Posts

Showing posts from 2006

nada.niente

The end

Image

"e outros diálogos"

Image
Os actores Sandra Salomé, Fernando Landeira e Luciano Amarelo (também encenador), profissionais, estão a ensaiar a peça "e outros diálogos", montagem de vários textos meus incluídos no livro Uma Sonata de Brahms e Outros Diálogos. A estreia está prevista para fins de Setembro no Teatro Municipal da Guarda, integrada em mais um festival de teatro organizado pelo TMG este ano. A iniciativa, esta e muitas outras, deve-se a Américo Rodrigues. O que Américo Rodrigues tem feito ao longo dos anos pela cultura na Guarda, apesar dos ventos contrários, de calúnias e incompreensões várias, envergonha definitivamente o desinteresse e a total incompetência das outras muncipalidades do distrito e da região neste domínio.





corpo

Image

no comboio

pela janela da porta da última carruagem viam-se os carris desfilar a uma velocidade vertiginosa. como uma serpentina prateada a desenrolar-se depois de o comboio passar. a experiência não era nova, mas era sempre divertida. os olhos e o espírito ficavam deslumbrados, esqueciam-se de voltar à outra realidade, a fixa. eu fumava um cigarro e fazia o balanço das minhas férias, dos meus dias, da minha existência. a canção de charles trenet irrompera bruscamente da minha memória de manhã quando eu me tinha levantado: que reste-t-il de nos amours, que reste-t-il de ces beaux jours? não havia no entanto razão para melancolias nem melindres. a brevidade da vida humana e os longos anos perdidos a aprender a viver, isso sim, irritava-me. o resto não. deus o dá, deus o tira. o acaso traz o amor, o acaso o leva. a solidão revela-nos o mundo tal como ele é, desaparecem os subterfúgios e a consolação nascidos da paixão do amor. a incompreensão é o motor da história, o estímulo que nos eleva acima d…

jenter

Image

rostos de perfil

Image

a menina e as uvas

Image

Ibsen

Image

saber de ti

eu não saía do quarto nem de dia nem de noite. não me apetecia falar nem ouvir nem ver nem ser visto. não me apetecia pensar nem recordar-me nem imaginar o futuro. de dia eu abria ligeiramente uma das portadas da janela para deixar entrar um pouco a luz. de noite abria as duas portadas da janela para deixar entrar o ar. estava calor mas era suportável. de manhã estava sempre mais fresco. dormi muito e quando não conseguia adormecer tomava valium. às vezes doía-me a cabeça. para me manter em forma pedalava na bicicleta de ginásio no canto no quarto. telefonava para o supermercado e eles traziam-me o que eu pedia, leite e vinho, pão e queijo, batatas, arroz, tabaco, sal e açúcar, papel para escrever, o que era preciso. perdi a noção do tempo algumas vezes mas podia ligar o computador e sabia que dia era que horas eram em que mês estávamos. imagino que ninguém me telefonava mas isso eu não o podia saber porque eu tinha o telefone desligado e só o ligava para telefonar para o supermercado…

manequim

Image

praia

Image

duas cadeiras

Image

praia

Image

pessoas difíceis...

A sensação foi a mesma. Quando me ligaram a dizer que o XL tinha uma decoração nova, senti-me como quando soube que a mãe das minhas filhas tinha posto silicone. Corri para ver. Talvez o novo look tivesse mudado, ou compensasse, a atitude que nos aparta.
Há pessoas que se fazem difíceis. Umas, porque são muito boas; outras, porque são muito más. Todas me irritam: as boas, porque não havia necessidade de se fazerem difíceis (na restauração, é a experiência Galeria); as más, shame on us, porque só vimos que o rei ia nu a meio do cortejo (experiência Albatroz).
Mas o que me intriga são aquelas pessoas que se fazem difíceis porque sim. Como o XL.
Temos de tocar à campainha e depois esperar que nos abram a porta. Será que vão abrir? Demoram. Devem espreitar longamente pelo óculo, como uma velhinha num quarto andar sem elevador, na Ajuda, se lhe batem à porta depois do noticiário das oito.
Mas há um racional para casas de porta fechada. É que agora há muito crime, como em São Paulo, e o XL é nu…

love is serious stuff

i’m not sure you know I was impressed you know but love is serious stuff I’m not sure anyway I’m lost it’s too early I need to take a break my life is a mess a frase veio lá de trás eu ia sentado no comboio o porto ia-se afastando de nós o alfa deslizava silenciosamente como se escorregasse num mar de ar tranquilo eu olhava pela janela a paisagem distraidamente pensei eu também não sei nada eu também podia dizer que me sinto perdido mas não digo nada para quê não vale a pena e olhei para trás era um tipo loiro a conversar com uma rapariga deviam ser ingleses deviam estar de férias em portugal talvez fossem irmãos o rapaz era gordo e grande a rapariga era magra e tinha os cabelos castanhos aos caracóis eu abri um livro e preparei-me para ler um pouco a viagem seria relativamente curta em breve chegaria a lisboa onde me esperavam os meus amigos mas não consegui concentrar-me fiquei a pensar no que o rapaz tinha dito o amor é uma coisa muito séria de facto é ou antes depende nunca se pod…

À espera do comboio

Image

a dona do circo

cada um sobrevive como pode já se sabe o destino humano está longe de ser esplendoroso. a dona do circo era herdeira de uma família de saltimbancos trapezistas ilusionistas exilados domadores de feras palhaços e era uma senhora muito activa. pretendia-se modesta insignificante mas não lhe faltavam ideias nem ambições nem pretensão. nem amigos nem inimigos. não descansava de se excitar com permanentes iniciativas inaugurações programas espectáculos nunca vistos sempre originais. tirava da manga mágica de seda preta ou da cartola milagrosamente pombos e pombas lenços de todas as cores amarelos verdes vermelhos verdes lilás coelhinhos brancos. falo metaforicamente é claro. tudo o que se passava no circo era controlado vigiado pelo seu olhar de águia velha e pela fidelidade atenta de alguns lacaios que viviam da sua admiração e de adulá-la. dar ordens e sugestões aos empregados e aos inúmeros artistas do circo com a sua voz rouca ou usando os serviços dos seus lacaios permitia-lhe sentir-…

Coimbra

Image

Promoções

Image

O beijo

Image

Gato de Coimbra a dormir num carro

Image

Portugal

Image

Justificações e explicações

"That the justifications and explanations we give of our language and conduct, that our ways of trying to intellectualize our lives, do not really satisfy us, is what, as I read him, Wittgenstein wishes us above all to grasp. This is what his 'methods' are designed to get us to see."

Stanley Cavell, "Excursus on Wittgenstein's vision of language", in Alice Crary and Rupert Read, edits., The new Wittgenstein, Routledge, London and New York, 2000

Setembro já

Tu sempre sorris,
os teus dentes,
o teu rosto,
tu sorris,
e talvez
vejas o
que estás a
olhar, talvez.

Eu sempre
vi no teu
rosto, nos
teus lábios
a cor azul
dos céus tristes
do Outono,
das fontes
ao crepúsculo
entre os arbustos,
perdoa, tu
sorrias, tu
sorrias, mas
eu sempre
vi, sempre,
um lugar na
sombra onde
tu não me
vias, nem vias
o sol, nem sabias
sorrir.

Se as palavras,
se a arte,
se falar,
se olhar,
se ver, se
saber servissem
de alguma coisa.
Não sei que
dizer, não há
nada a dizer,
um dia tu
deixarás de
sorrir, eu
nada saberei
de ti, na
sombra tu
descobrirás
o destino, o
sentido,
a alegria talvez
de viver enfim.


(C.B., 7 de Setembro de 2005)

Livraria

Image

Bobby Sands

Image

Vantagens do silêncio

Não falar é não querer distinguir, preferir não tomar partido. Quem não fala não escolhe, mas também não recusa; não acerta, mas também não erra; não agrada, mas também não ofende; não mostra que sabe, mas também não mostra que ignora; não se auto-retrata, mas também não tem a pretensão de retratar o mundo; não elogia, mas também não condena; não se compromete, mas também não compromete ninguém; não adula nem põe num altar, mas também não calunia nem ostraciza; não se eleva, mas também não se rebaixa. Quem não falou não tem de falar de novo para corrigir o que disse antes. Apesar disso falamos. Porquê?

Máquinas, estruturas

Image

Jeune fille

Image

Liberdade de expressão

Image

As razões do exagero...

Image
“I think a frequent cause of overstatement is diffidence: wondering whether what one is about to say is worth hearing. So one embellishes it a bit, not quite deliberately. If the message is relayed, embellishment is subject to iteration; and the message becomes the more worth relaying as the embellishment proceeds. A tacit, tentative reservation of the full belief is the part of the prudent listener. “


Aplicada à arte, esta observação torna-se particularmente irónica: por receio de não produzir "obra artística", o artista menor tem tendência a recorrer a processos que na sua opinião imatura são "artísticos" e hão-de por consequência conferir qualidade estética à obra. A gente sente o artifício e lamenta a ambição ingénua. Quanto ao conceito de "artista menor", como é evidente, escapa a qualquer definição científica e convincente, o que torna o problema muito mais interessante do que parecia.

Literary form

Image
Maybe it's not (completely) true:

"literary form is a matter of the text's psychological reception and not inherent to the text itself."


Outro texto sobre o mesmo dificílimo assunto:

Iouri Tynianov, Le vers lui-même, Les probèmes du vers, traduit du russe, Paris, 10/18, 1977

Children (LA)

Image

O blogue do Nuno

And nothing was a phrase

(…)

Again, the fevered cresting memory pulls me back in, to that moment when I think it was that the future had suddenly vanished for me, had become a soft, deadened wall. Back there at the beginning, the end, when Barry told me flat-out that I had AIDS, I didn't feel it, although I also saw that denial was futile. Barry was not even remotely real to me at that point. He was merely a conductor, a lightning rod of medical error. I still didn't believe he was a good doctor; that would come later. The framework of the self wasn't changed by the words, the general feeling of its being my body and its having been my body all my life didn't dissolve, as it would in a few days. I had no sense of gestating my death.
Ellen says that she hung back and expected me to be violent psychically, and to want death immediately once I had accepted the diagnosis. Well, that was true. But I was also afraid of death, of my own final silence.
And I was ashamed toward her, and angry at her. She …

Thousand Oaks (2)

Image

Thousand Oaks

Image

Os Canadair e o Mundial

- Acabo de ler num jornal que a Espanha vai enviar 2 aviões Canadair a Portugal para apagar um incêndio que ultrapassa as nossas possibilidades. Como nós, pelo que tenho lido, somos bons mesmo é em futebol, pergunto-me: no caso de os espanhóis terem algum problema no Mundial, será que os bébés queridos da pátria, os nossos craques, os nossos heróis, os nossos noctívagos, os descendentes dos navegantes e de Camões, vão dar uma ajudazinha? Seria justo.
- Emprestávamos-lhes o Cristiano Ronaldo, o Caneira ou o Figo, por exemplo?
- Não digas asneiras. Oferecíamos-lhes o Simão, que anda há anos frustrado e triste por não ser contratado por um grande clube europeu; e o Petit, que além de não ser para brincadeiras nem sequer tem um nome português. E ficávamos pagos.

uma questão de estratégia

Image
a tentação de responder de não deixar sem resposta as provocações é grande mas a gente tem de resistir não se pode passar a vida a responder ao que dizem e pensam outras pessoas era o que faltava e depois não é seguro que nos estejam a provocar a nós exactamente é preciso ter cuidado não ficar mais paranóico do que o necessário aliás tenho uma teoria a esse respeito disse ele o jovem que numa mesa do bar ao lado da minha ia alternando o abrir a boca para falar e o abrir a boca para beber a cerveja e a rapariga que o escutava parecia atenta usava uns óculos de tartaruga castanhos e sorria-lhe ou ficava séria mas estava concentrada no rosto do rapaz os blogues por exemplo dizia ele tornam público constantemente o que durante muito tempo foi secreto as opiniões das pessoas agora viajam invadem todos os espaços é preciso proteger-se claro convém estar informado mas não exageremos eu já decidi blogues só leio meia dúzia também não me dou com toda a gente nem me interessa saber o que pensa …

Ângulos

Image

Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998)

Faz hoje 8 anos que faleceu Maria de Lourdes Belchior. Aqueles que tiveram o privilégio de a conhecer não a esquecem. Curiosa coincidência: Jorge de Sena tinha falecido no mesmo dia em 1978 (faz hoje 20 anos). Maria de Lourdes Belchior tinha sucedido a Jorge de Sena no Departamento de Espanhol e Português da UCSB, tendo deixado a Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, em 1989, para ir dirigir o Centre Culturel Portugais da Fundação Gulbenkian em Paris. Fui seu aluno de Literatura Espanhola na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e quando defendi a minha tese de Doctorat d'État na Universidade de Haute Bretagne em Rennes sob a orientação de Jean-Michel Massa, em Março de 1983, ela fez parte do júri. Quando decidiu deixar a UCSB, incitou-me a concorrer ao lugar que deixava vago. Sempre achei uma grande injustiça (será por ignorância?) que em Portugal se recorde apenas a figura de Jorge de Sena quando se fala da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

Ver …

Leituras (1)

Image
"John left" or "John was tall" are as close as narrative can come to stage imitation, an actor walking into the wings or the choice of a tall rather than short actor. So it seems reasonable to call the narrative statements of such actions and presentations "unnarrated." But "John left, unfortunately" or "John was tall, unfortunately" necessarily presuppose a speaker who has taken it upon himself to judge what is and what is not unfortunate. They are clearly interpretive statements, and interpretation implies a narrator.
In the strict sense, of course, all statements are "mediated” since they are composed by someone. Even dialogue has to be invented by an author. But it is quite clear (well established in theory and criticism) that we must distinguish between the narrator, or speaker, the one currently "telling" the story, and the author, the ultimate designer of the fable, who also decides, for example, whether to have a …

tédio etc.

chegou a casa tinha sono e doíam-lhe as pernas mas deitou-se e não conseguia adormecer por isso levantou-se foi beber um copo de água depois sentou-se no sofá de coiro e acendeu um cigarro devia ter coisas para fazer mas nada era urgente nem realmente necessário na sua memória brilhavam ainda os olhos o sorriso de uma rapariga debruçava-se com curiosidade sobre uma certa gravidade que lhe tinha parecido pressentir no rosto dela quando as pessoas ficam bruscamente sérias pensativas a gente surpreende-se e dá pela sua existência interrompemos a distracção nasce a intriga o mistério adensa-se ingenuidade nossa provavelmente não deixamos nunca de acreditar é assim e a noite pode parecer que vai salvar-se só que a maior parte das vezes mas de que adiantam os comentários as queixas as reflexões eles estavam no restaurante a conversar de banalidades rapazes e raparigas estudantes depois do congresso da tarde e o serão tinha passado amavelmente depois tinham ido em grupo tomar café e as con…

Luandino Vieira

(...)

Nessa hora de quase cinco horas, as folhas xaxuaIhavam baixinho e a sombra estendida estava boa, fresca, parecia era água de muringue. Sentado nas pedras negras do fumo, Zeca Santos esperava Delfina, mirando ansioso a porta da fábrica. Tinha combinado com a pequena, nesse dia ela ia pedir para sair mais cedo, iam dar encontro, Zeca queria continuar essas falas malandras do baile de sábado. Delfina merengara muito bem com ele e quando o conjunto depois arrebentou com a música do Kabulu, ninguém mais lhes agarrou, quase o baile ia ficar só eles os dois, toda a gente parada a assistir-lhes, vaidosos e satisfeitos. Daí é que nasceu a peleja com João Rosa, o rapaz andava perseguir a garota, queria-Ihe para ele, mas nessa noite Zeca Santos, com a satisfação dos olhos de Delfina, pelejava mesmo que eram muitos. A sorte ficou no lado dele, azar no lado de João Rosa, porque lá fora a luz era pouca e o rapaz usava óculos, falhou o soco na cara de Zeca e eIe então, sem custar nada, caçou-lh…

Prémios e críticos

Os prémios literários valem o que valem aqueles que os atribuem, não aqueles que os recebem. Nenhum júri conseguiu nunca tornar importante um escritor medíocre; quando por falta de ética ou de qualificação o júri foi por esse caminho, o que ficou a nu foi a mediocridade ou a corrupção (passiva ou activa) dos membros do júri.

Sobre a crítica literária dos jornais (e não só) pode dizer-se exactamente a mesma coisa: embora a aparente seriedade da embalagem tenda a iludir os incautos, os jornais limitam-se a divulgar massivamente e bombasticamente as preferências de um grupo identificável de pessoas. Os distribuidores de recompensas dão-nos uma ajuda preciosa quando se trata de entender o imaginário e a cultura da classe dita intelectual de uma sociedade em determinada época.

Peter Handke

Bande dessinée

Image

As seen on TV

Image

People

Image

Cores

Image

O campo e a cidade

Image