Monday, November 28, 2011
São umas cavalgaduras
Carlos não decidira fazer exclusivamente clínica : mas desejava decerto dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como prática. Então Vilaça sugeriu que o consultório estivesse separado do laboratório.
– E a minha razão é esta : a vista de aparelhos, máquinas, coisas, faz esmorecer os doentes...
– Tem você razão, Vilaça ! – exclamou Afonso. – Já meu pai dizia : poupe−se ao boi a vista do malho.
– Separados, separados, meu senhor – afirmou o procurador num tom profundo.
Carlos concordou. E Vilaça bem depressa descobriu, para o laboratório, um antigo armazém, vasto e
retirado, ao fundo de um pátio, junto ao Largo das Necessidades.
– E o consultório, meu senhor, não é aqui, nem acolá ; é no Rossio, ali em pleno Rossio !
Esta ideia do Vilaça não era desinteressada. Grande entusiasta da Fusão, membro do Centro
Progressista, Vilaça Júnior aspirava a ser vereador da Câmara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando o seu aniversário natalício vinha anunciado no Ilustrado, ou quando no Centro citava com aplauso a Bélgica), parecia−lhe que tantas aptidões mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultório gratuito, no Rossio, o consultório do Dr. Maia, «do seu Maia» reluziu−lhe logo vagamente como um elemento de influência. E tanto se agitou, que daí a dois dias tinha alugado um primeiro andar de esquina.
Carlos mobilou−o com luxo. Numa antecâmara, guarnecida de banquetas de marroquim, devia
estacionar, à francesa, um criado de libré. A sala de espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, a plantas em vasos de Ruão, quadros de muita cor, e ricas poltronas cercando a jardineira coberta de colecções do Charivari, de vistas estereoscópicas, de álbuns de actrizes seminuas, para tirar inteiramente o ar triste de consultório, até um piano mostrava o seu teclado branco.
O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quase austero, todo em veludo verde−negro, com
estantes de pau−preto. Alguns amigos que começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporâneo e agora vizinho do Ramalhete, o Cruges, o marquês de Souselas, com quem percorrera a Itália – vieram ver estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano e achou−o abominável ; Taveira absorveu−se nas fotografias de actrizes ; e a única aprovação franca veio do marquês, que depois de contemplar o divã do gabinete, verdadeiro móvel de serralho, vasto, voluptuoso, fofo, experimentou−lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho a Carlos :
– A calhar.
Não pareciam acreditar nestes preparativos. E todavia eram sinceros. Carlos até fizera anunciar o
consultório nos jornais ; quando viu, porém, o seu nome em letras grossas, entre o de uma engomadeira à Boa Hora e um reclamo de casa de hóspedes – encarregou Vilaça de retirar o anúncio.
Ocupava−se então mais do laboratório, que decidira instalar no armazém, às Necessidades. Todas as
manhãs, antes de almoço, ia visitar as obras. Entrava−se por um grande pátio, onde uma bela sombra cobria um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam ao muro. Carlos já decidira transformar aquele espaço em fresco jardinete inglês ; e a porta do casarão encantava−o, ogival e nobre, resto de fachada de ermida, fazendo um acesso vulnerável para o seu santuário de ciência. Mas dentro os trabalhos arrastavam−se sem fim ; sempre um vago martelar preguiçoso numa poeira alvadia ; sempre as mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas ! Um carpinteiro esgrouviado e triste parecia estar ali desde séculos, aplainando uma tábua eterna com uma fadiga langorosa ; e no telhado os trabalhadores, que andavam alargando a clarabóia, não cessavam de assobiar, no sol de Inverno, alguma lamúria de fado.
Carlos queixava−se ao Sr. Vicente, o mestre−de−obras, que lhe asseverava invariavelmente «como daí a dois dias havia de Sua Excelência ver a diferença». Era um homem de meia−idade, risonho, de falar doce, muito barbeado, muito lavado, que morava ao pé de Ramalhete, e tinha no bairro fama de republicano.
Carlos, por simpatia, como vizinho, apertava−lhe sempre a mão : e o Sr. Vicente, considerando−o por isso um «avançado», um democrata, confiava−lhe as suas esperanças. O que ele desejava primeiro que tudo era um 93, como em França...
– O quê, sangue ? – dizia Carlos, olhando a fresca, honrada e roliça face do demagogo.
– Não, senhor, um navio, um simples navio...
– Um navio ?
– Sim, senhor, um navio fretado à custa da nação, em que se mandasse pela barra fora o rei, a família real, a cambada dos ministros, dos políticos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
Carlos sorria, às vezes argumentava com ele.
– Mas está o Sr. Vicente bem certo, que apenas a cambada, como tão exactamente diz, desaparecesse pela barra fora, ficavam resolvidas todas as coisas e tudo atolado em felicidade ?
Não, o Sr. Vicente não era «burro» que assim pensasse. Mas, suprimida a cambada, não via Sua
Excelência ? Ficava o país desatravancado ; e podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso...
– Sabe Vossa Excelência qual é o nosso mal ? Não é má vontade dessa gente ; é muita soma de
ignorância. Não sabem. Não sabem nada. Eles não são maus, mas são umas cavalgaduras !
– Bem, então essas obras, amigo Vicente – dizia−lhe Carlos, tirando o relógio e despedindo−se dele com um valente shake−hands – veja se me andam. Não lho peço como proprietário, é como correligionário.
– Daqui a dois dias há−de Vossa Excelência ver a diferença – respondia o mestre−de−obras,
desbarretando−se.
Eça de Queirós, Os Maias