Sunday, March 05, 2006

Mas do nada



















Deixaste os outros andar por aí de sala em sala, de jornal em jornal, a construir a sua frágil biografia de poetas. E tu escrevias, lias no recanto obscuro de um café os teus poemas a um amigo, ias enchendo a arca. Para eles a glória efémera. Para ti a duração. Mas o que é durar?

Não viveste a tua vida como Camões viveu a sua porque já não era possível. Ele pôde sonhar, ele pôde remar contra ventos e marés, esperando a consolação do amor. Mas haverá recompensa?

Tu, como nós, já sabias que todas as esperanças são vãs, que só a imaginação do futuro nos excita, que desaguar no presente é encontrar-se com a decepção. Nada, não havia nada. Mas do nada, em silêncio aparentemente, ia nascendo a vida, outra vida.

Camões, grande Camões, ingénua era ainda a tua perturbação. Ou não seria, quem sabe? Conheceste a solidão e a impossibilidade do amor, desesperaste. Mas sofreste esperando deixar de sofrer, embora soubesses que tudo é mudança, que volta de novo o tempo das privações e do abandono depois de cada ilusão febril da posse, da realização