Wednesday, September 06, 2006

"e outros diálogos"


















Os actores Sandra Salomé, Fernando Landeira e Luciano Amarelo (também encenador), profissionais, estão a ensaiar a peça "e outros diálogos", montagem de vários textos meus incluídos no livro Uma Sonata de Brahms e Outros Diálogos. A estreia está prevista para fins de Setembro no Teatro Municipal da Guarda, integrada em mais um festival de teatro organizado pelo TMG este ano. A iniciativa, esta e muitas outras, deve-se a Américo Rodrigues. O que Américo Rodrigues tem feito ao longo dos anos pela cultura na Guarda, apesar dos ventos contrários, de calúnias e incompreensões várias, envergonha definitivamente o desinteresse e a total incompetência das outras muncipalidades do distrito e da região neste domínio.





Sunday, September 03, 2006

corpo

no comboio

pela janela da porta da última carruagem viam-se os carris desfilar a uma velocidade vertiginosa. como uma serpentina prateada a desenrolar-se depois de o comboio passar. a experiência não era nova, mas era sempre divertida. os olhos e o espírito ficavam deslumbrados, esqueciam-se de voltar à outra realidade, a fixa. eu fumava um cigarro e fazia o balanço das minhas férias, dos meus dias, da minha existência. a canção de charles trenet irrompera bruscamente da minha memória de manhã quando eu me tinha levantado: que reste-t-il de nos amours, que reste-t-il de ces beaux jours? não havia no entanto razão para melancolias nem melindres. a brevidade da vida humana e os longos anos perdidos a aprender a viver, isso sim, irritava-me. o resto não. deus o dá, deus o tira. o acaso traz o amor, o acaso o leva. a solidão revela-nos o mundo tal como ele é, desaparecem os subterfúgios e a consolação nascidos da paixão do amor. a incompreensão é o motor da história, o estímulo que nos eleva acima de nós mesmos. depois, um dia, morremos. com a impressão às vezes de nunca termos amado, de nunca termos sido amados. é apenas uma impressão provavelmente.

voltei para o meu lugar ao lado da janela. a paisagem desfilava, era o fim do dia. quantas vezes tinha eu feito este percurso? as viagens da infância, entre lisboa e a beira, entre a beira e lisboa, eram o fumo, eram os cheiros da locomotiva a vapor, eram as laranjas descascadas no entroncamento quando o comboio parava mais tempo, eram as bilhas de barro vermelhas com desenhos feitos de pedrinhas brancas, era a água fresca cantada pelas raparigas que as vendiam, era a mãe e o pai tão tão jovens ainda. e não tinha sido há tanto tempo, embora muitos anos tivessem passado por todos nós. mais tarde o pai levou-me ao colégio, fomos de comboio também e ele deixou-me lá, foi uma viagem mais curta na mesma linha. era um bom pai. algumas vezes foi excessivamente severo comigo, foi injusto, não me compreendeu, humilhou-me inutilmente. mas eu nunca o odiei e por isso nunca entendi os filhos que odeiam os pais. se a eternidade existe, se alguma coisa subsiste de nós depois da morte do corpo, ele sabe-o, agora sabe-o melhor do que ninguém: que eu sempre o respeitei e sempre lhe quis bem.

o comboio parou no entroncamento, mas eu mal me dei conta. melhor assim. que reste-t-il de nos amours, que reste-t-il de ces beaux jours, etc ? nada. cinzas na memória. dores que não se podem corrigir nem consolar. o comboio aos solavancos a dançar nos carris a uma velocidade estonteante. os mesmos carris ainda? qual é a duração dos carris? e a noite caiu entretanto. vou a caminho de casa. depois parto de novo. a família para mim foi com frequência uma realidade abstracta. continua a ser. não me esqueço de ninguém, mas vivo longe de toda a gente. não quero pensar nisso. nem quero entender por que razão existimos, nem o que estamos a fazer no mundo e no universo. é possível que haja uma explicação e uma razão, mas se há não se sabe qual é, não se sabe quais são.

falar serve para quê? escrever serve para quê? às vezes já não serve para nada, é apenas uma forma de vagido, uma excrescência da dor e da impotência. inútil, mas não podemos calar-nos, não sabemos que fazer e então continuamos a falar, a escrever. quem se lembra da história do homem apaixonado que passou sete anos a escrever longas cartas à mulher que amava, cartas às quais ela nunca respondeu? encontravam-se regularmente, falavam, riam, iam ao restaurante e ao cinema, viajavam juntos, dormiam juntos muitas vezes. não estavam casados, mas existia entre eles aquilo que as pessoas consideram uma relação amorosa normal. não falavam, porém, nunca falavam das cartas que ele lhe escrevia e às quais ela nunca respondia, nunca respondeu. por isso ele nunca soube se ela lia o que ele escrevia, se sabia o que ele tinha dito, o que ele pensava. nessas cartas ele falava de amor e de muitas outras coisas, solicitava a reflexão e a opinião dela, tentava aprofundar e esclarecer mistérios e dúvidas. no entanto ele nunca se queixou de não obter resposta dessa permanente, e para ele enigmática, penosa, ausência de diálogo. um dia separaram-se e também não falaram em particular da separação, ela aconteceu tão naturalmente que não havia razão para espanto. podiam não se ter separado no entanto, pensava ele. mas por que razão pensava isso em vez de pensar outra coisa? mistério. a solidão doía-lhe, a ausência dela era uma perda irreparável, mas não havia, pensava ele, nada a fazer. escrever e falar só podem servir para alguma coisa se alguém ler e ouvir, concluiu ele. de outro modo é como gritar na noite escura no deserto com o rosto desfeito virado para as estrelas.

o escritor que imaginava que era maldito e era sobretudo bastante ingénuo e vaidoso deu uma entrevista a um jornal. eu li-a no comboio enquanto as rodas de ferro lambiam os carris na sua obsessão sem fim. a pior coisa que pode acontecer a um escritor é ele acreditar que, tendo as pessoas enfim entendido e reconhecido o seu génio, é chegado o momento de se saber o que ele pensa do mundo, da sua arte e da arte em geral. achei embaraçosa, desesperada, ridícula a entrevista do escritor que pensava ter enfim atingido a maturidade. e de novo perguntei-me para que serve escrever, para que serve falar se nenhuma palavra, nenhuma frase nos salvará da morte nem nos restituirá o amor perdido.

viajar de comboio é um prazer provavelmente infantil. os comboios modernos são confortáveis, mas mesmo que não fossem. vai-se de uma cidade a outra, vêem-se pessoas, às vezes fala-se com elas, às vezes elas são muito diferentes de nós, às vezes são antipáticas, outras vezes são simpáticas. ouvem-se conversas banais ou estranhas ou interessantes, as crianças irrequietas e barulhentas acabam por irritar-nos. lê-se, escreve-se, dorme-se, sonha-se, bebe-se água fresca ou café. viajar de comboio é muito melhor, muito mais interessante, muito menos cansativo do que viajar de automóvel.

não estava ninguém à minha espera e antes de me meter num táxi eu pensei num tempo não muito distante em que ainda havia alguém para me ir buscar à estação. o meu pai ia envelhecendo e depois um dia foi a primeira vez que fui sozinho para o comboio. e depois um dia foi a primeira vez que cheguei sem ter ninguém à minha espera. e uma vez aquela que nunca respondeu às minhas cartas foi a lisboa passar duas horas no aeroporto comigo, eu tive uma escala entre dois aviões. por amor, mas onde está agora o amor? onde está agora a inocência e a paixão? embalado pelo comboio e pelas recordações, oiço de novo a voz de trenet a perguntar-me: que rest-t-il de tes amours, que reste-t-il de tes beaux jours? embora não esteja seguro de nada, admito que talvez ela afinal tenha lido algumas das cartas que lhe escrevi.

cheguei a casa, não me apetecia jantar. fui ao frigorífico e comecei a esvaziar lentamente a meia garrafa de chablis que lá deixara antes de partir de viagem. os vapores do álcool subiram-me à cabeça e comecei a falar sozinho, a criticar-me, a rir-me de tudo, a dizer asneiras. mais tarde enviei-lhe uma mensagem a acusá-la de nunca ter entendido o que é o amor. no dia seguinte li a resposta dela: perguntava-me se, em contrapartida, eu, o grande sabichão, sabia o que era o amor e podia explicar-lhe. não respondi. e também não sabia se a nossa troca de mensagens era um diálogo ou se era um monólogo.

Friday, August 25, 2006

Ibsen

saber de ti

eu não saía do quarto nem de dia nem de noite. não me apetecia falar nem ouvir nem ver nem ser visto. não me apetecia pensar nem recordar-me nem imaginar o futuro. de dia eu abria ligeiramente uma das portadas da janela para deixar entrar um pouco a luz. de noite abria as duas portadas da janela para deixar entrar o ar. estava calor mas era suportável. de manhã estava sempre mais fresco. dormi muito e quando não conseguia adormecer tomava valium. às vezes doía-me a cabeça. para me manter em forma pedalava na bicicleta de ginásio no canto no quarto. telefonava para o supermercado e eles traziam-me o que eu pedia, leite e vinho, pão e queijo, batatas, arroz, tabaco, sal e açúcar, papel para escrever, o que era preciso. perdi a noção do tempo algumas vezes mas podia ligar o computador e sabia que dia era que horas eram em que mês estávamos. imagino que ninguém me telefonava mas isso eu não o podia saber porque eu tinha o telefone desligado e só o ligava para telefonar para o supermercado. não sei se era a vida que deixara de me interessar ou as pessoas ou se eu estava apenas a fazer uma experiência a obedecer a impulsos inexplicáveis. não era feliz nem infeliz nem pensava nisso só sabia que estava só e que era natural eu estar só finalmente longe das pessoas que tinham pretendido amar-me e das pessoas que pretendiam odiar-me e das pessoas que contavam sobre mim histórias inverosímeis para destruir a minha reputação. às vezes pensava nelas mas sem muita convicção. o que era eu o que era ser eu não sei exactamente e à medida que o tempo passou creio que duvidei progressivamente de ser alguma coisa de especial alguma coisa que valesse a pena ser separada de tudo o que existia no universo. as árvores estavam lá fora na rua e nos campos as ervas cresciam por todo o lado os rios corriam para o mar e eu estava em casa aquilo que era eu estava em casa. eu era um corpo com consciência de si próprio. ser eu talvez fosse isso ser um corpo que tinha algum conhecimento da sua própria existência.

uma manhã entendi que estava preocupado por não ter notícias tuas. queria saber de ti mas como eu tinha o telefone sempre desligado não era simples. além disso não tinha o teu telefone e embora conhecesse pessoas que mo podiam dar não me apetecia pedir-lhes esse favor nem perguntar-lhes por ti tu podias não gostar ou podias começar a pensar coisas erradas a meu respeito. não me apetecia que tu soubesses por outras pessoas que eu pensava em ti e queria saber de ti. também pensei que tu devias saber não podias deixar de ter percebido que eu queria saber de ti que eu pensava em ti. tínhamos muitas coisas a dizer um ao outro provavelmente nada de muito complicado coisas simples elementares palavras simples mas ainda não tínhamos começado a falar. eu tinha medo que nunca começássemos a falar que se perdesse a oportunidade que a minha vida ficasse vazia desse acontecimento que a poderia e me poderia transformar para sempre. eu não queria ou não podia fazer nada queria que as coisas acontecessem normalmente sem eu fazer qualquer esforço por que acontecessem. mas não acontecia nada e o verão foi passando e eu não saía da casa nem me apetecia ver pessoas nem fazia projectos de futuro. podia ter morrido e não tinha importância. em vez disso resignava-me a ser eu um corpo uma cabeça qualquer coisa que eu identificava ainda dizendo que era eu. tentei ler mas aborreciam-me os livros. a televisão não me interessava só lá apareciam os mesmos idiotas de sempre a dizer coisas que toda a gente já sabia e que não eram nunca exactamente como eles diziam que elas eram.

podia sonhar contigo mas não me servia de nada tu estavas longe eu não sabia bem onde e tu ignoravas que eu necessitava de ti. talvez tu pudesses obrigar-me a sair de casa. talvez tu me obrigasses sem te dar conta a acreditar de novo em qualquer coisa que podia ser o princípio de um romance de uma história verosímil. eu seria a personagem dessa história e andaria na rua e iria ao cinema e ao teatro e almoçava e jantava contigo por exemplo. às vezes iríamos passear para o campo ou para a beira do mar e tu podias por exemplo pegar-me na mão sem me dizer nada nem olhar para mim. fazias-me feliz obrigavas-me sem eu querer a achar a vida de novo uma aventura e eu não dizia nada mas os meus olhos levantavam-se das pedras do passeio progressivamente e alongavam-se sem receio a caminho do horizonte como um papagaio de papel a navegar solto no céu. tu estavas ao meu lado caminhavas comigo no passeio ou na areia da praia mas nenhum de nós nem os dois juntos se assemelhavam nos assemelhávamos nem de perto nem de longe a esses casais falsamente românticos convencionalmente tranquilos dos filmes ou das fotografias em que um homem e uma mulher pretendem representar a maturidade enfim alcançada o grande reencontro a paz a felicidade com estilo uma treta qualquer um lugar comum comercial uma parvoíce.

querer saber de ti tinha-se tornado uma obsessão estúpida incómoda. saber o quê? quem tu eras que tipo de pessoa? se eras como eu me pusera a imaginar o que se escondia por detrás do teu olhar das tuas palavras aparentemente claras simples? abri a janela sem me importar com a intensidade da luz que me feria os olhos e disse debruçando-me para baixo para a rua onde circulavam os automóveis e passavam as pessoas: quero saber de ti fala comigo por favor. fechei de novo a janela sentei-me na cama e queixei-me: nunca tinha querido tanto saber de alguém como nesse momento queria saber de ti. exausto e com o telefone desligado na mão acabei por adormecer de bruços atravessado em cima da cama.

manequim

Sunday, August 20, 2006

Saturday, August 19, 2006

Friday, August 18, 2006

praia











pessoas difíceis...

A sensação foi a mesma. Quando me ligaram a dizer que o XL tinha uma decoração nova, senti-me como quando soube que a mãe das minhas filhas tinha posto silicone. Corri para ver. Talvez o novo look tivesse mudado, ou compensasse, a atitude que nos aparta.
Há pessoas que se fazem difíceis. Umas, porque são muito boas; outras, porque são muito más. Todas me irritam: as boas, porque não havia necessidade de se fazerem difíceis (na restauração, é a experiência Galeria); as más, shame on us, porque só vimos que o rei ia nu a meio do cortejo (experiência Albatroz).
Mas o que me intriga são aquelas pessoas que se fazem difíceis porque sim. Como o XL.
Temos de tocar à campainha e depois esperar que nos abram a porta. Será que vão abrir? Demoram. Devem espreitar longamente pelo óculo, como uma velhinha num quarto andar sem elevador, na Ajuda, se lhe batem à porta depois do noticiário das oito.
Mas há um racional para casas de porta fechada. É que agora há muito crime, como em São Paulo, e o XL é numa zona perigosa (qual David da Buraca), e vai lá muita senhora de idade (que se fartou da Colina e dos Arcos) que se sentiria mal com a porta aberta (há cada vez mais drogados).
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Ler a continuação da crónica gastronómica de Lourenço Viegas em Contra-Prova.

Wednesday, August 16, 2006

love is serious stuff

i’m not sure you know I was impressed you know but love is serious stuff I’m not sure anyway I’m lost it’s too early I need to take a break my life is a mess a frase veio lá de trás eu ia sentado no comboio o porto ia-se afastando de nós o alfa deslizava silenciosamente como se escorregasse num mar de ar tranquilo eu olhava pela janela a paisagem distraidamente pensei eu também não sei nada eu também podia dizer que me sinto perdido mas não digo nada para quê não vale a pena e olhei para trás era um tipo loiro a conversar com uma rapariga deviam ser ingleses deviam estar de férias em portugal talvez fossem irmãos o rapaz era gordo e grande a rapariga era magra e tinha os cabelos castanhos aos caracóis eu abri um livro e preparei-me para ler um pouco a viagem seria relativamente curta em breve chegaria a lisboa onde me esperavam os meus amigos mas não consegui concentrar-me fiquei a pensar no que o rapaz tinha dito o amor é uma coisa muito séria de facto é ou antes depende nunca se pode saber depende do nosso estado de espírito depende da outra pessoa depende de tanta coisa às vezes o amor não é nada sério eu sei parece uma brincadeira ou será que o amor é sempre uma brincadeira ah ah ah não não não pode ser pensava eu o amor é a única coisa que ainda nos resta nisso pelo menos tens de acreditar ó idiota ó imbecil. ou será que o amor não é nunca uma brincadeira embora a gente possa acreditar que sim pensei eu para me contradizer para ver a questão de múltiplas perspectivas para voltar à primeira ideia e depois pagamos o preço nada nos é dado de borla. o comboio deslizando suavemente como num sonho de infância um sonho dos bons claro não dos maus não um pesadelo e o rosto da rapariga que eu tinha visto no restaurante à hora do almoço não me saía do espírito era um rosto grave mas não triste de pessoa que parecia estar à vontade dentro da vida e saber o que é importante e o que não conta parvoíces pensei eu lá estás tu a delirar como é que sabes como é que concluíste tanta coisa sem ter elementos suficientes para isso a tua necessidade de amor é ridícula por isso cais em tentações facilmente por isso facilmente levianamente te pões a imaginar coisas literárias meio doido é o que tu és e o rapaz loiro o gordinho tem razão não se deve brincar com coisas sérias não se podem correr riscos desses é perigoso e então dei uma gargalhada baixinho ri-me de mim mesmo mas não deixava de estar de acordo com o rapaz. a rapariga estava sentada numa mesa ao lado da minha no restaurante camisa branca a pele ligeiramente bronzeada sobrancelhas bem desenhadas na pele limpa e nítida do rosto e tinha-me sorrido discretamente amavelmente depois tinha-me perguntado se eu era do porto e eu disse que não e ela calara-se e o homem de barba mais velho que estava com ela fumava e sorrira também olhara para mim brevemente com curiosidade e sem antipatia provavelmente é o pai pensei eu e quando eles se tinham ido embora tinham dito então boa tarde adeus boa viagem e eu segui-os com o olhar e a rapariga virou-se para trás e sorriu outra vez e eu já não sabia onde meter-me nem que fazer não havia nada a fazer evidentemente mas eu preferia não ser confrontado com situações semelhantes que não me vejam que não dêem por mim e tudo será mais fácil pensei eu e agora sentado confortavelmente no comboio pensava ainda na rapariga lembrava-me dos seus olhos do seu sorriso um pouco melancólico não era nenhuma criança já nem adolescente era bonita parecia uma pessoa suave com alguma ou muita maturidade capaz de entender muita coisa mas quem sabe a gente não sabe não é eu estava provavelmente a construir já mais uma ficção para me entreter a viagem é curta não necessitas de inventar passatempos disse-me eu ralhando-me a mim mesmo. uma pausa sim eu também precisava de uma pausa na confusão em que se transformara a minha vida separações viagens conflitos desilusões malentendidos ingratidões crueldades não valia a pena eu querer estar sempre em campo eu estar sempre em jogo podia de vez em quando ser apenas um dos jogadores que ficavam sentados no banco de suplentes. ri-me da comparação e o comboio parou em coimbra eu levantei-me e fui à casa de banho o comboio logo a seguir recomeçou a viagem e eu voltei para o meu lugar a frase em inglês e a memória da rapariga que eu conhecera ao almoço no restaurante não me deixavam em paz misturavam-se confundiam-se no meu espírito meio adormecido agora e eu preocupei-me com a minha fragilidade embora não me sentisse não me considerasse minimamente uma pessoa fraca ou susceptível de se deixar enredar seriamente em histórias absurdas. recordei-me da história de knut hamsun the queen of sheba pensei naquele gajo que ia encontrar-se com uma mulher e encontrou outra uma desconhecida à noite ao jantar numa pensão e no dia seguinte em vez de ir aonde ia meteu-se no comboio atrás da desconhecida que acabara de conhecer. o que é o amor então e o que é que nos leva a acreditar numa pessoa que diz que nos ama o que é que nos leva a imaginar que uma pessoa que acabámos de conhecer podia ser aquela que sempre procurámos e nunca encontrámos antes e o que é que nos leva a deixar de ir aonde vamos para ir a outro sítio o que é que nos leva a esquecer uma pessoa para prestar atenção a outra e eu não sabia não tinha teorias seguras nem profundas sobre o assunto eu não sabia nada nada só sabia que estava sozinho e que não me apetecia muito continuar a viver assim mas também sabia que deixar-se levar de novo deixar-se enganar de novo por idealismos românticos era absurdo o romantismo é uma das nossas tábuas de salvação no deserto da vida basta de infantilidades a gente tem de proteger-se dos sentimentos devemos afastar-nos dos sentimentos como das tempestades já basta de erros de confusões de esperanças frustradas de mentiras de sordidez. my life is a mess love is serious stuff I was very impressed necessito de fazer uma pausa a vida não pode ser a minha vida não é não pode ser uma corrida de bicicletas porque não vou a pé temos de aprender a andar a pé a viver devagar a esperar a ter paciência tenho de habituar-me a pensar que talvez o amor não exista que talvez não haja ninguém que nos possa amar eu sei bem sei estar só não tem sentido por isso nos distraímos por isso todos nós sonhamos irresponsavelmente mas é natural é preciso ir aguentando a vida a realidade árida o deserto em que nos abandonaram sem nos ter pedido a nossa opinião. que mulher teria ainda paciência para ficar sentada ao meu lado em silêncio sem se queixar sem ter no rosto a amargura de uma ruga de censura de tédio de rancor sem sentir que estava a perder o seu tempo que mulher poderia ainda debater comigo sem se aborrecer nem me aborrecer a eterna questão da nossa miserável solidão e dividir comigo a alegria involuntária inconfessável de estar vivo e dizer-me que porque a morte há-de vir inevitavelmente um dia o facto de estarmos juntos poderia ser considerado em certo sentido uma bênção um milagre e dizer-me que para ela era uma consolação uma recompensa uma coisa boa estar ali sentada em silêncio ao meu lado que mulher poderia dizer pensar sentir coisas assim sem no entanto se vangloriar se considerar uma heroína e o comboio deslizava silenciosamente pelas planícies como num sonho e em breve chegaríamos a lisboa onde me esperavam alguns amigos.

À espera do comboio



a dona do circo

cada um sobrevive como pode já se sabe o destino humano está longe de ser esplendoroso. a dona do circo era herdeira de uma família de saltimbancos trapezistas ilusionistas exilados domadores de feras palhaços e era uma senhora muito activa. pretendia-se modesta insignificante mas não lhe faltavam ideias nem ambições nem pretensão. nem amigos nem inimigos. não descansava de se excitar com permanentes iniciativas inaugurações programas espectáculos nunca vistos sempre originais. tirava da manga mágica de seda preta ou da cartola milagrosamente pombos e pombas lenços de todas as cores amarelos verdes vermelhos verdes lilás coelhinhos brancos. falo metaforicamente é claro. tudo o que se passava no circo era controlado vigiado pelo seu olhar de águia velha e pela fidelidade atenta de alguns lacaios que viviam da sua admiração e de adulá-la. dar ordens e sugestões aos empregados e aos inúmeros artistas do circo com a sua voz rouca ou usando os serviços dos seus lacaios permitia-lhe sentir-se dona e útil investida de uma vocação. a não ser que soubesse da fugacidade de tudo não é impossível e estivesse apenas a prolongar artificialmente para se incutir coragem a sobrevivência do que já tinha morrido ou em breve desapareceria definitivamente da face da terra. a sua existência ao contrário da de muita gente tinha assim muito sentido pensava ela. um sentido elevado artístico. talvez o seu entusiasmo se devesse à crença numa missão de salvação. predestinada escolhida para grandes feitos não se sentia culpada de pensar que todas as pessoas à sua volta eram empregados ou artistas do circo o que evidentemente era um exagero e fazia sorrir. não agia assim por mal nem por bem era qualquer coisa que se entranhara na sua maneira de ser e fazia parte da sua personalidade. deve dizer-se também em seu favor que não agia de maneira autoritária pois tudo o que lhe saía da boca firme era dito sugerido ou aconselhado de maneira melodiosa melíflua com uma espécie de ternura religiosa cheia de caridade humana. por vezes um vago e cerimonioso pedido de desculpa parecia escorregar-lhe dos lábios atenuando anulando o que podia ser tomado pelo seu interlocutor por um abuso de confiança por um exagero por loucura. mas aqueles que a conheciam não ignoravam que na sua visão do mundo raramente entravam pontos de vista alheios. ela exercitara-se ao longo dos anos na competição com a gente de outros circos a não duvidar do que pensava a não permitir que pusessem em causa as suas opiniões os seus valores os seus ídolos as suas recordações. aliás ela desprezava quem a ouvia tanto como quem não lhe reconhecia a existência nem a importância. assim se mantinha a ficção que lhe permitia sobreviver com um sorriso nos lábios. ela aliás praticava todas as qualidades e defeitos com uma arrogância soberana e sem fazer concessões. o circo podia atravessar um momento difícil - a popularidade abusiva da televisão e a mediocridade dos tempos não ajudavam - mas ela destemida enérgica parecia não se dar conta disso pouco se lhe dava pouco lhe importava e continuava a falar a comportar-se como se o circo fosse eterno no seu esplendor e reservasse àqueles que o frequentavam prazeres cada vez mais intensos convincentes inesperados. ela tinha sido sempre assim: uma força da natureza. e se o seu pensamento secreto era diferente das suas conhecidas convicções públicas ninguém o poderia afirmar com provas. eu ia às vezes ao fim da manhã ao circo assistia aos ensaios admirava de longe aquela extraordinária capacidade de organização aquela potência sem cansaços o ressurgir repetido da inspiração e da devoção e da teimosia. do seu passado conhecia-se pouco mas o motor da sua actividade diziam algumas pessoas eram a auto-estima e a nostalgia. ela acreditava ser da família dos nobres das antigas personalidades das raças superiores as que dominavam e tinham conduzido o mundo na boa direcção apesar do obstáculo da pobreza de espírito que dominava que sempre reinara em todas as sociedades humanas. escapava-lhe às vezes numa frase murmurada ternamente ou numa ordem dada com suave firmeza a sua convicção profunda: o presente era imperfeito porque o passado tinha sido glorioso. os seus heróis estavam todos mortos mas cabia-lhe a ela a sobrevivente a iluminada a detentora da chama do fogo da sabedoria prolongar a influência dos desaparecidos os seus ensinamentos. sentado na cadeira a assistir aos ensaios ou aos espectáculos eu repito que a admirava. que capacidade de ilusão que fibra a sua na paixão apesar da certeza inabalável da morte essa ameaça que nunca deixa de cumprir-se. não se mostrava muito é certo ela vivia na sombra da sua reputação mas eu sabia e podia adivinhar por detrás de tudo o que acontecia no circo ou relacionado com o circo a sua vontade de ferro a sua doença. falei com ela duas ou três vezes nos últimos anos e nunca esquecerei o fulgor dos seus olhos de raposa velha que sabia como convencer e seduzir sem nunca deixar entrever o que lhe ia na alma. teria alma porém? na sua imensa embora deformada e pouco objectiva sabedoria representava-se em permanência a comédia da mítica enganosa inocência infantil. a gente por um instante acontecia às vezes posso testemunhar e até poderia fornecer exemplos convincentes esquecia o que sabia deixava terra e embarcava no vapor colorido e envolvente dos seus delírios. dizia um jornal da tarde há dias que ela morreu. caíra da cama uma noite no dia seguinte começou a delirar. sentada à mesa da cozinha que lhe servia de escritório escreveu cartas com o cabeçalho do circo em enormes e solenes letras de oiro a tudo o que era presidente ou director de qualquer coisa de bancos a governos de clubes desportivos a associações de beneficência de padres a cabecilhas de grupos terroristas. despedia-se deles até à eternidade. numa parte da carta lia-se o seguinte: vós não soubestes amar os vossos contemporâneos nem distinguir o oiro do carvão por isso não acredito em vós nem mereceis o amor. mas aqueles que conheceram e admiraram a minha obra hão-de transmitir ao futuro a minha lição e a herança que recebemos dos antepassados ilustres não se perderá. a sublime arte do circo há-de salvar a raça humana do esquecimento da ruína da morte da banalidade do vício. eu é certo vivi metaforicamente e o circo sempre foi para mim uma alegoria da própria existência. vós viveis na desprezível risível realidade. pagareis um preço elevado por isso antes de desaparecerdes como vermes nas entranhas da terra.

Sunday, August 13, 2006

Tuesday, August 01, 2006

Friday, July 28, 2006

Thursday, July 27, 2006

Thursday, July 20, 2006

Wednesday, July 19, 2006

Justificações e explicações

"That the justifications and explanations we give of our language and conduct, that our ways of trying to intellectualize our lives, do not really satisfy us, is what, as I read him, Wittgenstein wishes us above all to grasp. This is what his 'methods' are designed to get us to see."

Stanley Cavell, "Excursus on Wittgenstein's vision of language", in Alice Crary and Rupert Read, edits., The new Wittgenstein, Routledge, London and New York, 2000

Saturday, June 24, 2006

Setembro já

Tu sempre sorris,
os teus dentes,
o teu rosto,
tu sorris,
e talvez
vejas o
que estás a
olhar, talvez.

Eu sempre
vi no teu
rosto, nos
teus lábios
a cor azul
dos céus tristes
do Outono,
das fontes
ao crepúsculo
entre os arbustos,
perdoa, tu
sorrias, tu
sorrias, mas
eu sempre
vi, sempre,
um lugar na
sombra onde
tu não me
vias, nem vias
o sol, nem sabias
sorrir.

Se as palavras,
se a arte,
se falar,
se olhar,
se ver, se
saber servissem
de alguma coisa.
Não sei que
dizer, não há
nada a dizer,
um dia tu
deixarás de
sorrir, eu
nada saberei
de ti, na
sombra tu
descobrirás
o destino, o
sentido,
a alegria talvez
de viver enfim.


(C.B., 7 de Setembro de 2005)

Livraria
















Bobby Sands

Friday, June 23, 2006

Vantagens do silêncio

Não falar é não querer distinguir, preferir não tomar partido. Quem não fala não escolhe, mas também não recusa; não acerta, mas também não erra; não agrada, mas também não ofende; não mostra que sabe, mas também não mostra que ignora; não se auto-retrata, mas também não tem a pretensão de retratar o mundo; não elogia, mas também não condena; não se compromete, mas também não compromete ninguém; não adula nem põe num altar, mas também não calunia nem ostraciza; não se eleva, mas também não se rebaixa. Quem não falou não tem de falar de novo para corrigir o que disse antes. Apesar disso falamos. Porquê?

Thursday, June 22, 2006

Wednesday, June 21, 2006

Monday, June 19, 2006

Thursday, June 15, 2006

As razões do exagero...


“I think a frequent cause of overstatement is diffidence: wondering whether what one is about to say is worth hearing. So one embellishes it a bit, not quite deliberately. If the message is relayed, embellishment is subject to iteration; and the message becomes the more worth relaying as the embellishment proceeds. A tacit, tentative reservation of the full belief is the part of the prudent listener. “


Aplicada à arte, esta observação torna-se particularmente irónica: por receio de não produzir "obra artística", o artista menor tem tendência a recorrer a processos que na sua opinião imatura são "artísticos" e hão-de por consequência conferir qualidade estética à obra. A gente sente o artifício e lamenta a ambição ingénua. Quanto ao conceito de "artista menor", como é evidente, escapa a qualquer definição científica e convincente, o que torna o problema muito mais interessante do que parecia.

Wednesday, June 14, 2006

Literary form

Maybe it's not (completely) true:

"literary form is a matter of the text's psychological reception and not inherent to the text itself."


Outro texto sobre o mesmo dificílimo assunto:

Iouri Tynianov, Le vers lui-même, Les probèmes du vers, traduit du russe, Paris, 10/18, 1977

Monday, June 12, 2006

Saturday, June 10, 2006

And nothing was a phrase

(…)

Again, the fevered cresting memory pulls me back in, to that moment when I think it was that the future had suddenly vanished for me, had become a soft, deadened wall. Back there at the beginning, the end, when Barry told me flat-out that I had AIDS, I didn't feel it, although I also saw that denial was futile. Barry was not even remotely real to me at that point. He was merely a conductor, a lightning rod of medical error. I still didn't believe he was a good doctor; that would come later. The framework of the self wasn't changed by the words, the general feeling of its being my body and its having been my body all my life didn't dissolve, as it would in a few days. I had no sense of gestating my death.
Ellen says that she hung back and expected me to be violent psychically, and to want death immediately once I had accepted the diagnosis. Well, that was true. But I was also afraid of death, of my own final silence.
And I was ashamed toward her, and angry at her. She does not steadily believe that I love her - it is one of her least endearing traits to expect proof at unreasonable intervals. And what is love? My measure of it is that I should have died to spare her. Her measure is for us to be together longer.
I thought I could feel myself being suffocated second by second. What was strange was that all sense of presence, all sense of poetry and style, all sense of idea left me. It was gone, with not one trace, one flicker remaining. I had a pale sense of the lost strength it would take to think or feel a metaphor, and of how distant it was from me. Everything was suffocation and the sentence of death, the termite-like democracy and chemical gusts of malaise and heat, of twisting fever, and the lazy but busy simmering of the disease in me. Everything outside me was Ellen's breath and the color of the walls in the dim light and was the hospital noises and the television set on its wall mount and a ticking slide of the moments.
And nothing was a phrase or seed of speech, nothing carried illumination in it, nothing spoke of meaning, of anything beyond breath. Attentive to nothing but breath, perhaps in my dying I was alive in a real and complete way, a human way, for the first time after ten or fifteen years of hard work. I lay awake in an almost bright amusement.

(…)


Harold Brodkey (1930-1996), The Wild Darkness, The Story of my Death, Metropolitan Books, Henry Holt and Comapany, New York, 1996


If I had to give up what I've written in order to be clear of this disease, I wouldn't do it.


Friday, June 09, 2006

Thursday, June 08, 2006

Tuesday, June 06, 2006

Os Canadair e o Mundial

- Acabo de ler num jornal que a Espanha vai enviar 2 aviões Canadair a Portugal para apagar um incêndio que ultrapassa as nossas possibilidades. Como nós, pelo que tenho lido, somos bons mesmo é em futebol, pergunto-me: no caso de os espanhóis terem algum problema no Mundial, será que os bébés queridos da pátria, os nossos craques, os nossos heróis, os nossos noctívagos, os descendentes dos navegantes e de Camões, vão dar uma ajudazinha? Seria justo.
- Emprestávamos-lhes o Cristiano Ronaldo, o Caneira ou o Figo, por exemplo?
- Não digas asneiras. Oferecíamos-lhes o Simão, que anda há anos frustrado e triste por não ser contratado por um grande clube europeu; e o Petit, que além de não ser para brincadeiras nem sequer tem um nome português. E ficávamos pagos.

Monday, June 05, 2006

uma questão de estratégia

a tentação de responder de não deixar sem resposta as provocações é grande mas a gente tem de resistir não se pode passar a vida a responder ao que dizem e pensam outras pessoas era o que faltava e depois não é seguro que nos estejam a provocar a nós exactamente é preciso ter cuidado não ficar mais paranóico do que o necessário aliás tenho uma teoria a esse respeito disse ele o jovem que numa mesa do bar ao lado da minha ia alternando o abrir a boca para falar e o abrir a boca para beber a cerveja e a rapariga que o escutava parecia atenta usava uns óculos de tartaruga castanhos e sorria-lhe ou ficava séria mas estava concentrada no rosto do rapaz os blogues por exemplo dizia ele tornam público constantemente o que durante muito tempo foi secreto as opiniões das pessoas agora viajam invadem todos os espaços é preciso proteger-se claro convém estar informado mas não exageremos eu já decidi blogues só leio meia dúzia também não me dou com toda a gente nem me interessa saber o que pensa toda a gente se começamos a lê-los então eles sabem que nos podem manipular influenciar irritar por isso não leio a maior parte dos blogues que na realidade só reproduzem o que se passa com as religiões com os clubes de futebol e com os partidos políticos eu por exemplo sou benfiquista e de direita está a ver detesto os sportinguistas e os socialistas de comunistas nem falo não existem para mim os autores dos blogues acrescentou a rapariga timidamente jogam muito em equipa eu sei já percebi eles conhecem-se citam-se adulam-se protegem-se criam redes de influência e de opinião une-os o que eles pensam ser uma visão actualizada e informada do mundo ou pelo menos pensam que sim que têm o poder de nos caquetizar e que o estilo resplandece então quotidianamente brilha cega de tão luminosamente irónico e divertido às vezes sarcástico querem ocupar o lugar dos jornais ter esse prestígio antigo e já desaparecido dos jornais mas a gente topa-os logo e já sabe o que vai encontrar quando os abre eu pessoalmente disse o rapaz acho que vivemos numa grande balbúrdia e que os blogues contribuem para isso mas há mais há outras coisas interrompeu a rapariga as pessoas não agem sem razão e se há tantos blogues é provavelmente porque a solidão aumentou porque as possibilidades de comunicar com pessoas reais diminui à medida que avança o capitalismo a americanização do mundo a selvajaria da concorrência com as suas exigências intranquilidade ambições confusões antropofagia apetites erros ódios mentiras ameaças escaramuças sofrimento feridas seria no entanto um erro imaginar que basta ter um blogue para alcançar a fama e a glória ou para proteger-se da insignificância comentou o rapaz tudo isso as palavras dos blogues é fugaz as palavras são fugazes aliás já das palavras impressas no papel se tem de dizer o mesmo e então a rapariga dos óculos de tartaruga ou que pareciam de tartaruga interrompeu o rapaz outra vez e disse calmamente ponderadamente que também ela tinha tido um momento de entusiasmo com os blogues a vertigem de ter uma voz de ter estilo e de ser brilhante gratuitamente por inspiração apenas por inspiração a consolação sublime da arte quando não há mais nada a que se agarrar em que se consubstancializar a satisfação íntima secreta de tão facilmente dizer o que lhe apetecia o que sentia o que tinha descoberto de manhã ou na véspera de criticar de se opor de apoiar de estabelecer cumplicidades quem sabe se não era uma maneira de entrar na história mas uma tarde alguns meses depois do início do entusiasmo tinha tido uma espécie de pressentimento que tudo era pó vento areia nos olhos ingenuidade e vaidade sede infantil de glória e de estilo ironias de estudante universitário frequentador assíduo de cafés e dos debates da cultura estúpido como se ser conhecido fosse uma coisa assim tão importante como se pensar em público provasse alguma coisa acerca da nossa competência e inteligência e cultura e sabedoria da vida como se pensar e falar em público com a regularidade com que as vacas dão leite fosse o alpe d'huez da volta à frança em bicicleta meu deus meu deus meu deus as pessoas acreditam em coisas tão estúpidas escrevo falo logo existo ah o joaquim agostinho se ainda cá estivesse se não tivesse sido vítima da incúria nacional havia de dizer-lhes umas coisas sobre o que é subir as montanhas francesas de bicicleta e sem ser empurrado pelos espectadores é assim conhecem-me ouviram falar de mim logo existo logo ganhei mais uma etapa logo por consequência marquei mais um golo escrevi e leram-me logo posso sair à rua por consequência com ares de triunfo e de dono do mundo e riu-se muito muito durante quase um minuto deu mesmo várias gargalhadas com a sua bela garganta juvenil depois puxou a cadeira um pouco para trás para ganhar distância afastou os cabelos dos olhos e acrescentou a verdade é que existo muito mais quando não falo nem escrevo e me limito a viver a minha vida sem me preocupar com o que se diz por aí com essa algazarra essa febre essa mania da actualização permanente reboot reboot reboot quero lá saber e a partir daí quando cheguei a esta conclusão comecei a dormir melhor e faço mais coisas não tenho deixei de ter a desculpa do blogue como um bloco de notas de lamentos lugar seguro e fixo aparentemente de resgate do irresgatável lugar da obra montra da loja do eu deixei de ter esse subterfúgio para me servir de compensação o que não cheguei a fazer não o fiz pronto paciência o que morreu ou falhou está perdido por ora paciência e se não mostrei estar a par das últimas e espectaculares novidades das artes e das ciências e da filosofia paciência que se há-de fazer e sou tão lenta com pouco me entretenho a pensar e a sentir quanto às intrigas provincianas dos intelectuais portugueses de uns que têm blogues e falam como se tivessem uma cátedra no púlpito da igreja deixe-me rir tem piada de facto esses meninos esses doutores têm uma vocação didáctica indiscutível devem passar o tempo nos cafés a perorar a mostrar como são sabichões e têm ciência e solução para todos os males do país enfim temos de aguentar padrecas de merda desculpe a linguagem às vezes dá-me nojo este país os outros provavelmente não são muito diferentes só que têm a vantagem de ser maiores enfim paciência e ao dizer isto encolheu os ombros e o rapaz ficou sério e disse mas eu também escrevo nos jornais e há diferenças de facto o jornal não me escraviza da mesma maneira o blogue também já percebi é uma espécie de palco onde vou tentando mostrar ao mundo que sou inteligente que estou informado que têm de contar comigo que não os deixarei pôr o pé em ramo verde era o que faltava eu até vivo em lisboa e não sou idiota até escrevo bem sempre escrevi aliás os blogues penso eu às vezes são como livros que a gente vai escrevendo e se morrêssemos de repente a questão da obra póstuma nem chegaria a colocar-se realmente pois o blogue é como um diário fica logo tudo anotado e ela perguntou a rapariga perguntou se tudo fica anotado realmente que ela duvidava e ele o rapaz respondeu que não pois de facto há coisas que a gente também escreve no papel e ninguém sabe disso por outro lado continuou ele nós pensamos e sentimos tanta coisa que um blogue acaba por representar apenas uma parte muito reduzida da totalidade do ser em nós isto é daquilo que nos faz andar por aí de um lado para o outro digamos que é um ideal um projecto um sintoma dos projectos que perseguimos das preocupações que nos atormentam e há que ter em conta o pudor o pudor varia com as pessoas com as situações com os momentos com os dias e a rapariga interrompeu de novo o rapaz levantou a bela mão branca suavemente e comentou que a questão do pudor não tinha nada a ver evidentemente com a exposição ou divulgação da vida privada da vida real das pessoas dos autores dos blogues se há autobiografia nos blogues é apenas como projecto como coisa que quer construir-se disse ela a exibição que deliberadamente decidimos fazer de certos aspectos da vida privada comum a todos nós da vida real igual monotonamente igual à partida de toda a gente é apenas parte de um projecto a face visível e sintomática do projecto da intenção do jogo o ruído que se sobrepõe ao grande silêncio que nos habita por isso acrescentou ela me fazem às vezes sorrir os bloguistas que imaginam ter-nos na mão graças às artes e manhas da retórica que adoptam de que se mostram conscientes que aplicam aos outros e quando o rapaz que se mostrava atento ao que ela dizia enquanto acariciava os cabelos com a mão serenamente acabou a cerveja disse ora aí está a questão da sinceridade tem-me preocupado bastante e não sei nunca que concluir pois sem a gente se dar conta a estratégia tomou conta do discurso e do blogue e da nossa intervenção permanente intervenção talvez circular muito limitada a nós mesmos que nos lemos uns aos outros a estratégia tomou conta da actividade do desejo de influência da vontade de intervenção e a rapariga disse que na realidade talvez seja tudo uma ilusão os resultados as consequências dos nossos discursos dos ruídos que nós vamos fazendo provavelmente são nulos ou insignificantes o gráfico que os representaria não nos é facultado e a vida pública a imagem da vida que de facto nós criamos ou ajudamos a ampliar como antes a criaram e mantiveram os livros os discursos políticos e religiosos e incansavelmente monotamente a prosa abusiva dos jornais onde uma minoria pretensamente esclarecida nos impingia falsa sabedoria falsa justiça falsa cultura falsa ciência isto é uma imagem da vida uma concepção do mundo que eram as das classes no poder que entre si dividiam partilhavam opiniões e eu cansei-me da conversa apesar de a achar interessante apesar do encanto da sedução que sobre o meu espírito exerciam o rosto e as mãos da rapariga fui-me embora para casa ler um livro

Sunday, June 04, 2006

Ângulos














Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998)

Faz hoje 8 anos que faleceu Maria de Lourdes Belchior. Aqueles que tiveram o privilégio de a conhecer não a esquecem. Curiosa coincidência: Jorge de Sena tinha falecido no mesmo dia em 1978 (faz hoje 20 anos). Maria de Lourdes Belchior tinha sucedido a Jorge de Sena no Departamento de Espanhol e Português da UCSB, tendo deixado a Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, em 1989, para ir dirigir o Centre Culturel Portugais da Fundação Gulbenkian em Paris. Fui seu aluno de Literatura Espanhola na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e quando defendi a minha tese de Doctorat d'État na Universidade de Haute Bretagne em Rennes sob a orientação de Jean-Michel Massa, em Março de 1983, ela fez parte do júri. Quando decidiu deixar a UCSB, incitou-me a concorrer ao lugar que deixava vago. Sempre achei uma grande injustiça (será por ignorância?) que em Portugal se recorde apenas a figura de Jorge de Sena quando se fala da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

Ver na página do Instituto Camões a sua biografia.

Tuesday, May 30, 2006

Leituras (1)

"John left" or "John was tall" are as close as narrative can come to stage imitation, an actor walking into the wings or the choice of a tall rather than short actor. So it seems reasonable to call the narrative statements of such actions and presentations "unnarrated." But "John left, unfortunately" or "John was tall, unfortunately" necessarily presuppose a speaker who has taken it upon himself to judge what is and what is not unfortunate. They are clearly interpretive statements, and interpretation implies a narrator.
In the strict sense, of course, all statements are "mediated” since they are composed by someone. Even dialogue has to be invented by an author. But it is quite clear (well established in theory and criticism) that we must distinguish between the narrator, or speaker, the one currently "telling" the story, and the author, the ultimate designer of the fable, who also decides, for example, whether to have a narrator, and if so, how prominent he should be. It is a fundamental convention to ignore the author, but not the narrator. The narrator may be overt - a real character (Conrad's Marlow) or an intrusive outside party (the narrator of Tom Jones). Or he may be "absent,’' as in some of Hemingway's or Dorothy Parker's stories containing only dialogue and uncommented-upon action. The "narrator,’' when he appears, is a demonstrable, recognizable entity immanent to the narrative itself. Every narrative, even one wholly "shown" or unmediated, finally has an author, the one who devised it. But "narrator" should not be used in that sense. Rather it should mean only the someone - person or presence - actually telling the story to an audience, no matter how minimally evoked his voice or the audience’s listening ear.


(Seymour Chatman, Story and Discourse, Narrative Structure
in Fiction and Film
, Cornell University Press, 1978)

Friday, May 26, 2006

tédio etc.

chegou a casa tinha sono e doíam-lhe as pernas mas deitou-se e não conseguia adormecer por isso levantou-se foi beber um copo de água depois sentou-se no sofá de coiro e acendeu um cigarro devia ter coisas para fazer mas nada era urgente nem realmente necessário na sua memória brilhavam ainda os olhos o sorriso de uma rapariga debruçava-se com curiosidade sobre uma certa gravidade que lhe tinha parecido pressentir no rosto dela quando as pessoas ficam bruscamente sérias pensativas a gente surpreende-se e dá pela sua existência interrompemos a distracção nasce a intriga o mistério adensa-se ingenuidade nossa provavelmente não deixamos nunca de acreditar é assim e a noite pode parecer que vai salvar-se só que a maior parte das vezes mas de que adiantam os comentários as queixas as reflexões eles estavam no restaurante a conversar de banalidades rapazes e raparigas estudantes depois do congresso da tarde e o serão tinha passado amavelmente depois tinham ido em grupo tomar café e as conversas tinham continuado em cada um deles o tédio em vias de ser interrompido mas devia ser ilusão passageira erro uma vez mais fulgor momentâneo em breve regressaria o conformismo e a convicção de que nada poderia de facto acontecer que os tirasse da monótona sucessão dos dias e das noites a circunstância no entanto era de oiro todos os ingredientes parecia que estavam ali reunidos e a querer conjugar-se só que para que alguma coisa acontecesse era necessário acreditar o suficiente na importância do que podia acontecer e na possibilidade de o que ia acontecer poder durar o tempo suficiente para que algumas palavras as mais secretas e discretas talvez as mais doridas fossem ditas arriscadas na realidade ele nem chegou a aprofundar a questão estava cansado as pessoas cada uma na sua teia de aranha nas suas dúvidas na sua inquietação na sua necessidade de agradar e de ser amadas sorriam e falavam e riam-se mas em breve partiriam cada uma para seu lado sós ele não as conhecia cada uma delas um universo a descobrir uma narrativa a interpretar a aprofundar em breve se esqueceria da sua existência se esqueceriam uns dos outros definitivamente ele levou as raparigas ao hotel e o sorriso dela e as conversas e os risos das outras se tinha havido no ar qualquer coisa que se assemelhava a uma promessa de acontecimento tinham sido apenas restos de uma visão romântica do mundo e da vida quando elas se afastaram ele só de novo virou o carro dirigiu-se para o centro da cidade depois foi indo para casa sentia-se tranquilo lento já se habituara ao tédio ainda parou num bar foi uma ideia que lhe veio enquanto conduzia na auto-estrada mas o bar estava quase vazio e não lhe apetecia beber nem ficar ali a olhar para dois ou três casais tristonhos que lá estavam a beber cerveja foi-se logo embora de manhã o filho tinha-lhe telefonado o avô tinha morrido na véspera já se esperava não foi surpresa tinha caído do telhado da casa a mania das reparações o gosto pela carpintaria toda a vida tinha sido assim há paixões inexplicáveis vícios incontroláveis e depois um dia mas a morte é a morte e ele tentava recordar-se dos anos antigos quando eram todos mais jovens fora-se esse tempo progressivamente nada a fazer que podemos opor à nossa destruição lenta às vezes quando ele vinha de férias ou passar o fim-de-semana iam à pesca juntos no barco de madeira a motor ou então ele ajudava-o na horta à beira-mar obra dele terra que ele trabalhara com carinho entre as pedras de granito abrira uma espécie de tanque ou cisterna para recolher e guardar a água da chuva que depois se usava para regar as batatas outras vezes ocupavam-se dos barcos e dos anzóis longas linhas que suspendiam sentados no barco de madeira ou longos fios de cobre que arrastavam atrás do barco quando havia cavalas no mar que cercava as pequenas ilhas e os arenques a saltar na superfície o deixavam adivinhar e os guiavam agora o homem que se tornara parte da sua família acabava de morrer e não tinha havido despedida a noite entretanto a vida entretanto continuava e nela no tempo estava inscrita a morte de todos a morte de tudo o desaparecimento definitivo de tudo o que ia vivendo e ainda há oh milagre quem acredite na imortalidade e se envaideça por ter escrito um livro ou cantado uma canção ou amado intensamente outra pessoa ou sido campeão de qualquer coisa ele abanava a cabeça situava-se fora do tempo já posterior ao seu desaparecimento como se fosse deus ou lhe fosse indiferente a sua própria morte e a sua própria vida tudo lhe parecia ao mesmo tempo trágico e divertido as ilusões a vaidade que nos mantêm de pé e frenéticos são difíceis de explicar ou fáceis depende da perspectiva que se quer adoptar enfim pequenos vermes é o que nós somos bichinhos insignificantes não há glória momentânea nem dinheiro nem fama que nos eleve acima do destino comum e igual porque não se dão conta disso as pessoas ele não sabia e porque se zangam se não estamos de acordo com elas também não se podia explicar e porque se imaginam tão importantes tão originais tão heróicos se os altares são de papel ou de areia e uma suave brisa os deita abaixo com uma carícia vaidosamente raivosamente alegremente passam o tempo de lança em riste contra aqueles que não lhes lambem as botas não lhes enaltecem a personalidade não os adulam a vaidade humana sem limites nem remédio o problema é universal e intemporal tem a ver com o ego com as montanhas arenosas do ego de cada um todos querem todos queremos ser lembrados e citados e homenageados pobres deles pobres de nós não se conformam não nos conformamos com a modéstia do destino vermezinhos insignificantes e ridículos bem sei é fácil cair nessas tentações e nesses pecados e exageros depois começar a insultar ou caluniar os outros com ironias infantis e despropositadas que não restituem a dignidade perdida nem a imortalidade a ninguém lutas inglórias quanto mais aprendia sobre a vida e sobre os homens mais absurda lhe parecia a convicção em que eles vivem em que nós vivemos da sua própria da nossa magnífica esplendorosa existência nos bares à noite uma melancolia surpreendente paira às vezes no ar as fendas da solidão abrem-se ou ameaçam abrir-se mas ele detesta bares prefere ficar em casa ou andar pelas ruas a pé é o seu vício um deles só que é cada vez mais arriscado andar a pé na rua à noite drogados parasitas deserdados infestam as avenidas não pára de crescer à volta de nós a paisagem da miséria e do desespero estava portanto em casa a pensar um pouco nestas coisas em vez de ir dormir nenhum filme a que lhe apetecesse assistir ou livro que lhe apetecesse ler ninguém com quem falar nem lhe apetecia falar o tempo ia passando e nele ele ia envelhecendo sem remédio nem proveito aparentemente e o computador na sua frente as palavras iam-se inscrevendo nele como se vindas de um lugar obscuro invisível misterioso foi beber outro copo de água e já não sabia situar-se em relação ao tempo era como se vivesse numa espécie de eternidade sempre igual repetição dos dias e das noites dos anos e de tudo o que nos acontece narrativa conhecida aprendida cansativa

Thursday, May 25, 2006

Luandino Vieira

(...)

Nessa hora de quase cinco horas, as folhas xaxuaIhavam baixinho e a sombra estendida estava boa, fresca, parecia era água de muringue. Sentado nas pedras negras do fumo, Zeca Santos esperava Delfina, mirando ansioso a porta da fábrica. Tinha combinado com a pequena, nesse dia ela ia pedir para sair mais cedo, iam dar encontro, Zeca queria continuar essas falas malandras do baile de sábado. Delfina merengara muito bem com ele e quando o conjunto depois arrebentou com a música do Kabulu, ninguém mais lhes agarrou, quase o baile ia ficar só eles os dois, toda a gente parada a assistir-lhes, vaidosos e satisfeitos. Daí é que nasceu a peleja com João Rosa, o rapaz andava perseguir a garota, queria-Ihe para ele, mas nessa noite Zeca Santos, com a satisfação dos olhos de Delfina, pelejava mesmo que eram muitos. A sorte ficou no lado dele, azar no lado de João Rosa, porque lá fora a luz era pouca e o rapaz usava óculos, falhou o soco na cara de Zeca e eIe então, sem custar nada, caçou-lhe o braço e passou-lhe a bassula nas costas, mergulhou-lhe em cima da areia.
Mas, mesmo que na peleja Zeca tinha ganhado, o mulato continuou vir buscar Delfina, com seu carro pequeno, muitas vezes costumava-lhe trazer também; nessa hora era já escuro, Zeca ficava raivado, pensando o silêncio e o escondido do carro, se calhar o sacrista adian¬tava apalpar as pernas na namorada muitas vezes, quem sabe? outras coisas mesmo, o carro estava-lhe ajudar...
Por causa essas coisas, nesse dia tinha decidido. Ou era dos copos de vinho no almoço e mais outro com Maneco depois que falaram no Sebastião, ou era ainda, cada vez ,essa promessa de trabalho que arranjara, a verdade agora estava ver tudo com mais confiança, satisfeito quase; sem ele querer ainda o pensamento do dinheiro para mandar consertar sapatos, muitas vezes umas calças novas, juntava-se com a figura de Delfina, com seu riso e seu falar, seu encostar pequeno e bom, na hora dos tangos, nas farras...

(...)

Luandino Vieira, "Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos", Luuanda, 1965

Wednesday, May 24, 2006

Prémios e críticos

Os prémios literários valem o que valem aqueles que os atribuem, não aqueles que os recebem. Nenhum júri conseguiu nunca tornar importante um escritor medíocre; quando por falta de ética ou de qualificação o júri foi por esse caminho, o que ficou a nu foi a mediocridade ou a corrupção (passiva ou activa) dos membros do júri.

Sobre a crítica literária dos jornais (e não só) pode dizer-se exactamente a mesma coisa: embora a aparente seriedade da embalagem tenda a iludir os incautos, os jornais limitam-se a divulgar massivamente e bombasticamente as preferências de um grupo identificável de pessoas. Os distribuidores de recompensas dão-nos uma ajuda preciosa quando se trata de entender o imaginário e a cultura da classe dita intelectual de uma sociedade em determinada época.

Peter Handke

Bande dessinée

As seen on TV

















Tuesday, May 23, 2006

Monday, May 22, 2006

Tuesday, May 16, 2006