Saturday, June 24, 2006

Setembro já

Tu sempre sorris,
os teus dentes,
o teu rosto,
tu sorris,
e talvez
vejas o
que estás a
olhar, talvez.

Eu sempre
vi no teu
rosto, nos
teus lábios
a cor azul
dos céus tristes
do Outono,
das fontes
ao crepúsculo
entre os arbustos,
perdoa, tu
sorrias, tu
sorrias, mas
eu sempre
vi, sempre,
um lugar na
sombra onde
tu não me
vias, nem vias
o sol, nem sabias
sorrir.

Se as palavras,
se a arte,
se falar,
se olhar,
se ver, se
saber servissem
de alguma coisa.
Não sei que
dizer, não há
nada a dizer,
um dia tu
deixarás de
sorrir, eu
nada saberei
de ti, na
sombra tu
descobrirás
o destino, o
sentido,
a alegria talvez
de viver enfim.


(C.B., 7 de Setembro de 2005)

Livraria
















Bobby Sands

Friday, June 23, 2006

Vantagens do silêncio

Não falar é não querer distinguir, preferir não tomar partido. Quem não fala não escolhe, mas também não recusa; não acerta, mas também não erra; não agrada, mas também não ofende; não mostra que sabe, mas também não mostra que ignora; não se auto-retrata, mas também não tem a pretensão de retratar o mundo; não elogia, mas também não condena; não se compromete, mas também não compromete ninguém; não adula nem põe num altar, mas também não calunia nem ostraciza; não se eleva, mas também não se rebaixa. Quem não falou não tem de falar de novo para corrigir o que disse antes. Apesar disso falamos. Porquê?

Thursday, June 22, 2006

Wednesday, June 21, 2006

Monday, June 19, 2006

Thursday, June 15, 2006

As razões do exagero...


“I think a frequent cause of overstatement is diffidence: wondering whether what one is about to say is worth hearing. So one embellishes it a bit, not quite deliberately. If the message is relayed, embellishment is subject to iteration; and the message becomes the more worth relaying as the embellishment proceeds. A tacit, tentative reservation of the full belief is the part of the prudent listener. “


Aplicada à arte, esta observação torna-se particularmente irónica: por receio de não produzir "obra artística", o artista menor tem tendência a recorrer a processos que na sua opinião imatura são "artísticos" e hão-de por consequência conferir qualidade estética à obra. A gente sente o artifício e lamenta a ambição ingénua. Quanto ao conceito de "artista menor", como é evidente, escapa a qualquer definição científica e convincente, o que torna o problema muito mais interessante do que parecia.

Wednesday, June 14, 2006

Literary form

Maybe it's not (completely) true:

"literary form is a matter of the text's psychological reception and not inherent to the text itself."


Outro texto sobre o mesmo dificílimo assunto:

Iouri Tynianov, Le vers lui-même, Les probèmes du vers, traduit du russe, Paris, 10/18, 1977

Monday, June 12, 2006

Saturday, June 10, 2006

And nothing was a phrase

(…)

Again, the fevered cresting memory pulls me back in, to that moment when I think it was that the future had suddenly vanished for me, had become a soft, deadened wall. Back there at the beginning, the end, when Barry told me flat-out that I had AIDS, I didn't feel it, although I also saw that denial was futile. Barry was not even remotely real to me at that point. He was merely a conductor, a lightning rod of medical error. I still didn't believe he was a good doctor; that would come later. The framework of the self wasn't changed by the words, the general feeling of its being my body and its having been my body all my life didn't dissolve, as it would in a few days. I had no sense of gestating my death.
Ellen says that she hung back and expected me to be violent psychically, and to want death immediately once I had accepted the diagnosis. Well, that was true. But I was also afraid of death, of my own final silence.
And I was ashamed toward her, and angry at her. She does not steadily believe that I love her - it is one of her least endearing traits to expect proof at unreasonable intervals. And what is love? My measure of it is that I should have died to spare her. Her measure is for us to be together longer.
I thought I could feel myself being suffocated second by second. What was strange was that all sense of presence, all sense of poetry and style, all sense of idea left me. It was gone, with not one trace, one flicker remaining. I had a pale sense of the lost strength it would take to think or feel a metaphor, and of how distant it was from me. Everything was suffocation and the sentence of death, the termite-like democracy and chemical gusts of malaise and heat, of twisting fever, and the lazy but busy simmering of the disease in me. Everything outside me was Ellen's breath and the color of the walls in the dim light and was the hospital noises and the television set on its wall mount and a ticking slide of the moments.
And nothing was a phrase or seed of speech, nothing carried illumination in it, nothing spoke of meaning, of anything beyond breath. Attentive to nothing but breath, perhaps in my dying I was alive in a real and complete way, a human way, for the first time after ten or fifteen years of hard work. I lay awake in an almost bright amusement.

(…)


Harold Brodkey (1930-1996), The Wild Darkness, The Story of my Death, Metropolitan Books, Henry Holt and Comapany, New York, 1996


If I had to give up what I've written in order to be clear of this disease, I wouldn't do it.


Friday, June 09, 2006

Thursday, June 08, 2006

Tuesday, June 06, 2006

Os Canadair e o Mundial

- Acabo de ler num jornal que a Espanha vai enviar 2 aviões Canadair a Portugal para apagar um incêndio que ultrapassa as nossas possibilidades. Como nós, pelo que tenho lido, somos bons mesmo é em futebol, pergunto-me: no caso de os espanhóis terem algum problema no Mundial, será que os bébés queridos da pátria, os nossos craques, os nossos heróis, os nossos noctívagos, os descendentes dos navegantes e de Camões, vão dar uma ajudazinha? Seria justo.
- Emprestávamos-lhes o Cristiano Ronaldo, o Caneira ou o Figo, por exemplo?
- Não digas asneiras. Oferecíamos-lhes o Simão, que anda há anos frustrado e triste por não ser contratado por um grande clube europeu; e o Petit, que além de não ser para brincadeiras nem sequer tem um nome português. E ficávamos pagos.

Monday, June 05, 2006

uma questão de estratégia

a tentação de responder de não deixar sem resposta as provocações é grande mas a gente tem de resistir não se pode passar a vida a responder ao que dizem e pensam outras pessoas era o que faltava e depois não é seguro que nos estejam a provocar a nós exactamente é preciso ter cuidado não ficar mais paranóico do que o necessário aliás tenho uma teoria a esse respeito disse ele o jovem que numa mesa do bar ao lado da minha ia alternando o abrir a boca para falar e o abrir a boca para beber a cerveja e a rapariga que o escutava parecia atenta usava uns óculos de tartaruga castanhos e sorria-lhe ou ficava séria mas estava concentrada no rosto do rapaz os blogues por exemplo dizia ele tornam público constantemente o que durante muito tempo foi secreto as opiniões das pessoas agora viajam invadem todos os espaços é preciso proteger-se claro convém estar informado mas não exageremos eu já decidi blogues só leio meia dúzia também não me dou com toda a gente nem me interessa saber o que pensa toda a gente se começamos a lê-los então eles sabem que nos podem manipular influenciar irritar por isso não leio a maior parte dos blogues que na realidade só reproduzem o que se passa com as religiões com os clubes de futebol e com os partidos políticos eu por exemplo sou benfiquista e de direita está a ver detesto os sportinguistas e os socialistas de comunistas nem falo não existem para mim os autores dos blogues acrescentou a rapariga timidamente jogam muito em equipa eu sei já percebi eles conhecem-se citam-se adulam-se protegem-se criam redes de influência e de opinião une-os o que eles pensam ser uma visão actualizada e informada do mundo ou pelo menos pensam que sim que têm o poder de nos caquetizar e que o estilo resplandece então quotidianamente brilha cega de tão luminosamente irónico e divertido às vezes sarcástico querem ocupar o lugar dos jornais ter esse prestígio antigo e já desaparecido dos jornais mas a gente topa-os logo e já sabe o que vai encontrar quando os abre eu pessoalmente disse o rapaz acho que vivemos numa grande balbúrdia e que os blogues contribuem para isso mas há mais há outras coisas interrompeu a rapariga as pessoas não agem sem razão e se há tantos blogues é provavelmente porque a solidão aumentou porque as possibilidades de comunicar com pessoas reais diminui à medida que avança o capitalismo a americanização do mundo a selvajaria da concorrência com as suas exigências intranquilidade ambições confusões antropofagia apetites erros ódios mentiras ameaças escaramuças sofrimento feridas seria no entanto um erro imaginar que basta ter um blogue para alcançar a fama e a glória ou para proteger-se da insignificância comentou o rapaz tudo isso as palavras dos blogues é fugaz as palavras são fugazes aliás já das palavras impressas no papel se tem de dizer o mesmo e então a rapariga dos óculos de tartaruga ou que pareciam de tartaruga interrompeu o rapaz outra vez e disse calmamente ponderadamente que também ela tinha tido um momento de entusiasmo com os blogues a vertigem de ter uma voz de ter estilo e de ser brilhante gratuitamente por inspiração apenas por inspiração a consolação sublime da arte quando não há mais nada a que se agarrar em que se consubstancializar a satisfação íntima secreta de tão facilmente dizer o que lhe apetecia o que sentia o que tinha descoberto de manhã ou na véspera de criticar de se opor de apoiar de estabelecer cumplicidades quem sabe se não era uma maneira de entrar na história mas uma tarde alguns meses depois do início do entusiasmo tinha tido uma espécie de pressentimento que tudo era pó vento areia nos olhos ingenuidade e vaidade sede infantil de glória e de estilo ironias de estudante universitário frequentador assíduo de cafés e dos debates da cultura estúpido como se ser conhecido fosse uma coisa assim tão importante como se pensar em público provasse alguma coisa acerca da nossa competência e inteligência e cultura e sabedoria da vida como se pensar e falar em público com a regularidade com que as vacas dão leite fosse o alpe d'huez da volta à frança em bicicleta meu deus meu deus meu deus as pessoas acreditam em coisas tão estúpidas escrevo falo logo existo ah o joaquim agostinho se ainda cá estivesse se não tivesse sido vítima da incúria nacional havia de dizer-lhes umas coisas sobre o que é subir as montanhas francesas de bicicleta e sem ser empurrado pelos espectadores é assim conhecem-me ouviram falar de mim logo existo logo ganhei mais uma etapa logo por consequência marquei mais um golo escrevi e leram-me logo posso sair à rua por consequência com ares de triunfo e de dono do mundo e riu-se muito muito durante quase um minuto deu mesmo várias gargalhadas com a sua bela garganta juvenil depois puxou a cadeira um pouco para trás para ganhar distância afastou os cabelos dos olhos e acrescentou a verdade é que existo muito mais quando não falo nem escrevo e me limito a viver a minha vida sem me preocupar com o que se diz por aí com essa algazarra essa febre essa mania da actualização permanente reboot reboot reboot quero lá saber e a partir daí quando cheguei a esta conclusão comecei a dormir melhor e faço mais coisas não tenho deixei de ter a desculpa do blogue como um bloco de notas de lamentos lugar seguro e fixo aparentemente de resgate do irresgatável lugar da obra montra da loja do eu deixei de ter esse subterfúgio para me servir de compensação o que não cheguei a fazer não o fiz pronto paciência o que morreu ou falhou está perdido por ora paciência e se não mostrei estar a par das últimas e espectaculares novidades das artes e das ciências e da filosofia paciência que se há-de fazer e sou tão lenta com pouco me entretenho a pensar e a sentir quanto às intrigas provincianas dos intelectuais portugueses de uns que têm blogues e falam como se tivessem uma cátedra no púlpito da igreja deixe-me rir tem piada de facto esses meninos esses doutores têm uma vocação didáctica indiscutível devem passar o tempo nos cafés a perorar a mostrar como são sabichões e têm ciência e solução para todos os males do país enfim temos de aguentar padrecas de merda desculpe a linguagem às vezes dá-me nojo este país os outros provavelmente não são muito diferentes só que têm a vantagem de ser maiores enfim paciência e ao dizer isto encolheu os ombros e o rapaz ficou sério e disse mas eu também escrevo nos jornais e há diferenças de facto o jornal não me escraviza da mesma maneira o blogue também já percebi é uma espécie de palco onde vou tentando mostrar ao mundo que sou inteligente que estou informado que têm de contar comigo que não os deixarei pôr o pé em ramo verde era o que faltava eu até vivo em lisboa e não sou idiota até escrevo bem sempre escrevi aliás os blogues penso eu às vezes são como livros que a gente vai escrevendo e se morrêssemos de repente a questão da obra póstuma nem chegaria a colocar-se realmente pois o blogue é como um diário fica logo tudo anotado e ela perguntou a rapariga perguntou se tudo fica anotado realmente que ela duvidava e ele o rapaz respondeu que não pois de facto há coisas que a gente também escreve no papel e ninguém sabe disso por outro lado continuou ele nós pensamos e sentimos tanta coisa que um blogue acaba por representar apenas uma parte muito reduzida da totalidade do ser em nós isto é daquilo que nos faz andar por aí de um lado para o outro digamos que é um ideal um projecto um sintoma dos projectos que perseguimos das preocupações que nos atormentam e há que ter em conta o pudor o pudor varia com as pessoas com as situações com os momentos com os dias e a rapariga interrompeu de novo o rapaz levantou a bela mão branca suavemente e comentou que a questão do pudor não tinha nada a ver evidentemente com a exposição ou divulgação da vida privada da vida real das pessoas dos autores dos blogues se há autobiografia nos blogues é apenas como projecto como coisa que quer construir-se disse ela a exibição que deliberadamente decidimos fazer de certos aspectos da vida privada comum a todos nós da vida real igual monotonamente igual à partida de toda a gente é apenas parte de um projecto a face visível e sintomática do projecto da intenção do jogo o ruído que se sobrepõe ao grande silêncio que nos habita por isso acrescentou ela me fazem às vezes sorrir os bloguistas que imaginam ter-nos na mão graças às artes e manhas da retórica que adoptam de que se mostram conscientes que aplicam aos outros e quando o rapaz que se mostrava atento ao que ela dizia enquanto acariciava os cabelos com a mão serenamente acabou a cerveja disse ora aí está a questão da sinceridade tem-me preocupado bastante e não sei nunca que concluir pois sem a gente se dar conta a estratégia tomou conta do discurso e do blogue e da nossa intervenção permanente intervenção talvez circular muito limitada a nós mesmos que nos lemos uns aos outros a estratégia tomou conta da actividade do desejo de influência da vontade de intervenção e a rapariga disse que na realidade talvez seja tudo uma ilusão os resultados as consequências dos nossos discursos dos ruídos que nós vamos fazendo provavelmente são nulos ou insignificantes o gráfico que os representaria não nos é facultado e a vida pública a imagem da vida que de facto nós criamos ou ajudamos a ampliar como antes a criaram e mantiveram os livros os discursos políticos e religiosos e incansavelmente monotamente a prosa abusiva dos jornais onde uma minoria pretensamente esclarecida nos impingia falsa sabedoria falsa justiça falsa cultura falsa ciência isto é uma imagem da vida uma concepção do mundo que eram as das classes no poder que entre si dividiam partilhavam opiniões e eu cansei-me da conversa apesar de a achar interessante apesar do encanto da sedução que sobre o meu espírito exerciam o rosto e as mãos da rapariga fui-me embora para casa ler um livro

Sunday, June 04, 2006

Ângulos














Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998)

Faz hoje 8 anos que faleceu Maria de Lourdes Belchior. Aqueles que tiveram o privilégio de a conhecer não a esquecem. Curiosa coincidência: Jorge de Sena tinha falecido no mesmo dia em 1978 (faz hoje 20 anos). Maria de Lourdes Belchior tinha sucedido a Jorge de Sena no Departamento de Espanhol e Português da UCSB, tendo deixado a Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, em 1989, para ir dirigir o Centre Culturel Portugais da Fundação Gulbenkian em Paris. Fui seu aluno de Literatura Espanhola na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e quando defendi a minha tese de Doctorat d'État na Universidade de Haute Bretagne em Rennes sob a orientação de Jean-Michel Massa, em Março de 1983, ela fez parte do júri. Quando decidiu deixar a UCSB, incitou-me a concorrer ao lugar que deixava vago. Sempre achei uma grande injustiça (será por ignorância?) que em Portugal se recorde apenas a figura de Jorge de Sena quando se fala da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

Ver na página do Instituto Camões a sua biografia.