Friday, February 03, 2006

Falamos de mais


O sentido do mundo está
em quem de fora o vê.
A morte é-nos estranha
como experiência pessoal;
mas à nossa volta morrem
os animais e as árvores.
Assim pensava eu, enquanto
lia um livro de filosofia.
E na tarde jovem com o sol
a brilhar apetecia-me
ir conversar de amor
com a rapariga que servia
os cafés naquela esplanada.
“Você dormiu cá?”- perguntou-
-lhe um rapaz loiro. Ela
riu-se, mas eu tinha-a
visto a lavar o chão
na véspera à noite,
a pegunta maliciosa
tinha algum sentido.
Poesia, disse eu, falando
para ela como se ela me
ouvisse, já não há, gastou-
-se nas palavras que como
a água das barragens irrompe
de todos os lados, assustado-
ramente, quando lhe abrem
as portas. Falamos de mais,
a grande questão é essa, disse eu,
falamos de mais, não sabemos
calar a boca, viver em silêncio.

SB, 3, Fev. 06