- Que maneira desagradável de falar de Pascoaes. Não aprecio esse seu lado, revela certa imaturidade. Deixe o homem em paz, ele já morreu há muito tempo.
- Eu sei, para si a literatura é uma actividade nobre, nasce de ambições elevadas, por isso é despropositado usar de tanta severidade.
- Gente com educação humanística a desancar noutras pessoas parece-me mal, de facto, e sobretudo é incompreensível. Em vez de criticar não será melhor fazer, propor à apreciação do público obra melhor?
- Reconheço que me excedi, pronto. Mas não me diga que a literatura é por natureza uma actividade nobre. A literatura é um meio de realização pessoal, uma maneira como qualquer outra, embora mais aristocrática nas suas presunções, de escapar à banalidade da existência. E não está certo, seja qual for o ramo de actividade em que nos realizemos, que algumas pessoas triunfem na vida à custa dos vícios da sociedade e contribuindo para o aumento da mediocridade.
- E criticar os outros não será uma forma de realização pessoal também?
- Não escapamos às imperfeições humanas, meu amigo.
- Temos de ter em conta que a poesia de Pascoaes foi escrita numa época em que a maior parte da população ainda não tinha acesso à educação. A mentalidade era outra.
- Já reconheci que exagerei. E a linguagem de Pascoaes é de facto a dos tempos em que o senhor feudal, na sua alvíssima residência metafísica, interpretava, para a gente “rude” e “ignorante” - para os servos da gleba, não é? - os mistérios da vida e do universo:
“No seu fresco recanto, a minha fonte
Chora baixinho aquela fria mágua (sic)
Que dentro em nós, além,
Das lágrimas existe…
E faz intimamente padecer
As árvores que têm,
No estio, sonhos de água…
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“Cresce o luar no espaço misterioso,
Cresce o luar, sombra do sol, essência
Mortal da luz.
Cresce o luar em alva transparência,
Em volta deste mundo tenebroso,
Como uma auréola em volta de uma cruz”
……………………………….
“O Medo é o vulto disforme
Da negra noite espectral…
É a própria noite, afinal,
Tumultuosa de visões
Sobre a paisagem que dorme…”
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- Há quem ache que isso é o bom lirismo nacional. É espírito puro, longe da promiscuidade da matéria. É a nossa maneira de ser alemães e gregos, talvez ingleses. Os camponeses trabalhavam a terra com amor, pureza, entusiasmo. No refúgio da sua mansão, o poeta, entre duas viagens a Amarante, trabalhava para eles, dava voz às inquietações dessa gente que não recebera preparação para entender os mistérios da existência. O povo necessita de guias, o espírito necessita de quem o salvaguarde. Podia citar-lhe vários poetas portugueses contemporâneos que escrevem num estilo semelhante, embora mais moderno. Quanto a si, acho-o um tanto ou quanto neo-realista no pensar.
- Pois, deve ser.
- E é. De certo modo é.
- As suas observações têm algum sentido, reconheço. Mas não me cite nomes, não quero aqui ofensas pessoais. Digamos apenas que estamos nestes casos perante o “mal de existir” ou a “dor de existir” sublimados em ambição ou espectáculo metafísico. À portuguesa, visto que somos portugueses. Ia acrescentar “infelizmente” - mas parei a tempo, não há nada de mal em ser-se português.
- Segundo Jorge de Sena “Pascoaes foi um dos raros escritores verdadeiramente grandes da língua portuguesa a vencer as barreiras impostas pelo nosso provincianismo cultural e pela indiferença imperialista das grandes culturas estabelecidas”.
- Jorge de Sena era muito erudito e descobriu coisas espantosas no poeta de Amarante, mas é também ele a dizer que Pascoaes “recusou a Pessoa a qualidade até de poeta.”
- Provavelmente Pascoaes imaginava-se uma espécie de Holderlin português.
- Mas Pessoa, a quem não escapava nenhum subterfúgio da alma humana, referiu-se amavelmente às mil mansardas em que mil génios desconhecidos não se cansavam de poetar anonimamente. Estava a falar de Portugal, o país predestinado para glórias imperiais. Mas ele próprio, Pessoa - depois do Padre António Vieira, esse magnífico ficcionista - também acreditou em coisas bastante esquisitas.
- Você não perde uma ocasião de criticar os nossos escritores. Deixemos isso por ora. Não lhe parece que há traços do humanismo dorido de Raúl Brandão na poesia de Pascoaes?
- Raul Brandão escrevia em prosa. Pascoaes é quando muito a perversão ou a caricatura de António Nobre. Mas há quem goste desse lirismo puro e campestre:
“A Meia-Noite aí vem cheia de graça,
D’além da serra…
Sob os seus pés, tão leves!, se adelgaça
E quasi se evapora a própria Terra!”
- E você não vê mérito nenhum nesta simplicidade tão popular, tão “rural”?
- Entendo que este balbuciar lírico possa seduzir. Mas Pascoaes ficou-se pelos “ais” e pelos “uis”, pelo espanto, pelo lamento, pelo diminutivo carinhoso. Faltou-lhe o nervo para ir mais longe. Também não necessitava, tinha rendimentos suficientes.
- A linguagem poética de Camilo Pessanha e António Nobre, se não estou errado, também “imita” ou recupera os falares, as crenças, a mentalidade popular. E por vezes sentimo-nos na obra deles no limite da linguagem mais convencional, do lugar comum banal. Não os condena a eles?
- Talvez você tenha razão. Mas Nobre e Pessanha conseguiram escapar à banalidade através de uma subtil ironia (no caso de Nobre) e através de um estilo escasso (no caso de Pessanha, que escrevendo sonetos e outros versos com rima se impunha limites). A simplicidade deles não chega a ser simplória.
- Ó homem, mas Pascoaes, que tinha uma alma sofredora e nobre, quis conciliar a filosofia ou a metafísica…
- … com o uso de uma linguagem corrente muito banal, o que até é contraditório. Faz-me pensar na necessidade portuguesa de transformar a linguagem clara em maneira de falar rebuscada, solene, afectada, tonta - para passar por culto e membro de uma classe superior. Essa tentativa de opressão das classes supostamente sem educação através do uso de uma linguagem delicada e aparentemente muito culta foi chão que já deu uvas.
- Mas não estava a dizer que a linguagem de Pascoaes era simplória? Já não entendo nada.
- Era simplória e simplista, de facto. É como se Pascoaes não se quisesse distanciar, nas suas deambulações metafísicas, dos camponeses que lhe cultivavam as propriedades. Mas a ambição de descobrir intenções ou de atribuir sentidos profundos à existência e ao cosmos, essa confraternização filosófica com os astros revelam pretensiosismo ingénuo de classe ociosa. É uma espécie de gravata. O grande mal nacional é esse: as pessoas têm medo de não ser suficientemente pessoas acima das outras pessoas.
- Diga-me, então, se prefere estes versos de um poeta contemporâneo:
“Tenho um destino da noite.
Sou um animal sábio.
Quando todos dormem os meus filhos acordam.
Os meus filhos destroem a sonolência das ilhas.
Eles trazem nos dedos uma luz sonhadora, depois da
Escravidão, depois dos incêndios.
Incendiada é a sua vida.”
- Eu não prefiro nada. E a gente ficar calada também é uma atitude poética. Mas cada um tem direito a pensar o que quiser da sua própria natureza e do seu destino, de imaginar sobre a vida e os dedos dos seus filhos o que entender. Esses versos parecem uma paródia da poesia do Herberto Hélder. Serão?
- Não sei, acho que não. Da poesia do Herberto você gosta, depreendo.
- Claro que gosto, embora nem sempre, depende dos dias. Às vezes, mas apenas às vezes, também o acho artificial, a armar aos cucos e sem graça; de modo geral consegue convencer-me, arrastar-me para o universo louco ou transfigurado que é o dele. Ainda estava a pensar, porém, nesses filhos que “destroem a sonolência das ilhas”. Que frase!
- Quem nunca caiu no ridículo que atire a primeira pedra.
- Esta conversa já vai longa.
- Reconheço que foi pior a emenda do que o soneto. Nunca mais tentarei corrigir os seus excessos.
- Um dia calo-me e não haverá mais excessos. Mas visto que aprecia, deixo-lhe ainda uma linda quadra de Pascoaes. Um amigo do poeta da “sonolência das ilhas” - ele próprio ex-poeta importante, mas envelheceu, comercializou-se, já não escreve nada que seja genuíno, só cópias estafadas das invenções iniciais - pensa que o caminho da nova poesia portuguesa vai ser o deste “lirismo que nada deve a Pessoa”. Escreveu isso em francês num livro que prefaciou. Mas aqui fica a quadra:
“Alta estrela, na noite, incendiada,
Passarinhos do céu, cantos da aurora,
Já não palpita em vós meu coração…
Sois o silêncio, a treva, a solidão.”
- Está a gozar comigo? Isso é a letra de um fado! Ouve-se logo o trinar das guitarras. Exactamente o contrário do que escrevem os poetas metafísicos portugueses actuais, em soneto ou em verso livre.
- Até à próxima, doutor. E não leia tanto. Vá à praia, beba uns copos com os amigos. Moderadamente, claro. E se beber, não conduza. A policia está por todo o lado.