Monday, June 05, 2006

uma questão de estratégia

a tentação de responder de não deixar sem resposta as provocações é grande mas a gente tem de resistir não se pode passar a vida a responder ao que dizem e pensam outras pessoas era o que faltava e depois não é seguro que nos estejam a provocar a nós exactamente é preciso ter cuidado não ficar mais paranóico do que o necessário aliás tenho uma teoria a esse respeito disse ele o jovem que numa mesa do bar ao lado da minha ia alternando o abrir a boca para falar e o abrir a boca para beber a cerveja e a rapariga que o escutava parecia atenta usava uns óculos de tartaruga castanhos e sorria-lhe ou ficava séria mas estava concentrada no rosto do rapaz os blogues por exemplo dizia ele tornam público constantemente o que durante muito tempo foi secreto as opiniões das pessoas agora viajam invadem todos os espaços é preciso proteger-se claro convém estar informado mas não exageremos eu já decidi blogues só leio meia dúzia também não me dou com toda a gente nem me interessa saber o que pensa toda a gente se começamos a lê-los então eles sabem que nos podem manipular influenciar irritar por isso não leio a maior parte dos blogues que na realidade só reproduzem o que se passa com as religiões com os clubes de futebol e com os partidos políticos eu por exemplo sou benfiquista e de direita está a ver detesto os sportinguistas e os socialistas de comunistas nem falo não existem para mim os autores dos blogues acrescentou a rapariga timidamente jogam muito em equipa eu sei já percebi eles conhecem-se citam-se adulam-se protegem-se criam redes de influência e de opinião une-os o que eles pensam ser uma visão actualizada e informada do mundo ou pelo menos pensam que sim que têm o poder de nos caquetizar e que o estilo resplandece então quotidianamente brilha cega de tão luminosamente irónico e divertido às vezes sarcástico querem ocupar o lugar dos jornais ter esse prestígio antigo e já desaparecido dos jornais mas a gente topa-os logo e já sabe o que vai encontrar quando os abre eu pessoalmente disse o rapaz acho que vivemos numa grande balbúrdia e que os blogues contribuem para isso mas há mais há outras coisas interrompeu a rapariga as pessoas não agem sem razão e se há tantos blogues é provavelmente porque a solidão aumentou porque as possibilidades de comunicar com pessoas reais diminui à medida que avança o capitalismo a americanização do mundo a selvajaria da concorrência com as suas exigências intranquilidade ambições confusões antropofagia apetites erros ódios mentiras ameaças escaramuças sofrimento feridas seria no entanto um erro imaginar que basta ter um blogue para alcançar a fama e a glória ou para proteger-se da insignificância comentou o rapaz tudo isso as palavras dos blogues é fugaz as palavras são fugazes aliás já das palavras impressas no papel se tem de dizer o mesmo e então a rapariga dos óculos de tartaruga ou que pareciam de tartaruga interrompeu o rapaz outra vez e disse calmamente ponderadamente que também ela tinha tido um momento de entusiasmo com os blogues a vertigem de ter uma voz de ter estilo e de ser brilhante gratuitamente por inspiração apenas por inspiração a consolação sublime da arte quando não há mais nada a que se agarrar em que se consubstancializar a satisfação íntima secreta de tão facilmente dizer o que lhe apetecia o que sentia o que tinha descoberto de manhã ou na véspera de criticar de se opor de apoiar de estabelecer cumplicidades quem sabe se não era uma maneira de entrar na história mas uma tarde alguns meses depois do início do entusiasmo tinha tido uma espécie de pressentimento que tudo era pó vento areia nos olhos ingenuidade e vaidade sede infantil de glória e de estilo ironias de estudante universitário frequentador assíduo de cafés e dos debates da cultura estúpido como se ser conhecido fosse uma coisa assim tão importante como se pensar em público provasse alguma coisa acerca da nossa competência e inteligência e cultura e sabedoria da vida como se pensar e falar em público com a regularidade com que as vacas dão leite fosse o alpe d'huez da volta à frança em bicicleta meu deus meu deus meu deus as pessoas acreditam em coisas tão estúpidas escrevo falo logo existo ah o joaquim agostinho se ainda cá estivesse se não tivesse sido vítima da incúria nacional havia de dizer-lhes umas coisas sobre o que é subir as montanhas francesas de bicicleta e sem ser empurrado pelos espectadores é assim conhecem-me ouviram falar de mim logo existo logo ganhei mais uma etapa logo por consequência marquei mais um golo escrevi e leram-me logo posso sair à rua por consequência com ares de triunfo e de dono do mundo e riu-se muito muito durante quase um minuto deu mesmo várias gargalhadas com a sua bela garganta juvenil depois puxou a cadeira um pouco para trás para ganhar distância afastou os cabelos dos olhos e acrescentou a verdade é que existo muito mais quando não falo nem escrevo e me limito a viver a minha vida sem me preocupar com o que se diz por aí com essa algazarra essa febre essa mania da actualização permanente reboot reboot reboot quero lá saber e a partir daí quando cheguei a esta conclusão comecei a dormir melhor e faço mais coisas não tenho deixei de ter a desculpa do blogue como um bloco de notas de lamentos lugar seguro e fixo aparentemente de resgate do irresgatável lugar da obra montra da loja do eu deixei de ter esse subterfúgio para me servir de compensação o que não cheguei a fazer não o fiz pronto paciência o que morreu ou falhou está perdido por ora paciência e se não mostrei estar a par das últimas e espectaculares novidades das artes e das ciências e da filosofia paciência que se há-de fazer e sou tão lenta com pouco me entretenho a pensar e a sentir quanto às intrigas provincianas dos intelectuais portugueses de uns que têm blogues e falam como se tivessem uma cátedra no púlpito da igreja deixe-me rir tem piada de facto esses meninos esses doutores têm uma vocação didáctica indiscutível devem passar o tempo nos cafés a perorar a mostrar como são sabichões e têm ciência e solução para todos os males do país enfim temos de aguentar padrecas de merda desculpe a linguagem às vezes dá-me nojo este país os outros provavelmente não são muito diferentes só que têm a vantagem de ser maiores enfim paciência e ao dizer isto encolheu os ombros e o rapaz ficou sério e disse mas eu também escrevo nos jornais e há diferenças de facto o jornal não me escraviza da mesma maneira o blogue também já percebi é uma espécie de palco onde vou tentando mostrar ao mundo que sou inteligente que estou informado que têm de contar comigo que não os deixarei pôr o pé em ramo verde era o que faltava eu até vivo em lisboa e não sou idiota até escrevo bem sempre escrevi aliás os blogues penso eu às vezes são como livros que a gente vai escrevendo e se morrêssemos de repente a questão da obra póstuma nem chegaria a colocar-se realmente pois o blogue é como um diário fica logo tudo anotado e ela perguntou a rapariga perguntou se tudo fica anotado realmente que ela duvidava e ele o rapaz respondeu que não pois de facto há coisas que a gente também escreve no papel e ninguém sabe disso por outro lado continuou ele nós pensamos e sentimos tanta coisa que um blogue acaba por representar apenas uma parte muito reduzida da totalidade do ser em nós isto é daquilo que nos faz andar por aí de um lado para o outro digamos que é um ideal um projecto um sintoma dos projectos que perseguimos das preocupações que nos atormentam e há que ter em conta o pudor o pudor varia com as pessoas com as situações com os momentos com os dias e a rapariga interrompeu de novo o rapaz levantou a bela mão branca suavemente e comentou que a questão do pudor não tinha nada a ver evidentemente com a exposição ou divulgação da vida privada da vida real das pessoas dos autores dos blogues se há autobiografia nos blogues é apenas como projecto como coisa que quer construir-se disse ela a exibição que deliberadamente decidimos fazer de certos aspectos da vida privada comum a todos nós da vida real igual monotonamente igual à partida de toda a gente é apenas parte de um projecto a face visível e sintomática do projecto da intenção do jogo o ruído que se sobrepõe ao grande silêncio que nos habita por isso acrescentou ela me fazem às vezes sorrir os bloguistas que imaginam ter-nos na mão graças às artes e manhas da retórica que adoptam de que se mostram conscientes que aplicam aos outros e quando o rapaz que se mostrava atento ao que ela dizia enquanto acariciava os cabelos com a mão serenamente acabou a cerveja disse ora aí está a questão da sinceridade tem-me preocupado bastante e não sei nunca que concluir pois sem a gente se dar conta a estratégia tomou conta do discurso e do blogue e da nossa intervenção permanente intervenção talvez circular muito limitada a nós mesmos que nos lemos uns aos outros a estratégia tomou conta da actividade do desejo de influência da vontade de intervenção e a rapariga disse que na realidade talvez seja tudo uma ilusão os resultados as consequências dos nossos discursos dos ruídos que nós vamos fazendo provavelmente são nulos ou insignificantes o gráfico que os representaria não nos é facultado e a vida pública a imagem da vida que de facto nós criamos ou ajudamos a ampliar como antes a criaram e mantiveram os livros os discursos políticos e religiosos e incansavelmente monotamente a prosa abusiva dos jornais onde uma minoria pretensamente esclarecida nos impingia falsa sabedoria falsa justiça falsa cultura falsa ciência isto é uma imagem da vida uma concepção do mundo que eram as das classes no poder que entre si dividiam partilhavam opiniões e eu cansei-me da conversa apesar de a achar interessante apesar do encanto da sedução que sobre o meu espírito exerciam o rosto e as mãos da rapariga fui-me embora para casa ler um livro