Friday, March 10, 2006

as noites sucediam-se

e febril ele o corpo que se ia desfazendo lentissimamente enquanto as pedras se preparavam ainda para continuar a durar séculos e séculos e as montanhas e as praias e as estrelas ele pobre mortal insignificante criatura deitava-se em cima das horas em cima do tempo em cima do nada e a água corria tinha corrido de onde vinha afinal e continuaria a correr milhões de anos biliões o nosso destino a nossa miserável brevidade uma amostra a existência se gostas pede mais mas não há mais la vida es sueño a imaginação do espaço do lugar a meditar a acariciar a odiar a destroçar a cortar com uma afiada faca as palavras objectos agudos elas mesmas música insuportável ou às vezes inebriante ouvidos rotineiros que já não ouvem tantos ruídos tanta insensatez o sol brilhava no horizonte às vezes de manhã os sinos das igrejas das aldeias alegravam-se e pelos campos corria o som invisível veloz amplo os trigos as oliveiras os caminhos poeirentos a linha do horizonte e as montanhas os carros de bois carregados de uvas das vindimas o sol as queimara aquecera o açúcar a forma plena a maturidade a dádiva sublime inesquecível ele sentado no carro entre os cestos e as uvas brancas e negras quentes doces inesquecíveis companhias nunca mais reencontradas recuperadas esse sabor nunca mais e a água das fontes fria e dos poços límpida o bisavô a fumar ao sol e as recordações da terra nunca mais nunca mais esse sabor da adolescência que então se iniciava e o primo que havia de deitar-se ao poço rapaz sério severo que nunca beijara uma mulher que não conhecera o amor que não admitia que fizesses batota a jogar às damas um dia fartou-se a sedução da paz eterna do esquecimento da água o sem sentido da vida o desespero não se explicam o relógio de pulso estava parado nas cinco da manhã o meu pai foi lá tirá-lo do poço o tio o pai onde estava incapaz de entender assim se vive e morre incompreensivelmente não nos dão notícia das razões da morte os verdadeiros desesperados os desiludidos a linha do horizonte cortavam-na as montanhas naquele pequeno cemitério pedaço de terra por ora separado dos caminhos onde as crianças corriam gritavam se perseguiam brincavam inconscientes alegres seduzindo-se mutuamente sem se dar conta ainda do poder do olhar das mãos do corpo e ao longe um ruído de motores que será que seria e no cemitério a história de uma aldeia condensada em terra vermelha em pedras com nomes algumas fotografias a preto e branco emolduradas esmaltadas que ilusão um dia o esmalte ter-se-á desfeito o vento a chuva nada dura tudo é mudança tudo é morte as noites sucediam-se aquele amigo que num acidente de automóvel recordações da primeira comunhão e era tão jovem e tinha uma filha e aquela rapariga não se adivinhava na sua cara o destino trágico a brevíssima passagem por aquilo a que chamamos a vida um sonho um suspiro um vago devaneio e aquela rapariga o autocarro na ribanceira os pais destroçados mortos antes de morrerem para sempre já e a minha avó que ia comprar à loja do senhor albano as linhas e os tecidos e um pretinho de barro mealheiro abanava a cabeça e sorria a minha infância marcada por imagens inconsequentes tudo é vida tudo cucujães os missionários o tio padre as costureiras bonitas e maliciosas que brincavam contigo que te queriam bem que sorriam e cantavam enquanto as agulhas penetravam com carícias nos tecidos na lã na seda tudo ficou tudo significa tudo tem de ser tido em conta eu sei eu não pretendo escapar ao meu destino mas não se podia saber de antemão ó meu pai e agora tu também já eu no cemitério tropecei o teu caixão oscilou o teu corpo lá dentro sobressaltou-se uma última vez o teu filho desajeitado da outra vez em marselha no comboio deixei cair a mala em cima dos teus dedos inchados da gota e tu irritaste-te eu ri-me estupidamente desta vez porém não me ri no cemitério não creio que me tenha apetecido rir-me mas imaginei ouvi a tua voz de censura meio carinhosa meio irritada tu lá dentro fechado próximo mas já separado de nós para sempre tu não mudas não mudarás nunca és um desajeitado um distraído às vezes parece que fazes de propósito que estás a gozar com as pessoas e o nada o nada apenas o nada era o que havia e a nostalgia inútil que mais tarde que agora que sempre era preciso aprender com o tempo que passa e as feridas na alma e os pontapés no espírito inocente e esperançoso dos deuses que nem sequer existem mas talvez nos amem quando passamos para o outro lado pois sim esperanças eternidades pois sim sonha ó verme e as manhãs as belas manhãs de sol recordações da cidade distante da provença os plátanos o ar fresco os passeios húmidos as pessoas que iam e vinham do mercado para o mercado para o café no café sentadas ramos de flores nos cabazes nas mãos os vestidos leves das meninas na praça do tribunal queijos carne livros no chão gravuras japonesas bugigangas velhos brinquedos ervas especiarias e a fruta os esplendorosos legumes as magníficas maçãs as cerejas as laranjas as melancias os melões ó terra de tanta abundância e belas raparigas de braços nus de pernas impetuosas e tranquilas acariciadas pelo sol mas passou tudo tudo passa tudo é mudança os fins da tarde sentado no grillon a beber vinho branco com licor de cassis a estranha e perdida felicidade dos dias a companhia das velhas pedras amarelas a desfazer-se lentamente a infelicidade das horas das noites os risos a camaradagem os beijos as fontes nas pequenas praças e o desespero a melancolia a perdição a surpresa o choque tudo passa tudo é mudança