Friday, May 26, 2006

tédio etc.

chegou a casa tinha sono e doíam-lhe as pernas mas deitou-se e não conseguia adormecer por isso levantou-se foi beber um copo de água depois sentou-se no sofá de coiro e acendeu um cigarro devia ter coisas para fazer mas nada era urgente nem realmente necessário na sua memória brilhavam ainda os olhos o sorriso de uma rapariga debruçava-se com curiosidade sobre uma certa gravidade que lhe tinha parecido pressentir no rosto dela quando as pessoas ficam bruscamente sérias pensativas a gente surpreende-se e dá pela sua existência interrompemos a distracção nasce a intriga o mistério adensa-se ingenuidade nossa provavelmente não deixamos nunca de acreditar é assim e a noite pode parecer que vai salvar-se só que a maior parte das vezes mas de que adiantam os comentários as queixas as reflexões eles estavam no restaurante a conversar de banalidades rapazes e raparigas estudantes depois do congresso da tarde e o serão tinha passado amavelmente depois tinham ido em grupo tomar café e as conversas tinham continuado em cada um deles o tédio em vias de ser interrompido mas devia ser ilusão passageira erro uma vez mais fulgor momentâneo em breve regressaria o conformismo e a convicção de que nada poderia de facto acontecer que os tirasse da monótona sucessão dos dias e das noites a circunstância no entanto era de oiro todos os ingredientes parecia que estavam ali reunidos e a querer conjugar-se só que para que alguma coisa acontecesse era necessário acreditar o suficiente na importância do que podia acontecer e na possibilidade de o que ia acontecer poder durar o tempo suficiente para que algumas palavras as mais secretas e discretas talvez as mais doridas fossem ditas arriscadas na realidade ele nem chegou a aprofundar a questão estava cansado as pessoas cada uma na sua teia de aranha nas suas dúvidas na sua inquietação na sua necessidade de agradar e de ser amadas sorriam e falavam e riam-se mas em breve partiriam cada uma para seu lado sós ele não as conhecia cada uma delas um universo a descobrir uma narrativa a interpretar a aprofundar em breve se esqueceria da sua existência se esqueceriam uns dos outros definitivamente ele levou as raparigas ao hotel e o sorriso dela e as conversas e os risos das outras se tinha havido no ar qualquer coisa que se assemelhava a uma promessa de acontecimento tinham sido apenas restos de uma visão romântica do mundo e da vida quando elas se afastaram ele só de novo virou o carro dirigiu-se para o centro da cidade depois foi indo para casa sentia-se tranquilo lento já se habituara ao tédio ainda parou num bar foi uma ideia que lhe veio enquanto conduzia na auto-estrada mas o bar estava quase vazio e não lhe apetecia beber nem ficar ali a olhar para dois ou três casais tristonhos que lá estavam a beber cerveja foi-se logo embora de manhã o filho tinha-lhe telefonado o avô tinha morrido na véspera já se esperava não foi surpresa tinha caído do telhado da casa a mania das reparações o gosto pela carpintaria toda a vida tinha sido assim há paixões inexplicáveis vícios incontroláveis e depois um dia mas a morte é a morte e ele tentava recordar-se dos anos antigos quando eram todos mais jovens fora-se esse tempo progressivamente nada a fazer que podemos opor à nossa destruição lenta às vezes quando ele vinha de férias ou passar o fim-de-semana iam à pesca juntos no barco de madeira a motor ou então ele ajudava-o na horta à beira-mar obra dele terra que ele trabalhara com carinho entre as pedras de granito abrira uma espécie de tanque ou cisterna para recolher e guardar a água da chuva que depois se usava para regar as batatas outras vezes ocupavam-se dos barcos e dos anzóis longas linhas que suspendiam sentados no barco de madeira ou longos fios de cobre que arrastavam atrás do barco quando havia cavalas no mar que cercava as pequenas ilhas e os arenques a saltar na superfície o deixavam adivinhar e os guiavam agora o homem que se tornara parte da sua família acabava de morrer e não tinha havido despedida a noite entretanto a vida entretanto continuava e nela no tempo estava inscrita a morte de todos a morte de tudo o desaparecimento definitivo de tudo o que ia vivendo e ainda há oh milagre quem acredite na imortalidade e se envaideça por ter escrito um livro ou cantado uma canção ou amado intensamente outra pessoa ou sido campeão de qualquer coisa ele abanava a cabeça situava-se fora do tempo já posterior ao seu desaparecimento como se fosse deus ou lhe fosse indiferente a sua própria morte e a sua própria vida tudo lhe parecia ao mesmo tempo trágico e divertido as ilusões a vaidade que nos mantêm de pé e frenéticos são difíceis de explicar ou fáceis depende da perspectiva que se quer adoptar enfim pequenos vermes é o que nós somos bichinhos insignificantes não há glória momentânea nem dinheiro nem fama que nos eleve acima do destino comum e igual porque não se dão conta disso as pessoas ele não sabia e porque se zangam se não estamos de acordo com elas também não se podia explicar e porque se imaginam tão importantes tão originais tão heróicos se os altares são de papel ou de areia e uma suave brisa os deita abaixo com uma carícia vaidosamente raivosamente alegremente passam o tempo de lança em riste contra aqueles que não lhes lambem as botas não lhes enaltecem a personalidade não os adulam a vaidade humana sem limites nem remédio o problema é universal e intemporal tem a ver com o ego com as montanhas arenosas do ego de cada um todos querem todos queremos ser lembrados e citados e homenageados pobres deles pobres de nós não se conformam não nos conformamos com a modéstia do destino vermezinhos insignificantes e ridículos bem sei é fácil cair nessas tentações e nesses pecados e exageros depois começar a insultar ou caluniar os outros com ironias infantis e despropositadas que não restituem a dignidade perdida nem a imortalidade a ninguém lutas inglórias quanto mais aprendia sobre a vida e sobre os homens mais absurda lhe parecia a convicção em que eles vivem em que nós vivemos da sua própria da nossa magnífica esplendorosa existência nos bares à noite uma melancolia surpreendente paira às vezes no ar as fendas da solidão abrem-se ou ameaçam abrir-se mas ele detesta bares prefere ficar em casa ou andar pelas ruas a pé é o seu vício um deles só que é cada vez mais arriscado andar a pé na rua à noite drogados parasitas deserdados infestam as avenidas não pára de crescer à volta de nós a paisagem da miséria e do desespero estava portanto em casa a pensar um pouco nestas coisas em vez de ir dormir nenhum filme a que lhe apetecesse assistir ou livro que lhe apetecesse ler ninguém com quem falar nem lhe apetecia falar o tempo ia passando e nele ele ia envelhecendo sem remédio nem proveito aparentemente e o computador na sua frente as palavras iam-se inscrevendo nele como se vindas de um lugar obscuro invisível misterioso foi beber outro copo de água e já não sabia situar-se em relação ao tempo era como se vivesse numa espécie de eternidade sempre igual repetição dos dias e das noites dos anos e de tudo o que nos acontece narrativa conhecida aprendida cansativa