Wednesday, April 24, 2013

Thursday, April 18, 2013

Wednesday, April 17, 2013

Tuesday, April 16, 2013

Sunday, April 14, 2013

Ignoras um par de coisas, ignoras (Eça de Queirós, Tragédia da Rua das Flores)


Vítor abriu um olhar absorto :
- O quê? O tio Timóteo esteve tísico?
Timóteo resmungou, com os olhos no prato :
- Tive essa fraqueza, quando estive apaixo­nado.
Vítor riu, alegremente.
- Outra ! Mas essa, enorme ! Por quem, tio Timóteo?
- Traz o café, Clorinda. E o meu tabaco ! — E desapertando devagar o guardanapo: — Quando digo apaixonado, quero dizer embeiçado. Paixão, não. Dois meses depois estava curado. Mas, en­fim, foi o meu único romance : nunca mais os tornei a fazer, nem a ler.
- Mas por quem foi, tio Timóteo? — pergun­tou Vítor curioso, com os cotovelos sobre a mesa, um sorriso vago.
- Foi por tua mãe.
Vítor ficou atónito. Timóteo metia restos de carne nas goelas sôfregas de Dick.
- Tua mãe tinha então catorze anos. Mas era alta, forte, com um cabelo até aos pés: parecia  ter vinte e dois. Era formosa, c’os diabos ! Tu não podes saber: não deixou retrato. Mas... uma beleza ! Era nossa vizinha ! — E sorrindo: — Como o tempo passa ! Tinha na janela dois melros numa gaiola. E justamente então cantava-se uma can­tiga:

À janela, a menina trigueira
Está cuidando dos seus passarinhos.

Eu, mal a pescava à varanda, logo a cantigui­nha... Foi por isso, creio eu, que ela me tomou asco.
Clorinda entrou com o café. E depois de reme­xer muito tempo o seu açúcar, de acender o ca­chimbo, o tio Timóteo, recostando-se, disse :
— Eu começo a embirrar, ela começa a embir­rar; eu a beber os ares por ela, ela a não me poder tragar: pois, senhores, aí principio a embeiçar-me... Não havia desfeita que me não fizesse! Janela na cara, costas voltadas, sombrinha carre­gada para o rosto, uma fera. Que ela teve sem­pre um génio desabrido. E muito afoita, cava­leira, o diabo ! Uma noite - há-de-me lembrar sempre - tenho a maldita ideia de lhe dar uma serenada à espanhola. Era o tempo em que estava à moda uma espécie de cachucha:

Señorita, usted que tiene?
Amarilla la color...

Ponho-me debaixo da janela, de viola - eu tocava viola com um certo descaramento, porque enfim, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, nunca me faltou o desplante - e aí começo a perguntar-lhe muito repenicadamente :

Señorita, usted que tiene?
Amarilla la color...

A janela abre-se, e uma vozinha de cima: «É o senhor Timóteo?» Imagina como eu fiquei! Pus--me logo a calcular como havia de trepar à va­randa. Fazia escuro, era de Inverno, um frio! «É o senhor:?»... «Sou eu, meu amor, sou eu!» «Bem, aí vai!» E zás! Cai-me em cima um balde de água suja! Oh, com mil raios!... «Para refres­car!», grita a vozinha de cima: a vozinha da desav... de tua mãe. Como diabo se chamava ela? Joana.
E refrescou, tio Timóteo? - perguntou Ví­tor, muito interessado, muito surpreendido, com os olhos cravados no velho.
Refresquei. Com uma pleuris! Estive dois meses de cama, e uma convalescença... É daqui que datam os caldos de cobra. Era o grande remé­dio p'ra  tísica no meu tempo ; e creio que ainda é, lá p'ra Trás-os-Montes. Apenas arribei, pedi para ir p'ra o Ultramar. Fui a bordo da Santa Quitéria. O capitão era de Tondela : um baixote, ruivo, valente homem ! Logo ao sair a barra, que trabuzana!... Estivemos perdidos. Cada mar! Uh! Parece que o estou a ver, de chapéu embreado, bota até ao joelho, no convés que escorria, a aguentar-se, a berrar. E que pancadas de mare­sia! Eu estava agarrado a um mastro. Ele avista-me, põe-se a gritar:  «Você raspa-se daí, seu filho daquele diabo de cornos que está no altar--mor de Tondela ! » Era a sua praga querida. De­pois éramos amigos íntimos. E daí a um mês estava curado. Já amainava a bujarrona como um homem ! E da paixão, nem a lembrança. Éra­mos assim. Já não há disso.
- E depois? - perguntou Vítor, fumando mui­to, com os cotovelos na mesa.
- E depois? E depois, nada. E depois teu pai veio de Coimbra; viu-a como eu à janela a tratar dos melros ; cantou-lhe como eu a cantiga ; não sei se lhe deu a serenada. Mas o balde, não apa­nhou. Apanhou a bênção do padre e lá casaram. E tu fizeste a tua entrada neste vale de lágrimas. Bem vale de lágrimas - acrescentou, com um rosto grave.  E ficou calado.
- E daí a um ano morreu a mamã?
Timóteo observou um momento o seu cachim­bo, e rosnou, devagar:
- Sim. Daí a um ano nasceste, ela ficou adoen­tada... Foi com teu pai para os Pirenéus. Foi com
teu pai, e... E lá ficou.  Lá ficou.
E depois de tossir ruidosamente, ergueu-se sobre a bengala, e foi resmungando grosso :
- E aí está como as coisas se passam... Este mundo é assim.  Uma choldra!...
O relógio da sala deu meio-dia.
—Oh, diabo, e eu que prometi estar às onze horas no escritório! - exclamou Vítor.
Ergueu-se e, espreguiçando-se um pouco :
—Pois senhores, isto foi a manhã das novidades ! Quantas coisas eu ignoro nas crónicas da família !
E, depois de acender outro cigarro, saiu, apertando a fivela do colete, enquanto Timóteo, esten­dido na poltrona, murmurava:
— Ignoras um par de coisas, ignoras !




Ivan Turgenev: Faust


When I went in to Vera she looked at me intently and did not reply to my bow. She was sitting by the window; on her knees lay a book which I recognized immediately: it was my Faust. Her face expressed fatigue. I sat down opposite her. She asked me to read out loud the scene between Faust and Gretchen where she asks him whether he believes in God. I took the book and began to read. When I had finished, I glanced at her. With her head leaning against the back of the armchair and her arms crossed on her breast, she was still looking at me just as intently.
I don't know why my heart suddenly began pounding.
' What have you done to me!' she said in a slow voice.
'What?' I asked in confusion.
'Yes, what have you done to me!' she repeated.
'Do you mean,' I began, 'why did I persuade you to read such books?'
She stood up in silence and went to leave the room. I gazed after her.
On the threshold she stopped and turned back to me.
'I love you,' she said, 'that's what you've done to me.'
The blood rushed to my head...
'I love you, I'm in love with you,' repeated Vera.
She left and closed the door behind her. I will not begin to describe to you what happened to me then. I remember I went out into the garden, made my way into its depths, leant up against a tree, and how long I spent standing there, I cannot say. It was as if I had frozen; every so often a feeling of bliss ran in waves through my heart... No, I won't begin to speak about that. I was summoned from my numbed state by Priyimkov's voice; someone had been sent to tell him that I had arrived: he had returned from the hunt and was looking for me. He was astonished to find me alone in the garden, hatless, and he led me into the house. 'My wife's in the drawing-room,' he said, 'let's go and join her.' You can imagine the feelings with which I crossed the threshold of the drawing-room. Vera was sitting in the corner at her tambour; I stole a glance at her and did not raise my eyes for a long time afterwards. To my surprise, she appeared calm - in what she said, in the sound of her voice, no alarm could be heard. Finally I made up my mind to look at her. Our eyes met. She flushed slightly and bent over her canvas. I began observing her. She seemed to be bewildered; a mirthless smile occasionally touched her lips.
Priyimkov left the room. She suddenly raised her head and asked me quite loudly:
'What do you intend to do now?'
I became confused and hurriedly replied in a hollow voice that I intended to fulfill the duty of an honest man and withdraw, 'because,' I added, 'I love you, Vera Nikolayevna, you probably noticed that long ago.' She again bent down towards the canvas and fell into thought.
'I must have a talk with you,' she said. 'Come this evening after tea to our summer-house... you know, where you read Faust?
She said this so distinctly that even now I cannot comprehend how Priyimkov, who was entering the room at that very instant, did not hear anything. That day passed quietly, agonizingly quietly. Vera sometimes gazed around with such an expression, as if she were wondering whether she was dreaming. And at the same time resolve was written on her face. While I... I could not come to my senses. Vera loves me! These words were continually turning round in my mind; but I did not understand them - I did not understand either myself, or her. I did not believe such unexpected, such staggering good fortune; it took an effort to recall what had passed, and I too gazed and spoke as though in a dream.

Ivan Turgenev, Faust, Hesperus Press Limited, London, 2003, translated by Hugh Aplin

Monday, April 08, 2013

Saturday, April 06, 2013

Thursday, April 04, 2013

J'appartiens à l'idée

Je suis de nouveau moi-même. Ce « moi » qu'un autre ne voulut pas relever sur la grand-route, je le possède à nouveau. La discorde qui était dans mon essence a cessé ; je me réunis de nouveau. Les angoisses de la sympathie, qui trouveraient soutien et nourriture dans ma fierté, ne s'introduiront plus pour diviser et séparer.

(…)

Je suis de nouveau moi-même; le mécanisme est mis en mouvement. Mis en pièces, les filets où j'étais empêtré ; rompus, les sortilèges - qui m'avaient envoûté pour m'empêcher de revenir à moi-même. Personne ne lève plus la main sur moi ; ma délivrance est sûre, je suis né à moi-même; car aussi longtemps qu'Ilithye joint les mains, celle qui accouche ne peut accoucher.

(…)

J'appartiens à l'idée. Quand elle me fait signe de la main, je la suis ; quand elle me donne rendez-vous, j'attends des jours et des nuits ; personne ne m'appelle au déjeuner, personne ne m'attend au repas du soir. Quand l'idée appelle, j'abandonne tout, ou plutôt je n'ai rien à abandonner ; je ne trahis personne ; je ne fais de peine à personne en lui étant fidèle, mon esprit n'est pas peiné parce que je dois en peiner un autre. Quand je rentre chez moi, personne ne lit sur ma mine, personne ne scrute ma figure, personne ne tire de mon être essentiel une explication que je ne saurais donner moi-même à quelqu'un d'autre, ignorant si je suis joyeux dans la félicité ou plongé dans la détresse, si j'ai gagné la vie ou si je l'ai perdue.


Kierkegaard, La Reprise, Paris, Flammarion, 1990, traduction Nelly Viallaneix, ps. 164-165

Wednesday, April 03, 2013

Tuesday, April 02, 2013