Monday, January 30, 2006

Amigos e inimigos

Entre promover os "amigos" e desancar nos "inimigos", qual é a diferença? Tudo são episódios humaníssmos da luta pelo poder e pela influência. Ter interesses e convicções não é forçosamente um defeito. Pode surpreender o surgir de tanta violência a propósito de uma coisa marginal como a vida literária. O 25 de Abril não foi uma revolução; foi apenas uma redistribuição diferente de alguns poderes. A literatura, que é coisa privada, anda assim nas bocas do mundo; que mau gosto. Falar é capaz de ser o contrário de fazer. Nestas histórias pode haver culpados, mas não há inocentes.

Saturday, January 28, 2006

Paulo Bento, Liedson e os outros....

Paulo Bento é discreto e modesto, mas tem personalidade e é homem de carácter: parabéns! Os jogadores do Sporting, hoje, mostraram que se pode contar com eles. O "levezinho" joga com alegria e quando ele joga assim é um leão dos antigos. Assim, sim, Sporting!

Friday, January 27, 2006

Como vai o mundo? (2)

Entrei numa loja que vende televisões e nos enormes ecrãs de plasma resplandecia a beleza divina de Maria Sharapova com o seu vestidinho azul. Senti-me bem.

A equipa de futebol nacional portuguesa vai equipar só de vermelho. Continua a decadência da pátria.

Sócrates não necessita de repetir que no serão das eleições interrompeu Alegre involuntariamente, a gente já percebeu. Eu achava mais piada que tivesse sido de propósito, mas paciência.

Os despiques da gente do futebol - os Veigas, os Pintos, os Vieiras, os Guilhermes, os Chumbitas, os Alves, os Koemans, etc. etc. - são um subproduto da crise geral que atravessa o país. (E os despiques dos intelectuais?)

Escritores perigosos não são aqueles que escrevem romances inverosímeis, pois as ficções medíocres que eles inventam não nos convencem. Perigosos são os contadores de histórias talentosos que nos fazem esquecer (ou não nos deixam perceber) a falta de fundamento daquilo que contam. Dos políticos pode dizer-se a mesma coisa. Os perigos da verosimilhança são enormes.

Soares pode ter servido ao PS para evitar o malentendido (ou a desgraça, o atraso de vida?) que seria, segundo algumas opiniões, a eleição de Alegre. Provavelmente receou-se que Alegre se transformasse, toutes proportions gardées, no Santana Lopes da esquerda. Receio despropositado, evidentemente.

Porque é que mudaram o fiscal de linha do Sporting- Benfica? Para distrair a imprensa dos problemas reais do país? Para ajudar o povo a passar o tempo de tédio que precede o jogo?

Se os nossos políticos profissionais fossem tão competentes quando exercem o poder como nos intervalos das eleições, quando falam na televisão e nos jornais, o país estaria no estado em que está? Sejamos, em Portugal, originais e eficazes: deixemos governar a oposição.

Wednesday, January 25, 2006

Arte

http://84.40.3.164/

Obrigado, Cláudia, pelo link!

João Cabral: Toda de luz invadida

PAISAGEM PELO TELEFONE


Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,

a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,

Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pemambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,

sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,

que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,

mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.

Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.


João Cabral de Melo Neto

Monday, January 23, 2006

Eleições

Se a participação foi, como refere O Público, de 60, 61 %, o número de pessoas a quem esta eleição não disse minimamente respeito foi enorme. Dá que pensar.

Curioso: 20 % dos eleitores ainda acredita que os ideais e a retórica do neo-realismo são convincentes e de actualidade. Somos um país de românticos incorrigíveis.

Sunday, January 22, 2006

Saturday, January 21, 2006

Cézanne

“L'ombre est une couleur comme la lumière, mais elle est moins brillante; lumière et ombre ne sont qu'un rapport de deux tons ...”

Cézanne, citado em Muito Cá de Casa

Thursday, January 19, 2006

Culto da personalidade

... a ilusão de que basta falar para existir...


Tuesday, January 17, 2006

Batida "hip hop" ?

"Nesta campanha eleitoral, Manuel Alegre parece querer ser, ao mesmo tempo, Humberto Delgado e Américo Tomás. Não me lembro de alguma vez ter visto esta mistura de marialvismo soixante-huitard, de conservadorismo revolucionário, de patriotismo socialista, de Trova do Vento que Passa em batida hip hop."

João Miguel Tavares (Diário de Notícias),
citado por Eduardo Pitta em
Da Literatura.

Uma pessoa chateia-se

"O que eu quis dizer foi isto: quando aparece uma petição por causa de uma pessoa chamada António Lagarto ter sido corrida (nem interessa donde) e entre os primeiros signatários da dita petição estão pessoas como Luís Miguel Cintra, Augusto M. Seabra, Luís Lima Barreto, Jorge Silva Melo ou o «crítico» João Carneiro, é preciso andar mesmo com a cabeça na lua para não ver logo do que se trata. Nisto «da cultura» há tudo menos inocência. Esta polémica é, como eles dizem, política, quer dizer, não é artística, nem teatral, nem sequer cultural: é política. E a palavra «política», na circunstância, não vem de polis, antes tem todo o seu sentido reduzido a uma pergunta: vamos lá a saber quem é que manda nisto?
Porque uma pessoa de facto chateia-se quando vê nomes destes a assinar um texto que, no parágrafo não sei quantos, protesta contra o «dirigismo»! Há aqui gente que nunca se cansou de cantar hossanas a Manuel Maria Carrilho, o fundador do dirigismo metódico e sistemático no Ministério da Cultura! Gente que, quando Carrilho foi contestado na rua por evidentes preferências e favorecimentos, não abriu o bico! (Pudera, não...) Santa paciência, este pessoal pode fazer as acusações que quiser, agora quanto ao «dirigismo» é que não se pode levá-los à letra porque já deram provas bastantes e sobrantes de adorar o dirigismo, contanto apenas que o dirigismo dirija na direcção que lhes convém.
Que é como quem diz: quem não os conheça, que os compre. Eu conheço-os de ginjeira e tenho mais onde gastar."

Gostei, Gustavo!

A falta de pudor

"Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes, militantes activos do MRPP nos anos de loucura revolucionária, apoiam a ocupação do Iraque e a liberalização total da economia com a mesma eficácia com que defendiam há trinta anos a internacionalização do comunismo e a estatização de toda a economia. Existirá uma contradição nesta mudança? Não. Os esquemas mentais são os mesmos. A intransigência na adoração de uma autoridade superlativa (Mao ou Bush) e a falta de pudor na utilização de métodos de desinformação e branqueamento do que não interessa na defesa de uma posição ou ideia são os pilares do pensamento desta nova ordem de ex-esquerdistas, por vezes denominados também de neo-conservadores.
(...)
Enquanto a Irlanda formava pessoas para os sectores do desenvolvimento que interessavam, o campo das novas tecnologias emergentes no final da década de 80, em Portugal Cavaco aumentava as vagas em cursos que inevitavelmente conduzem ao desemprego, os inefáveis cursos da área das Ciências Sociais e Humanas que educam futuros empregados do comércio e desempregados, professores que penam pelo país fora todos os anos, incompetentes que engrossam as fileiras do funcionalismo público, o "tacho" mais cobiçado de todos. Enquanto isto, os cursos técnicos estão às moscas e cada vez mais se nota a falta de quadros que consigam atrair investimento estrangeiro, ao contrário do que acontece na mencionada Irlanda, por exemplo. É claro que Guterres foi um aluno aplicado de Cavaco, mas a culpa primeira é deste, e se daqui a alguns anos nos virmos transformados numa qualquer república sul-americana, eu sei a quem tenho de pedir meças."

Arquivo Fantasma

O homem sem opiniões

"...votar num homem que não me diz os livros que lê, os vinhos de que gosta, isso é que nem bem disposto, nem morto!!!"

Setaíris, Arco do Mundo

O funcionamento das coisas

Há blogues que que são, digamos, como os antigos livros de poemas. O blogue de António Ferra faz-me pensar em Francis Ponge. Evoca coisas que existem, as coisas mais comuns, e interroga-se sobre o seu modo de existência ou apresenta-as à nossa admiração. O mistério e o encanto que envolvem objectos de uso comum, quando nos decidimos a vê-los ou alcançámos a tranquilidade interior que permite ver, pode não ter qualquer interesse para gente apressada. Mas nada do que nos rodeia é banal, basta saber olhar ou ter tempo para olhar. Belas imagens, aparentemente modestas. Belos textos, sempre breves. Gosto deste blogue. E para mim faz parte de um grupo de blogues admiráveis onde também incluiria Cuidado de Si. Não conheço pessoalmente os seus autores... mas é como se os conhecesse.

Friday, January 13, 2006

Como vai o mundo?

1. Estamos todos sob escuta. É grave. Já não há democracia, só há polícia. Quem manda no país é o Souto Moura.

2. As eleições presidenciais portuguesas terão assim tanta importância? Qual é o poder real do Presidente? O facto de Sampaio ter demitido o extravagante Santana Lopes foi excepcional, dificilmente se repetirá tal cena. Não seria melhor voltarmos à monarquia por uns tempos, enquanto não surge um candidato convincente? Evitávamos ilusões e perder tempo a ouvir patetices e patetas.

3. No Benfica anda tudo à pancada. O Sporting anda a apanhar bonés (está a ser dirigido por anjinhos). O presidente do Porto continua a pensar que é um tipo MUITO esperto e MUITO importante. O Miguel Sousa Tavares idem e o seu dandismo intelectual já enjoa.

4. O inconveniente do sistema democrático é que os imbecis, os vigaristas, os filhos da mãe, os invejosos, etc., também têm direito de voto. Conclusão: não haverá nunca uma sociedade perfeita.

5. Os sentimentos também têm classes. Uns são proletários e plebeus, outros chiques e de salão. Alguns estão na moda, outros devem evitar-se. Os que estão na moda são os que são propostos à admiração das massas vulgares e incultas pelos poetas do regime, pelos jornalistas e outros aspirantes a peraltas, pelo EPC, por gente mundana como os pseudo-artistas e os polítcos. Parolices nacionais.

6. No que me diz respeito já fiz o meu dever: os meus dois filhos, apesar de gostarem de Portugal, não vivem lá nem terão de lá viver se não quiserem. Ao ponto a que isto chegou, com o mundo a correr o risco de se ver em breve reduzido a um campo de concentração rodeado de arame farpado americano, nada é seguro. Mas do mal o menos.

7. Para quando um Lisboa-Dakar dos intelectuais? Os poetas competiam de mota, os prosadores de bicicleta, os filósofos de balão, os críticos de arte iam de patins, os críticos literários "surfavam".... O Saramago ia a pé, o Lobo Antunes de Jaguar, o Eduardo Lourenço de trenó, o José Gil de Peugeot, o EPC ao colo do Mourinho... O Carrilho, se insistisse em ir, ia de ambulância... A Agustina podia ir de burro... Os professores iam à boleia... O Luís Pacheco ia no carro da polícia... Podia ser excitante. No fim publicavam-se vários volumes sobre a aventura e atribuíam-se prémios: esculturas de areia, por exemplo.

Thursday, January 12, 2006

Tuesday, January 10, 2006

Os artistas

Não sei se tem muito sentido as pessoas que exercem actividades artísticas exigirem ao Estado (isto é, à colectividade, aos outros trabalhadores) que as subsidiem para poderem praticar o seu "vício". Bem sei - "vi, com meus olhos vi" - que do mísero bolo colectivo anda muita gente a comer esbanjadora e abusivamente (políticos e directores de institutos que cortam nos subsídios às publicações e nas bolsas aos estudantes mas não se privam de iniciativas megalómanas nem de ir ao estrangeiro passear e fazer nada, por exemplo) mas os abusos de uns não desculpam as exigências autoritárias de outros. A qualidade da arte e o benefício que do seu exercício advém para a comunidade são difíceis de avaliar - e no entanto aqueles que começaram a atacar Isabel Pires de Lima, como antes já deitaram abaixo o bem intencionado e qualificado José Sasportes, parece não terem nenhuma dúvida sobre os seus méritos e os seus direitos. Bom proveito lhes faça, mas a gente pode espantar-se e achar irritantes, vaidosos e pretensiosos o quase simpático Luís Miguel Cintra e os seus pares. Não será mais importante, por exemplo, subsidiar a escola e os hospitais do que os artistas? O que é um artista, o que é ser artista?

P. S. Sobre o mesmo assunto ver Arquivos Mortos

Estrada do campo



Norwegian sailor






Trio




A Casa de Garrett

Almeida Garrett merece que seja respeitada a sua memória. Associo-me à iniciativa. E lamento o desaparecimento precoce de Cristina Futscher Pereira, que criara um blogue devotado ao escritor e já publicara um texto seu numa bela edição.

http://www.casadegarrett.blogspot.com/

http://arukutipa.weblog.com.pt/

Friday, January 06, 2006

Thursday, January 05, 2006

(New Tokina 12-24)

Rosto e máscara




Tuesday, January 03, 2006

Sunday, January 01, 2006

Terra das origens

E enfim voltaste, sete anos depois
voltaste à terra das origens. As luzes
da cidade irreais e irreais as ruas
estreitas. Abandonar-se à poesia
seria despropositado. Visita-te
o passado, estás de novo
sentado na esplanada do Grillon
e sorris, tranquilamente sorris.
Venceste a batalha, não morreste.
Não te derrotaram o desamor, nem
as decepções da amizade, se existiram.
Cresceste e agora, na cidade idílica,
saboreias os minutos, os segundos.
Ao teu lado, no café, os rapazes e
as raparigas que tomaram conta
dos lugares, eles ignoram que a cidade
te pertence como nada mais te pertence,
que entre ti e ela há uma relação antiga
que só a morte romperá! Confundem-se
o passado e o presente no teu espírito, os
fantasmas dos desaparecidos atormentam
por momentos a tua paz. Ou querem
atormentá-la, mas tu não deixas, hoje
não, estar de volta à cidade, ao lugar
de habitação, protege-te de todos
os infortúnios. Ausentou-se a amada,
mas sem ela, apesar de tudo, és feliz.
E a outra, aquela que nunca mais
voltaste a ver (pelas ruas da cidade
andaste com ela de mãos dadas), volta
também ao teu espírito. Como se fosse
hoje, e agora, e não tivessem morrido
nos dias e nos anos os nossos devaneios.


Aix-en-Provence, 1996

Lendas e pecados
























Falero, The Balance of the Zodiac
























Amaury Duval, Venus

2006, 1, 1