Tuesday, May 30, 2006

Leituras (1)

"John left" or "John was tall" are as close as narrative can come to stage imitation, an actor walking into the wings or the choice of a tall rather than short actor. So it seems reasonable to call the narrative statements of such actions and presentations "unnarrated." But "John left, unfortunately" or "John was tall, unfortunately" necessarily presuppose a speaker who has taken it upon himself to judge what is and what is not unfortunate. They are clearly interpretive statements, and interpretation implies a narrator.
In the strict sense, of course, all statements are "mediated” since they are composed by someone. Even dialogue has to be invented by an author. But it is quite clear (well established in theory and criticism) that we must distinguish between the narrator, or speaker, the one currently "telling" the story, and the author, the ultimate designer of the fable, who also decides, for example, whether to have a narrator, and if so, how prominent he should be. It is a fundamental convention to ignore the author, but not the narrator. The narrator may be overt - a real character (Conrad's Marlow) or an intrusive outside party (the narrator of Tom Jones). Or he may be "absent,’' as in some of Hemingway's or Dorothy Parker's stories containing only dialogue and uncommented-upon action. The "narrator,’' when he appears, is a demonstrable, recognizable entity immanent to the narrative itself. Every narrative, even one wholly "shown" or unmediated, finally has an author, the one who devised it. But "narrator" should not be used in that sense. Rather it should mean only the someone - person or presence - actually telling the story to an audience, no matter how minimally evoked his voice or the audience’s listening ear.


(Seymour Chatman, Story and Discourse, Narrative Structure
in Fiction and Film
, Cornell University Press, 1978)

Friday, May 26, 2006

tédio etc.

chegou a casa tinha sono e doíam-lhe as pernas mas deitou-se e não conseguia adormecer por isso levantou-se foi beber um copo de água depois sentou-se no sofá de coiro e acendeu um cigarro devia ter coisas para fazer mas nada era urgente nem realmente necessário na sua memória brilhavam ainda os olhos o sorriso de uma rapariga debruçava-se com curiosidade sobre uma certa gravidade que lhe tinha parecido pressentir no rosto dela quando as pessoas ficam bruscamente sérias pensativas a gente surpreende-se e dá pela sua existência interrompemos a distracção nasce a intriga o mistério adensa-se ingenuidade nossa provavelmente não deixamos nunca de acreditar é assim e a noite pode parecer que vai salvar-se só que a maior parte das vezes mas de que adiantam os comentários as queixas as reflexões eles estavam no restaurante a conversar de banalidades rapazes e raparigas estudantes depois do congresso da tarde e o serão tinha passado amavelmente depois tinham ido em grupo tomar café e as conversas tinham continuado em cada um deles o tédio em vias de ser interrompido mas devia ser ilusão passageira erro uma vez mais fulgor momentâneo em breve regressaria o conformismo e a convicção de que nada poderia de facto acontecer que os tirasse da monótona sucessão dos dias e das noites a circunstância no entanto era de oiro todos os ingredientes parecia que estavam ali reunidos e a querer conjugar-se só que para que alguma coisa acontecesse era necessário acreditar o suficiente na importância do que podia acontecer e na possibilidade de o que ia acontecer poder durar o tempo suficiente para que algumas palavras as mais secretas e discretas talvez as mais doridas fossem ditas arriscadas na realidade ele nem chegou a aprofundar a questão estava cansado as pessoas cada uma na sua teia de aranha nas suas dúvidas na sua inquietação na sua necessidade de agradar e de ser amadas sorriam e falavam e riam-se mas em breve partiriam cada uma para seu lado sós ele não as conhecia cada uma delas um universo a descobrir uma narrativa a interpretar a aprofundar em breve se esqueceria da sua existência se esqueceriam uns dos outros definitivamente ele levou as raparigas ao hotel e o sorriso dela e as conversas e os risos das outras se tinha havido no ar qualquer coisa que se assemelhava a uma promessa de acontecimento tinham sido apenas restos de uma visão romântica do mundo e da vida quando elas se afastaram ele só de novo virou o carro dirigiu-se para o centro da cidade depois foi indo para casa sentia-se tranquilo lento já se habituara ao tédio ainda parou num bar foi uma ideia que lhe veio enquanto conduzia na auto-estrada mas o bar estava quase vazio e não lhe apetecia beber nem ficar ali a olhar para dois ou três casais tristonhos que lá estavam a beber cerveja foi-se logo embora de manhã o filho tinha-lhe telefonado o avô tinha morrido na véspera já se esperava não foi surpresa tinha caído do telhado da casa a mania das reparações o gosto pela carpintaria toda a vida tinha sido assim há paixões inexplicáveis vícios incontroláveis e depois um dia mas a morte é a morte e ele tentava recordar-se dos anos antigos quando eram todos mais jovens fora-se esse tempo progressivamente nada a fazer que podemos opor à nossa destruição lenta às vezes quando ele vinha de férias ou passar o fim-de-semana iam à pesca juntos no barco de madeira a motor ou então ele ajudava-o na horta à beira-mar obra dele terra que ele trabalhara com carinho entre as pedras de granito abrira uma espécie de tanque ou cisterna para recolher e guardar a água da chuva que depois se usava para regar as batatas outras vezes ocupavam-se dos barcos e dos anzóis longas linhas que suspendiam sentados no barco de madeira ou longos fios de cobre que arrastavam atrás do barco quando havia cavalas no mar que cercava as pequenas ilhas e os arenques a saltar na superfície o deixavam adivinhar e os guiavam agora o homem que se tornara parte da sua família acabava de morrer e não tinha havido despedida a noite entretanto a vida entretanto continuava e nela no tempo estava inscrita a morte de todos a morte de tudo o desaparecimento definitivo de tudo o que ia vivendo e ainda há oh milagre quem acredite na imortalidade e se envaideça por ter escrito um livro ou cantado uma canção ou amado intensamente outra pessoa ou sido campeão de qualquer coisa ele abanava a cabeça situava-se fora do tempo já posterior ao seu desaparecimento como se fosse deus ou lhe fosse indiferente a sua própria morte e a sua própria vida tudo lhe parecia ao mesmo tempo trágico e divertido as ilusões a vaidade que nos mantêm de pé e frenéticos são difíceis de explicar ou fáceis depende da perspectiva que se quer adoptar enfim pequenos vermes é o que nós somos bichinhos insignificantes não há glória momentânea nem dinheiro nem fama que nos eleve acima do destino comum e igual porque não se dão conta disso as pessoas ele não sabia e porque se zangam se não estamos de acordo com elas também não se podia explicar e porque se imaginam tão importantes tão originais tão heróicos se os altares são de papel ou de areia e uma suave brisa os deita abaixo com uma carícia vaidosamente raivosamente alegremente passam o tempo de lança em riste contra aqueles que não lhes lambem as botas não lhes enaltecem a personalidade não os adulam a vaidade humana sem limites nem remédio o problema é universal e intemporal tem a ver com o ego com as montanhas arenosas do ego de cada um todos querem todos queremos ser lembrados e citados e homenageados pobres deles pobres de nós não se conformam não nos conformamos com a modéstia do destino vermezinhos insignificantes e ridículos bem sei é fácil cair nessas tentações e nesses pecados e exageros depois começar a insultar ou caluniar os outros com ironias infantis e despropositadas que não restituem a dignidade perdida nem a imortalidade a ninguém lutas inglórias quanto mais aprendia sobre a vida e sobre os homens mais absurda lhe parecia a convicção em que eles vivem em que nós vivemos da sua própria da nossa magnífica esplendorosa existência nos bares à noite uma melancolia surpreendente paira às vezes no ar as fendas da solidão abrem-se ou ameaçam abrir-se mas ele detesta bares prefere ficar em casa ou andar pelas ruas a pé é o seu vício um deles só que é cada vez mais arriscado andar a pé na rua à noite drogados parasitas deserdados infestam as avenidas não pára de crescer à volta de nós a paisagem da miséria e do desespero estava portanto em casa a pensar um pouco nestas coisas em vez de ir dormir nenhum filme a que lhe apetecesse assistir ou livro que lhe apetecesse ler ninguém com quem falar nem lhe apetecia falar o tempo ia passando e nele ele ia envelhecendo sem remédio nem proveito aparentemente e o computador na sua frente as palavras iam-se inscrevendo nele como se vindas de um lugar obscuro invisível misterioso foi beber outro copo de água e já não sabia situar-se em relação ao tempo era como se vivesse numa espécie de eternidade sempre igual repetição dos dias e das noites dos anos e de tudo o que nos acontece narrativa conhecida aprendida cansativa

Thursday, May 25, 2006

Luandino Vieira

(...)

Nessa hora de quase cinco horas, as folhas xaxuaIhavam baixinho e a sombra estendida estava boa, fresca, parecia era água de muringue. Sentado nas pedras negras do fumo, Zeca Santos esperava Delfina, mirando ansioso a porta da fábrica. Tinha combinado com a pequena, nesse dia ela ia pedir para sair mais cedo, iam dar encontro, Zeca queria continuar essas falas malandras do baile de sábado. Delfina merengara muito bem com ele e quando o conjunto depois arrebentou com a música do Kabulu, ninguém mais lhes agarrou, quase o baile ia ficar só eles os dois, toda a gente parada a assistir-lhes, vaidosos e satisfeitos. Daí é que nasceu a peleja com João Rosa, o rapaz andava perseguir a garota, queria-Ihe para ele, mas nessa noite Zeca Santos, com a satisfação dos olhos de Delfina, pelejava mesmo que eram muitos. A sorte ficou no lado dele, azar no lado de João Rosa, porque lá fora a luz era pouca e o rapaz usava óculos, falhou o soco na cara de Zeca e eIe então, sem custar nada, caçou-lhe o braço e passou-lhe a bassula nas costas, mergulhou-lhe em cima da areia.
Mas, mesmo que na peleja Zeca tinha ganhado, o mulato continuou vir buscar Delfina, com seu carro pequeno, muitas vezes costumava-lhe trazer também; nessa hora era já escuro, Zeca ficava raivado, pensando o silêncio e o escondido do carro, se calhar o sacrista adian¬tava apalpar as pernas na namorada muitas vezes, quem sabe? outras coisas mesmo, o carro estava-lhe ajudar...
Por causa essas coisas, nesse dia tinha decidido. Ou era dos copos de vinho no almoço e mais outro com Maneco depois que falaram no Sebastião, ou era ainda, cada vez ,essa promessa de trabalho que arranjara, a verdade agora estava ver tudo com mais confiança, satisfeito quase; sem ele querer ainda o pensamento do dinheiro para mandar consertar sapatos, muitas vezes umas calças novas, juntava-se com a figura de Delfina, com seu riso e seu falar, seu encostar pequeno e bom, na hora dos tangos, nas farras...

(...)

Luandino Vieira, "Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos", Luuanda, 1965

Wednesday, May 24, 2006

Prémios e críticos

Os prémios literários valem o que valem aqueles que os atribuem, não aqueles que os recebem. Nenhum júri conseguiu nunca tornar importante um escritor medíocre; quando por falta de ética ou de qualificação o júri foi por esse caminho, o que ficou a nu foi a mediocridade ou a corrupção (passiva ou activa) dos membros do júri.

Sobre a crítica literária dos jornais (e não só) pode dizer-se exactamente a mesma coisa: embora a aparente seriedade da embalagem tenda a iludir os incautos, os jornais limitam-se a divulgar massivamente e bombasticamente as preferências de um grupo identificável de pessoas. Os distribuidores de recompensas dão-nos uma ajuda preciosa quando se trata de entender o imaginário e a cultura da classe dita intelectual de uma sociedade em determinada época.

Peter Handke

Bande dessinée

As seen on TV

















Tuesday, May 23, 2006

Monday, May 22, 2006

Tuesday, May 16, 2006

Monday, May 15, 2006

Bons leitores?

"I would prefer to say that although any reader comes to a text out of a background, the good readers are those who try to let the text dominate the background rather than vice versa."
(Richard Rorty)

Edward Mendieta, Editor, Take care of freedom and truth will take care of itself, Interviews with Richard Rorty, Stanford University Press, 2006

Sede de sangue

A sede de sangue de alguns portugueses é imensa. Ontem recebei um email que acusava o ministro Alberto Costa de ter nomeado a filha para um trabalho bem pago no seu Ministério. Um amigo a quem enviei a mensagem assinalou a calúnia: a pessoa que foi nomeada não é filha do ministro. Arranjem outro osso, ó justiceiros.

Sunday, May 14, 2006

Saturday, May 13, 2006

Thursday, May 11, 2006

Wednesday, May 10, 2006

Tuesday, May 09, 2006

Desconstrucções

"every deconstruction turns, in spite of itself, into its own construct in need of further deconstruction. Or, to put the pattern in political rather than philosophical terms, every subversive struggle against the repressive power structure becomes a struggle for its own power and thus its own right to repress."

Murray Krieger, "The literary, the textual, the social", in Murray Krieger, Editor, The Aims of Representation - Subject, Text, History, Stanford University Press, California, 1987, p. 10



Casas















Monday, May 08, 2006

Saturday, May 06, 2006

Maio



















(Estêvão Camilo, Maio 2006)

How real is real?




















Casa amarela

Tuesday, May 02, 2006

citações, opiniões

em primeiro lugar disse eu a minha opinião acerca desse assunto e da maior parte dos assuntos é diferente daquela que me atribuem pois eu nunca me permitiria emitir opiniões ou condenar ou elogiar quero eu dizer de maneira responsável sem ter estudado a questão e em segundo lugar já se sabe as pessoas gostam de caluniar de dizer mal de atribuir aos outros irresponsavelmente atitudes e palavras que nada têm a ver na maior parte dos casos com o que se passou se é que se passou alguma coisa por isso concordemos em que as palavras alheias citadas em discurso directo ou indirecto ou indirecto livre podem trair apenas o desejo de deturpar de manipular de influenciar de interferir com as histórias a vida das pessoas e das instituições já se sabe disse ela a luta pelo poder e pela vantagem em geral assume as formas mais disfarçadas nada de novo deve ter sido assim desde sempre desde que sobre a terra surgiram animais e depois homens e mulheres os americanos por exemplo acrescentei eu ou para ser mais rigoroso aqueles que vivem na américa por exemplo nunca caluniam ninguém a não ser sob a forma de discurso virtuoso e isento trafulhas é o que muitos deles são e incompetentes uns aldrabões e nem sempre é por mal é por incapacidade e vício ou leviandade o liberalismo selvagem facilita e aconselha isso mesmo isto é a manter a ilusão de que tudo está a correr bem e vai correr bem eles são exímios nisso e justificam-se quando sacaneiam os outros dizendo que agem para cumprir o seu dever de cidadãos e pretendem que são e estão a ser honestíssimos competentíssimos informadíssimos e ela comentou aliás nesse país existem manuais e documentos que provam sem qualquer sombra de dúvida que tudo foi previsto que se sabe como fazer antever preparar corrigir organizar cientificamente correctamente minuciosamente judiciosamente todas as coisas o problema e eu acrescentei o problema é que quando tudo no momento exacto acontece falhar eles criam comissões fazem investigações acusam inocentam falam falam escrevem o processo de aperfeiçoamento das instituições afinal nunca mais termina nunca estará terminado há sempre imensos graves erros lacunas insuficiências a corrigir no entanto antes da catástrofe ou da asneira ninguém se deu conta disso é evidente eles são é especialistas teóricos e exímios em sacar dinheiro onde o houver disse ela sabem ou dão a impressão de saber o que deve fazer-se para evitar a catástrofe são especialistas em tudo e mais alguma coisa inventam até doenças para poder vender medicamentos que as devem curar mas na prática depois nada é como estava previsto ou foi planeado eles aliás disse eu querem lá saber da prática a prática dá muito trabalho exige esforço atenção devoção rigor e tempo ora eles uma grande parte deles são é preguiçosos estão no trabalho mas estão a pensar noutra coisa a execução que é a chave mestra de tudo de todos os empreendimentos que lhes importa a execução e então os projectos falham nunca se realizam como previsto problema sério o trabalho nas sociedades modernas disse ela continua a escravidão das pessoas ou são elas que só querem é receber o salário sem fazer nada grave questão sempre de actualidade e não há resposta única há de tudo gente com todas as qualidades e com todos os defeitos por isso é que nunca mais se acerta o passo nenhuma revolução triunfou até hoje completamente e ainda bem de muitos pontos de vista ainda bem mas pelo menos podiam ter-se corrigido vícios grosseiros de uns e de outros e criado mais justiça o dinheiro é o verdadeiro motor desta sociedade não o amor nem nada de humano mas apenas o vil interesse o preço da gasolina viste o preço da gasolina disse eu como subiu de ontem para hoje não há direito aí está as companhias de petróleo especulam ganham milhões e os políticos hipocritamente dizem que vão investigar o que se passa mas na realidade é tudo uma fantochada não há moral só há podridão e ambição desmedida e nojenta a própria guerra disse ela é um bom pretexto para ganhar mais dinheiro e eu fartei-me desta conversa a dado momento e pensei mas então e a alma e o espírito quando é que teremos paz e uma vida digna desse nome quando é que deixaremos de ter de lutar pelos nossos legítimos direitos e interesses e ela ouviu-me por detrás da chávena do café e riu-se e eu irritei-me ou fiz que me irritei e ela riu-se de novo e disse que não valia a pena levar a vida tão a sério de qualquer modo estamos feitos on est tous foutus rien à faire disait-elle a mentira e o interesse sempre foram o motor da história os ingénuos protestam e acreditam que protestar serve para alguma coisa pauvres cons os revolucionários por sua vez sempre falharam por excesso de exigências e de rigidez ou de beatice ou de arrogância ou de estupidez e eu disse pois é eles querem pôr as pessoas a puxar à carroça mas ninguém gosta de puxar à carroça e depois fiquei calado a ouvir o que ela ia dizendo e pensava se me vejo longe de tudo isto da luta quotidiana pela vida e por um lugar ao sol das mentiras das intrigas longe já das vaidades humanas dos prestígios das dinastias das hierarquias dos heroísmos dos literatos e dos artistas e dos políticos e dos jornalistas e dos professores e dos moralistas e dos economistas meu deus como me vou sentir feliz mas era ilusão minha e eu sabia-o pois a história repete-se ciclicamente são os avanços e recuos do capital e do proletariado ou do que dele resta cada um quer é que lhe reconheçam direitos e lhe façam homenagens é a raça humana é assim nada a fazer e ela continuava a falar mas eu tinha deixado de a ouvir o rosto enrugava-se-lhe enquanto ia rindo e comentando eu simpatizava com ela com a madeixa loira que se balançava na sua testa mas apetecia-me ir para casa e dormir ela deu-se conta e disse levo-te a casa estás a fechar os olhos estás cheio de sono e nunca gostaste de discussões cansam-te e não adiantam eu sei o que tu pensas já te conheço há muito tempo vamos embora já tiveste a tua dose hoje amanhã continuamos mas no carro a conversa continuou depois quando estávamos a chegar ao campo grande eu disse tenho uma sede dos diabos apetece-me uma cerveja e ela protestou estava com sono tinha de se levantar cedo não sejas tão ambiciosa disse eu e ela disse eu sou apenas responsável não sou ambiciosa tu viveste a maior parte da tua vida no estrangeiro não sabes o que é a luta pela vida neste país de aristocratas sem nobreza nenhuma e de plebeus sem maneiras nem moral nem escrúpulos a luta pela vida é bárbara em todo o lado é selvagem meu amigo e eu ri-me dei uma gargalhada e acrescentei que não só tinha tido que lidar com uma corja de filhos da mãe no estrangeiro tão vigaristas e ambiciosos e aldrabões e arrogantes e falsos como alguns dos portugueses de que ela falava como ainda tinha tido que aturar as manias das grandezas e as parvoíces de alguns portugueses verdadeiros que se tinham atravessado no meu caminho por fatalidade minha ou por acaso ok ok disse ela não vamos discutir mais esse assunto o mundo não tem salvação salva-te tu se puderes e eu faço o mesmo na realidade eu até estou de acordo contigo a raça humana não tem solução a gente a dado momento cansa-se não é mas agora só penso em dormir dormir desaparecer ah que bom que deve ser desaparecer entre os lençóis e dormir dormir até amanhã de manhã