Thursday, April 20, 2006

reconstruction


does it make sense said he and I said oh boy everything makes sense e então a tarde aproximava-se do fim uma vez mais repetição repetição e que mudou que muda era ontem era hoje era amanhã não se sabia todos os dias se assemelhavam a rotina a indiferente a semelhante passagem do tempo e a nossa morte anunciada nele e nós sem dar por isso como se fôssemos imortais durássemos sempre estava sol às vezes e outras vezes chovia mas ainda assim nada de original realmente os dias eram como todos os dias de todos os séculos vividos e por viver e então eu levantei-me paguei o café e disse vou-me embora estou farto de esperar ela já não vem e ele disse mas tu pensavas que ela viria ela nunca sabe o que quer é uma eterna adolescente não se pode contar com ela verdadeiramente e eu disse não tem importância aliás não estou de acordo contigo eu conto com ela e sempre hei-de contar ela e ele disse pois vai indo faz-se tarde eu por mim vou ao cinema depois talvez me meta no carro e vá até sintra ou a cascais logo vejo se me apetece e eu disse viste aquele filme do christopher boe reconstruction eles dizem they say que ele é discípulo do david lynch talvez seja maybe who knows não interessa talvez eu tenha gostado mais até do que dos filmes do lynch e do cronenberg maybe não sei tenho de pensar eu achei o filme extraordinário movimento cores rostos histórias palavras conversas meio absurdas na aparência mas eu próprio às vezes tantas vezes falo assim um tanto suficientemente inesperado um ar fresco frio como gelo ou neve na cara de raspão coisa nova sentida com outros sentidos a arte não se esgotou ainda estás a ver a capacidade artística quero eu dizer enquanto houver quem seja capaz de falar do que nos interessa de pôr em cena de revelar de mostrar sem nos cansar surpreendendo-nos através de uma morfologia e sintaxe desconhecidas não banais nem comerciais para começar evite-se isso nem vulgares estamos bem enquanto for assim enquanto houver quem invente quem saiba falar e ele disse também gostei grande filme e conta com a inteligência discreta do espectador cumplicidades que nem todos entenderão ainda bem mais tarde eles hão-de acabar por entender os que não tiverem entendido agora quero eu dizer mas eu entretanto tinha começado a afastar-me ela não tinha vindo estava desiludido ou pelo menos um pouco frustrado provavelmente tinha imaginado passar o serão com ela e até dormir com ela na minha cama mas ela sempre incerta onde andaria certamente ia telefonar-me mais tarde não era seguro no entanto nada é seguro aliás e atravessei a rua em frente da estátua do marquês da confusão das obras do marquês aquele parvo do presidente da câmara que imbecil convencido mas já o tinham remetido para sua insignificância de don juan de pacotilha o gajo até usava patilhas ou era eu que estava a inventar a ser exageradamente injusto e o outro o que foi para bruxelas o cherne país de merda políticos de opereta reles e o outro o que mandou pôr os versos dele no miniarco do triunfo local imitações tudo ambição de glória e de duração para além da morte tudo e ri-me de tanta inocência de tanta pobreza de tanta ingenuidade não me apetecia subir a rua íngreme onde é que ela estaria naquele momento a rua a subir que leva às amoreiras não me sentia com forças nas pernas por isso desviei para a esquerda e comecei a descer a avenida da liberdade o fim da tarde ameno tranquilizava o meu espírito os carros que passavam deixavam-me pensativo música da rua agitação permanente as paixões levavam as pessoas de um lado para o outro as frustrações os sonhos os devaneios motor de tudo o que nos faz andar de um lado para o outro as árvores lá estavam com os seus troncos e ramos e havia flores nuns canteiros brancas amarelas buzinavam alguns automóveis irritados ou impacientes outros ao volante fumavam distraídos diante dos semáforos vermelhos e ela hoje provavelmente tinha vestido a camisa azul de seda e a saia de que eu gostava e a pele dela que saudades da pele dela do calor da pele do corpo dela depois o rio recomeçava a correr nervosamente quando surgia o verde distraí-me a descer a rua ia olhando para as pedras da calçada o filme do boe de facto e o sorriso dela e os silêncios mistérios bruscamente eu agitava-me interiormente para quê continuar a contar histórias monótonas e conhecidas com intrigas a que ninguém presta já atenção o melhor é aprender a arte da elipse e a arte da montagem e a arte do recorte e depois por sugestão o espectador entende tudo e não se aborrece eram que horas já e aonde é que eu ia ao acaso talvez jantar no pinóquio mais tarde decidia a minha vida era monótona em geral e não havia razões para imaginar ou esperar que mudasse em breve o rosto dela vinha de vez em quando como num relâmpago num flash ocupar não sei que parte do meu espírito os dentes dela as rugas suaves do rosto eu deixava de ver o que via só tinha olhos na memória ou na imaginação pensei em telefonar a alguém um amigo uma amiga alguém com quem conversar que me prestasse atenção que me fizesse sentir que estava vivo mas quem a quem é que eu podia pedir tanto telefonar a quem na realidade não me apetecia cansar-me a falar e para ouvir histórias alheias quando eu próprio já não sabia que fazer com as minhas podia ir jantar sozinho ao restaurante ao lado da linha do comboio ou ao pátio da artilharia um onde havia sempre muitas pessoas às vezes mulheres ou raparigas vagamente enigmáticas nunca meto conversa com as pessoas nos restaurantes só brinco com as empregadas enquanto vou bebendo o vinho tinto e a água das pedras entretanto cheguei aos restauradores e não me apetecia andar a pé nem continuar na rua vou para casa disse para mim mesmo isto é vou já para o hotel talvez adormeça em cima da cama e mais tarde vou jantar reconstruir a minha vida mentalmente pôr tudo em ordem na cabeça amanhã é um novo dia a primavera trouxe o bom tempo por uns dias talvez ainda alguém me ame de novo quem sabe os milagres acontecem as surpresas as revelações mas eu não farei o mínimo esforço não tomarei qualquer iniciativa não quero chocar nem incomodar nem ofender os sentimentos a personalidade de ninguém talvez venha daí a minha irremediável solidão paciência não posso prometer nada eu sei e isso às vezes tantas vezes eu sei cria problemas insolúveis e no entanto não gosto de estar só nunca gostei ou talvez não seja verdade mas é o que eu penso neste momento ou o que gosto de dizer de mim isto é agrada-me sentir-me acompanhado alguém que esteja e eu saiba que está falo espiritualmente tanto como fisicamente questão fundamental é a presença a atenção mas não precisam de olhar para mim isso incomoda-me muito mas mentalmente presente e fisicamente mas ao mesmo tempo alguém que não fale de mais nem me interrompa o fio a reconstruction dos pensamentos o fluir das águas da memória a invenção o devaneio a cura interior reconstruction é isso mesmo do passado do futuro dos dias de amor e dos dias de solidão dos dias de chuva das tempestades e dos dias de sol brilhante magníficos alegres nem me acaricie o rosto quando estou a pensar a ler não gosto que me toquem então quando estou a escrever a ouvir música por exemplo deixem-me em paz comigo mesmo ou à procura da paz em mim mesmo a semana passada penso nisso agora sem razão evidente é assim comprei o reaktor um programa de música para o computador meu deus como me tenho divertido a misturar sons a experimentar a inventar demasiado romântica a tua música diz o patrício ele é que é músico a sério eu sou apenas amador diletante gosto de explorar os sons mas não tenho competência nenhuma divirto-me no entanto mas demasiado romântico disse o patrício ele em contrapartida disseca o dó e descobre no seu interior minúcias inesperadas e misteriosas fiquei a meditar quando ele me falou nisso pela primeira vez provavelmente nunca tinha imaginado que por dentro de um dó ou de um ré ou de um mi pudesse existir ainda alguma coisa alguma unidade menor nunca se pára de aprender meu deus disse eu a vida é uma coisa apaixonante viver é uma aventura permanente e entretanto mandei parar um táxi e disse-lhe para o hotel dom carlos se faz favor e a fome começou a excitar a minha imaginação antes porém disse eu vou tomar um martini no meu quarto e brincar um pouco com o reaktor no computador aconcheguei-me no assento do carro eram umas oito e tal da noite se o meu relógio não mentia e talvez ela telefonasse ou estivesse no hotel à minha espera com ela nunca se sabia sorri meti a mão no bolso para tirar um cigarro reconstruction reconstruction a minha vida nunca deixaria de estar em revisão em reconstrução sorri de novo acariciei o cigarro apeteceu-me acendê-lo mas faltava pouco para chegar ao hotel decidi ter um pouco de calma e tudo se passava tudo acontecia como se eu estivesse onde pensava estar mas como saber como decidir como afirmar seja o que for provavelmente eu estava a delirar ou apenas a sonhar ou concedera-me a ilusão a irrealidade como compensação para a modesta existência que me coubera viver outras tardes outros céus outras cores outras árvores mas o que é o real o que é o que existe e como distinguir o tempo passado do tempo presente a imaginação da pura contemplação como distinguir quem sabe o corpo está aqui e o espírito não está exactamente aqui aliás para ser sincero o próprio corpo enfim nunca se sabe não é e essa solidão é qualquer coisa que não se pode contar narrar dizer explicar entretanto lembrei-me tenho de passar na farmácia ora bolas para comprar os medicamentos que chatice e disse ao homem do táxi que fizesse um desvio