Wednesday, September 06, 2006

"e outros diálogos"


















Os actores Sandra Salomé, Fernando Landeira e Luciano Amarelo (também encenador), profissionais, estão a ensaiar a peça "e outros diálogos", montagem de vários textos meus incluídos no livro Uma Sonata de Brahms e Outros Diálogos. A estreia está prevista para fins de Setembro no Teatro Municipal da Guarda, integrada em mais um festival de teatro organizado pelo TMG este ano. A iniciativa, esta e muitas outras, deve-se a Américo Rodrigues. O que Américo Rodrigues tem feito ao longo dos anos pela cultura na Guarda, apesar dos ventos contrários, de calúnias e incompreensões várias, envergonha definitivamente o desinteresse e a total incompetência das outras muncipalidades do distrito e da região neste domínio.





Sunday, September 03, 2006

corpo

no comboio

pela janela da porta da última carruagem viam-se os carris desfilar a uma velocidade vertiginosa. como uma serpentina prateada a desenrolar-se depois de o comboio passar. a experiência não era nova, mas era sempre divertida. os olhos e o espírito ficavam deslumbrados, esqueciam-se de voltar à outra realidade, a fixa. eu fumava um cigarro e fazia o balanço das minhas férias, dos meus dias, da minha existência. a canção de charles trenet irrompera bruscamente da minha memória de manhã quando eu me tinha levantado: que reste-t-il de nos amours, que reste-t-il de ces beaux jours? não havia no entanto razão para melancolias nem melindres. a brevidade da vida humana e os longos anos perdidos a aprender a viver, isso sim, irritava-me. o resto não. deus o dá, deus o tira. o acaso traz o amor, o acaso o leva. a solidão revela-nos o mundo tal como ele é, desaparecem os subterfúgios e a consolação nascidos da paixão do amor. a incompreensão é o motor da história, o estímulo que nos eleva acima de nós mesmos. depois, um dia, morremos. com a impressão às vezes de nunca termos amado, de nunca termos sido amados. é apenas uma impressão provavelmente.

voltei para o meu lugar ao lado da janela. a paisagem desfilava, era o fim do dia. quantas vezes tinha eu feito este percurso? as viagens da infância, entre lisboa e a beira, entre a beira e lisboa, eram o fumo, eram os cheiros da locomotiva a vapor, eram as laranjas descascadas no entroncamento quando o comboio parava mais tempo, eram as bilhas de barro vermelhas com desenhos feitos de pedrinhas brancas, era a água fresca cantada pelas raparigas que as vendiam, era a mãe e o pai tão tão jovens ainda. e não tinha sido há tanto tempo, embora muitos anos tivessem passado por todos nós. mais tarde o pai levou-me ao colégio, fomos de comboio também e ele deixou-me lá, foi uma viagem mais curta na mesma linha. era um bom pai. algumas vezes foi excessivamente severo comigo, foi injusto, não me compreendeu, humilhou-me inutilmente. mas eu nunca o odiei e por isso nunca entendi os filhos que odeiam os pais. se a eternidade existe, se alguma coisa subsiste de nós depois da morte do corpo, ele sabe-o, agora sabe-o melhor do que ninguém: que eu sempre o respeitei e sempre lhe quis bem.

o comboio parou no entroncamento, mas eu mal me dei conta. melhor assim. que reste-t-il de nos amours, que reste-t-il de ces beaux jours, etc ? nada. cinzas na memória. dores que não se podem corrigir nem consolar. o comboio aos solavancos a dançar nos carris a uma velocidade estonteante. os mesmos carris ainda? qual é a duração dos carris? e a noite caiu entretanto. vou a caminho de casa. depois parto de novo. a família para mim foi com frequência uma realidade abstracta. continua a ser. não me esqueço de ninguém, mas vivo longe de toda a gente. não quero pensar nisso. nem quero entender por que razão existimos, nem o que estamos a fazer no mundo e no universo. é possível que haja uma explicação e uma razão, mas se há não se sabe qual é, não se sabe quais são.

falar serve para quê? escrever serve para quê? às vezes já não serve para nada, é apenas uma forma de vagido, uma excrescência da dor e da impotência. inútil, mas não podemos calar-nos, não sabemos que fazer e então continuamos a falar, a escrever. quem se lembra da história do homem apaixonado que passou sete anos a escrever longas cartas à mulher que amava, cartas às quais ela nunca respondeu? encontravam-se regularmente, falavam, riam, iam ao restaurante e ao cinema, viajavam juntos, dormiam juntos muitas vezes. não estavam casados, mas existia entre eles aquilo que as pessoas consideram uma relação amorosa normal. não falavam, porém, nunca falavam das cartas que ele lhe escrevia e às quais ela nunca respondia, nunca respondeu. por isso ele nunca soube se ela lia o que ele escrevia, se sabia o que ele tinha dito, o que ele pensava. nessas cartas ele falava de amor e de muitas outras coisas, solicitava a reflexão e a opinião dela, tentava aprofundar e esclarecer mistérios e dúvidas. no entanto ele nunca se queixou de não obter resposta dessa permanente, e para ele enigmática, penosa, ausência de diálogo. um dia separaram-se e também não falaram em particular da separação, ela aconteceu tão naturalmente que não havia razão para espanto. podiam não se ter separado no entanto, pensava ele. mas por que razão pensava isso em vez de pensar outra coisa? mistério. a solidão doía-lhe, a ausência dela era uma perda irreparável, mas não havia, pensava ele, nada a fazer. escrever e falar só podem servir para alguma coisa se alguém ler e ouvir, concluiu ele. de outro modo é como gritar na noite escura no deserto com o rosto desfeito virado para as estrelas.

o escritor que imaginava que era maldito e era sobretudo bastante ingénuo e vaidoso deu uma entrevista a um jornal. eu li-a no comboio enquanto as rodas de ferro lambiam os carris na sua obsessão sem fim. a pior coisa que pode acontecer a um escritor é ele acreditar que, tendo as pessoas enfim entendido e reconhecido o seu génio, é chegado o momento de se saber o que ele pensa do mundo, da sua arte e da arte em geral. achei embaraçosa, desesperada, ridícula a entrevista do escritor que pensava ter enfim atingido a maturidade. e de novo perguntei-me para que serve escrever, para que serve falar se nenhuma palavra, nenhuma frase nos salvará da morte nem nos restituirá o amor perdido.

viajar de comboio é um prazer provavelmente infantil. os comboios modernos são confortáveis, mas mesmo que não fossem. vai-se de uma cidade a outra, vêem-se pessoas, às vezes fala-se com elas, às vezes elas são muito diferentes de nós, às vezes são antipáticas, outras vezes são simpáticas. ouvem-se conversas banais ou estranhas ou interessantes, as crianças irrequietas e barulhentas acabam por irritar-nos. lê-se, escreve-se, dorme-se, sonha-se, bebe-se água fresca ou café. viajar de comboio é muito melhor, muito mais interessante, muito menos cansativo do que viajar de automóvel.

não estava ninguém à minha espera e antes de me meter num táxi eu pensei num tempo não muito distante em que ainda havia alguém para me ir buscar à estação. o meu pai ia envelhecendo e depois um dia foi a primeira vez que fui sozinho para o comboio. e depois um dia foi a primeira vez que cheguei sem ter ninguém à minha espera. e uma vez aquela que nunca respondeu às minhas cartas foi a lisboa passar duas horas no aeroporto comigo, eu tive uma escala entre dois aviões. por amor, mas onde está agora o amor? onde está agora a inocência e a paixão? embalado pelo comboio e pelas recordações, oiço de novo a voz de trenet a perguntar-me: que rest-t-il de tes amours, que reste-t-il de tes beaux jours? embora não esteja seguro de nada, admito que talvez ela afinal tenha lido algumas das cartas que lhe escrevi.

cheguei a casa, não me apetecia jantar. fui ao frigorífico e comecei a esvaziar lentamente a meia garrafa de chablis que lá deixara antes de partir de viagem. os vapores do álcool subiram-me à cabeça e comecei a falar sozinho, a criticar-me, a rir-me de tudo, a dizer asneiras. mais tarde enviei-lhe uma mensagem a acusá-la de nunca ter entendido o que é o amor. no dia seguinte li a resposta dela: perguntava-me se, em contrapartida, eu, o grande sabichão, sabia o que era o amor e podia explicar-lhe. não respondi. e também não sabia se a nossa troca de mensagens era um diálogo ou se era um monólogo.