Wednesday, August 16, 2006

a dona do circo

cada um sobrevive como pode já se sabe o destino humano está longe de ser esplendoroso. a dona do circo era herdeira de uma família de saltimbancos trapezistas ilusionistas exilados domadores de feras palhaços e era uma senhora muito activa. pretendia-se modesta insignificante mas não lhe faltavam ideias nem ambições nem pretensão. nem amigos nem inimigos. não descansava de se excitar com permanentes iniciativas inaugurações programas espectáculos nunca vistos sempre originais. tirava da manga mágica de seda preta ou da cartola milagrosamente pombos e pombas lenços de todas as cores amarelos verdes vermelhos verdes lilás coelhinhos brancos. falo metaforicamente é claro. tudo o que se passava no circo era controlado vigiado pelo seu olhar de águia velha e pela fidelidade atenta de alguns lacaios que viviam da sua admiração e de adulá-la. dar ordens e sugestões aos empregados e aos inúmeros artistas do circo com a sua voz rouca ou usando os serviços dos seus lacaios permitia-lhe sentir-se dona e útil investida de uma vocação. a não ser que soubesse da fugacidade de tudo não é impossível e estivesse apenas a prolongar artificialmente para se incutir coragem a sobrevivência do que já tinha morrido ou em breve desapareceria definitivamente da face da terra. a sua existência ao contrário da de muita gente tinha assim muito sentido pensava ela. um sentido elevado artístico. talvez o seu entusiasmo se devesse à crença numa missão de salvação. predestinada escolhida para grandes feitos não se sentia culpada de pensar que todas as pessoas à sua volta eram empregados ou artistas do circo o que evidentemente era um exagero e fazia sorrir. não agia assim por mal nem por bem era qualquer coisa que se entranhara na sua maneira de ser e fazia parte da sua personalidade. deve dizer-se também em seu favor que não agia de maneira autoritária pois tudo o que lhe saía da boca firme era dito sugerido ou aconselhado de maneira melodiosa melíflua com uma espécie de ternura religiosa cheia de caridade humana. por vezes um vago e cerimonioso pedido de desculpa parecia escorregar-lhe dos lábios atenuando anulando o que podia ser tomado pelo seu interlocutor por um abuso de confiança por um exagero por loucura. mas aqueles que a conheciam não ignoravam que na sua visão do mundo raramente entravam pontos de vista alheios. ela exercitara-se ao longo dos anos na competição com a gente de outros circos a não duvidar do que pensava a não permitir que pusessem em causa as suas opiniões os seus valores os seus ídolos as suas recordações. aliás ela desprezava quem a ouvia tanto como quem não lhe reconhecia a existência nem a importância. assim se mantinha a ficção que lhe permitia sobreviver com um sorriso nos lábios. ela aliás praticava todas as qualidades e defeitos com uma arrogância soberana e sem fazer concessões. o circo podia atravessar um momento difícil - a popularidade abusiva da televisão e a mediocridade dos tempos não ajudavam - mas ela destemida enérgica parecia não se dar conta disso pouco se lhe dava pouco lhe importava e continuava a falar a comportar-se como se o circo fosse eterno no seu esplendor e reservasse àqueles que o frequentavam prazeres cada vez mais intensos convincentes inesperados. ela tinha sido sempre assim: uma força da natureza. e se o seu pensamento secreto era diferente das suas conhecidas convicções públicas ninguém o poderia afirmar com provas. eu ia às vezes ao fim da manhã ao circo assistia aos ensaios admirava de longe aquela extraordinária capacidade de organização aquela potência sem cansaços o ressurgir repetido da inspiração e da devoção e da teimosia. do seu passado conhecia-se pouco mas o motor da sua actividade diziam algumas pessoas eram a auto-estima e a nostalgia. ela acreditava ser da família dos nobres das antigas personalidades das raças superiores as que dominavam e tinham conduzido o mundo na boa direcção apesar do obstáculo da pobreza de espírito que dominava que sempre reinara em todas as sociedades humanas. escapava-lhe às vezes numa frase murmurada ternamente ou numa ordem dada com suave firmeza a sua convicção profunda: o presente era imperfeito porque o passado tinha sido glorioso. os seus heróis estavam todos mortos mas cabia-lhe a ela a sobrevivente a iluminada a detentora da chama do fogo da sabedoria prolongar a influência dos desaparecidos os seus ensinamentos. sentado na cadeira a assistir aos ensaios ou aos espectáculos eu repito que a admirava. que capacidade de ilusão que fibra a sua na paixão apesar da certeza inabalável da morte essa ameaça que nunca deixa de cumprir-se. não se mostrava muito é certo ela vivia na sombra da sua reputação mas eu sabia e podia adivinhar por detrás de tudo o que acontecia no circo ou relacionado com o circo a sua vontade de ferro a sua doença. falei com ela duas ou três vezes nos últimos anos e nunca esquecerei o fulgor dos seus olhos de raposa velha que sabia como convencer e seduzir sem nunca deixar entrever o que lhe ia na alma. teria alma porém? na sua imensa embora deformada e pouco objectiva sabedoria representava-se em permanência a comédia da mítica enganosa inocência infantil. a gente por um instante acontecia às vezes posso testemunhar e até poderia fornecer exemplos convincentes esquecia o que sabia deixava terra e embarcava no vapor colorido e envolvente dos seus delírios. dizia um jornal da tarde há dias que ela morreu. caíra da cama uma noite no dia seguinte começou a delirar. sentada à mesa da cozinha que lhe servia de escritório escreveu cartas com o cabeçalho do circo em enormes e solenes letras de oiro a tudo o que era presidente ou director de qualquer coisa de bancos a governos de clubes desportivos a associações de beneficência de padres a cabecilhas de grupos terroristas. despedia-se deles até à eternidade. numa parte da carta lia-se o seguinte: vós não soubestes amar os vossos contemporâneos nem distinguir o oiro do carvão por isso não acredito em vós nem mereceis o amor. mas aqueles que conheceram e admiraram a minha obra hão-de transmitir ao futuro a minha lição e a herança que recebemos dos antepassados ilustres não se perderá. a sublime arte do circo há-de salvar a raça humana do esquecimento da ruína da morte da banalidade do vício. eu é certo vivi metaforicamente e o circo sempre foi para mim uma alegoria da própria existência. vós viveis na desprezível risível realidade. pagareis um preço elevado por isso antes de desaparecerdes como vermes nas entranhas da terra.