Wednesday, July 27, 2005

Águas-furtadas



















Lisboa (jc)

Fachadas















Lisboa (jc)

Casas, etc.


















Lisboa (jc)

Escadas

























Lisboa (jc)

Tuesday, July 26, 2005

O céu de Lisboa



















(jc)

Janelas e chaminé


















Lisboa (jc)

Rosto





















(jc)

Lugares-comuns

Tudo se gasta, se consome, se degrada: o amor, a arte, a vida, as ideias, os regimes, as civilizações. Vale a pena discutir, apressar-se a destruir, antecipar-se aos efeitos da passagem aplicada, indiferente e rápida do tempo? Loucura humana.

(...)

Ouvido no café: " sexo? quem falou de sexo? eu estava a falar de amor, o amor comove-me".

Monday, July 25, 2005

Saturday, July 23, 2005

O aprendiz de feiticeiro

Se eu quiser rio-me de tudo. Se eu quiser digo que tudo é nada. Se eu quiser pego num quadro do Picasso ou do Matisse e demonstro a infantilidade arrogante e pedante da arte, o uso incorrecto das cores e das formas. Se eu quiser pego num sermão do padre Vieira ou num poema de Fernando Pessoa e demonstro que eles só disseram asneiras - ou que nada do que eles escreveram tinha muito sentido: parvoíces tudo. Se eu quiser digo que a poesia não existe porque eu posso rir-me de todas as palavras ditas por outra pessoa e pôr a nu as insuficiências do talento. Se eu quiser demonstro tudo o que eu quiser. Se eu quiser digo que nem o que eu digo ou escrevo tem qualquer sentido digno de atenção. Se eu quiser acredito que tudo o que eu digo é verdade, a pura verdade à qual não se pode escapar.

Mas não quero. E sinto-me feliz, pois se tivesse destruído tudo com a minha palavra poderosa e sapiente tinha ficado sozinho no mundo enfim perfeito com a minha insuficiência e a minha solidão.

Geometrias

Lisboa (jc)

Geometrias

Lisboa (jc)

Trakl: Pourpres éclatèrent bouche et mensonge

ABANDON A LA NUIT

Moniale! enferme-moi dans ton obscurité,
Ô montagnes froides et bleues!
Tombe en sang une rosée sombre;
La croix se dresse abrupte dans le scintillement des astres.

Pourpres éclatèrent bouche et mensonge
Dans les ruines de la chambre glacée;
Brille encore un rire, jeu d'or,
Les derniers sons d'une cloche.

Nuage de lune! Noirâtres tombent
De l'arbre, la nuit, des fruits sauvages
Et l'espace devient tombeau
Et ce voyage terrestre, un rêve.


A L'EST

Aux orgues sauvages de la tourmente d'hiver
Ressemble la colère sombre du peuple,
La vague pourpre du combat,
D'étoiles dépouillées.

De ses sourcils brisés, des bras d'argent,
La nuit adresse un signe aux soldats qui meurent.
Dans l'ombre du frêne automnal
Soupirent les esprits des victimes.

Des broussailles épineuses encerclent la ville.
Des marches sanglantes, la lune
Chasse les femmes épouvantées.
Des loups sauvages franchirent les portes.

(George Trakl, Oeuvres Complètes, traduites de l’allemand par
Marc Petit et Jean-Claude Schneider, Paris, Gallimard, 1972)

Monday, July 18, 2005

Ainda a questão da poesia

Eu tinha acabado de chegar a casa quando o telefone tocou. Era o doutor. O nosso diálogo tinha-o deixado com algumas dúvidas.
DR. - Gostava de perceber uma coisa, disse ele logo. O que você defende é uma poesia que use a linguagem corrente, que fale da vida, de nós, das coisas de que fala a poesia em geral, como nós falamos delas no dia a dia, despretensiosamente?
NAGEL - Pode ser, disse eu. Mas não forçosamente. Há grandes poetas que só usam o vocabulário e uma sintaxe semelhantes ou idênticas às que nós usamos na vida corrente, parece que falam como nós todos e que não se estão a preocupar em ser poetas - e no entanto o que eles dizem e a maneira que têm de o dizer toca-nos profundamente, introduz-nos a outro universo, faz-nos aceder à, digamos, seriedade e profundidade da existência. Mas há outros poetas, de facto, e são a maioria talvez, que falam num estilo que seria impensável nós usarmos tal e qual em condições ditas normais na nossa vida quotidiana. Veja o Rimbaud, o Baudelaire, o Camões, o Cesário Verde, o Pessoa, por exemplo. Ou o Dante, o Shakespeare. É impossível não estar consciente, ao lê-los, de que o que eles escrevem é literatura. Há ali uma elevação que não tem nada a ver com a linguagem que se fala na mercearia ou na garagem ou, mesmo, em casa à hora do jantar. O tom é outro.
DR.- Claro que a literatura é literatura e a gente sabe isso e aprecia.
NAGEL - E é verdade que esses poetas que citei não falam exactamente como nós falamos. Mas o que é inegável, parece-me, é que tudo o que esses grandes escritores dizem é dito com naturalidade, vem a propósito, num estilo que a gente sente como necessário e genuíno. Nem o artifício, de que até podemos dar-nos conta, é suficiente para quebrar o encanto, a comunicação, a emoção.
DR. - Mas sentir uma coisa como genuína e necessária não é muito subjectivo, não depende do leitor, de cada um de nós enquanto leitor?
NAGEL- Provavelmente consideramos que é genuíno o que é dito sem pretensiosismo, com algum sentido importante em vista, e sem usar truques e subterfúgios que nós podemos considerar ingénuos, inúteis ou prejudicando o que parece ser o sentido procurado pela obra.
DR.- Não abandonamos o reino da subjectividade de qualquer modo. Como se distingue o que é importante do que o não é, o que tem sentido do que não o tem? O que é ser ingénuo? Não saímos do domínio da opinião. E ainda não falámos da rima, dos versos com o mesmo número de sílabas, das estrofes, etc., tudo coisas artificiais.
NAGEL - Não digo que não. Mas leia a poesia de Trakl e de Celan, por exemplo. Apesar de eles falarem num tom e num ritmo, numa sintaxe até, com frequência e de vários pontos de vista, muito diferentes dos da linguagem corrente, alguma coisa ficou, no estilo deles, dessa linguagem corrente, da objectividade, instrumentalidade, despretensiosismo da linguagem que nós usamos quotidianamente.
DR.- Essa da instrumentalidade apanhou-me desprevenido. E gostei do despretensiosismo. A linguagem poética deve ser despretensiosa e é instrumental?
NAGEL - A não ser que você esteja a falar para nada, parece-me que sim. Aliás, se queremos ser rigorosos, devemos dizer-se que a instrumentalidade subsiste mesmo quando se fala para nada.
DR.- Hmmm... Bem visto, pensarei nisso mais tarde!
NAGEL - Mas voltando à nossa conversa: esses grandes escritores a que me referia não parecem artificiais porque nós sentimos que os meios de que se servem só foram usados para se obterem resultados dignos da nossa atenção. São, digamos, necessários, adequados ao que está em jogo. Há uma adequação entre os meios e os resultados que é sentida como correcta e eficaz. Será disso que estamos a tentar falar?
DR.- Tanto quanto o meu fraco entendimento me permite compreender, creio que é isso.
NAGEL - Repare que sobre a poesia de Mallarmé se podem fazer observações semelhantes. A linguagem poética do escritor francês pode parecer bizarra, original, excêntrica; mas há ali uma técnica, um saber, uma convicção e uma adequação entre os meios utilizados e os resultados obtidos que impõe respeito.
DR.- Quer dizer que mesmo a literatura que se afasta da sintaxe corrente duma maneira excessiva, artificial e elaborada, pode ser genuína? Hmmmm... Vou ter de pensar nisso também.
NAGEL - É preciso esquecer uma boa parte daquilo que quiseram ensinar-nos na escola e noutros sítios.
DR.- Mas se não são o estilo literário nem as metáforas que fazem um grande escritor, um grande poeta, então o que é? Será o que eles dizem, o sentido que as palavras deles criam?
NAGEL - Eu não disse que não é o estilo literário que faz um grande escritor. O que eu disse é que o estilo, para ser literário, não precisa de se afastar do estilo da linguagem corrente. Provavelmente também não precisa de usar metáforas. É tudo uma questão de talento ou competência linguística, pois as possibilidades de expressão que nos oferece a linguagem são inúmeras.
DR.- Imagino que inverter a ordem das palavras na frase, tornar obscuro o sentido propositadamente através de subterfúgios estilísticos demasiado evidentes e ingénuos, dizer coisas estranhas e tontas sob a forma de metáfora, por exemplo, não bastam para fazer nascer a poesia?
NAGEL – Acho que tem razão mais uma vez: não basta ter competência linguística, não basta a técnica para fazer um poema e um poeta. Aquilo que se diz ou quer dizer, o sentido, a significação, as razões por que se escreve, isso é que é em última análise essencial na poesia. Mas a forma, só por si, pode, pela estranheza ou novidade, excitar e iludir durante algum tempo os leitores – sobretudo, provavelmente, leitores mais jovens.
DR..- Sem técnica, sem um bom conhecimento dos mecanismos de funcionamento da linguagem, não se pode lutar pelo sentido nem perseguir a significação, que é uma coisa complexa. Mas se não há na origem da actividade poética uma inquietação, necessidade de encontrar sentido, se não há uma procura da significação, se não se escreve por alguma razão essencial e séria, para que serve a técnica?
NAGEL - A poesia e a questão do sentido são afinal a mesma coisa. Mas sem técnica ou só com técnica não se vai longe.
DR.- A forma e sentido são inseparáveis, não se escapa nunca a uma nem ao outro.
NAGEL – Ufa! Doutor, agora tenho de ir jantar. Continuaremos o nosso diálogo noutra ocasião, se vier a propósito, se lhe apetecer.
DR. - Você está a precisar de férias, meu amigo! Bom jantar e até breve.
Não podia estar mais de acordo com ele. Deixar de pensar por uns dias, ir de férias! Despedimo-nos e fui logo sentar-me à mesa onde já me esperavam com impaciência a esposa e os filhos. E eu calado ainda a pensar: talvez um dia consiga escrever o poema que estaria de acordo com todas as minhas convicções e pressentimentos.

Saturday, July 16, 2005

Pascoaes e a poesia

- Que maneira desagradável de falar de Pascoaes. Não aprecio esse seu lado, revela certa imaturidade. Deixe o homem em paz, ele já morreu há muito tempo.
- Eu sei, para si a literatura é uma actividade nobre, nasce de ambições elevadas, por isso é despropositado usar de tanta severidade.
- Gente com educação humanística a desancar noutras pessoas parece-me mal, de facto, e sobretudo é incompreensível. Em vez de criticar não será melhor fazer, propor à apreciação do público obra melhor?
- Reconheço que me excedi, pronto. Mas não me diga que a literatura é por natureza uma actividade nobre. A literatura é um meio de realização pessoal, uma maneira como qualquer outra, embora mais aristocrática nas suas presunções, de escapar à banalidade da existência. E não está certo, seja qual for o ramo de actividade em que nos realizemos, que algumas pessoas triunfem na vida à custa dos vícios da sociedade e contribuindo para o aumento da mediocridade.
- E criticar os outros não será uma forma de realização pessoal também?
- Não escapamos às imperfeições humanas, meu amigo.
- Temos de ter em conta que a poesia de Pascoaes foi escrita numa época em que a maior parte da população ainda não tinha acesso à educação. A mentalidade era outra.
- Já reconheci que exagerei. E a linguagem de Pascoaes é de facto a dos tempos em que o senhor feudal, na sua alvíssima residência metafísica, interpretava, para a gente “rude” e “ignorante” - para os servos da gleba, não é? - os mistérios da vida e do universo:

“No seu fresco recanto, a minha fonte
Chora baixinho aquela fria mágua (sic)
Que dentro em nós, além,
Das lágrimas existe…
E faz intimamente padecer
As árvores que têm,
No estio, sonhos de água…
……………………………………..
“Cresce o luar no espaço misterioso,
Cresce o luar, sombra do sol, essência
Mortal da luz.
Cresce o luar em alva transparência,
Em volta deste mundo tenebroso,
Como uma auréola em volta de uma cruz”
……………………………….
“O Medo é o vulto disforme
Da negra noite espectral…
É a própria noite, afinal,
Tumultuosa de visões
Sobre a paisagem que dorme…”
...................................................

- Há quem ache que isso é o bom lirismo nacional. É espírito puro, longe da promiscuidade da matéria. É a nossa maneira de ser alemães e gregos, talvez ingleses. Os camponeses trabalhavam a terra com amor, pureza, entusiasmo. No refúgio da sua mansão, o poeta, entre duas viagens a Amarante, trabalhava para eles, dava voz às inquietações dessa gente que não recebera preparação para entender os mistérios da existência. O povo necessita de guias, o espírito necessita de quem o salvaguarde. Podia citar-lhe vários poetas portugueses contemporâneos que escrevem num estilo semelhante, embora mais moderno. Quanto a si, acho-o um tanto ou quanto neo-realista no pensar.
- Pois, deve ser.
- E é. De certo modo é.
- As suas observações têm algum sentido, reconheço. Mas não me cite nomes, não quero aqui ofensas pessoais. Digamos apenas que estamos nestes casos perante o “mal de existir” ou a “dor de existir” sublimados em ambição ou espectáculo metafísico. À portuguesa, visto que somos portugueses. Ia acrescentar “infelizmente” - mas parei a tempo, não há nada de mal em ser-se português.
- Segundo Jorge de Sena “Pascoaes foi um dos raros escritores verdadeiramente grandes da língua portuguesa a vencer as barreiras impostas pelo nosso provincianismo cultural e pela indiferença imperialista das grandes culturas estabelecidas”.
- Jorge de Sena era muito erudito e descobriu coisas espantosas no poeta de Amarante, mas é também ele a dizer que Pascoaes “recusou a Pessoa a qualidade até de poeta.”
- Provavelmente Pascoaes imaginava-se uma espécie de Holderlin português.
- Mas Pessoa, a quem não escapava nenhum subterfúgio da alma humana, referiu-se amavelmente às mil mansardas em que mil génios desconhecidos não se cansavam de poetar anonimamente. Estava a falar de Portugal, o país predestinado para glórias imperiais. Mas ele próprio, Pessoa - depois do Padre António Vieira, esse magnífico ficcionista - também acreditou em coisas bastante esquisitas.
- Você não perde uma ocasião de criticar os nossos escritores. Deixemos isso por ora. Não lhe parece que há traços do humanismo dorido de Raúl Brandão na poesia de Pascoaes?
- Raul Brandão escrevia em prosa. Pascoaes é quando muito a perversão ou a caricatura de António Nobre. Mas há quem goste desse lirismo puro e campestre:

“A Meia-Noite aí vem cheia de graça,
D’além da serra…
Sob os seus pés, tão leves!, se adelgaça
E quasi se evapora a própria Terra!”

- E você não vê mérito nenhum nesta simplicidade tão popular, tão “rural”?
- Entendo que este balbuciar lírico possa seduzir. Mas Pascoaes ficou-se pelos “ais” e pelos “uis”, pelo espanto, pelo lamento, pelo diminutivo carinhoso. Faltou-lhe o nervo para ir mais longe. Também não necessitava, tinha rendimentos suficientes.
- A linguagem poética de Camilo Pessanha e António Nobre, se não estou errado, também “imita” ou recupera os falares, as crenças, a mentalidade popular. E por vezes sentimo-nos na obra deles no limite da linguagem mais convencional, do lugar comum banal. Não os condena a eles?
- Talvez você tenha razão. Mas Nobre e Pessanha conseguiram escapar à banalidade através de uma subtil ironia (no caso de Nobre) e através de um estilo escasso (no caso de Pessanha, que escrevendo sonetos e outros versos com rima se impunha limites). A simplicidade deles não chega a ser simplória.
- Ó homem, mas Pascoaes, que tinha uma alma sofredora e nobre, quis conciliar a filosofia ou a metafísica…
- … com o uso de uma linguagem corrente muito banal, o que até é contraditório. Faz-me pensar na necessidade portuguesa de transformar a linguagem clara em maneira de falar rebuscada, solene, afectada, tonta - para passar por culto e membro de uma classe superior. Essa tentativa de opressão das classes supostamente sem educação através do uso de uma linguagem delicada e aparentemente muito culta foi chão que já deu uvas.
- Mas não estava a dizer que a linguagem de Pascoaes era simplória? Já não entendo nada.
- Era simplória e simplista, de facto. É como se Pascoaes não se quisesse distanciar, nas suas deambulações metafísicas, dos camponeses que lhe cultivavam as propriedades. Mas a ambição de descobrir intenções ou de atribuir sentidos profundos à existência e ao cosmos, essa confraternização filosófica com os astros revelam pretensiosismo ingénuo de classe ociosa. É uma espécie de gravata. O grande mal nacional é esse: as pessoas têm medo de não ser suficientemente pessoas acima das outras pessoas.
- Diga-me, então, se prefere estes versos de um poeta contemporâneo:

“Tenho um destino da noite.
Sou um animal sábio.
Quando todos dormem os meus filhos acordam.
Os meus filhos destroem a sonolência das ilhas.
Eles trazem nos dedos uma luz sonhadora, depois da
Escravidão, depois dos incêndios.
Incendiada é a sua vida.”

- Eu não prefiro nada. E a gente ficar calada também é uma atitude poética. Mas cada um tem direito a pensar o que quiser da sua própria natureza e do seu destino, de imaginar sobre a vida e os dedos dos seus filhos o que entender. Esses versos parecem uma paródia da poesia do Herberto Hélder. Serão?
- Não sei, acho que não. Da poesia do Herberto você gosta, depreendo.
- Claro que gosto, embora nem sempre, depende dos dias. Às vezes, mas apenas às vezes, também o acho artificial, a armar aos cucos e sem graça; de modo geral consegue convencer-me, arrastar-me para o universo louco ou transfigurado que é o dele. Ainda estava a pensar, porém, nesses filhos que “destroem a sonolência das ilhas”. Que frase!
- Quem nunca caiu no ridículo que atire a primeira pedra.
- Esta conversa já vai longa.
- Reconheço que foi pior a emenda do que o soneto. Nunca mais tentarei corrigir os seus excessos.
- Um dia calo-me e não haverá mais excessos. Mas visto que aprecia, deixo-lhe ainda uma linda quadra de Pascoaes. Um amigo do poeta da “sonolência das ilhas” - ele próprio ex-poeta importante, mas envelheceu, comercializou-se, já não escreve nada que seja genuíno, só cópias estafadas das invenções iniciais - pensa que o caminho da nova poesia portuguesa vai ser o deste “lirismo que nada deve a Pessoa”. Escreveu isso em francês num livro que prefaciou. Mas aqui fica a quadra:

“Alta estrela, na noite, incendiada,
Passarinhos do céu, cantos da aurora,
Já não palpita em vós meu coração…
Sois o silêncio, a treva, a solidão.”

- Está a gozar comigo? Isso é a letra de um fado! Ouve-se logo o trinar das guitarras. Exactamente o contrário do que escrevem os poetas metafísicos portugueses actuais, em soneto ou em verso livre.
- Até à próxima, doutor. E não leia tanto. Vá à praia, beba uns copos com os amigos. Moderadamente, claro. E se beber, não conduza. A policia está por todo o lado.

Thursday, July 14, 2005

Children



A importância do "lugar"

O sentido das palavras só se entende se podemos identificar o lugar de onde nos chegam. Se aquele que fala ou escreve não está em lugar seguro as suas palavras deixam transparecer a insegurança. Se aquele que fala ou escreve não pode imaginar o seu futuro, as suas palavras deixam transparecer a incerteza em que vive quanto ao futuro.

Mas a poesia está ao alcance daquele que ignora o lugar onde se situa e também está ao alcance daquele que vive na incerteza do futuro. É possível mesmo que a essência da poesia tenha a ver com a impossibilidade de definir com clareza o lugar e o futuro.

As palavras da poesia são criação do sentido, notícia sobre o sentido, ou simplesmente procura, falhada ou bem sucedida, do sentido? A poesia só é possível àquele que não perdeu de vista o sentido, àquele que, mesmo incapaz de dizer com clareza o lugar e o futuro, ainda não perdeu a capacidade de distinguir. Distinguir pelo menos as diferenças de sentido entre as palavras - pelo menos entre algumas palavras essenciais; pelo menos, em último caso, entre duas palavras – quando a própria realidade se revela caótica, confusa, em vias de ser habitada por objectos ou formas que já não se distinguem entre si.

O sentido do mundo, de tudo o que existe, somos nós que o atribuímos, é da nossa responsabilidade. Aprendemo-lo sem nos dar conta disso – porque outros antes de nós o criaram e no-lo transmitiram - e transmitimo-lo nós também, já contaminado pela nossa marca, a outros. Divisão ou partilhar de responsabilidades. Depois, um dia, ao ouvir falar na televisão com ar ridiculamente sério e compungido os responsáveis pela barbárie ou pela última verdade colectiva, entendemos finalmente que nem tudo o que se aprende é verdade, que nem tudo o que parece ter sentido ou justificação tem mais sentido ou justificação do que o sentido e a justificação que pretendem conferir-lhe e impor-nos os detentores principais da ordem estabelecida e os instrumentos ao seu serviço.

Por tudo isto são inúteis os poetas decorativos, os críticos literários competitivos, as frases pomposas e confusas ou vazias, o heroísmo poético. Quem pode escrever hoje, quem tem a coragem de escrever hoje como escreveram Holderlin, Rimbaud, Celan, Trakl, Pessoa às vezes? A ingenuidade de Pascoaes, que se levou a sério nas suas ambições metafísicas e foi apenas pomposo, provinciano e ridículo, faz sorrir e obriga à reflexão sobre o estatuto e as possibilidades da poesia – mas na província portuguesa ainda há quem não o tenha entendido. Correm-se menos riscos adoptando uma distanciação irónica, é certo, mas é por isso que Pessoa, que nunca se conseguiu esquecer de que estava a “fazer literatura”, é menos poeta do que Holderlin, Celan, Trakl e outros – e, curiosamente, talvez menos profundo ou/e menos trágico do que Eça, do que Camilo, por exemplo.


Monday, July 11, 2005

Pátrias

Há a pátria real e a pátria imaginária. Não é necessário viver fora para as confundir ou para as distinguir. Mas quem vem só de vez em quando não escapa ao choque, aos conflitos, às perguntas. E depois, outras questões: talvez o próprio conceito de pátria esteja em decadência: talvez a pátria seja apenas uma metáfora alargada da casa materna e paterna - ou do ninho. A evolução actual vai deixar-nos apenas com o conceito freudiano ou literário de pátria? Vão libertar-nos da ilusão de ter para onde fugir, onde nos refugiar, onde permanecer ao abrigo?

Sobre os atentados de Londres, além do lamento, apenas uma observação: o terrorismo não se combate com armas, combate-se com a diplomacia, com a cooperação honesta entre os povos e as civilizações. O resto é capitalismo desumano e feroz, hipocrisia, estupidez. E comércio, negócios. Os milhares de mortos do Iraque são tão dignos de ser chorados como os mortos europeus e americanos.

Tuesday, July 05, 2005

Avoid being clever

The ancient Masters
didn't try to educate the people,
but kindly taught them to not-know.

When they think that they know the answers,
people are difficult to guide.
When they know that they don't know,
people can find their own way.

If you want to learn how to govern,
avoid being clever or rich.
The simplest pattern is the clearest.
Content with an ordinary life,
you can show all people the way
back to their own true nature.


(Lao-Tzu, Tao te Ching, a new English version, with forward
and notes , by Stephen Mitchell, Harper Perennial,1992)

Monday, July 04, 2005

The gates of paradise


A soldier named Nobushige came to Hakuin, and asked: "Is there really a paradise and a hell?"
"Who are you?" inquired Hakuin.
"I am a samurai," the warrior replied.
"You, a soldier!" exclaimed Hakuin. "What kind of ruler would have you as his guard? Your face looks like that of a beggar."
Nobushige became so angry that he began to draw his sword, but Hakuin continued: "So you have a sword! Your weapon is probably much too dull to cut off my head."
As Nobushige drew his sword Hakuin remarked: "Here open the gates of hell!"
At these words the samurai, perceiving the master's discipline, sheathed his sword and bowed.
“Here opens the gates of paradise,” said Hakuin.

(Zen Flesh, Zen bones, compiled by Paul Reps and Nyogen Senzaki, Shambhala, 1994)

Sunday, July 03, 2005

Knut Hamsun sobre a América

"Très jeune, je m'étais trouvé coincé, j'étais à Chicago et n'avais aucun moyen de quitter cette ville. J'écrivis alors une courte lettre à un Américain connu pour lui demander – demander vingt-cinq dollars que je ne pouvais promettre de rembourser. J'allai moi-même porter la lettre. Il y avait un long chemin à faire, tout à fait jusqu'aux abattoirs, je me renseignai et trouvai le bureau de l'homme. C'était une pièce immense, laide d'aspect, à peu près comme des communs, mais avec un fourmillement inouï d'employés de bureau. A l'entrée, il y avait un jeune homme qui faisait le portier, je lui remis ma lettre et il l'emporta, je le vis se diriger vers le milieu de la pièce où était assis, sur une estrade, un homme en train de travailler à des papiers. C'était Armour*. A partir de ce moment-là, je n'osai lever les yeux, je dus ressentir de la honte, j'avais peur aussi d'un refus vraisemblable. Le portier revint rapidement, je n'eus le temps de me rendre compte de rien qu'il était auprès de moi et me remettait vingt-cinq dollars. Il fallut un peu de temps pour que je me reprenne, je demandai alors, stupidement: je les ai eus? Oui! répondit l'homme en souriant. Qu'a-t-il dit? demandai-je. Il a dit que your letter was worth it. Je me mis à tituber avec mes billets, et demandai: Puis-je aller le remercier? L'homme répondit, indécis: Peut-être, mais ça ne ferait que le retarder... Je levai les yeux sur Mister Armour, il ne m'accorda pas un regard, il travaillait à ses papiers. Je n'ai aucun souvenir de ce que j'écrivis dans cette lettre, c'était certainement le plus misérable anglais que Mister Armour eût jamais lu, et qu'elle valût vingt-cinq dollars, ce devait sûrement être de l'ironie. (…) L'Américain riche a de bons moyens, soit, mais cela suppose aussi qu'il a du cœur. Et comme la bienfaisance, le désir d'être secourable est constant également chez l'Américain ordinaire et sans fortune, ce n'est assurément rien de moins qu'un trait caractéristique de cette nation. Alors, est frappante, pour nous autres, Européens, cette dureté aveugle, incompréhensive qui s'exprime dans certains actes de l'état américain: je pense aux puissants murs douaniers contre l'Europe et je pense au recouvrement des dettes de guerre de l'Europe, d'une dureté de fer. En tant que profane, qu'homme de la rue, je raisonne ainsi: mettons que l'Amérique gagne le plus, pour le moment, par sa politique financière, mais pour l'avenir, pour toutes les années futures, pour toutes les générations qui naîtront? L'Amérique ne peut pas plus rester seule que tout autre pays sur notre globe. L'Amérique n'est pas le monde. L'Amérique est une partie du monde et il faut qu'elle vive sa vie avec toutes les autres parties."

*Philip Armour, um dos grandes milionários americanos do início do século XX.


(Kunt Hamsun, “Festina lente”(“Hâte-toi lentement”), in De la vie inconsciente de l’Âme - et autres textes critiques, traduit du norvégien par Régis Boyer, Joseph K., Paris, 1994 [1939])

Saturday, July 02, 2005

Programa do concerto

Sonata para duas catedráticas histéricas, um anfiteatro vazio e uma janela aberta.

Fuga para dois automóveis, três jornais da tarde e uma bicicleta.

Nocturno para trinta ais, dois suspiros, um vendaval e cinquenta desempregados.

Sinfonia para duas colunas de mármore, um poeta postmoderno, três cabeleireiros e cinco fotografias.


INTERVALO


Estudo para dois políticos, quatro estômagos azedos e três cérebros alcoolizados.

Concerto para três críticos literários, uma automotora diesel, cinco parafusos e dois arcebispos.

Cantata de arrotos para três jornalistas, um alfinete, dois pastores alemães e sete escavadoras.

Requiem miniatura para cem militares roucos, duas arenas, dois filósofos de gravata, uma vaca e trinta apitos dourados.

As razões da alegria

O miúdo não entendia por que razão a rua onde morava se chamava doutor não sei quantos em vez de ter o nome do seu próprio pai ou, eventualmente, o nome de um dos vizinhos.
- Quanto é que o doutor não sei quantos pagou? - perguntava ele à mãe.
Ela ria-se:
- Não te preocupes, o doutor não sei quantos já morreu há muito tempo e nós é que estamos vivos.
O miúdo dava uma gargalhada e saltava:
- Nós é que estamos vivos, nós é que estamos vivos.
E quem por detrás dos vidros da janela via a sua alegria achava o mundo bonito.