Tuesday, April 18, 2006

Longe de Babel

falavam todos falavam o mundo era uma imensa arca um vulcão que não se cansava de vomitar palavras cá para fora fedor náusea e ninguém ouvia ninguém não havia tempo nem paciência aliás para quê ouvir imprecações calúnias exageros mentiras exigências ofensas frustrações reescrever refazer emendar corrigir pela palavra era a ambição tresloucada e desmedida a cada um as suas paixões inocentes umas temíveis outras sinistras a enorme confusão que as vidas humanas eram a própria linguagem febril a deixava entrever e iam passando melancolicamente os meses os ordenados e os subsídios eram pagos e depois gastos era a vida quotidiana em todas as cidades em todos os países e no meio de tudo isto you oh loved one where were you what were you doing how did you como escapaste à terrível condição não se sabe apetecia fugir esconder-se na aldeia perdida no meio das montanhas fugir recuperar a paz o silêncio a sabedoria mas quem tinha coragem jogos de linguagem lutas de linguagem aldrabices vagidos agressões oh miséria oh sordidez oh meu deus dizias tu oh meu deus como é possível termos atingido um estado de decadência semelhante não há já quem saiba sorrir não há não só ódio só intrigas só mentiras e dominam o mundo as invejas a frustração deforma os espíritos a competição entre as feras de dentes ávidos os seres humanos feras ávidas de sangue alheio eles matam eles comem eles destroçam eles desperdiçam eles vociferam eles não sabem o que é viver nem o que é a vida o que podia ser se em vez do ódio oh meu deus e a frustração mas então e circulavam nas ruas apressadamente as vítimas e os carrascos aqueles que nunca tinham feito nada nem sido amadoos e aqueles que sem terem feito nada queriam passar por ter feito tudo gente infeliz gente à deriva amaldiçoando o que lhes passava diante dos olhos caluniando inventando histórias sem pejo vinham de países distantes de longe chegavam as hordas de oportunistas famintos de dinheiro e de glória dispostos a tudo para conquistar um lugar na cidade assim iam os tempos os sinos das igrejas das aldeias ainda tocavam ao entardecer mas quem os ouvia se os campos estavam desertos só nas planícies ia ecoando o som lúgubre dos sinos da torre da igreja a nossa ausência o vazio que ameaçava e para onde correr à procura de um pouco de humanidade de alguma coisa que se assemelhasse ainda à vida se o deserto ameaçava se o vazio o nada para onde renunciar dizias tu ir-se embora deixá-los a falar sozinhos a tampa da arca aberta do vulcão fedorento a vomitar imprecações e mentiras e as razões do ódio antes não ter nada antes a pobreza mais pobre e irremediável e definitiva a luta é insensata os corações deformam-se o ódio e a calúnia alastram ir-se embora cortar com todos os laços antes de morrer conhecer enfim a verdade do nosso destino longe de tudo o que é humano longe dos génios do mal entre as árvores e os animais silenciosamente ir ao encontro da paz do nada do silêncio da verdade sem ruídos já sem palavras mas como abandonar tudo se ainda se espera que um dia alguém há-de vir messias o salvador amante a salvadora e tudo mudará o sacrifício de um aproveitará a todos mas não é verdade nunca aconteceu a história da humanidade é a história do triunfo do vício e da mentira e da injustiça que se há-de fazer eu fujo disse ele eu vou-me embora eu não suporto viver entre esta gente e não olhou para trás foi subindo as colinas depois as montanhas secou o suor no rosto abanou a cabeça desapareceu no horizonte de saco às costas como um peregrino nunca mais ninguém o viu ou soube dele os tempos não permitiam outra maneira de escapar ao tédio e à inveja ao ódio e às calúnias dos doentes dos loucos que por todo o lado na cidade estendiam as mãos a pedir mas eram mãos de punhos fechados e longas unhas sujas não mãos abertas eram mãos que odiavam e exigiam e queriam estrangular apanhar agarrar sequiosas ávidas garras nojentas línguas apodrecendo da sua própria doença não mãos que procuravam o calor de outras mãos oh não e assim passavam os séculos desperdício ruína de tudo o que podia ter sido e não foi um destino que bonito termos um destino e a família estar orgulhosa de nós dos nossos sucessos do lugar que acabámos por ocupar na sociedade afinal a justiça existe e fomos recompensados ah ah ah e a mentira e a encenação se as pessoas e sobretudo os vencidos realmente soubessem o que se passou como foi que oportunistas subimos essas escadas até ao êxito ah ah ah se eles soubessem mas eles sabem eles conhecem-nos não podem é falar nisso não se podem queixar porque os acusam de inveja quando eles apenas estão a dizer como foi que as coisas se passaram claro há heróis incorruptos e o cansaço meu deus o cansaço as energias gastas nessa azáfama claro que há deve haver boas pessoas gente boa e santos até porque não é possível no essencial claro que sim mas os outros os que invejam e intrigam os que sofrem de não ter sido capazes de não ter sabido de não ter querido os crápulas mas nem todos os vencidos da vida são crápulas evidentemente crápulas são os que triunfaram quando nada fizeram que justificasse qualquer triunfo nada fizeram enquanto era tempo não têm descanso e o fel já apodrecido das suas paixões frustradas e destruídas insensatas torna o ar irrespirável uf uf mão no nariz os nossos semelhantes em frequentes casos só se assemelham à parte de nós que nós repudiamos à qual não damos oportunidade de se exprimir e realizar mas eles contentam-se em ser isso esse lixo esse repúdio esse excesso vieram de longe com um saco vazio às costas e conquistaram o mundo agora não querem abdicar fêmeas sem escrúpulos nem alma carne à deriva no talho das ilusões nunca respeitaram as regras do jogo nem querem respeitá-las já perceberam as oportunistas que no mundo há lugar para todos e sobretudo para quem sabe mentir e desempenhar bem o papel aprendido imiitações da pureza da verdade más imitações fraudes e lamber botas e criar intrigas e queixar-se eternamente de tudo de todos e caluniar ou não haverá lugar de facto e sobretudo devido à inoperância das leis para os vigaristas dos sentimentos dos ideais sobretudo para esses é que o mundo parece ter sido feito eu respondi que não estava absolutamente nada de acordo com tais teorias que ainda acreditava na humanidade e no futuro mas riram-se de mim e mandaram-me logo calar eu ri-me deles com escárnio modestamente no meu canto obscuro queria lá saber e fui à minha vida desapareci de novo na gruta onde repousava às vezes na escuridão na frescura das pedras no silêncio na solidão absoluta de tanta azáfama de tanto cansaço de todas as loucas intrigas humanas de tanto ódio e mentira e ambição depois a noite caiu fez-se silêncio à minha volta o ar arrefeceu o céu era um manto escuro neutro indiferente ou protector tanto fazia descansei adormeci enfim