Sunday, April 14, 2013

Ignoras um par de coisas, ignoras (Eça de Queirós, Tragédia da Rua das Flores)


Vítor abriu um olhar absorto :
- O quê? O tio Timóteo esteve tísico?
Timóteo resmungou, com os olhos no prato :
- Tive essa fraqueza, quando estive apaixo­nado.
Vítor riu, alegremente.
- Outra ! Mas essa, enorme ! Por quem, tio Timóteo?
- Traz o café, Clorinda. E o meu tabaco ! — E desapertando devagar o guardanapo: — Quando digo apaixonado, quero dizer embeiçado. Paixão, não. Dois meses depois estava curado. Mas, en­fim, foi o meu único romance : nunca mais os tornei a fazer, nem a ler.
- Mas por quem foi, tio Timóteo? — pergun­tou Vítor curioso, com os cotovelos sobre a mesa, um sorriso vago.
- Foi por tua mãe.
Vítor ficou atónito. Timóteo metia restos de carne nas goelas sôfregas de Dick.
- Tua mãe tinha então catorze anos. Mas era alta, forte, com um cabelo até aos pés: parecia  ter vinte e dois. Era formosa, c’os diabos ! Tu não podes saber: não deixou retrato. Mas... uma beleza ! Era nossa vizinha ! — E sorrindo: — Como o tempo passa ! Tinha na janela dois melros numa gaiola. E justamente então cantava-se uma can­tiga:

À janela, a menina trigueira
Está cuidando dos seus passarinhos.

Eu, mal a pescava à varanda, logo a cantigui­nha... Foi por isso, creio eu, que ela me tomou asco.
Clorinda entrou com o café. E depois de reme­xer muito tempo o seu açúcar, de acender o ca­chimbo, o tio Timóteo, recostando-se, disse :
— Eu começo a embirrar, ela começa a embir­rar; eu a beber os ares por ela, ela a não me poder tragar: pois, senhores, aí principio a embeiçar-me... Não havia desfeita que me não fizesse! Janela na cara, costas voltadas, sombrinha carre­gada para o rosto, uma fera. Que ela teve sem­pre um génio desabrido. E muito afoita, cava­leira, o diabo ! Uma noite - há-de-me lembrar sempre - tenho a maldita ideia de lhe dar uma serenada à espanhola. Era o tempo em que estava à moda uma espécie de cachucha:

Señorita, usted que tiene?
Amarilla la color...

Ponho-me debaixo da janela, de viola - eu tocava viola com um certo descaramento, porque enfim, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, nunca me faltou o desplante - e aí começo a perguntar-lhe muito repenicadamente :

Señorita, usted que tiene?
Amarilla la color...

A janela abre-se, e uma vozinha de cima: «É o senhor Timóteo?» Imagina como eu fiquei! Pus--me logo a calcular como havia de trepar à va­randa. Fazia escuro, era de Inverno, um frio! «É o senhor:?»... «Sou eu, meu amor, sou eu!» «Bem, aí vai!» E zás! Cai-me em cima um balde de água suja! Oh, com mil raios!... «Para refres­car!», grita a vozinha de cima: a vozinha da desav... de tua mãe. Como diabo se chamava ela? Joana.
E refrescou, tio Timóteo? - perguntou Ví­tor, muito interessado, muito surpreendido, com os olhos cravados no velho.
Refresquei. Com uma pleuris! Estive dois meses de cama, e uma convalescença... É daqui que datam os caldos de cobra. Era o grande remé­dio p'ra  tísica no meu tempo ; e creio que ainda é, lá p'ra Trás-os-Montes. Apenas arribei, pedi para ir p'ra o Ultramar. Fui a bordo da Santa Quitéria. O capitão era de Tondela : um baixote, ruivo, valente homem ! Logo ao sair a barra, que trabuzana!... Estivemos perdidos. Cada mar! Uh! Parece que o estou a ver, de chapéu embreado, bota até ao joelho, no convés que escorria, a aguentar-se, a berrar. E que pancadas de mare­sia! Eu estava agarrado a um mastro. Ele avista-me, põe-se a gritar:  «Você raspa-se daí, seu filho daquele diabo de cornos que está no altar--mor de Tondela ! » Era a sua praga querida. De­pois éramos amigos íntimos. E daí a um mês estava curado. Já amainava a bujarrona como um homem ! E da paixão, nem a lembrança. Éra­mos assim. Já não há disso.
- E depois? - perguntou Vítor, fumando mui­to, com os cotovelos na mesa.
- E depois? E depois, nada. E depois teu pai veio de Coimbra; viu-a como eu à janela a tratar dos melros ; cantou-lhe como eu a cantiga ; não sei se lhe deu a serenada. Mas o balde, não apa­nhou. Apanhou a bênção do padre e lá casaram. E tu fizeste a tua entrada neste vale de lágrimas. Bem vale de lágrimas - acrescentou, com um rosto grave.  E ficou calado.
- E daí a um ano morreu a mamã?
Timóteo observou um momento o seu cachim­bo, e rosnou, devagar:
- Sim. Daí a um ano nasceste, ela ficou adoen­tada... Foi com teu pai para os Pirenéus. Foi com
teu pai, e... E lá ficou.  Lá ficou.
E depois de tossir ruidosamente, ergueu-se sobre a bengala, e foi resmungando grosso :
- E aí está como as coisas se passam... Este mundo é assim.  Uma choldra!...
O relógio da sala deu meio-dia.
—Oh, diabo, e eu que prometi estar às onze horas no escritório! - exclamou Vítor.
Ergueu-se e, espreguiçando-se um pouco :
—Pois senhores, isto foi a manhã das novidades ! Quantas coisas eu ignoro nas crónicas da família !
E, depois de acender outro cigarro, saiu, apertando a fivela do colete, enquanto Timóteo, esten­dido na poltrona, murmurava:
— Ignoras um par de coisas, ignoras !