
MSF
Os poemas deles falam de poetas e de pintores,
das cidades que outra arte tornou inesquecíveis.
Com títulos ingleses e palavras estrangeiras
tentam escapar ao tédio e adoram o bezerro já idolatrado.
Literatura que celebra a literatura, arte que comemora a arte,
não nos resta como projecto de futuro senão a aventura alheia?
Bem sei, é confortável no meio de uma invencível solidão
ter por companhia uma forma já reconhecida
de estar e de sentir. Dá tanto jeito recorrer
ao sentido organizado, em vez
de ter estado lá a descortinar a ordem
ignorada das coisas. Também eu, às vezes,
diante da folha de papel branco que é o dia,
sou sensível ao árduo esforço com que se procura transmitir
o bem estar que nos percorre, o que secretamente
se insinua no nosso olhar habituado às cores e às formas.
Um certo som do piano de Schubert na manhã cinzenta,
o fumo ácido de um cigarro, o cheiro inesperado do incenso,
uma chávena de chá perto da mão direita. E à uma hora
íamos ao encontro da rapariga de blugines.
Quem a tirou, sem a ter embelezado, de um quadro
de Boticelli? Quem lhe desordenou
em cima dos ombros os cabelos aloirados?
Alguém terá já dito por mim o que estava a sentir?
(Camões, único Camões, só tu soubeste, por tê-las meditado,
falar das dores e alegrias do amor em pouca conta tido).
Vou pondo os dedos, um de cada vez, nos mistérios
impenetráveis deste tempo de festa que me coube.
Um filme que se vai desenrolando em silêncio enquanto
em frente da janela os pinheiros jovens oscilam ao vento
tépido que nos envia o Este. Se o meu espírito se inquieta
é por haver uma certa forma de violência
na aparente inocência com que nos percorrem
todos os instantes. Descobrir o que me acontece
é ir aprendendo de cor o meu papel. Senão
que responderei à parte mais rebelde de mim mesmo
quando esquecendo-se da minha escravidão à Lei começa
a desejar a aventura? Mas que em vez
de partirmos não nos fique apenas a crescer,
no lugar do remorso, o apetite mórbido de limpar e esterilizar
as carruagens tristes em que não quisemos ou não pudemos ir
pelas montanhas desertas à procura da outra imagem
de nós mesmos. Tão utilitária, a poesia. Em vez
das palavras novas, das cores e sons com que
resgataríamos aqueles que entre metais e fumos
vão aprendendo a domesticar animais que não cessam
de rugir, cedemos à tentação mais fácil de sermos
compreendidos. Não me perdoarão isto. Mas eu
tinha-lhes perdoado aquilo. E quem pode pretender
ser menos ocioso do que eles, quando sentados diante
do mar vão falando de minerais, multiplicando
por si mesma a metáfora das algas e dos peixes?
Afagam as folhas dos dedos com uma paciência secular.
Os países de que falam têm o interesse inegável
de estarem longe e de não nos termos nunca
debruçado sobre os seus lagos e precipícios. Se
tivéssemos estado lá, provavelmente
havíamos de sorrir dos jogos de luz que eles viram
nas árvores quando nasce o dia, da cor
que eles disseram que tinha o ar
à hora do crepúsculo. Quem sabe, porém,
se esquecendo-nos de olhar à nossa volta,
não teríamos passado o tempo a recordar
o que eles inventaram. Ninguém pode dizer, também,
se postos diante da beleza que descreveram
eles poderiam suportar a sua presença brusca e pesada.
Possivelmente deixariam o lugar vazio e haviam de partir,
mesmo que tentássemos retê-los pela manga do casaco.
Bem sei, a missão deles é inventar os sentimentos dos outros.
Mas nasce-me ao lê-los a impressão incómoda
de que querem viver a minha vida por procuração.
Eu, que tenho prazer em ouvir falar as pessoas
sem me preocupar em saber primeiramente qual a música
que elas ouvem. E seduz-me tanto
ouvir como se respondem as notas de Beethoven,
de Mozart e de Schubert que evito até falar de Janáček.
Se não nos deu nobreza o dinheiro nem as origens
aristocráticas, a cultura pelo menos fez de nós pessoas
de rara distinção. Lemos a revista e o livro
que acabam de sair em Paris ou em Nova Iorque,
fomos à estreia do concerto ou do filme de que falam
os
snobs entendidos, encomendámos o
compact disccom a interpretação sublime da Kirsten Flagstad.
E se alguém começa a rir-se da nossa inocência febril,
deixamos descair o lábio inferior num esgar cosmopolita.
Não é do estrangeiro sobretudo que nos chega o alimento
espiritual? As caravelas também foram e vieram, que houve
nisso de prejudicial? Pobre de mim,
que gastei tanto tempo com sentimentos inúteis,
a espiá-los e a inventá-los, a dissecá-los, a querer entendê-los.
Sentava-me ao sol nas esplanadas dos cafés e
mandava vir uma bica, desperdiçava o tempo
que as florestas iam usando para se tornarem densas.
Era essa a minha vida, desnecessária e até absurda,
pirueta ligeira de saltimbanco na rua ao fim da tarde.
Devia ter pintado a cara para não enxovalhar definitivamente
o único rosto que podiam contemplar aqueles
que queriam conhecer-me. Eram sempre jovens,
iam e vinham, eu estava à espera deles,
não tinha sono e apaixonava-me saber o que sentiam.
Os cigarros que fumavam tinham deixado de dar-me prazer,
mas sentado ao lado deles, deslumbrado e de olhos atentos,
era como se estivesse a assistir ao repassar
da minha adolescência. O meu lugar devia ser
noutro sítio, a conversar com gente menos ávida,
e no entanto era assim que ia descobrindo a falta
de mistério das cidades. Se pelo menos tivesse aprendido
a utilizar melhor as palavras, descoberto maneiras
mais eficazes de ir reunindo as frases. Mas quando
me levantava para me ir embora
seguia pela rua adiante a pensar naquele
que podia ter sido. As montanhas
carregadas de neve nunca tinham deixado de me esperar.
Quando, porém, daria o passo
definitivo que me faria regressar?
Num quarto pequeno com a janela aberta recuperaria
o tempo perdido, o ar frio tranquilizaria como
antigamente o meu sangue impuro, entenderia
por que tinha gasto os dias em esforços inúteis.
Mas entrava apenas no automóvel, ia para casa,
e no dia seguinte o tédio de mim mesmo
recomeçava. Entretanto, folheando livros, lia
rapidamente os versos deles, e aspirando
a uma arte diferente recomeçava a escrever.
(O T de Tu, Edições Fenda , Coimbra, 1981)