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Showing posts from March, 2006

2 páginas ao acaso

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O que é compreender?

("Celui qui ne comprend pas pourquoi nous parlons de ces choses doit avoir l'impression que ce que nous disons n'est que verbiage.")


Wittgenstein, Grammaire Philosophique,
trad. Marie-Anne Lescouret, Gallimard, 1980)

Língua e fala

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Loja

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Outros tipos de prosa

Prosa cinzenta, um pouco apagada e monótona:

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Prosa coloridae comcontrastes:

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Prosaportuguesa:

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Prosafrancesa:

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Prosa alemã:


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Prosa rica

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Prosa pobre

$$

A calúnia

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Blogues e jornais (2)

Talvez fique mais mais claro assim, com exemplos:

O Público é o blogue de um certo J. M. Fernandes. O Abrupto é o jornal diário do Pacheco Pereira.

Flor

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Vidros

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Here is the time

....................
Here is the time for the sayable, here is its homeland.
Speak and bear witness. More than ever
the Things that we might experience are vanishing, for
what crowds them out and replaces them is an imageless act.
An act under a shell, which easily cracks open as soon as
the business inside outgrows it and seeks new limits.
Between the hammers our heart
endures, just as the tongue does
between the teeth and, despite that,
still is able to praise.
.......................................

(Rainer Maria Rilke, excerto da 9ª Duino Elegy,
trad. Michael Hamburger)

Poema da menina Clara

Seasons Changing

When seasons decide to come and go
They all put on a little show
Winter always comes in first
Never-minding Spring flowers thirst
All the seasons turn to Summer
Wich forever will be funner
You shall never forget Fall
For the leaves should certainly call
Heating up and cooling down
Will all make us go around


By Clara Raposo (11 anos)

Outono ainda

A palavra é nada. Mas às vezes é
tudo o que parece acontecer
quando os olhos e as mãos
as pernas e o coração
não encontram o caminho dos
sentimentos, o porto de
abrigo de onde recomeçar
a velha história. Interrupção.
A palavra, que é nada, serve
de muro onde apoiar-se,
de almofada onde encostar
brevemente a cabeça. E
respiramos.

Abanavam ao vento as folhas
e os frágeis ramos das árvores.
Os homens e as mulheres que
passavam na rua em frente
do café prosseguiam, sem darem
por nós, o seu destino incerto.
Não há mistérios, é verdade, mas
existe o amor e a esperança do
amor, o passado e a memória
dos erros e da alegria, o
futuro e a imaginação do
paraíso. O tempo é habitado,
aquilo a que chamamos a vida
parece ter sentido. Para quê
duvidar, atirar ao vidro da
janela uma pedra, interferir
com o correr natural dos rios
para o mar? Para quê, de facto.

Existe o amor e existe o ódio.
Existe a paz e existe o inferno.
Para aquele que aprendeu a viver
todos os estados de espírito
se equivalem. Aprende-se a ir
pelo caminho da…

no way out

again so lonely si seul si désespéré sans jamais vouloir l’admettre se o milagre da transfiguração tiver lugar knowing what it is about e tu nem imaginas sim sim estou a pensar em ti how could you sabemos tão pouco dos outros do que eles pensam e sentem e temem nothing indeed niente de nós nada do papel que desempenham na nossa existência nos sonhos nos devaneios nas parvoíves eh eh ah ah em que pensamos da coragem que nos dão do desalento uf chatice aborrecimentos se eles soubessem se nós soubéssemos também enfim de que serve queixar-se ou falar tudo tudo é mudança nada resiste a passagem do tempo já se sabe no entanto os dias seguem-se inutilmente boring times tantas vezes e aqueles nós mesmos a quem é concedida a dádiva do amor the dream l’imagination não sabemos agradecer vamo-nos embora insensíveis ausentes bruscamente recusamos furtamo-nos only seulement mais tarde too late trop tard é que depois lamentamos so sorry so so sorry dear quem foi que inventou esta máquina do corpo e …

Blogues e jornais

- Qual é a diferença entre um blogue e um jornal como o Público, por exemplo?
- Os jornais são blogues impressos em papel e que se compram nos quiosques.
- Mas há blogues que querem entrar em competição directa com os jornais. A mesma atitude, a mesma ambição, a mesma sapiência.
- São os blogues de pessoas com mentalidade de jornalista.
- Gente com ambição política ou ambição de guiar e elucidar as massas ignorantes?
- Qualquer coisa assim. Esses eu não os leio, não tenho paciência nem tempo.
- Imaginam-se marginais, mas lutam pelo tipo de poder e de influência que têm os jornais.
- Qualquer coisa assim. Prolongam e repetem o sistema. Não tem interesse. Podem ser úteis, mas eu prefiro coisas mais verdadeiras.

Mar inglês de Turner

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380+

"The Independent on Sunday can reveal that last year more than 380 soldiers went absent without leave and have since failed to return to duty - marking a dramatic increase since the invasion of Iraq three years ago. Military lawyers and campaigners said that these figures suggested significant levels of disaffection in the ranks over the legality of the occupation, and growing discontent about the coalition's failure to defeat the Iraqi insurgency. An RAF doctor was last week taken to a court martial for refusing to serve in Iraq, claiming the occupation is illegal, and a former SAS trooper, Ben Griffin, revealed he had quit the army in protest at the war."
P. S. Nem toda a gente se deixou nem deixa enganar: http://retrato-auto.blogspot.com/

The failure of art? Hmmm...

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A questão da arte tem de pôr-se e pode ser que Jameson tenha alguma razão no que diz, mas fico sempre com a impressão, ao lê-lo, de que o facto de o seu discurso ser em geral bem articulado não significa que revele um entendimento suficiente da complexidade do que ele pretende explicar. Talvez o problema esteja mal posto, simplesmente. A inovação estilística só por si não cria arte, quando muito cria espectáculos irrisórios e passageiros (nos casos mais felizes pode fornecer instrumentos para artes ainda por vir ). O facto de a arte ser acerca de si própria não devia esconder de nós que a arte só é arte na medida em que trata da nossa condição e do nosso destino. E há alguma arte séria que não seja, sendo acerca de nós, acerca de si própria também, sempre? Mais divertido ainda: pensar que o que falhou como "novidade" pode não ter falhado como "arte"; e que o que falhou como "arte" pode não ter falhado como "novidade". O que é arte, a arte, ess…

Gentilezas

Fico tímido com a gentileza do Carlos Sousa de Almeida, que, creio, não conheço a não ser pelos seus blogues, "primos" do meu: sobre a pálpebra da página; legendas & etc. Hoje ele remete num link para duas pequeníssimas histórias que há tempos publiquei numa revista brasileira de literatura da internet. Obrigado, Carlos.

Também recebi uma mensagem de outro amigo a informar-me de que no Diário de Notícias de sexta-feira o Pedro Mexia - que não conheço nem é meu amigo, tranquilize-se o "Esplanar" - publicou uma recensão aos meus dois livros recentemente postos à venda. Ena pá, pensei eu, estou a ficar popular. E inexplicavelmente franzi o nariz.
- Queres que te mande o artigo por fax? - perguntou o meu amigo.
Respondi:
- Não, manda por correio normal.
Continuo sem saber se o artigo em questão me compreende ou desentende, se o Pedro quer que me leiam ou me dá bons conselhos sobre como é que se deve construir uma intriga, caracterizar uma personagem, aceder à po…

Limites

"There is no evident rule for separating the information from stylistic or other immaterial features of the sentences."

W. V. Quine, Philosophy of Logic, Harvard University Press, 1986 (1970)

Rostos

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George S. Kaufman

George S. Kaufman was picked by the Marx Brothers' habit of changing his lines. During rehearsals for Animal Crackers, Kaufman walked on the stage in mock exasperation and said, "Excuse me for interrupting, but I thought for a minute I actually heard a line I wrote."

At a dinner party he was seated next to a woman who monopolized the conversation all through the meal. By the time the coffee was served, Kaufman could no longer restrain himself. "Madam", he asked, "don't you have any unexpressed thoughts?"

(John Winokur, editor, The Portable Curmudgeon, A Plume Book, 1992)

Death of the world's rivers

Rios que não conseguem chegar ao mar, morte de seres vivos provocada pela ambição desmedida e insensata dos homens... Podia ser apenas uma metáfora da impotência e de muitas outras coisas que vão acontecendo nas nossas sociedades ditas humanas. A situação descrita daria certamente também excelente argumento para mais um gargarejante "paper" postmodernista na universidade. Só que a notícia é para ler literalmente - e filosofar com perspicácia sobre a questão não resolverá o problema.
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From the Nile to China's Yellow River, some of the world's great water systems are now under such pressure that they often fail to deposit their water in the ocean or are interrupted in the course to the sea, with grave consequences for the planet.Adding to the disaster, all of the 20 longer rivers are being disrupted by big dams. One-fifth of all freshwater fish species either face extinction or are already extinct..................................

Then he "came back to normal"

A very short letter:

"I love life. But I want to do what makes me happy because I have a focus. Sometimes it feels like when I almost drowned in the ocean at Campus Point. I didn' have a leach and when I lost the longboard (soaked heavy with water but still floating) it got to two meters away for every breath I took. I called for Tony a hundred meters away but he told me after that he thought I was playing around...The thing I remember most from the experience is that at a certain point I felt so weak that I started accepting that I might drown. But I pulled it off by sinking and pushing myself in to the shore. I was still a bit indifferent with half of my mind when I laid there with my head pulsating, then I came back to normal. " (SC)

as noites sucediam-se

e febril ele o corpo que se ia desfazendo lentissimamente enquanto as pedras se preparavam ainda para continuar a durar séculos e séculos e as montanhas e as praias e as estrelas ele pobre mortal insignificante criatura deitava-se em cima das horas em cima do tempo em cima do nada e a água corria tinha corrido de onde vinha afinal e continuaria a correr milhões de anos biliões o nosso destino a nossa miserável brevidade uma amostra a existência se gostas pede mais mas não há mais la vida es sueño a imaginação do espaço do lugar a meditar a acariciar a odiar a destroçar a cortar com uma afiada faca as palavras objectos agudos elas mesmas música insuportável ou às vezes inebriante ouvidos rotineiros que já não ouvem tantos ruídos tanta insensatez o sol brilhava no horizonte às vezes de manhã os sinos das igrejas das aldeias alegravam-se e pelos campos corria o som invisível veloz amplo os trigos as oliveiras os caminhos poeirentos a linha do horizonte e as montanhas os carros de bois …

Narciso

Tudo é nada mas mudança

escrevias e como camões moralmente solitário vagabundo irresponsável imoralmente altivo distante das salas em que deixaste os outros andar por aí - ai ai - a mendigar o pão migalhas secas de consolação irrisórias tudo é mudança e ias enchendo de sala em sala a arca para ti a duração para eles porque já não era possível de jornal em jornal construir a glória efémera a sua biografia no recanto obscuro a degradação a ilusão o logro o perder tempo as invenções de um currículo de menina doirada pátria que nunca existiu mas era o poder da ficção lias num café os teus poemas obscuros tudo muda ou nós o mudamos para que a história seja aceite pelos gabinetes em que nos avaliam os rostos sem olhos não viveste a tua vida tu como nós já sabias mas não haverá recompensa ele o grande lírico ele supremo superior inalcançável à cabeça do pelotão ele o épico de camisola amarela vestido malgré soi ele o da espada tudo é mudança pôde sonhar pôde remar contra ventos ele viveu a sua frágil aventura mas e…

O cãozinho

Ninguém lhe prestava a atenção que ela achava que merecia. Tinha envelhecido o suficiente para passar despercebida e sabia-o. Como nunca tinha amado e era conhecida por se servir das pessoas, ninguém gostava dela. Foi então que decidiu passar à fase seguinte: comprou um cãozinho branco e passeava-se com ele pelos corredores da universidade ou do hospital. As pessoas paravam, faziam muitas festinhas ao cão, riam, perguntavam. E ela voltou a ser o centro de todas as atenções durante alguns dias, o cãozinho era ela na verdade. E tinha uma esperança para o futuro: quando o cãozinho começasse a fazer mijinhas nas calças dos colegas e nas pernas das colegas, a sua vocação de egoísta infeliz, malvada e invejosa, voltaria a reconciliar-se com a vida, com o mundo.

Nocturno

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O boato

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Rumor

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Página

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Página assustada com a arrogância do leitor? Página tímida e envergonhada de não ter ou de ter ido tão longe ? Página enxovalhada que ainda não recuperou da ofensa? Página intimidada com a inteligência do leitor? Camisa de Verão literária enrugada nas costas? Página descontente por ter sido mal traduzida? Who knows?

Livro 1

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Livro 2

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Mas do nada

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Deixaste os outros andar por aí de sala em sala, de jornal em jornal, a construir a sua frágil biografia de poetas. E tu escrevias, lias no recanto obscuro de um café os teus poemas a um amigo, ias enchendo a arca. Para eles a glória efémera. Para ti a duração. Mas o que é durar?

Não viveste a tua vida como Camões viveu a sua porque já não era possível. Ele pôde sonhar, ele pôde remar contra ventos e marés, esperando a consolação do amor. Mas haverá recompensa?

Tu, como nós, já sabias que todas as esperanças são vãs, que só a imaginação do futuro nos excita, que desaguar no presente é encontrar-se com a decepção. Nada, não havia nada. Mas do nada, em silêncio aparentemente, ia nascendo a vida, outra vida.

Camões, grande Camões, ingénua era ainda a tua perturbação. Ou não seria, quem sabe? Conheceste a solidão e a impossibilidade do amor, desesperaste. Mas sofreste esperando deixar de sofrer, embora soubesses que tudo é mudança, que volta de novo o tempo das privações e do abandono depoi…

You cannot escape ideology

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"Like the work of art as defined by the discourse of aesthetics, the bourgeois subject is autonomous and self-determining, acknowledges no merely extrinsic law but instead, in some mysterious fashion, gives the law to itself. In doing so, the law becomes the form which shapes into harmonious unity the turbulent content of the subject's appetites and inclinations. The compulsion of autocratic power is replaced by the more gratifying compulsion of the subject's self-identity." (p. 23)