Wednesday, February 01, 2006

Escritas

Escrever sobre os livros dos amigos não tem nada de mal. Escrever só sobre os livros dos amigos ou conhecidos é suspeito, denuncia talvez muita preguiça, ignorância ou falta de curiosidade, mas em princípio também não é condenável só por si.

A literatura, uma vez posta à venda, é um produto como qualquer outro - e é natural, por isso, que esteja submetida às leis do mercado e que alguns escritores revelem dotes apreciáveis de comerciantes.

Entre comprar meia dúzia de peras e umas saladas para o jantar, ou um livro, pode hesitar-se (há quem não possa, é verdade). Deve ser por isso, e porque falar de quem dá rendimento é mais fácil, que nos jornais os jornalistas falam sobretudo de escritores que são jornalistas ou de escritores que são políticos. Os prémios, aliás, é aos peixes dessas águas que são atribuídos com frequência - por peixinhos que navegam (ou aspiram a navegar) nos mesmos aquários.

Só se surpreende com esta situação quem ainda acredita que a literatura poderia escapar à poluição das relações sociais e de poder. Eu deixei de me surpreender há muito tempo e não acredito que protestar sirva de alguma coisa.

E depois, embora a situação em geral seja péssima, não exageremos: ainda há quem viva discreta e honradamente e não possa ser acusado de participar nessas festanças.