Wednesday, October 24, 2012

Monday, October 22, 2012

Tuesday, October 02, 2012

Se não fossem as palavras


As árvores: nunca se queixam.
Os rios: recebem a água e levam-na
ao seu destino, sem se desviar do
curso. As casas: um dia chega a ruína.
Esta é a ordem: o céu lá em cima, a
terra debaixo dos nossos pés. Mas
nós, porque nos queixamos? Quem
decidiu que conheceríamos a dor
depois da alegria, a dúvida depois
da certeza fez o melhor que podia.
O amor e o ódio amenizam com 
a sua violência a monotonia do tédio.
Não nos prendem à terra as raízes
do sangue, não são irrefutáveis as
razões da ira nem as inclinações
do coração. E por isso receamos
perder-nos. Como se fosse tão 
incerto o nosso destino como a
aparente inconstância dos elementos:
o ar, a água, o fogo, a terra. Mas
o sol e a chuva não vêm por acaso.
E nós, além da dor, do medo e da
excitação do desejo e da alegria,
que podemos esperar? Viver na
incerteza é a nossa condição. As
árvores, os rios, as montanhas
e o mar não receiam. Estão onde
têm de estar, vão aonde têm de
ir, nascem e morrem diante dos
nossos olhos sem explicação. A
explicação existe, mas quem
pensa em explicar uma manhã
de sol ou uma tarde de chuva?
Com firme monotonia os rios
atravessam as planícies e correm
entre as montanhas. E as árvores,
circunspectas, seguras nas suas
raízes, resistem à tempestade
e permanecem silenciosas e 
tranquilas na sua imobilidade.
Por vezes uma árvore sucumbe
e cai, derrotada, mas a quem
lembraria lamentar a sua má
sorte? Quem interroga é 
porque pode interrogar.
Mas não é seguro que
responder-lhe havia de 
esclarecer o  mistério. Não
há mistério: a perplexidade é
uma forma de ignorância. E o
sofrimento, a desolação da
carne e do espirito, explica-se?
A água e o fogo não interrogam.

O nosso destino está cheio
de palavras, elas crescem como
os cogumelos entre os troncos
dos pinheiros na floresta perto
do mar. No nosso coração
irrompem sem cessar, como 
estações do ano, as dúvidas,
ele bate apressado ou quase
adormece na sua apatia. Não,
a paz não lhe é acessível.

Na tarde de Verão o meu espírito,
sem inquietação, observava o
mundo à sua volta. Era o seu
mundo e ele entrava em relação
com ele. Possuía-o? O que é
possuir? O que será possuir?
Tranquilo como uma árvore
segura do seu destino, como a
água do rio a quem nunca
preocupa a finalidade da
viagem, eu atravessava as ruas
e as praças, às vezes sentava-me
num café e lia. Talvez, por vezes,
em segundos imperceptíveis, se
visse nos meus lábios o esboço 
de um sorriso. Mas logo a seguir 
eles fechavam-se com prudência,
modestos. Arrependiam-se? O 
meu espírito, a morada do Ser.
Se não fossem as palavras só ele
saberia, na sua solidão, o que há
a saber, só ele sentiria na sua
carne, como se fosse um corpo,
o que se pode sentir. E tudo
o que não podemos deixar de 
pensar. Se perguntava, porém,
não era por acreditar que
se pode responder. Se lhe
inspirava comparações a
condição das árvores e dos
rios não era para se consolar: não
manchavam a sua pureza a inveja
nem uma ambição despropositada.
A nós não nos foi concedida a
impassibilidade que habita o destino
dos elementos. Podemos aprender?
A contemplação da verdade pode
assemelhar-se a uma aprendizagem:
todos os dias repetimos o que já
sabíamos e facilmente se esquece.