Thursday, March 09, 2006

Tudo é nada mas mudança

escrevias e como camões moralmente solitário vagabundo irresponsável imoralmente altivo distante das salas em que deixaste os outros andar por aí - ai ai - a mendigar o pão migalhas secas de consolação irrisórias tudo é mudança e ias enchendo de sala em sala a arca para ti a duração para eles porque já não era possível de jornal em jornal construir a glória efémera a sua biografia no recanto obscuro a degradação a ilusão o logro o perder tempo as invenções de um currículo de menina doirada pátria que nunca existiu mas era o poder da ficção lias num café os teus poemas obscuros tudo muda ou nós o mudamos para que a história seja aceite pelos gabinetes em que nos avaliam os rostos sem olhos não viveste a tua vida tu como nós já sabias mas não haverá recompensa ele o grande lírico ele supremo superior inalcançável à cabeça do pelotão ele o épico de camisola amarela vestido malgré soi ele o da espada tudo é mudança pôde sonhar pôde remar contra ventos ele viveu a sua frágil aventura mas ela a usurpadora a invasora a filha dos oportunos mestres da esperteza recentemente promovida a intelectual de mérito da cidade pátria que nunca existiu só na imaginação com a cabeça e os lábios cheios de nomes de teias de aranhas de citações ela a insuportável megera ela bruxaria a melhor do que todas ela a intragável a insuportável a feia imagem de nós mesmos pátria inventada terra inventada íamos enlouquecendo a prestar atenção ao seu umbigo gasto em carne viva e sujo de tanta marmelada sentimental tu fernando desesperaste sem nunca ter realmente esperado nada da vida a pátria é uma invenção para povoar a solidão e dar-lhe algum sentido pelo menos é o que parece mas o amor então não era nada se era tudo o que conta as marés do amor que todas as esperanças são vãs e as mentiras curriculares pátria insensata mito invenção do medo nunca tinhas estado em trieste nem à capital do outro reino do saber reino de sombras a existência não há limites nem fronteiras verdadeiramente foste ler o que disseste limitaste-te a ser nas ruas passeante desocupada e provincianamente feliz de tanto privilégio das classes realmente cultas e ricas ah ah pátria e então habitavas um lugar entre os rios e as montanhas só a morte um dia escrevias com nomes que se admiravam com frases que pareciam ter sentido ah ah os belos tempos a mistificação querias conquistar o mundo impor a tua lei e posto no curriculum então transfigura-se a mediocridade da vida e resplandece o evento as medalhas a recompensa uh uh uh mentirosa uh uh falsa como judas e pretensiosa e eu ri-me e camões olhava de lado vesgamente enfurecido pela detestável algazarra de tal companhia já foi ninfa agora ó pátria traída inexistente corrupta destinos sacrifícios inúteis falta-lhe o juízo e a frescura da pele e tu lá fora a fazer que não percebias que só a imaginação do futuro e tu a um amigo que volta de novo o tempo de poetas desaguar é encontrar-se com a decepção nada não havia nada mas ela contava histórias sempre fabulosas das suas vitórias em continentes longínquos do nada a duração aparentemente nos excita já ninguém a ouvia palavras ocas música enfadonha irritante nascendo a vida outra vida camões grande no presente camões e tavez não fosse má pessoa mas acabava por não se notar e todos a odiavam ou não seria ingénua a sua visão talvez não quem sabe tu poeta que foste grande conheceste a solidão e a impossibilidade era ainda a tua que da perturbação do erro da incerteza da hesitação e tu meditavas mas o tempo voava e tu sofreste esperando tudo é mudança a do amor e as outras aventuras esperando deixar de sofrer tudo é mudança embora das privações soubesses e do abandono a consolação tudo é mudança depois de cada ilusão febril que em silêncio a posse ia da realização. o que é durar? tudo é mudança.