Tuesday, August 30, 2005

Relações

"C'est l'une des lois fondamentales de la communication que tout comportement en présence d'autrui a valeur de message, en ce sens qu'il définit et modifie le rapport entre les personnes. Tout comportement dit quelque chose".

"La volonté de renoncer à son indépendance, de troquer le témoignage de ses sens contre le sentiment confortable, mais déformant la réalité, d'être en harmonie avec un groupe, est bien entendu l'aliment dont se nourissent les démagogues."

"L'un des charmes du travail avec les agents doubles, réside dans le fait qu'ils sont rémunérés par l'ennemi."



Paul Watzlawick, La Réalité de la Réalité, Confusion, désinformation, communication, Paris, Éditions du Seuil, 1978 (1976)

Monday, August 29, 2005

Casas na Noruega



















































(jc)

Agosto

Quem está e não está,
os dias passam,
esqueceste os lábios
e as mãos,
quem em vez
de mim, em
vez de eu estar,
quem?

Palavras,
também o ruído
dos motores,
que ficou do
que aconteceu,
ninguém se
lembrará, não
há memórias, nada
rompeu o liso
lago de areia.

Os dias passavam,
ruas com raparigas
e rapazes, eu
sempre só, onde
estavas, dizias
que estavas,
nunca
estavas,
nunca estás?

À noite o vento
soprava nas árvores
da cidade. E os
mortos dormiam,
esquecidos. E eu
pensava: quem
em vez de estar
não está, porquê
o filme sem sentido,
a ficção a atormentar
a carne que não
compreende,

porquê o tédio,
a paixão, o medo,
e depois o nada, o
vazio, o deserto?

Já não há países perfeitos

A Noruega fascina-me: as florestas, os lagos, o mar, as montanhas, a pureza do ar, a limpidez do céu, a neve, os largos espaços. Os impostos são exorbitante e não há infantários gratuitos para as crianças. Quem necessitar de ver um psicólogo paga do seu bolso. Os médicos enganam-se tanto nos diagnósticos e dão tantas provas de arrrogância e descuido como noutros países. O sistema de segurança social francês é de longe e desde há muito tempo superior ao norueguês, embora os noruegueses pensem que não. O meu amigo que morreu (em Oslo, onde era professor universitário) porque o médico interpretou as dores que ele sentia no abdómen como sintoma de ansiedade, mandando-o consultar um psiquiatra, teria morrido se não se tivesse perdido tanto tempo a diagnosticar o cancro que ia alargando os seus domínios a outros lugares do corpo? Uma pessoa que me é muito próxima chegou ao hospital para iniciar a quimioterapia depois de operação grave e tinham-se esquecido de a inscrever na lista, isto seis semanas depois da operação e sem acompanhamento sério de qualquer espécie. Que se passem coisas assim em países que se pretendem superiores aos outros em protecção social é surpreendente e preocupante. Mas entretanto um adulto não pode comprar uma cerveja num supermercado depois das 6 ou das 8 da tarde, segundo os dias, e o Estado detém o monopólio do álcool, que vende a preços exorbitantes. O tabaco também custa fortunas, mas enfim, a gente hoje tem tendência a perdoar neste caso a ditadura do poder estatal. Às vezes digo aos meus amigos noruegueses: e vocês não se revoltam contra esta ditadura abusiva dos burocratas, do Governo, do Estado? Não, não se revoltam, por enquanto aceitam tudo. Devem achar que está bem assim ou que não vale a pena tentar mudar as coisas. Aliás nem toda a gente tem razões para se queixar. Vinha eu no metro de Holmenkolen e tive por companheiro de viagem um rapaz dos seus 30 e tal anos, de bigode, bem vestido e bem disposto. Ainda na estação onde esperávamos o metro jé o tinha visto a meter-se com as pessoas, a namoriscar as pequenas. Eram apenas umas 6 da tarde, mas visivelmente o rapaz estava com os copos. Depois pôs-se a falar comigo e explicou-me: vivia numa instituição para alcoólicos, tinha televisão no quarto, davam-lhe de comer, etc. E eu a pensar: é por isso que estes fiskepudins querem sempre sacar o máximo aos pais divorciados de esposas norueguesas mesmo quando eles são cumpridores e até dão aos filhos muito mais apoio do que o exigido pela lei. Cheguei a pensar: casar com uma norueguesa é um erro; erro mais grave ainda é divorciar-se dela. Mas o jovial rapaz de bigode que ia connosco no metro parecia um cidadão despreocupado com o seu futuro, um homem feliz. O Estado, como um pai tolerante e atento, não o abandonava à sua sorte - e ele tinha consciência disso. Quando a rapariga loira de calças brancas que ia sentada no banco à minha frente se levantou para sair na estação seguinte o simpático bêbedo não resistiu e ao vê-la passar ao seu lado, pumba, deu-lhe uma palmada no rabo. Ela não reagiu ao gesto do bêbedo, ignorou-o. Ele deve ter ficado convencido de que ainda era cedo para apanhar o barco e regressar ao "hotel": levantou-se e foi a correr atrás dela. Grande, formidável país este, pensei eu, reaccionariamente, com os meus botões.

Contra-poder?

Se os blogues são um contra-poder como se explica e justifica que alguns políticos e jornalistas tenham blogues? São ao mesmo tempo "funcionários" activos do poder e do contra-poder? Fazem umas coisas "lá" (quais) e outras "aqui" (quais)? Estamos perante mais um caso disfarçado de existência de heterónimos, perante mais uma prova de que a coerência absoluta e a unidade da personalidade são um mito da nossa civilização?

Sunday, August 28, 2005

Thursday, August 25, 2005

Wednesday, August 24, 2005

Peer Gynt

























Na Universidade de Oslo (jc)

In memoriam













































(jc)

O que eu pensei há bocado

Os blogues mais lidos, mais populares, tendem a assemelhar-se aos jornais em papel e à imprensa comercial em geral. Mas ser surpreendido e estimulado por pontos de vista mais privados e discretos, mais extravagantes ou originais, à margem de ambições imperialistas de domínio, educação e manipulação da opinião, dá um prazer especial.


Recordar uma pessoa que faleceu e foi cremada é uma experiência dolorosa, cruel - porque da pessoa que nós conhecemos já só resta a cinza sem forma, um pó sem identidade perceptível. A ilusão do desaparecimento progessivo e da desagregação lenta não nos é concedida. O choque é brutal.


Tendo em conta tudo o que há para fazer, descobrir, experimentar, apreciar, aprender, construir - quando se aprendeu enfim minimamente a arte de viver - o tempo que é concedido aos seres humanos é uma miséria. A invenção da eternidade prova que não nos conformamos à ideia de um desaparecimento tão rápido, de uma passagem tão fugaz pela terra. No que me diz respeito, e por razões evidentes, eu sou a favor da existência de Deus e da eternidade. Estou seguro de que Deus, se existe, não pode assemelhar-se minimamente à ideia imperfeita e cruel que da sua "pessoa" se fizeram e fazem os seres humanos (em parte para meter medo a quem não tinha medo do rei nem do papão, isto é, para conferir à Lei uma justificação metafísica).


A quantidade de informação, a impressionante e quotidiana erudição de O almocreve das petas. Outros blogues que revelam uma vocação e curiosidade intelectual semelhantes: Muito cá de casa; Cartografia do exílio.



N. B. As fotografias que aparecem neste blogue são digitais mas foram tiradas por mim, são originais e não foram manipuladas no mau sentido do termo. :-)

A máscara





















(jc)

Frame
























(jc)

Unfocused
























(jc)

La vie quotidienne dans les grandes villes


















(jc)

Tuesday, August 23, 2005

Patos bravos


















Sporting? Que falta de classe, que falta de profissionalismo,
que falta de nervo, que treinador tão incompetente e tão
confuso, que guarda-redes tão tonto, que que que...
... Até quando?

Triciclo
























(jc)

Waiting





















(jc)

Unfocused






















(jc)

Bicicleta





















(jc)

Monday, August 22, 2005

Coisas que eu pensei hoje

1. Que uma grande parte da poesia que se escreve parece ter sido escrita numa redoma de vidro especial, onde os escritores se afastam da lógica do mundo real quotidiano (o que é regido pelo código civil, por exemplo) permitindo-se muitas divagações pueris, muitas parvoíces. Deve ser por isso que o Vasco franze o nariz e diz: a poesia não se vende. Pudera, claro que não se vende, quem é que tem paciência para aturar excentricidades nem sequer muito interessantes quando tem facturas a pagar e filhos a educar e revisões do carro em que pensar? A realidade é muito sensata. Escrever poesia sem se afastar da sensatez da realidade, sem levantar os pés do chão, sem se tornar infantil nem irresponsável nem piegas nem engraçadinho, aí está o que poderia ser uma boa norma a adoptar, o desafio que valeria a pena.

2. Percebi por que razão Fernando Pessoa inventou os heterónimos. Eles tinham de falar ou Pessoa de falar através deles, mas quem é que aceitaria ser confundido na vida real com tal gente, ser reduzido no espírito do público crédulo e pouco rigoroso a indivíduos tão cheios de manias, inclusivamente a da originalidade filosófica e artística, a de uma exigência abusiva para com Deus e a vida? Quem é que aceitaria comprometer-se definitivamente e seriamente nas frases que os heterónimos escreveram? Fernando Pessoa manteve a distância, não deu confiança, protegeu a sua integridade. É por isso que da sua verdadeira pessoa e personalidade sabemos muito pouco e nunca saberemos mais, embora os professores e os críticos imaginem o contrário.

3. Que o pensamento é descontínuo e nós vivemos na discontinuidade. Que escrever, seja onde for e a que propósito for, e contar histórias aos amigos, por exemplo, são maneiras de fabricarmos abusivamente coerência. Que não nos apanhem sem ideias, sem uma opinião, sem ciência. Por excesso de desejo de coerência e de obras acabadas acabamos por mentir imenso. Convém, por essa razão, desconfiar muito de tudo o que nos sai da pena ou da boca. Não somos nós que falamos, como diziam os estrutualistas, é o "sistema" que fala em nós e através de nós. E o que é o "sistema"? O sistema é uma máquina que receia o vazio e se aterroriza quando dá com fendas. Histérico, o sistema tenta preencher o mais depressa possível todas as fendas, quer eliminar imediatamente todos os espaços vazios, não tem tempo nem a maturidade que permite esperar pelo que poderia ocupar esses lugares com toda a justiça e proveito.

Eléctricos

















(jc)

Belas, atraentes, perigosas
















































(jc)

A roda



















(jc)

"Feira Popular" em Oslo


















(jc)

Motas no Centro de Oslo


















(jc)

Café em Oslo no Verão

















(jc)

Coisas que incomodam

Ver um homem debruçado sobre um caixote do lixo a comer uns restos de frango à meia-noite e tal. Em Lisboa ou seja onde for. Não é uma imagem literária, é um facto.

Eu estava sentado na esplanada de um café no Campo Pequeno e aproximou-se um cavalheiro:
- Sr. Arquitecto, tem cinquenta cêntimos?
Não sou arquitecto, mas meti a mão no bolso e tirei umas moedas, dei-lhe os cinquenta cêntimos. Agradeceu e foi-se embora. Fiquei com cara de parvo: pensava que me estava a pedir troco ou coisa assim.

Coisas de que a gente gosta

Imitando o estilo de Erlend Loe, que gosta de listas. Coisas de que a gente gosta:

1. Começar a ver Lisboa do avião, antes de aterrar, e sentir que voltamos a casa, por muito mal arrumada e maltratada que ela esteja.

2. Voltar à internet depois de uns dias de interrupção e reencontrar algumas "vozes" conhecidas, familiares e amigas, como o blogue Cuidado de Si (antes Cura di Sè).

3. Rever as amigas e os amigos ou falar-lhes ao telefone.

4. Descobrir que o Sporting ganhou ao Belenenses.

5. Poder comprar, no aeroporto de Lisboa, várias revista de motas. Hesitar, a seguir, entre a Honda Hornet, a Yamaha, uma Suzuki, uma BMW e outras, mas o teste decisivo serão as lições de aprendizagem: se se fazem asneiras graves, nem uma 125, quanto mais uma 600 (N. B. parece que com algumas 600 os principiantes podem progredir sem se aborrecerem nem precisarem de trocar de mota, logo, economiza-se dinheiro).

Thursday, August 18, 2005

Erlend Loe: Naïf. Super

O Vasco ofereceu-me o livro na tradução publicada pela Fenda. Mas se eu tivesse prestado alguma atenção à crítica que sobre ele apareceu no "Mil Folhas" não o tinha lido. A menina que escreveu essa crítica ou não percebeu nada do que leu ou imagina-se muito super ou estava de mau humor. O livro é delicioso, surpreende, lê-se com prazer. Hesitei, numa livraria de Oslo, entre o original, a versão inglesa, a versão francesa. Acabei por comprar a última, mas como volto a Oslo hoje creio que vou comprar também a versão original. O meu norueguês está longe de ser perfeito, mas tem progredido, para surpresa minha. Esta noite estive a ler a conversa do protagonista com um miúdo do infantário, seu vizinho. Tratava-se de saber quem tinha visto mais animais. A narração aparentemente simplória, falsamente ingénua, é de uma eficácia que obriga a reflectir. Parece um livro escrito para a Fenda. Há muito tempo que não encontrava um escritor original. Erlend Loe é original, tem um estilo próprio. Pode pensar-se na influência de outros autores sobre a sua escrita, mas tudo foi filtrado pela necessidade, pelo talento, pela vocação, pela coragem de ter estilo próprio. Aconselho.

Wednesday, August 17, 2005

Kringsjå



















(jc)

Holmenkolen



















(jc)


Driving



















(jc)

Telhados de colmo


















(jc)

Ver, escrever

Na cidade ou no campo, gosto de andar a pé. Muitas vezes, mas não sempre, levo a máquina fotográfica comigo e registo o que vejo: casas, ruas, árvores, montanhas, planícies, cafés, jardins, rios, o mar, pessoas que cruzam o meu caminho e que provavelmente nem se apercebem de que são fotografadas. A digitalização da fotografia tornou tudo mais fácil.

Escrever sobre o que se vê é difícil e arriscado, a tentação de avaliar confunde-se com o desejo de registar ou de contar. É preciso cuidado com a nossa visão do mundo, não se deve usá-la a torto e a direito irreflectidamente. Só que não a usar de todo é demitir-se da existência e da responsabilidade do sentido.

Para escrever é preciso mais tempo do que para fotografar. Para escrever ficção é preciso mais tempo do que para escrever poesia. Tudo é ficção, evidentemente. A poesia exige maior capacidade de condensação, maior capacidade de isolar o que é essencial e importante. A respiração da poesia é diferente da da prosa de ficção, embora as fronteiras entre as duas se tenham esbatido e nem sempre sejam claras (nem necessárias). Para escrever em prosa é necessário mais tempo porque falar e contar coisas toda a gente pensa que pode e que é fácil, mas surpreender-se, investigar, redescobrir o mundo e entender ou corrigir o sentido do que acontece enquanto se escreve está ao alcance de muito poucos. Da prosa esperam-se histórias, da poesia espera-se arte, é assim. Como se nos dois casos não tivesse de haver histórias e arte simultaneamente. Como se nos dois casos a ambição da arte não fosse igualmente e em permanência um grande perigo, o maior perigo.

A literatura portuguesa actual na quase totalidade dos casos só me interessa profissionalmente. Não me ensina nada, não me propõe uma experiência mais relevante nem mais vasta do que a minha nem do que a literatura que lhe é anterior - nem do ponto de vista da linguagem ou da escrita nem do ponto de vista de outras formas de experiência. Para quê perder tempo, então?

Claro, presunção e água benta cada um serve-se da que lhe apetece. No fim do percurso não vai tudo a dar no mesmo?

É preciso assumir minimamente qualquer coisa. Mesmo que seja apenas o tédio.

Acrescentar, para relativizar a "injúria": e na literatura ACTUAL de outros países, na medida em que tens conhecimento dela, e pelo menos nas línguas em que sabes ler, encontras assim tanta "literatura" realmente importante? Resposta possível: tomara eu ter tempo para ler tudo.

Os clássicos, mesmo quando eram mais jovens do que nós quando os lemos, escreveram obras importantes e que continuam a interessar-nos. A diferença está aí.

Rimbaud, mas não só.

O que não quer dizer que todas as pessoas mais velhas do que nós quando escreviam nos podem ensinar ou revelar alguma coisa.

Um dia, em breve, se tiver coragem, compro uma Yamaha 600 azul (não digo o modelo para não fazer mais publicidade gratuita) e vou começar a descobrir (calmamente, prometo-me, pois sei os riscos que se correm em cima de duas rodas) outras paisagens, o mundo de outras perspectivas. Levo a máquina fotográfica comigo, evidentemente, e talvez deixe de fotografar a realidade de maneira tão figurativa, talvez ceda com mais frequência e mais deliberadamente à tentação da arte e me importe menos em dar a conhecer, sem as deformar excessivamente, as "coisas" e pessoas que encontro e descubro. Ou talvez não, logo se vê.

Auto-retrato
























(Estêvão Camilo)

Tuesday, August 16, 2005

Monday, August 15, 2005

IBSEN
























Estátua de Ibsen diante do
Teatro Nacional em Oslo. (jc)

O túmulo de Ibsen no cemitério
de
Ullevålsveien em Oslo. (jc)

Visões do mundo importadas

Antigamente havia um programa de rádio em Portugal intitulado "Rádio Moscovo não fala verdade". Era um programa ridículo e histérico. A Rádio Moscovo era clandestina e proibida mas a rádio nacional fazia-lhe publicidade indirectamente. Hoje temos a CNN, bem embrulhada em rostos simpáticos e cenários brilhantes de muitas cores, e ninguém protesta, antes pelo contrário, ver as notícias na CNN é como comer rebuçados. Os russos, já se sabe, são desorganizados e falharam a revolução deles. Os americanos também fazem muitas asneiras e dão repetidas provas de incompetência, mas a "democratização" em versão americana não parece que esteja em crise séria por ora. E a Europa aceita tudo o que lhe dão sem se interrogar. Como se fosse inocente e sem consequências os europeus andarem a ver o mundo através dos olhos americanos.