Friday, March 31, 2006

2 páginas ao acaso

O que é compreender?

("Celui qui ne comprend pas pourquoi nous parlons de ces choses doit avoir l'impression que ce que nous disons n'est que verbiage.")


Wittgenstein, Grammaire Philosophique,
trad. Marie-Anne Lescouret, Gallimard, 1980)

Wednesday, March 29, 2006

Monday, March 27, 2006

Outros tipos de prosa

Prosa cinzenta, um pouco apagada e monótona:

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Prosa colorida e com contrastes:

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Prosa portuguesa:

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Prosa francesa:

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Prosa alemã:


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Etc.

Sunday, March 26, 2006

Prosa rica

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Prosa pobre

$$

Saturday, March 25, 2006

A calúnia






Blogues e jornais (2)

Talvez fique mais mais claro assim, com exemplos:

O Público é o blogue de um certo J. M. Fernandes. O Abrupto é o jornal diário do Pacheco Pereira.

Flor

Friday, March 24, 2006

Vidros

Here is the time

....................
Here is the time for the sayable, here is its homeland.
Speak and bear witness. More than ever
the Things that we might experience are vanishing, for
what crowds them out and replaces them is an imageless act.
An act under a shell, which easily cracks open as soon as
the business inside outgrows it and seeks new limits.
Between the hammers our heart
endures, just as the tongue does
between the teeth and, despite that,
still is able to praise.
.......................................

(Rainer Maria Rilke, excerto da 9ª Duino Elegy,
trad. Michael Hamburger)

Thursday, March 23, 2006

Poema da menina Clara

Seasons Changing

When seasons decide to come and go
They all put on a little show
Winter always comes in first
Never-minding Spring flowers thirst
All the seasons turn to Summer
Wich forever will be funner
You shall never forget Fall
For the leaves should certainly call
Heating up and cooling down
Will all make us go around


By Clara Raposo (11 anos)

Wednesday, March 22, 2006

Outono ainda

A palavra é nada. Mas às vezes é
tudo o que parece acontecer
quando os olhos e as mãos
as pernas e o coração
não encontram o caminho dos
sentimentos, o porto de
abrigo de onde recomeçar
a velha história. Interrupção.
A palavra, que é nada, serve
de muro onde apoiar-se,
de almofada onde encostar
brevemente a cabeça. E
respiramos.


Abanavam ao vento as folhas
e os frágeis ramos das árvores.
Os homens e as mulheres que
passavam na rua em frente
do café prosseguiam, sem darem
por nós, o seu destino incerto.
Não há mistérios, é verdade, mas
existe o amor e a esperança do
amor, o passado e a memória
dos erros e da alegria, o
futuro e a imaginação do
paraíso. O tempo é habitado,
aquilo a que chamamos a vida
parece ter sentido. Para quê
duvidar, atirar ao vidro da
janela uma pedra, interferir
com o correr natural dos rios
para o mar? Para quê, de facto.

Existe o amor e existe o ódio.
Existe a paz e existe o inferno.
Para aquele que aprendeu a viver
todos os estados de espírito
se equivalem. Aprende-se a ir
pelo caminho da vida como o
barco que navega entre as
rochas e sabe evitar os fundos
traiçoeiros. Aprende-se a olhar
com indiferença para aqueles que
na estrada que atravessamos
esconderam objectos e imprecações.
Afastar-se de quem com falsas
palavras de amor tenta exercer
sobre nós a doença do seu poder
é fácil e necessário. De todos
os percalços e inquietações
nos cura a tarde de sol sossegada.
E esquecemos os nossos inimigos
e a sua ingénua ilusão, o seu
impotente talento: inacessíveis à
perturbação e ao medo, contemplamos
as paisagens do mundo, o infinito.


SB, Março, 17, 2006

Tuesday, March 21, 2006

no way out

again so lonely si seul si désespéré sans jamais vouloir l’admettre se o milagre da transfiguração tiver lugar knowing what it is about e tu nem imaginas sim sim estou a pensar em ti how could you sabemos tão pouco dos outros do que eles pensam e sentem e temem nothing indeed niente de nós nada do papel que desempenham na nossa existência nos sonhos nos devaneios nas parvoíves eh eh ah ah em que pensamos da coragem que nos dão do desalento uf chatice aborrecimentos se eles soubessem se nós soubéssemos também enfim de que serve queixar-se ou falar tudo tudo é mudança nada resiste a passagem do tempo já se sabe no entanto os dias seguem-se inutilmente boring times tantas vezes e aqueles nós mesmos a quem é concedida a dádiva do amor the dream l’imagination não sabemos agradecer vamo-nos embora insensíveis ausentes bruscamente recusamos furtamo-nos only seulement mais tarde too late trop tard é que depois lamentamos so sorry so so sorry dear quem foi que inventou esta máquina do corpo e os nossos sentimentos i sincerely don't de onde vêm com quem i mean os aprendemos why the hell am I worried it’s not worth anything qu’on me foute la paix c’est mieux ce serait bien mieux ou é só miséria natural razão condição para o desejo e a perpetuação da raça juventude irrequieta e irresponsável i apologize sangue que facilmente se acende e impetuosamente oh fous-moi la paix I am not worried anymore I am so happy you know your hands so cold and yet i was upset maybe mergulhar na piscina duas vezes por semana os teus pais tinham-se divorciado a tua irmã era punk e artista um dia todos mortos nós todos bastam cem anos eu tu e a punk em san francisco todos mortos já ossos pó desaparecidos esquecidos tu rapariga loira discreta mistério para mim que gosto de desvendar enigmas desconhecida por conhecer para conhecer enfim qualquer coisa ainda a aprender a descobrir antes de morrer why am I worried se foi há tanto tempo e nada mudou deve ser por isso porque nada mudou no way out é como se não tivesse vivido todos estes tantos anos dias horas minutos where was I indeed os últimos três ou quatro ou cinco e o tempo passou homens e mulheres raparigas conheceram-se amaram-se ah ser jovem de novo sempre again forever meninas amaram-se acariciaram-se odiaram-se raparigas falaram dormiram juntos sonharam uns com os outros fabricaram histórias absurdas era a existência na sua plenitude gloriosamente insensata o amor cervejas solitárias nos bares mal frequentados serei tão difícil de so sorry sorry smile so irremediavelmente tímido excuse me perdi todas as oportunidades todas certamente não não dramatizemos mas algumas e eram importantes beijos húmidos de bocas que esqueci e que só na hora da morte se saberá ou nunca certamente quem sabe quem pode saber ou antes de facto provavelmente é mentira tudo se pode inventar também sonhei sobretudo sonhei repetidamente cheio de amor de bondade infantil ainda inocente de ternura sem condições menino maldade não existia rostos corpos vestidos cores meninas raparigas visitavam-me no sono e era como se estivesse lá de novo ou enfim uma vez de manhã acordei a chorar não me recordo porquê why am I so worried lágrimas corriam-me pelo rosto eu soluçava não sabia porquê no travesseiro afundei a cabeça os olhos ou é agora que não sei já me esqueci foi uma péssima noite aquela so worried so unprotected so childish que me peocupava quem era que no sonho sorrisos alegria felicidade paraíso na terra e arrogânca daqueles que falam alto o que foi exactamente e prefiro não me lembrar disso mas quando o sonho era agradável e corrigia a imperfeição da experiência então ao acordar how is it that life my life is so boring eu lamentava ter saído do universo irreal sorria sorria putain de vie la mienne la vie réelle i mean porque era real mas há tipos que pensam que sabem tudo e que têm de ensinar os outros que se fodam eu estava lá e comigo um rosto amado um corpo a pele o sorriso as pernas os braços tanta ignorância as palavras oh gosh era como se tivesse sido verdade às vezes não sei se te recordas ficávamos a conversar olhos azuis como os daquela rapariga do michigan que eu amei há muitos anos e depois casou-se e teve filhos e nunca mais a vi nada sei dela agora terá morrido estará viva na esplanada do café em aix conversávamos à noite as belas pedras amarelas das casas as fontes com a água a correr era o tempo da aprendizagem e não sabíamos silenciosamente agora é de ti que estou a falar hi how are you doing how did it work in japan and in paris tell me i am so curious so interested na place albertas também estive sentado e ela de camisa azul era o início do que parecia ser o amor mas não funcionou não deu nada só amizade mais tarde ela também casou com outro e eu próprio enfim já estava casado so funny so curious i am so curious compreende-se porquê és digo eu és de novo como as raparigas da adolescência da minha da inocência penso receio pensar nego que o pense seriamente a minha última obsessão salvação merde alors possível escapatória saloperie de vie sonho aventura da livraria soho charing cross depois da minha aula eu sempre receoso de ultrapassar os limites as unhas as mãos os cabelos a pele quase molhada ainda da água da piscina receio medo de ultrapassar os limites do puritanismo por isso (cigarro? ok mas em geral não fumavas) queria ir-me embora antes que fosse tarde de mais tu falavas contavas eu olhava o teu rosto o fumo entre nós depois arrefecia o ar a tarde morria lentamente nos nossos olhos nos corpos eu dizia vamos embora estás a tremer de frio so worried so worried and no reason really pas de raison tu dizias não não eu estou bem j’aime ça tu sais e eu pegava-te nas mãos e dizia estão frias bon dieu comme elles sont froides tes mains tes yeux comme ils sont froids mais c’était pas vrai les yeux tes yeux n’étaient pas froids tu n’avais pas l’air of being afraid worried pas du tout alors o que me apetecia era beijar-te acariciar-te so afraid anyway hesitating não se podia a lei a proibição o puritanismo eu sempre respeitei a lei and so because of that maybe eu ia para casa sozinho frustrado triste desencantado sem saber se ainda podia amar alguém e ser amado recompunha-me depressa mãos nos bolsos um dia vamos os dois à tailândia se tu quiseres já tinha aprendido há muito tempo que não adianta sofrer ou ao japão com o que não se pode fazer alcançar experimentar eu posso tocar piano num bar à noite é a vida hoje ou ontem pensei em ti ou a praga mas podia ter sido noutra mulher why am I worried why a solidão platão as sombras da caverna e lá em cima a coisa verdadeira a única a real a dado momento parece que não tem importância o nome a pessoa só a forma a beleza o rosto o sorriso os dentes estiveste em paris aqui ou noutro sítio que importa depois na tailândia we can go back there together if you wish agora em nova iorque meu deus como tu viajas que pressa e porquê para quê que encontraste que te faz tão feliz ou impede i have no idea yet de estar que poderá que será um dia dir-me-ás talvez oh a pele as pernas a cintura os seios as palavras oh why are you writing to me now so many months later claro que não é verdade há limites no reason mas em certo sentido quem sabe talvez já não importe muito a identidade real só a imaginária só a aparência desligada do nome e da pessoa you or n’importe qui en fait une femme une fille qui sourit conhecer a pessoa pode ser depois se valer a pena se os lábios se as pernas se os segredos se nothing os mistérios se a pele se as palavras se o momento se o encontro se o instante oh oh god why was I so worried so many years ago and now serena o teu avô pai e mãe as viagens que te levavam à índia ao japão why what pourquoi vamos ao encontro do amor e da decepção erramos pelo mundo tudo mal explicado tudo nada explicado balbuciado murmurado só à nossa custa aprendemos e desaprendemos murmúrios é isso suspeitas é isso e conseguimos enfim entender o que é viver du moins nous le croyons oh la vie quelle misère and why should i n’importe laissez ça ira quand même o que é amar o tempo porém não perdoa em breve a morte virá e que fica de nós que ficou de todos aqueles que antes de nós conheceram a privação e o desejo e o sonho e a felicidade e as lágrimas de desespero e depois de nós nada mudará só repetição do mesmo tudo acabou uma vez um dia assim será naturalmente sempre foi sempre será claro também se pudéssemos entender logo o que se passa quando parece que se pode passar alguma coisa se o amor se a luta se a vida se a solidão mas eu fugia isolava-me silêncio solidão a frescura das pedras reconstruir a imagem de mim mesmo o eu despedaçado ameaçado pelo frenesim exterior as pedras protectoras da igreja da casa da avó do quintal quando na infância oh meu deus o que é basta basta não adianta tudo é ficção tudo é e podia ser outra coisa bah! bla bla bla.

Blogues e jornais

- Qual é a diferença entre um blogue e um jornal como o Público, por exemplo?
- Os jornais são blogues impressos em papel e que se compram nos quiosques.
- Mas há blogues que querem entrar em competição directa com os jornais. A mesma atitude, a mesma ambição, a mesma sapiência.
- São os blogues de pessoas com mentalidade de jornalista.
- Gente com ambição política ou ambição de guiar e elucidar as massas ignorantes?
- Qualquer coisa assim. Esses eu não os leio, não tenho paciência nem tempo.
- Imaginam-se marginais, mas lutam pelo tipo de poder e de influência que têm os jornais.
- Qualquer coisa assim. Prolongam e repetem o sistema. Não tem interesse. Podem ser úteis, mas eu prefiro coisas mais verdadeiras.

Sunday, March 19, 2006

Mar inglês de Turner

380+

"The Independent on Sunday can reveal that last year more than 380 soldiers went absent without leave and have since failed to return to duty - marking a dramatic increase since the invasion of Iraq three years ago.

Military lawyers and campaigners said that these figures suggested significant levels of disaffection in the ranks over the legality of the occupation, and growing discontent about the coalition's failure to defeat the Iraqi insurgency.

An RAF doctor was last week taken to a court martial for refusing to serve in Iraq, claiming the occupation is illegal, and a former SAS trooper, Ben Griffin, revealed he had quit the army in protest at the war."


P. S. Nem toda a gente se deixou nem deixa enganar: http://retrato-auto.blogspot.com/

Saturday, March 18, 2006

The failure of art? Hmmm...





A questão da arte tem de pôr-se e pode ser que Jameson tenha alguma razão no que diz, mas fico sempre com a impressão, ao lê-lo, de que o facto de o seu discurso ser em geral bem articulado não significa que revele um entendimento suficiente da complexidade do que ele pretende explicar. Talvez o problema esteja mal posto, simplesmente. A inovação estilística só por si não cria arte, quando muito cria espectáculos irrisórios e passageiros (nos casos mais felizes pode fornecer instrumentos para artes ainda por vir ). O facto de a arte ser acerca de si própria não devia esconder de nós que a arte só é arte na medida em que trata da nossa condição e do nosso destino.
E há alguma arte séria que não seja, sendo acerca de nós, acerca de si própria também, sempre? Mais divertido ainda: pensar que o que falhou como "novidade" pode não ter falhado como "arte"; e que o que falhou como "arte" pode não ter falhado como "novidade". O que é arte, a arte, esse mito da nossa civilização?


“in a world in which stylistic innovation is no longer possible, all that is left is to imitate dead styles, to speak through the masks and with the voices and styles in the imaginary museum. But this means that contemporary or postmodernist art is going to be about art itself in a new kind of way; even more, it means that one of its essential messages will involve the necessary failure of art and the aesthetic, the failure of the new, the imprisonment in the past.”


(Fredric Jameson, “Postmodernism and Consumer Society”, in The Anti-Aesthetic, Essays on Postmodern Culture, edited and with an introduction by Hal Foster, The New Press, New York, 1998)

Gentilezas

Fico tímido com a gentileza do Carlos Sousa de Almeida, que, creio, não conheço a não ser pelos seus blogues, "primos" do meu: sobre a pálpebra da página; legendas & etc. Hoje ele remete num link para duas pequeníssimas histórias que há tempos publiquei numa revista brasileira de literatura da internet. Obrigado, Carlos.

Também recebi uma mensagem de outro amigo a informar-me de que no Diário de Notícias de sexta-feira o Pedro Mexia - que não conheço nem é meu amigo, tranquilize-se o "Esplanar" - publicou uma recensão aos meus dois livros recentemente postos à venda. Ena pá, pensei eu, estou a ficar popular. E inexplicavelmente franzi o nariz.
- Queres que te mande o artigo por fax? - perguntou o meu amigo.
Respondi:
- Não, manda por correio normal.
Continuo sem saber se o artigo em questão me compreende ou desentende, se o Pedro quer que me leiam ou me dá bons conselhos sobre como é que se deve construir uma intriga, caracterizar uma personagem, aceder à poesia, falar da vida, escrever um livro.
Lembrei-me entretanto, enquanto vinha a conduzir o Saab à beira do Pacífico de regresso a casa ao fim da tarde, de um livro de Peter Handke:
A angústia do guarda-redes no momento do penalti. E sorri enquanto ia ultrapassando um camião.
O Pedro Mexia, além de tantas outras coisas que nos podem tornar simpáticos ou estranhos um ao outro, é benfiquista - e eu sportinguista; é, se não erro, formado em Direito - e eu em Letras.
Tranquilizei-me: mesmo quando jogava futebol na equipa da Faculdade de Letras de Lisboa nunca joguei a guarda-redes, em geral jogava a defesa direito, às vezes ao lado do Ruy Belo ou do Arnaldo Saraiva, do Moreira, do Madeira, do Carlos Correia, etc.; e gostava muito de arrancar por aí adiante a caminho da baliza adversária. Uma vez, depois de vários passes com o Pissarra, um puto cheio de talento, fui rasteirado na área adversária e tivemos direito a uma grande penalidade. Imagino que o Pissarra a deve ter transformado em golo. Velhos tempos. Onde estará o Pissarra? Nunca mais o vi nem tive notícias dele. Se alguém souber, dê-lhe um abraço meu.
O meu obrigado ao Pedro Mexia por se ter dado ao trabalho de ter em conta nas suas crónicas lisboetas os meus livrinhos, escritos num espaço e num tempo bem diferentes dos dele, chegados de tão longe às suas mãos.

Friday, March 17, 2006

Limites

"There is no evident rule for separating the information from stylistic or other immaterial features of the sentences."

W. V. Quine, Philosophy of Logic, Harvard University Press, 1986 (1970)

Thursday, March 16, 2006

Tuesday, March 14, 2006

George S. Kaufman

George S. Kaufman was picked by the Marx Brothers' habit of changing his lines. During rehearsals for Animal Crackers, Kaufman walked on the stage in mock exasperation and said, "Excuse me for interrupting, but I thought for a minute I actually heard a line I wrote."

At a dinner party he was seated next to a woman who monopolized the conversation all through the meal. By the time the coffee was served, Kaufman could no longer restrain himself. "Madam", he asked, "don't you have any unexpressed thoughts?"

(John Winokur, editor, The Portable Curmudgeon, A Plume Book, 1992)

Sunday, March 12, 2006

Death of the world's rivers

Rios que não conseguem chegar ao mar, morte de seres vivos provocada pela ambição desmedida e insensata dos homens... Podia ser apenas uma metáfora da impotência e de muitas outras coisas que vão acontecendo nas nossas sociedades ditas humanas. A situação descrita daria certamente também excelente argumento para mais um gargarejante "paper" postmodernista na universidade. Só que a notícia é para ler literalmente - e filosofar com perspicácia sobre a questão não resolverá o problema.

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From the Nile to China's Yellow River, some of the world's great water systems are now under such pressure that they often fail to deposit their water in the ocean or are interrupted in the course to the sea, with grave consequences for the planet.

Adding to the disaster, all of the 20 longer rivers are being disrupted by big dams. One-fifth of all freshwater fish species either face extinction or are already extinct.

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Saturday, March 11, 2006

Then he "came back to normal"

A very short letter:

"I love life. But I want to do what makes me happy because I have a focus. Sometimes it feels like when I almost drowned in the ocean at Campus Point. I didn' have a leach and when I lost the longboard (soaked heavy with water but still floating) it got to two meters away for every breath I took. I called for Tony a hundred meters away but he told me after that he thought I was playing around...The thing I remember most from the experience is that at a certain point I felt so weak that I started accepting that I might drown. But I pulled it off by sinking and pushing myself in to the shore. I was still a bit indifferent with half of my mind when I laid there with my head pulsating, then I came back to normal. " (SC)

Friday, March 10, 2006

as noites sucediam-se

e febril ele o corpo que se ia desfazendo lentissimamente enquanto as pedras se preparavam ainda para continuar a durar séculos e séculos e as montanhas e as praias e as estrelas ele pobre mortal insignificante criatura deitava-se em cima das horas em cima do tempo em cima do nada e a água corria tinha corrido de onde vinha afinal e continuaria a correr milhões de anos biliões o nosso destino a nossa miserável brevidade uma amostra a existência se gostas pede mais mas não há mais la vida es sueño a imaginação do espaço do lugar a meditar a acariciar a odiar a destroçar a cortar com uma afiada faca as palavras objectos agudos elas mesmas música insuportável ou às vezes inebriante ouvidos rotineiros que já não ouvem tantos ruídos tanta insensatez o sol brilhava no horizonte às vezes de manhã os sinos das igrejas das aldeias alegravam-se e pelos campos corria o som invisível veloz amplo os trigos as oliveiras os caminhos poeirentos a linha do horizonte e as montanhas os carros de bois carregados de uvas das vindimas o sol as queimara aquecera o açúcar a forma plena a maturidade a dádiva sublime inesquecível ele sentado no carro entre os cestos e as uvas brancas e negras quentes doces inesquecíveis companhias nunca mais reencontradas recuperadas esse sabor nunca mais e a água das fontes fria e dos poços límpida o bisavô a fumar ao sol e as recordações da terra nunca mais nunca mais esse sabor da adolescência que então se iniciava e o primo que havia de deitar-se ao poço rapaz sério severo que nunca beijara uma mulher que não conhecera o amor que não admitia que fizesses batota a jogar às damas um dia fartou-se a sedução da paz eterna do esquecimento da água o sem sentido da vida o desespero não se explicam o relógio de pulso estava parado nas cinco da manhã o meu pai foi lá tirá-lo do poço o tio o pai onde estava incapaz de entender assim se vive e morre incompreensivelmente não nos dão notícia das razões da morte os verdadeiros desesperados os desiludidos a linha do horizonte cortavam-na as montanhas naquele pequeno cemitério pedaço de terra por ora separado dos caminhos onde as crianças corriam gritavam se perseguiam brincavam inconscientes alegres seduzindo-se mutuamente sem se dar conta ainda do poder do olhar das mãos do corpo e ao longe um ruído de motores que será que seria e no cemitério a história de uma aldeia condensada em terra vermelha em pedras com nomes algumas fotografias a preto e branco emolduradas esmaltadas que ilusão um dia o esmalte ter-se-á desfeito o vento a chuva nada dura tudo é mudança tudo é morte as noites sucediam-se aquele amigo que num acidente de automóvel recordações da primeira comunhão e era tão jovem e tinha uma filha e aquela rapariga não se adivinhava na sua cara o destino trágico a brevíssima passagem por aquilo a que chamamos a vida um sonho um suspiro um vago devaneio e aquela rapariga o autocarro na ribanceira os pais destroçados mortos antes de morrerem para sempre já e a minha avó que ia comprar à loja do senhor albano as linhas e os tecidos e um pretinho de barro mealheiro abanava a cabeça e sorria a minha infância marcada por imagens inconsequentes tudo é vida tudo cucujães os missionários o tio padre as costureiras bonitas e maliciosas que brincavam contigo que te queriam bem que sorriam e cantavam enquanto as agulhas penetravam com carícias nos tecidos na lã na seda tudo ficou tudo significa tudo tem de ser tido em conta eu sei eu não pretendo escapar ao meu destino mas não se podia saber de antemão ó meu pai e agora tu também já eu no cemitério tropecei o teu caixão oscilou o teu corpo lá dentro sobressaltou-se uma última vez o teu filho desajeitado da outra vez em marselha no comboio deixei cair a mala em cima dos teus dedos inchados da gota e tu irritaste-te eu ri-me estupidamente desta vez porém não me ri no cemitério não creio que me tenha apetecido rir-me mas imaginei ouvi a tua voz de censura meio carinhosa meio irritada tu lá dentro fechado próximo mas já separado de nós para sempre tu não mudas não mudarás nunca és um desajeitado um distraído às vezes parece que fazes de propósito que estás a gozar com as pessoas e o nada o nada apenas o nada era o que havia e a nostalgia inútil que mais tarde que agora que sempre era preciso aprender com o tempo que passa e as feridas na alma e os pontapés no espírito inocente e esperançoso dos deuses que nem sequer existem mas talvez nos amem quando passamos para o outro lado pois sim esperanças eternidades pois sim sonha ó verme e as manhãs as belas manhãs de sol recordações da cidade distante da provença os plátanos o ar fresco os passeios húmidos as pessoas que iam e vinham do mercado para o mercado para o café no café sentadas ramos de flores nos cabazes nas mãos os vestidos leves das meninas na praça do tribunal queijos carne livros no chão gravuras japonesas bugigangas velhos brinquedos ervas especiarias e a fruta os esplendorosos legumes as magníficas maçãs as cerejas as laranjas as melancias os melões ó terra de tanta abundância e belas raparigas de braços nus de pernas impetuosas e tranquilas acariciadas pelo sol mas passou tudo tudo passa tudo é mudança os fins da tarde sentado no grillon a beber vinho branco com licor de cassis a estranha e perdida felicidade dos dias a companhia das velhas pedras amarelas a desfazer-se lentamente a infelicidade das horas das noites os risos a camaradagem os beijos as fontes nas pequenas praças e o desespero a melancolia a perdição a surpresa o choque tudo passa tudo é mudança

Thursday, March 09, 2006

Narciso

How many narcissists does it take to change a light bulb?
(a) Just one -- but he has to wait for the whole world to revolve around him.
(b) None at all -- he hires menials for work that's beneath him.

.........
Narcissists are envious and competitive in ways that are hard to understand. For instance, one I knew once became incensed over an article published in a national magazine -- not for its content exactly, but because she could have written something just as good. Maybe she could have -- she hadn't, but that little lapse on her part was beside the point to her. They are constantly comparing themselves (and whatever they feel belongs to them, such as their children and furniture) to other people. Narcissists feel that, unless they are better than anyone else, they are worse than everybody in the whole world.
........
Narcissists are totally and inflexibly authoritarian. In other words, they are suck-ups. They want to be authority figures and, short of that, they want to be associated with authority figures. In their hearts, they know they can't think well, have no judgment about what matters, are not connected with the world they inhabit, so they cling fanatically to the opinions of people they regard as authority figures -- such as their parents, teachers, doctors, ministers.
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Narcissists feel entitled to whatever they can take. They expect privileges and indulgences, and they also feel entitled to exploit other people without any trace of reciprocation.





Tudo é nada mas mudança

escrevias e como camões moralmente solitário vagabundo irresponsável imoralmente altivo distante das salas em que deixaste os outros andar por aí - ai ai - a mendigar o pão migalhas secas de consolação irrisórias tudo é mudança e ias enchendo de sala em sala a arca para ti a duração para eles porque já não era possível de jornal em jornal construir a glória efémera a sua biografia no recanto obscuro a degradação a ilusão o logro o perder tempo as invenções de um currículo de menina doirada pátria que nunca existiu mas era o poder da ficção lias num café os teus poemas obscuros tudo muda ou nós o mudamos para que a história seja aceite pelos gabinetes em que nos avaliam os rostos sem olhos não viveste a tua vida tu como nós já sabias mas não haverá recompensa ele o grande lírico ele supremo superior inalcançável à cabeça do pelotão ele o épico de camisola amarela vestido malgré soi ele o da espada tudo é mudança pôde sonhar pôde remar contra ventos ele viveu a sua frágil aventura mas ela a usurpadora a invasora a filha dos oportunos mestres da esperteza recentemente promovida a intelectual de mérito da cidade pátria que nunca existiu só na imaginação com a cabeça e os lábios cheios de nomes de teias de aranhas de citações ela a insuportável megera ela bruxaria a melhor do que todas ela a intragável a insuportável a feia imagem de nós mesmos pátria inventada terra inventada íamos enlouquecendo a prestar atenção ao seu umbigo gasto em carne viva e sujo de tanta marmelada sentimental tu fernando desesperaste sem nunca ter realmente esperado nada da vida a pátria é uma invenção para povoar a solidão e dar-lhe algum sentido pelo menos é o que parece mas o amor então não era nada se era tudo o que conta as marés do amor que todas as esperanças são vãs e as mentiras curriculares pátria insensata mito invenção do medo nunca tinhas estado em trieste nem à capital do outro reino do saber reino de sombras a existência não há limites nem fronteiras verdadeiramente foste ler o que disseste limitaste-te a ser nas ruas passeante desocupada e provincianamente feliz de tanto privilégio das classes realmente cultas e ricas ah ah pátria e então habitavas um lugar entre os rios e as montanhas só a morte um dia escrevias com nomes que se admiravam com frases que pareciam ter sentido ah ah os belos tempos a mistificação querias conquistar o mundo impor a tua lei e posto no curriculum então transfigura-se a mediocridade da vida e resplandece o evento as medalhas a recompensa uh uh uh mentirosa uh uh falsa como judas e pretensiosa e eu ri-me e camões olhava de lado vesgamente enfurecido pela detestável algazarra de tal companhia já foi ninfa agora ó pátria traída inexistente corrupta destinos sacrifícios inúteis falta-lhe o juízo e a frescura da pele e tu lá fora a fazer que não percebias que só a imaginação do futuro e tu a um amigo que volta de novo o tempo de poetas desaguar é encontrar-se com a decepção nada não havia nada mas ela contava histórias sempre fabulosas das suas vitórias em continentes longínquos do nada a duração aparentemente nos excita já ninguém a ouvia palavras ocas música enfadonha irritante nascendo a vida outra vida camões grande no presente camões e tavez não fosse má pessoa mas acabava por não se notar e todos a odiavam ou não seria ingénua a sua visão talvez não quem sabe tu poeta que foste grande conheceste a solidão e a impossibilidade era ainda a tua que da perturbação do erro da incerteza da hesitação e tu meditavas mas o tempo voava e tu sofreste esperando tudo é mudança a do amor e as outras aventuras esperando deixar de sofrer tudo é mudança embora das privações soubesses e do abandono a consolação tudo é mudança depois de cada ilusão febril que em silêncio a posse ia da realização. o que é durar? tudo é mudança.

Wednesday, March 08, 2006

O cãozinho

Ninguém lhe prestava a atenção que ela achava que merecia. Tinha envelhecido o suficiente para passar despercebida e sabia-o. Como nunca tinha amado e era conhecida por se servir das pessoas, ninguém gostava dela. Foi então que decidiu passar à fase seguinte: comprou um cãozinho branco e passeava-se com ele pelos corredores da universidade ou do hospital. As pessoas paravam, faziam muitas festinhas ao cão, riam, perguntavam. E ela voltou a ser o centro de todas as atenções durante alguns dias, o cãozinho era ela na verdade. E tinha uma esperança para o futuro: quando o cãozinho começasse a fazer mijinhas nas calças dos colegas e nas pernas das colegas, a sua vocação de egoísta infeliz, malvada e invejosa, voltaria a reconciliar-se com a vida, com o mundo.

Nocturno

O boato



Rumor

Página

Página assustada com a arrogância do leitor? Página tímida e envergonhada de não ter ou de ter ido tão longe ? Página enxovalhada que ainda não recuperou da ofensa? Página intimidada com a inteligência do leitor? Camisa de Verão literária enrugada nas costas? Página descontente por ter sido mal traduzida? Who knows?

Tuesday, March 07, 2006

Sunday, March 05, 2006

Mas do nada



















Deixaste os outros andar por aí de sala em sala, de jornal em jornal, a construir a sua frágil biografia de poetas. E tu escrevias, lias no recanto obscuro de um café os teus poemas a um amigo, ias enchendo a arca. Para eles a glória efémera. Para ti a duração. Mas o que é durar?

Não viveste a tua vida como Camões viveu a sua porque já não era possível. Ele pôde sonhar, ele pôde remar contra ventos e marés, esperando a consolação do amor. Mas haverá recompensa?

Tu, como nós, já sabias que todas as esperanças são vãs, que só a imaginação do futuro nos excita, que desaguar no presente é encontrar-se com a decepção. Nada, não havia nada. Mas do nada, em silêncio aparentemente, ia nascendo a vida, outra vida.

Camões, grande Camões, ingénua era ainda a tua perturbação. Ou não seria, quem sabe? Conheceste a solidão e a impossibilidade do amor, desesperaste. Mas sofreste esperando deixar de sofrer, embora soubesses que tudo é mudança, que volta de novo o tempo das privações e do abandono depois de cada ilusão febril da posse, da realização

Friday, March 03, 2006

You cannot escape ideology








"Like the work of art as defined by the discourse of aesthetics, the bourgeois subject is autonomous and self-determining, acknowledges no merely extrinsic law but instead, in some mysterious fashion, gives the law to itself. In doing so, the law becomes the form which shapes into harmonious unity the turbulent content of the subject's appetites and inclinations. The compulsion of autocratic power is replaced by the more gratifying compulsion of the subject's self-identity." (p. 23)