Friday, August 25, 2006

Ibsen

saber de ti

eu não saía do quarto nem de dia nem de noite. não me apetecia falar nem ouvir nem ver nem ser visto. não me apetecia pensar nem recordar-me nem imaginar o futuro. de dia eu abria ligeiramente uma das portadas da janela para deixar entrar um pouco a luz. de noite abria as duas portadas da janela para deixar entrar o ar. estava calor mas era suportável. de manhã estava sempre mais fresco. dormi muito e quando não conseguia adormecer tomava valium. às vezes doía-me a cabeça. para me manter em forma pedalava na bicicleta de ginásio no canto no quarto. telefonava para o supermercado e eles traziam-me o que eu pedia, leite e vinho, pão e queijo, batatas, arroz, tabaco, sal e açúcar, papel para escrever, o que era preciso. perdi a noção do tempo algumas vezes mas podia ligar o computador e sabia que dia era que horas eram em que mês estávamos. imagino que ninguém me telefonava mas isso eu não o podia saber porque eu tinha o telefone desligado e só o ligava para telefonar para o supermercado. não sei se era a vida que deixara de me interessar ou as pessoas ou se eu estava apenas a fazer uma experiência a obedecer a impulsos inexplicáveis. não era feliz nem infeliz nem pensava nisso só sabia que estava só e que era natural eu estar só finalmente longe das pessoas que tinham pretendido amar-me e das pessoas que pretendiam odiar-me e das pessoas que contavam sobre mim histórias inverosímeis para destruir a minha reputação. às vezes pensava nelas mas sem muita convicção. o que era eu o que era ser eu não sei exactamente e à medida que o tempo passou creio que duvidei progressivamente de ser alguma coisa de especial alguma coisa que valesse a pena ser separada de tudo o que existia no universo. as árvores estavam lá fora na rua e nos campos as ervas cresciam por todo o lado os rios corriam para o mar e eu estava em casa aquilo que era eu estava em casa. eu era um corpo com consciência de si próprio. ser eu talvez fosse isso ser um corpo que tinha algum conhecimento da sua própria existência.

uma manhã entendi que estava preocupado por não ter notícias tuas. queria saber de ti mas como eu tinha o telefone sempre desligado não era simples. além disso não tinha o teu telefone e embora conhecesse pessoas que mo podiam dar não me apetecia pedir-lhes esse favor nem perguntar-lhes por ti tu podias não gostar ou podias começar a pensar coisas erradas a meu respeito. não me apetecia que tu soubesses por outras pessoas que eu pensava em ti e queria saber de ti. também pensei que tu devias saber não podias deixar de ter percebido que eu queria saber de ti que eu pensava em ti. tínhamos muitas coisas a dizer um ao outro provavelmente nada de muito complicado coisas simples elementares palavras simples mas ainda não tínhamos começado a falar. eu tinha medo que nunca começássemos a falar que se perdesse a oportunidade que a minha vida ficasse vazia desse acontecimento que a poderia e me poderia transformar para sempre. eu não queria ou não podia fazer nada queria que as coisas acontecessem normalmente sem eu fazer qualquer esforço por que acontecessem. mas não acontecia nada e o verão foi passando e eu não saía da casa nem me apetecia ver pessoas nem fazia projectos de futuro. podia ter morrido e não tinha importância. em vez disso resignava-me a ser eu um corpo uma cabeça qualquer coisa que eu identificava ainda dizendo que era eu. tentei ler mas aborreciam-me os livros. a televisão não me interessava só lá apareciam os mesmos idiotas de sempre a dizer coisas que toda a gente já sabia e que não eram nunca exactamente como eles diziam que elas eram.

podia sonhar contigo mas não me servia de nada tu estavas longe eu não sabia bem onde e tu ignoravas que eu necessitava de ti. talvez tu pudesses obrigar-me a sair de casa. talvez tu me obrigasses sem te dar conta a acreditar de novo em qualquer coisa que podia ser o princípio de um romance de uma história verosímil. eu seria a personagem dessa história e andaria na rua e iria ao cinema e ao teatro e almoçava e jantava contigo por exemplo. às vezes iríamos passear para o campo ou para a beira do mar e tu podias por exemplo pegar-me na mão sem me dizer nada nem olhar para mim. fazias-me feliz obrigavas-me sem eu querer a achar a vida de novo uma aventura e eu não dizia nada mas os meus olhos levantavam-se das pedras do passeio progressivamente e alongavam-se sem receio a caminho do horizonte como um papagaio de papel a navegar solto no céu. tu estavas ao meu lado caminhavas comigo no passeio ou na areia da praia mas nenhum de nós nem os dois juntos se assemelhavam nos assemelhávamos nem de perto nem de longe a esses casais falsamente românticos convencionalmente tranquilos dos filmes ou das fotografias em que um homem e uma mulher pretendem representar a maturidade enfim alcançada o grande reencontro a paz a felicidade com estilo uma treta qualquer um lugar comum comercial uma parvoíce.

querer saber de ti tinha-se tornado uma obsessão estúpida incómoda. saber o quê? quem tu eras que tipo de pessoa? se eras como eu me pusera a imaginar o que se escondia por detrás do teu olhar das tuas palavras aparentemente claras simples? abri a janela sem me importar com a intensidade da luz que me feria os olhos e disse debruçando-me para baixo para a rua onde circulavam os automóveis e passavam as pessoas: quero saber de ti fala comigo por favor. fechei de novo a janela sentei-me na cama e queixei-me: nunca tinha querido tanto saber de alguém como nesse momento queria saber de ti. exausto e com o telefone desligado na mão acabei por adormecer de bruços atravessado em cima da cama.

manequim

Sunday, August 20, 2006

Saturday, August 19, 2006

Friday, August 18, 2006

praia











pessoas difíceis...

A sensação foi a mesma. Quando me ligaram a dizer que o XL tinha uma decoração nova, senti-me como quando soube que a mãe das minhas filhas tinha posto silicone. Corri para ver. Talvez o novo look tivesse mudado, ou compensasse, a atitude que nos aparta.
Há pessoas que se fazem difíceis. Umas, porque são muito boas; outras, porque são muito más. Todas me irritam: as boas, porque não havia necessidade de se fazerem difíceis (na restauração, é a experiência Galeria); as más, shame on us, porque só vimos que o rei ia nu a meio do cortejo (experiência Albatroz).
Mas o que me intriga são aquelas pessoas que se fazem difíceis porque sim. Como o XL.
Temos de tocar à campainha e depois esperar que nos abram a porta. Será que vão abrir? Demoram. Devem espreitar longamente pelo óculo, como uma velhinha num quarto andar sem elevador, na Ajuda, se lhe batem à porta depois do noticiário das oito.
Mas há um racional para casas de porta fechada. É que agora há muito crime, como em São Paulo, e o XL é numa zona perigosa (qual David da Buraca), e vai lá muita senhora de idade (que se fartou da Colina e dos Arcos) que se sentiria mal com a porta aberta (há cada vez mais drogados).
...................................................................


Ler a continuação da crónica gastronómica de Lourenço Viegas em Contra-Prova.

Wednesday, August 16, 2006

love is serious stuff

i’m not sure you know I was impressed you know but love is serious stuff I’m not sure anyway I’m lost it’s too early I need to take a break my life is a mess a frase veio lá de trás eu ia sentado no comboio o porto ia-se afastando de nós o alfa deslizava silenciosamente como se escorregasse num mar de ar tranquilo eu olhava pela janela a paisagem distraidamente pensei eu também não sei nada eu também podia dizer que me sinto perdido mas não digo nada para quê não vale a pena e olhei para trás era um tipo loiro a conversar com uma rapariga deviam ser ingleses deviam estar de férias em portugal talvez fossem irmãos o rapaz era gordo e grande a rapariga era magra e tinha os cabelos castanhos aos caracóis eu abri um livro e preparei-me para ler um pouco a viagem seria relativamente curta em breve chegaria a lisboa onde me esperavam os meus amigos mas não consegui concentrar-me fiquei a pensar no que o rapaz tinha dito o amor é uma coisa muito séria de facto é ou antes depende nunca se pode saber depende do nosso estado de espírito depende da outra pessoa depende de tanta coisa às vezes o amor não é nada sério eu sei parece uma brincadeira ou será que o amor é sempre uma brincadeira ah ah ah não não não pode ser pensava eu o amor é a única coisa que ainda nos resta nisso pelo menos tens de acreditar ó idiota ó imbecil. ou será que o amor não é nunca uma brincadeira embora a gente possa acreditar que sim pensei eu para me contradizer para ver a questão de múltiplas perspectivas para voltar à primeira ideia e depois pagamos o preço nada nos é dado de borla. o comboio deslizando suavemente como num sonho de infância um sonho dos bons claro não dos maus não um pesadelo e o rosto da rapariga que eu tinha visto no restaurante à hora do almoço não me saía do espírito era um rosto grave mas não triste de pessoa que parecia estar à vontade dentro da vida e saber o que é importante e o que não conta parvoíces pensei eu lá estás tu a delirar como é que sabes como é que concluíste tanta coisa sem ter elementos suficientes para isso a tua necessidade de amor é ridícula por isso cais em tentações facilmente por isso facilmente levianamente te pões a imaginar coisas literárias meio doido é o que tu és e o rapaz loiro o gordinho tem razão não se deve brincar com coisas sérias não se podem correr riscos desses é perigoso e então dei uma gargalhada baixinho ri-me de mim mesmo mas não deixava de estar de acordo com o rapaz. a rapariga estava sentada numa mesa ao lado da minha no restaurante camisa branca a pele ligeiramente bronzeada sobrancelhas bem desenhadas na pele limpa e nítida do rosto e tinha-me sorrido discretamente amavelmente depois tinha-me perguntado se eu era do porto e eu disse que não e ela calara-se e o homem de barba mais velho que estava com ela fumava e sorrira também olhara para mim brevemente com curiosidade e sem antipatia provavelmente é o pai pensei eu e quando eles se tinham ido embora tinham dito então boa tarde adeus boa viagem e eu segui-os com o olhar e a rapariga virou-se para trás e sorriu outra vez e eu já não sabia onde meter-me nem que fazer não havia nada a fazer evidentemente mas eu preferia não ser confrontado com situações semelhantes que não me vejam que não dêem por mim e tudo será mais fácil pensei eu e agora sentado confortavelmente no comboio pensava ainda na rapariga lembrava-me dos seus olhos do seu sorriso um pouco melancólico não era nenhuma criança já nem adolescente era bonita parecia uma pessoa suave com alguma ou muita maturidade capaz de entender muita coisa mas quem sabe a gente não sabe não é eu estava provavelmente a construir já mais uma ficção para me entreter a viagem é curta não necessitas de inventar passatempos disse-me eu ralhando-me a mim mesmo. uma pausa sim eu também precisava de uma pausa na confusão em que se transformara a minha vida separações viagens conflitos desilusões malentendidos ingratidões crueldades não valia a pena eu querer estar sempre em campo eu estar sempre em jogo podia de vez em quando ser apenas um dos jogadores que ficavam sentados no banco de suplentes. ri-me da comparação e o comboio parou em coimbra eu levantei-me e fui à casa de banho o comboio logo a seguir recomeçou a viagem e eu voltei para o meu lugar a frase em inglês e a memória da rapariga que eu conhecera ao almoço no restaurante não me deixavam em paz misturavam-se confundiam-se no meu espírito meio adormecido agora e eu preocupei-me com a minha fragilidade embora não me sentisse não me considerasse minimamente uma pessoa fraca ou susceptível de se deixar enredar seriamente em histórias absurdas. recordei-me da história de knut hamsun the queen of sheba pensei naquele gajo que ia encontrar-se com uma mulher e encontrou outra uma desconhecida à noite ao jantar numa pensão e no dia seguinte em vez de ir aonde ia meteu-se no comboio atrás da desconhecida que acabara de conhecer. o que é o amor então e o que é que nos leva a acreditar numa pessoa que diz que nos ama o que é que nos leva a imaginar que uma pessoa que acabámos de conhecer podia ser aquela que sempre procurámos e nunca encontrámos antes e o que é que nos leva a deixar de ir aonde vamos para ir a outro sítio o que é que nos leva a esquecer uma pessoa para prestar atenção a outra e eu não sabia não tinha teorias seguras nem profundas sobre o assunto eu não sabia nada nada só sabia que estava sozinho e que não me apetecia muito continuar a viver assim mas também sabia que deixar-se levar de novo deixar-se enganar de novo por idealismos românticos era absurdo o romantismo é uma das nossas tábuas de salvação no deserto da vida basta de infantilidades a gente tem de proteger-se dos sentimentos devemos afastar-nos dos sentimentos como das tempestades já basta de erros de confusões de esperanças frustradas de mentiras de sordidez. my life is a mess love is serious stuff I was very impressed necessito de fazer uma pausa a vida não pode ser a minha vida não é não pode ser uma corrida de bicicletas porque não vou a pé temos de aprender a andar a pé a viver devagar a esperar a ter paciência tenho de habituar-me a pensar que talvez o amor não exista que talvez não haja ninguém que nos possa amar eu sei bem sei estar só não tem sentido por isso nos distraímos por isso todos nós sonhamos irresponsavelmente mas é natural é preciso ir aguentando a vida a realidade árida o deserto em que nos abandonaram sem nos ter pedido a nossa opinião. que mulher teria ainda paciência para ficar sentada ao meu lado em silêncio sem se queixar sem ter no rosto a amargura de uma ruga de censura de tédio de rancor sem sentir que estava a perder o seu tempo que mulher poderia ainda debater comigo sem se aborrecer nem me aborrecer a eterna questão da nossa miserável solidão e dividir comigo a alegria involuntária inconfessável de estar vivo e dizer-me que porque a morte há-de vir inevitavelmente um dia o facto de estarmos juntos poderia ser considerado em certo sentido uma bênção um milagre e dizer-me que para ela era uma consolação uma recompensa uma coisa boa estar ali sentada em silêncio ao meu lado que mulher poderia dizer pensar sentir coisas assim sem no entanto se vangloriar se considerar uma heroína e o comboio deslizava silenciosamente pelas planícies como num sonho e em breve chegaríamos a lisboa onde me esperavam alguns amigos.

À espera do comboio



a dona do circo

cada um sobrevive como pode já se sabe o destino humano está longe de ser esplendoroso. a dona do circo era herdeira de uma família de saltimbancos trapezistas ilusionistas exilados domadores de feras palhaços e era uma senhora muito activa. pretendia-se modesta insignificante mas não lhe faltavam ideias nem ambições nem pretensão. nem amigos nem inimigos. não descansava de se excitar com permanentes iniciativas inaugurações programas espectáculos nunca vistos sempre originais. tirava da manga mágica de seda preta ou da cartola milagrosamente pombos e pombas lenços de todas as cores amarelos verdes vermelhos verdes lilás coelhinhos brancos. falo metaforicamente é claro. tudo o que se passava no circo era controlado vigiado pelo seu olhar de águia velha e pela fidelidade atenta de alguns lacaios que viviam da sua admiração e de adulá-la. dar ordens e sugestões aos empregados e aos inúmeros artistas do circo com a sua voz rouca ou usando os serviços dos seus lacaios permitia-lhe sentir-se dona e útil investida de uma vocação. a não ser que soubesse da fugacidade de tudo não é impossível e estivesse apenas a prolongar artificialmente para se incutir coragem a sobrevivência do que já tinha morrido ou em breve desapareceria definitivamente da face da terra. a sua existência ao contrário da de muita gente tinha assim muito sentido pensava ela. um sentido elevado artístico. talvez o seu entusiasmo se devesse à crença numa missão de salvação. predestinada escolhida para grandes feitos não se sentia culpada de pensar que todas as pessoas à sua volta eram empregados ou artistas do circo o que evidentemente era um exagero e fazia sorrir. não agia assim por mal nem por bem era qualquer coisa que se entranhara na sua maneira de ser e fazia parte da sua personalidade. deve dizer-se também em seu favor que não agia de maneira autoritária pois tudo o que lhe saía da boca firme era dito sugerido ou aconselhado de maneira melodiosa melíflua com uma espécie de ternura religiosa cheia de caridade humana. por vezes um vago e cerimonioso pedido de desculpa parecia escorregar-lhe dos lábios atenuando anulando o que podia ser tomado pelo seu interlocutor por um abuso de confiança por um exagero por loucura. mas aqueles que a conheciam não ignoravam que na sua visão do mundo raramente entravam pontos de vista alheios. ela exercitara-se ao longo dos anos na competição com a gente de outros circos a não duvidar do que pensava a não permitir que pusessem em causa as suas opiniões os seus valores os seus ídolos as suas recordações. aliás ela desprezava quem a ouvia tanto como quem não lhe reconhecia a existência nem a importância. assim se mantinha a ficção que lhe permitia sobreviver com um sorriso nos lábios. ela aliás praticava todas as qualidades e defeitos com uma arrogância soberana e sem fazer concessões. o circo podia atravessar um momento difícil - a popularidade abusiva da televisão e a mediocridade dos tempos não ajudavam - mas ela destemida enérgica parecia não se dar conta disso pouco se lhe dava pouco lhe importava e continuava a falar a comportar-se como se o circo fosse eterno no seu esplendor e reservasse àqueles que o frequentavam prazeres cada vez mais intensos convincentes inesperados. ela tinha sido sempre assim: uma força da natureza. e se o seu pensamento secreto era diferente das suas conhecidas convicções públicas ninguém o poderia afirmar com provas. eu ia às vezes ao fim da manhã ao circo assistia aos ensaios admirava de longe aquela extraordinária capacidade de organização aquela potência sem cansaços o ressurgir repetido da inspiração e da devoção e da teimosia. do seu passado conhecia-se pouco mas o motor da sua actividade diziam algumas pessoas eram a auto-estima e a nostalgia. ela acreditava ser da família dos nobres das antigas personalidades das raças superiores as que dominavam e tinham conduzido o mundo na boa direcção apesar do obstáculo da pobreza de espírito que dominava que sempre reinara em todas as sociedades humanas. escapava-lhe às vezes numa frase murmurada ternamente ou numa ordem dada com suave firmeza a sua convicção profunda: o presente era imperfeito porque o passado tinha sido glorioso. os seus heróis estavam todos mortos mas cabia-lhe a ela a sobrevivente a iluminada a detentora da chama do fogo da sabedoria prolongar a influência dos desaparecidos os seus ensinamentos. sentado na cadeira a assistir aos ensaios ou aos espectáculos eu repito que a admirava. que capacidade de ilusão que fibra a sua na paixão apesar da certeza inabalável da morte essa ameaça que nunca deixa de cumprir-se. não se mostrava muito é certo ela vivia na sombra da sua reputação mas eu sabia e podia adivinhar por detrás de tudo o que acontecia no circo ou relacionado com o circo a sua vontade de ferro a sua doença. falei com ela duas ou três vezes nos últimos anos e nunca esquecerei o fulgor dos seus olhos de raposa velha que sabia como convencer e seduzir sem nunca deixar entrever o que lhe ia na alma. teria alma porém? na sua imensa embora deformada e pouco objectiva sabedoria representava-se em permanência a comédia da mítica enganosa inocência infantil. a gente por um instante acontecia às vezes posso testemunhar e até poderia fornecer exemplos convincentes esquecia o que sabia deixava terra e embarcava no vapor colorido e envolvente dos seus delírios. dizia um jornal da tarde há dias que ela morreu. caíra da cama uma noite no dia seguinte começou a delirar. sentada à mesa da cozinha que lhe servia de escritório escreveu cartas com o cabeçalho do circo em enormes e solenes letras de oiro a tudo o que era presidente ou director de qualquer coisa de bancos a governos de clubes desportivos a associações de beneficência de padres a cabecilhas de grupos terroristas. despedia-se deles até à eternidade. numa parte da carta lia-se o seguinte: vós não soubestes amar os vossos contemporâneos nem distinguir o oiro do carvão por isso não acredito em vós nem mereceis o amor. mas aqueles que conheceram e admiraram a minha obra hão-de transmitir ao futuro a minha lição e a herança que recebemos dos antepassados ilustres não se perderá. a sublime arte do circo há-de salvar a raça humana do esquecimento da ruína da morte da banalidade do vício. eu é certo vivi metaforicamente e o circo sempre foi para mim uma alegoria da própria existência. vós viveis na desprezível risível realidade. pagareis um preço elevado por isso antes de desaparecerdes como vermes nas entranhas da terra.

Sunday, August 13, 2006

Tuesday, August 01, 2006