossa volta,
não teríamos passado o tempo a recordar
o que eles inventaram. Ninguém pode dizer, também,
se postos diante da beleza que descreveram
eles poderiam suportar a sua presença brusca e pesada.
Possivelmente deixariam o lugar vazio e haviam de partir,
mesmo que tentássemos retê-los pela manga do casaco.
Bem sei, a missão deles é inventar os sentimentos dos outros.
Mas nasce-me ao lê-los a impressão incómoda
de que querem viver a minha vida por procuração.
Eu, que tenho prazer em ouvir falar as pessoas
sem me preocupar em saber primeiramente qual a música
que elas ouvem. E seduz-me tanto
ouvir como se respondem as notas de Beethoven,
de Mozart e de Schubert que evito até falar de Janáček.
Se não nos deu nobreza o dinheiro nem as origens
aristocráticas, a cultura pelo menos fez de nós pessoas
de rara distinção. Lemos a revista e o livro
que acabam de sair em Paris ou em Nova Iorque,
fomos à estreia do concerto ou do filme de que falam
os snobs entendidos, encomendámos o compact disc
com a interpretação sublime da Kirsten Flagstad.
E se alguém começa a rir-se da nossa inocência febril,
deixamos descair o lábio inferior num esgar cosmopolita.
Não é do estrangeiro sobretudo que nos chega o alimento
espiritual? As caravelas também foram e vieram, que houve
nisso de prejudicial? Pobre de mim,
que gastei tanto tempo com sentimentos inúteis,
a espiá-los e a inventá-los, a dissecá-los, a querer entendê-los.
Sentava-me ao sol nas esplanadas dos cafés e
mandava vir uma bica, desperdiçava o tempo
que as florestas iam usando para se tornarem densas.
Era essa a minha vida, desnecessária e até absurda,
pirueta ligeira de saltimbanco na rua ao fim da tarde.
Devia ter pintado a cara para não enxovalhar definitivamente
o único rosto que podiam contemplar aqueles
que queriam conhecer-me. Eram sempre jovens,
iam e vinham, eu estava à espera deles,
não tinha sono e apaixonava-me saber o que sentiam.
Os cigarros que fumavam tinham deixado de dar-me prazer,
mas sentado ao lado deles, deslumbrado e de olhos atentos,
era como se estivesse a assistir ao repassar
da minha adolescência. O meu lugar devia ser
noutro sítio, a conversar com gente menos ávida,
e no entanto era assim que ia descobrindo a falta
de mistério das cidades. Se pelo menos tivesse aprendido
a utilizar melhor as palavras, descoberto maneiras
mais eficazes de ir reunindo as frases. Mas quando
me levantava para me ir embora
seguia pela rua adiante a pensar naquele
que podia ter sido. As montanhas
carregadas de neve nunca tinham deixado de me esperar.
Quando, porém, daria o passo
definitivo que me faria regressar?
Num quarto pequeno com a janela aberta recuperaria
o tempo perdido, o ar frio tranquilizaria como
antigamente o meu sangue impuro, entenderia
por que tinha gasto os dias em esforços inúteis.
Mas entrava apenas no automóvel, ia para casa,
e no dia seguinte o tédio de mim mesmo
recomeçava. Entretanto, folheando livros, lia
rapidamente os versos deles, e aspirando
a uma arte diferente recomeçava a escrever.


(O T de Tu, Edições Fenda , Coimbra, 1981)

Wednesday, May 18, 2005

Tuesday, May 17, 2005

Rilke: True singing

1,3

A god can do it. But will you tell me how
a man can penetrate through the lyre's strings?
Our mind is split. And at the shadowed crossing
of heart-roads, there is no temple for Apollo.

Song, as you have taught it, is not desire,
not wooing any grace that can be achieved;
song is reality. Simple, for a god.
But when can we be real? When does he pour

the earth, the stars, into us? Young man,
it is not your loving, even if your mouth
was forced wide open by your own voice—learn

to forget that passionate music. It will end.
True singing is a different breath, about
nothing. A gust inside the god. A wind.


(The sonnets to Orpheus, in The Selected Poetry of
RMR, translated by Stephen Mitchell, Vintage Books)

Monday, May 16, 2005